Archive for the ‘Matéria de Interesse Humano’ Category

Matéria de Interesse Humano

outubro 11, 2007

Curso de Comunicação Avançada

para quem quer se preparar melhor

para o século 21 e para o futuro.

 

Um projeto de

LUIZ LOBO

 

 

Jornalista, pesquisador, professor, palestrante.

Ex-assessor do UNICEF para a América Latina e o Caribe

Ex-assessor da UNESCO na área da Educação.

Primeiro Diretor de Criação do Globo Repórter.

Criador e Coordenador do Criança Esperança durante 10 anos.

Jornalista Amigo da Criança.

Diretor do Grupo de Jornalistas para a Divulgação da Ciência


Título do Projeto

            Matéria de Interesse Humano.

Por que existe o projeto?

            Para divulgar matéria de interesse humano para as pessoas interessadas em compreender seu tempo e em preparar-se para o século 21, que vai ser de enormes transformações e avanços em várias áreas, quando a aceleração da velocidade da comunicação e do conhecimento chegarão a níveis inéditos.

 Para quê?

            Para que as pessoas não fiquem alienadas do processo. Isto exigirá um novo conceito de cultura e novos compromissos de participação, para que possam acompanhar os acontecimentos e interagir com as  mudanças.

Para alcançar o quê?

            Para alcançar um padrão aceitável de informação básica sobre o conhecimento do ser humano, sobre as revoluções do século 21 (as que foram feitas e as que deveriam ter sido feitas mas não o foram). Para ter notícia das prováveis conseqüências  para o futuro.

O projeto vai produzir o quê?

            Um total de 21 palestras sobre o conhecimento do ser humano, o futuro do ser humano e as crises que o ser humano está enfrentando.

Em que ordem?

            Em três módulos de sete palestras cada um:

  • O Conhecimento do Ser Humano
  • O Futuro do Ser Humano
  • As Crises do Ser Humano.

De que modo?

            No Módulo I, do Conhecimento Humano indispensável para entender o século 21, os temas são:

  • A Velocidade da Comunicação
  • O Choque do Futuro
  • A Globalização e a Exclusão Social
  • O Discurso Neoliberal e a Economia
  • O Genoma Humano:uma Lição de Humildade
  • O Ser Humano é um Erro da Evolução?
  • Introdução à Comunicação

No Módulo II, sobre as Revoluções do Ser Humano e que têm importância fundamental para revelar o futuro da humanidade, os temas são as três revoluções que ocorreram no século 20 e as quatro que não foram feitas mas deveriam ter sido:

  • A Revolução da Informática
  • A Revolução da Biociência
  • A Revolução Quântica
  • A Revolução Energética
  • A Revolução Ambiental
  • A Revolução na Educação
  • A Revolução Ética.

No Módulo III, sobre as Crises da Humanidade, os temas são:

  • A Crise do Pânico
  • A Crise da Violência Urbana
  • A Crise com o Narcotráfico
  • A Crise do Sexo
  • A Crise da AIDS
  • A Crise da Obesidade
  • A Crise de Comunicação Entre Pais e Filhos.

Qual é a forma?

            São palestras de 100 minutos cada uma, lidas, e com observações fora do texto, sem qualquer inibição para perguntas ou participação da platéia.

           

Com quem?

            O autor das pesquisas e das palestras é o jornalista científico Luiz Lobo, da Rio TV Câmara.

Em que prazo?

            Em 21 dias úteis.

A que custo?

            A custo zero para a Câmara Municipal, a não ser que se consiga um patrocinador interessado em ligar seu nome a essa iniciativa. Se a Câmara Municipal assim o desejar, a um custo baixo é possível dar a cada participante um CD com as sete palestras. (A R$ 5 por CD-ROM.)

Como medir resultados?

            Se houver interesse, apresentando a quem se inscreve um questionário que vai revelar seu conhecimento sobre os assuntos a serem abordados. Ao final das palestras o mesmo questionário será reapresentado e a diferença nas respostas é uma boa medida dos resultados.

A Nova Cultura

            Durante muitos séculos a cultura do ser humana foi baseada na memória. Primeiro porque não havia memória escrita e depois porque o homem estava tão habituado a memorizar que continuou se valendo dessa capacidade até a revolução da informatização.

            Antigamente a cultura era “de poço”, isto é, cada um escolhia sua área de interesse e começava a se aprofundar, cada vez mais, tentando reter o máximo de informação e notícia para ser reconhecido como um sábio. E não se importava de, a dois palmos do seu poço, ser um quase completo ignorante.

            Agora, na era do computador pessoal, ele é capaz de reter em sua memória muito mais do que a informação indispensável e até mais do que a informação necessária. E essa capacidade de memória está-se alargando de seis em seis meses. Há mais matéria e informação na Web do quie havia na famosa Biblioteca de Alexandria.

            A cultura deixou de ser “de poço” e passou a ser “de aluvião”. Nós recebemos informação, desinformação, contra-informação, diariamente, de várias fontes, quase incessantemente. E são essas informações que, depois de devidamente processadas, vão-se transformar na cultura do nosso tempo.

            É evidente que qualquer adolescente com acesso a um PC e razoavelmente interessado, tem muito mais informação a seu dispor do que qualquer sábio do século 19. E talvez seja mesmo esta facilidade que faça com que muitos jovens não estejam aproveitando da nova cultura.

            Mestre Oscar Niemeyer, em vésperas de completar 100 anos, ainda discute filosofia, a cada semana, e procura informar-se para não estar alienado e mal informado. E, com justa razão, critica a mocidade que tem tantas e tais oportunidades de informar-se, mas que ele surpreendeu em um diálogo:

            _ Você já leu Eça de Queirós?

            _ Quem é; filho da Rachel de Queirós?

            Há um mínimo de informação que se exige para quem quer atravessar o século 21 sem ser surpreendido. Desse mínimo estamos oferecendo os grandes temas que mais freqüentaram a mídia mais bem informada e formadora de opinião, como velocidade da comunicação e seus efeitos, a globalização, a exclusão social, o neoliberalismo, o choque do futuro.

           

É cada vez mais difícil fazer previsões para o futuro, até porque as revoluções que marcaram o século 20 (a informática, a molecular e a quântica) acumularam tanto conhecimento e criaram tantas especializações que  dificultam as especulações seguras.

Olhando para trás é fácil perceber que a maior parte das previsões do futuro falharam, a não ser aquelas pronunciadas em linguagem misteriosa e quase cifrada, que exigem interpretação e podem ser adaptadas a quase todas as situações da realidade. Nostradamus, por exemplo.

Por que as visões do futuro foram tão falhas? Porque geralmente refletiam o ponto de vista pessoal de um excêntrico, ou o desejo de alguém, ou o sonho de outro, quase sempre a maneira estreita de encarar o futuro.

No entanto, é da natureza do homem tentar prever o futuro e consultar o oráculo, principalmente na passagem do ano. Na passagem do século, então, foi inevitável um interesse maior pelo futuro e para especular a respeito do que é que esse século nos reserva a todos.

Tirando as leitoras de cartas de tarô, os consultores de búzios, as ciganas que dizem ler o futuro nas linhas das nossas mãos e outras figuras que mais tentam adivinhar do que prever, sobram os visionários, os falsos profetas e os futurólogos profissionais, todos dignos de pouco respeito. Por quê? Porque lhes falta a base, a informação suficiente e necessária.

Vejam a ficção científica e o caminho que ela percorreu: antes, era uma simples ficção, visionária. Aos poucos, à medida que a informação científica passou a amparar os autores e a permitir suas fantasias, ficou muito claro que o homem era praticamente incapaz de imaginar alguma coisa que, com recursos suficientes, não fosse possível realizar.

Em outras palavras, parece que o homem só consegue imaginar aquilo que, no futuro, será possível realizar, se ele tiver uma base científica, com suficiente apoio financeiro.

Cientistas de todo o mundo, de várias áreas, somaram suas previsões. E são elas que permitem traçar um quadro que, embora ainda seja especulativo, tem base na realidade e no progresso já alcançado pela tecnologia, pela ciência, pelo conhecimento do homem. Especulativo sim, mas não gratuito, anunciando uma revolução do conhecimento, mais profunda, mais completa, oferecendo mais resultados do que as do século passado, porque o conhecimento humano duplica a cada dez anos e na segunda metade do século 20 gerou-se mais conhecimento científico do que em toda a história humana anterior. Quando as revoluções começarem a interagir vamos testemunhar um progresso nunca visto pela humanidade.

A capacidade dos computadores dobra a cada 18 meses, no máximo. A rede internacional de computadores duplica de tamanho e alcance a cada 12 meses. Nos últimos quatro anos o número de seqüências de DNA sob investigação mais do que triplicou. A mídia registra, quase diariamente, avanços em computação, telecomunicações, biotecnologia, microbiologia. As mudanças que nos provocam são quantitativas e qualitativas.

A revolução quântica permitirá, no futuro, um dia, talvez ainda neste século, o controle da matéria. A revolução biomolecular tornará o homem capaz de modificar o próprio homem através da engenharia genética, e de criar vida, de sintetizar e inventar novas drogas, novas terapias, novas formas de vida. A revolução da informática, que já globalizou o mundo e está transformando-o a partir das comunicações, vai continuar mudando nosso modo de vida e um dia, talvez ainda no século 21, permitirá introduzir inteligência artificial em qualquer lugar do planeta.

Os três temas principais do século passado foram o átomo, o gene e o computador. Os deste século serão uma extensão natural desses temas, levados às últimas conseqüências. Como disse o Yogi Berra, “previsão é coisa muito difícil, especialmente quando é sobre o futuro”, mas os cientistas têm uma boa base e um bom conhecimento do que está acontecendo e do que eles estão investigando para que suas previsões sejam razoavelmente seguras e realizáveis, a partir exatamente do que eles já sabem.

Há 300 anos, no tempo de Isaac Newton, a vida era curta e brutal. Sua expectativa de vida era de 30 anos; as famílias tinham dez filhos, em média, para que dois ou três sobrevivessem; a maioria das pessoas era analfabeta e não tinha livros. Shakespeare nunca viu um texto seu impresso. A escola era para poucos. Quase todos passavam a vida em torno do local onde haviam nascido e não se aventuravam a mais de dois ou três quilômetros. Pouco antes do sol nascer já estavam trabalhando, principalmente no campo, e assim que o sol se punha já estavam na cama. Quase não havia distração, lazer ou esporte. A fome era epidêmica, e as doenças crônicas comuns. A ciência, como a conhecemos, não existia e as leis da natureza estavam cobertas de mistério, medo e superstição. E, no entanto, Newton foi capaz de fazer o que fez. Foi a mecânica de Newton que permitiu a criação de máquinas poderosas e, finalmente, o motor a vapor que provocou a Revolução Industrial e mudou o mundo.

O século 19 foi de intensa descoberta científica, tirando muitas pessoas da miséria e da ignorância, enriquecendo a vida, ampliando o conhecimento, derrubando as dinastias feudais.

No fim do século 20 a ciência já conhecia os mistérios do átomo, da célula, do chip eletrônico. Essas três descobertas desencadeadas pela revolução quântica, a revolução do DNA e a revolução da informática, abriram ao conhecimento do homem as leis básicas da matéria, da vida e da computação, abriram o futuro.

O século 21 começou prometendo transformar-nos definitivamente: para sobrevivermos é preciso deixar de poluir, de prejudicar a natureza, mas ao mesmo tempo deixaremos de ser passivos observadores para sermos participantes ativos.

Acreditem os moços: este vai ser, por muitos motivos, um dos tempos mais empolgantes para viver. Vocês vão colher o fruto de dois mil anos de ciência. A Idade da Descoberta está dando lugar à Idade do Domínio, como escreveu Michio Kaku (autor de Hiperespaço e de Visões do Futuro).

A virada do milênio e do século provocou, além do debate sobre a data exata dessa passagem, uma série de manifestações da mídia que pretendeu prever o futuro. Cientistas sociais, cientistas políticos, sociólogos, psicólogos, historiadores, escritores, artistas, filósofos, jornalistas, muita gente foi chamada e falou sem pudor. Mas não foram ouvidos os cientistas que trabalham com pesquisa nos laboratórios. Nem as previsões foram justificadas pela realidade do conhecimento científico.

Essas cinco palestras são baseados em previsões científicas de 150 especialistas nas mais diversas ciências. São previsões de cientistas profissionais (tendo sido reunidas por computador depois de 10 anos de pesquisa) que fazem parte do Movimento pela Divulgação da Ciência, uma iniciativa do Grupo de Cientistas para o Amanhã.

As leis subjacentes à biologia molecular, à computação e à  teoria quântica,  já estão definidas e estabelecidas, o que torna possível aos cientistas a previsão dos caminhos do progresso científico. Esta é a principal razão porque as previsões feitas aqui são mais precisas e nada fantasiosas quando lidam com matéria, vida e mente, os três pilares da ciência moderna. A miniaturização do computador eletrônico pessoal, a decodificação do núcleo da célula e a divisão do núcleo do átomo criaram esse futuro que é, para os cientistas, evidente.

“O século 21 é o limite do homem”, escreveu Arthur Clark, autor de ficção-científica, mas um cientista e futurólogo de sucesso. No que foi confirmado por seu colega Ray Bradbury: “O futuro chegou rápido demais e não estamos preparados para ele, física, mental, intelectual ou afetivamente”. Some-se a isto o que escreveu Alvin Toffler (o autor de Choque do Futuro): “O homem jamais foi submetido à velocidade de mudanças e à pressão do conhecimento como está sendo agora”.  Junte-se mais um depoimento, o do comunicólogo Umberto Eco: “O fracasso das grandes promessas da tecnologia colocam o homem diante da maior crise da humanidade. Devastamos o planeta, poluímos a terra, o ar e as águas, criamos muita riqueza e muita miséria para chegarmos ao século 21 com o futuro das próximas gerações ameaçado e a própria sobrevivência da humanidade em cheque.”

Por isso mesmo acrescentamos duas  revolução que não aconteceram, mas que deveria ter havido: a da energia e a do ambiente, vitais para a sobrevivência do ser humano no planeta.

 Finalizemos as citações com o grande físico brasileiro Marcelo Gleiser: “Quanto mais aprendemos, melhor dimensionamos nossa ignorância.”

A terceira parte do curso de comunicação avançada é dedicada às crises que o ser humano está atravessando e que servem para definir o perfil do Homo sapiens atual: a paranóia, a violência, a obesidade, o narcotráfico, o sexo desregrado, a AIDS e a impropriedade do relacionamento entre pais e filhos. Nós estudamos para sermos médicos,engenheiros, advogados, militares, para exercer qualquer papel na vida. Mas não estudamos para a política e menos ainda para servos pais ou mães, acreditando que o instinto é bastante para resolver os problemas de relacionamento que certamente surgirão. Não é, certamente. E essa ignorância está comprometendo o desenvolvimento físico, mental, intelectual, psicológico e principalmente afetivo das nossas crianças e adolescentes. Os sinais de alerta e perigo são evidentes mas continuam sendo ignorados. Pai e mãe abrem mão da autoridade que devem ter para serem amigos dos filhos. E a amizade não permite certas atitudes indispensáveis à boa educação. O resultado é a crise, cada vez pior e comprometedora do futuro.

Se a educação formal está inteiramente ultrapassada, voltada para a memória e não para ensinar a aprender, a informal, a familiar, está quase falida e como ela é a verdadeira educação familiar, aquela que molda o caráter e determina o tipo de pessoa que emergirá da criança, é urgente uma reação para salvar as gerações futuras.

A Velocidade da Comunicação

outubro 11, 2007

 A  comunicação  entre os seres humanos  chegou a

um ponto de aceleração que se tornou quase imediata. A aldeia global é uma realidade e a informática criou um novo tipo de cultura, democratizando o conhecimento. Mas nós não estávamos física ou psicologicamente preparados para as mudanças provocadas pela velocidade atual da comunicação.

O Homo sapiens deve ter, muito provavelmente, 250 mil anos na face da Terra, mas tomemos apenas os 50 mil últimos anos.  Se dividirmos por 62 anos e meio (que é a média da expectativa de vida em nosso planeta), teremos 800 gerações lineares.  A representação gráfica da humanidade historicamente provada pode ser uma linha reta com oito metros de cumprimento, cada centímetro significando uma geração.

            Seis metros e meio foram vividos nas cavernas e nos seis primeiros metros o homem quase não fazia cultura, por uma motivo muito simples: praticamente não se comunicava, por falta de uma língua estruturada.

            A criança só desenha quando é capaz de concatenar idéias, quando tem maturidade intelectual suficiente para deixar de riscar e rabiscar.  O homem começou a desenhar na parede das cavernas a partir do último meio metro daqueles  seis e meio que viveu dentro delas.  Também é preciso concatenar idéias para falar com sentido e a maioria dos pesquisadores concorda com Desmond Morris (zoólogo, autor de O Macaco Nu) de que foi por essa época que os homens puderam comunicar-se oralmente com alguma qualidade e bom entendimento.

            A partir daí a pouca cultura do homem acelerou-se e ele aprendeu, além de abrigar-se nas cavernas, a usar peles de animais para proteger-se das intempéries, a coletar comida, a lascar a pedra para fazer pontas de lanças que tornavam o seu braço mais comprido na hora de caçar. Mais do que isso, aumentou sua sobrevivência ao  aprender a fazer fogo e como conservá-lo para se aquecer e cozinhar.

A tecnologia do homem, na primeira época paleolítica, levava pelo menos 40 mil anos para chegar ao alcance de toda a população da Terra.  Com a linguagem, no entanto, acelerou-se bastante a comunicação e, conseqüentemente, a cultura: foram precisos apenas 10 mil anos para que a invenção da roda chegasse ao conhecimento da maioria.

Para imaginar e realizar a primeira linguagem escrita (no Egito ou na Mesopotâmia), foi preciso esperar muitas gerações: só aos 7 metros e 50 centímetros da nossa linha de oito metros é que o homem conseguiu uma comunicação mais efetiva de uma geração para outra, através de símbolos escritos que permitiam memória mais exata e melhor transmissão da mensagem.

Segundo o historiador Julian Huxley, a aceleração da evolução humana, durante a história escrita foi, no mínimo, 10 mil vezes mais rápida do que a evolução anterior.  Assim, a medida da aceleração do conhecimento passou a ser o milênio. Mesmo assim, os seres humanos não tinham conhecimento desses avanços.

Democratizar o conhecimento, através da palavra impressa, exigiu que se passassem mais quase 100 gerações.  Na representação gráfica a imprensa fica aos 7,90 metros, isto é, a apenas a dez centímetros do final da linha de oito metros.

Na Idade Média, com a palavra impressa, a medida de velocidade do conhecimento passou a ser o século.  O problema é que o novo canal de comunicação provocou reações, inclusive da Igreja Católica, que viu nos livros o poder do demônio e do pecado, condenou quem aprendesse a ler e escrever (a não ser que fosse da Santa Madre Igreja) e com isso assumiu e ficou com o Poder, por muitos e muitos anos.  E, como decidia o que podia e não podia ser publicado e lido, atrasou o desenvolvimento.

Por exemplo: Paracelso descobriu que podia usar o éter como anestésico nas cirurgias, mas os cirurgiões só vieram a ler e aplicar sua descoberta séculos depois.  A primeira patente da máquina de escrever é de 1714, mas só 150 anos depois é que as primeiras foram postas à venda.  Nicolau Appert descobriu como conservar e enlatar comida, mas seus filhos e netos não comeram enlatados, só produzidos pela indústria alimentícia 100 anos depois. Os exemplos são inúmeros e reveladores de como a falta de comunicação atrasou o desenvolvimento da humanidade.

Até o começo do século 20 a velocidade da comunicação havia mudado pouco, mas foi aumentando graças ao telefone e ao rádio. No entanto,  só na segunda metade do século é que aumentou notadamente, graças ao rádio de pilha, ao cinema e principalmente à televisão, acelerando-se a ponto de alterar a medida de mudança da cultura para um decênio. 

Hoje, o fax, o videotexto, os computadores, os cdrom, os satélites artificiais de comunicação a Internet e o telefone celular,  permitem a comunicação imediata e reduziram essa medida para menos de um ano, muito menos. A comunicação, hoje, é praticamente imediata. 

O ritmo cada vez mais acelerado da pesquisa, descoberta, invenção, difusão e exploração comercial faz parte da guerra de consumo, da globalização, da estratégia das indústrias multinacionais e transnacionais.. O consumidor, quase a cada dia, é surpreendido e exposto a novidades que, trabalhadas pelo marketing, despertam nosso desejo e até necessidade de consumir.

A esmagadora maioria dos bens materiais que usamos e consumimos, reconhecendo como conforto moderno e conquista da vida contemporânea, assim como praticamente toda a tecnologia aplicada em nossos dias, desenvolveu-se nos dois últimos centímetros da nossa linha de oito metros, isto é, no nosso tempo.

Há uma transitoriedade em tudo, o que cria um clima de impermanência que afeta a todos e abala até os valores éticos e morais.  Ter, no mundo consumista, tornou-se mais importante do que ser, e a verdadeira felicidade do consumidor já não é nem mais ter, e sim  ter um novo.

O futuro está chegando cada vez mais depressa, submetendo-nos a mudanças cada vez mais repentinas e acentuadas.  É certo que não estamos biologicamente preparados, nem fomos criados física e mentalmente, para a rapidez e o impacto dessas mudanças.  Nunca fomos educados para o futuro e nossas escolas, em todos os níveis, ainda são voltadas para o passado, para a memória, e não para a adaptação às mudanças, para aprender a aprender.

Especialistas em comportamento sabem que todas as mudanças são perturbadoras, em algum grau, e que as mais bruscas, inesperadas e profundas são estressantes. Para a maioria das pessoas, inclusive as educadas, a simples idéia de uma mudança radical é ameaçadora, provoca incerteza, insegurança, temor e resistência.

Meu avô, quando se formou, não precisou mais estudar porque durante toda a sua vida não surgiram novidades importantes na sua profissão. O meu pai já foi obrigado a estudar, para não ficar profissionalmente ultrapassado.  Eu saí da Faculdade consciente de que estava defasado com o conhecimento disponível e sabendo que não podia estar informado apenas na minha área profissional.  Meu filho saiu certo de que era preciso mudar o sistema educacional, voltado para a memória (o que o computador faz melhor e mais depressa) e não para o entendimento e o verdadeiro aprendizado que é o saber fazer ou saber como e onde procurar. Meu neto já é uma vítima da velocidade da comunicação e tem poucas possibilidades de reagir a ela de modo consciente e como resultado da educação que recebeu na escola.

Quando Einstein afirmou, em 1915, a relatividade do tempo e definiu o conceito de espaço-tempo, a maioria não entendeu.  E não é fácil mesmo entender que o tempo se assemelha a um rio que faz meandros através do universo, correndo mais ou menos à medida que passa por um campo gravitacional de uma estrela ou de um planeta que está na vizinhança..  Não é simples entender que um segundo na Terra é diferente de um segundo na Lua ou em Marte. (Um relógio na Lua é ligeiramente mais acelerado que um relógio na Terra.)

Chegado o fim do ano não falta quem comente que os últimos doze messes passaram mais depressa do que o ano anterior.  Principalmente se for uma pessoa idosa.  É que, para ela, o tempo passa mesmo cada vez mais depressa, enquanto para a criança pequena qualquer espera é longa demais.

A ciência tem explicação para a sensação de tempo.  Um ser humano com 70 anos de idade já viveu, pelo menos, 613.200 dias e uma criança de 5 anos viveu apenas 43.800 no dia do seu aniversário.  Um ano na vida do idoso é 1/70 avos da sua existência, enquanto um ano para a criança é apenas 1/5.  Qualquer pessoa  não tem dúvida de que um quinto é muito mais do que um setenta avos.

Há mais de 2 mil anos o poeta latino Virgílio escreveu um verso em que dizia: “Foge o irrecuperável tempo”, refletindo sobre o sentido da vida.

Agora, pesquisadores científicos nos informam que, independente de sermos velhos ou moços, o tempo está passando cada vez com mais rapidez, para todos.

Em 1997 James Tien e James Burnes, do Instituto Politécnico Rensselaer, em Troy, no estado de Nova York, demonstraram que a passagem do tempo varia mesmo de acordo com a idade dos observadores, mas também (e muito) de uma época para outra. Mudando as palavras: provaram que hoje percebemos o tempo passar com muito mais rapidez do que passava para um observador na Idade Média.

Segundo o resultado de seus estudos (publicados na conceituada revista Transactions on Systems, Man and Cybernetics)  eles concluíram que para uma pessoa de 22 anos, em 1997, o ano pareceu  passar 8% mais depressa do que para uma pessoa com a mesma idade em 1897.  Para uma pessoa com 35 anos, no mesmo intervalo de anos a diferença chegou a 22%.  E a variação obtida para pessoas idosas foi ainda maior: um indivíduo com 62 anos em 1997 percebeu o tempo passar 7,69 vezes mais rápido que outra da mesma idade 100 anos antes.  Em outros números: 669% mais depressa, comparando com as outras duas idades.

Para Tien e Burnes, a percepção de um período de tempo está relacionada com o número previsto de eventos para um determinado intervalo.  Modelos matemáticos aplicados e destinados a comparar a percepção de mudanças, deixaram claro que a velocidade cada vez maior da comunicação diminuiu o tamanho do mundo e produz tantos eventos e informações (que antes demoravam até anos para chegar) que o próprio tempo está ficando curto, muito mais curto.  Daí a sensação de que não temos mais tempo para coisa alguma.

Quando alguém, hoje, diz que o seu dia não dá mais tempo para tudo o que tem a fazer, está apenas constatando uma verdade: é que temos tantas atividades, hoje em dia, que nos falta o tempo que sobrava no passado, há cem anos,por exemplo.

O problema é que a velocidade da comunicação continua a crescer, e muito, com a revolução da informática.  E tende a continuar crescendo, o que significa que também a nossa percepção do tempo deve continuar a crescer, cada vez mais rapidamente.

Em tese, a “percepção do tempo” varia segundo a idade, a educação, a informação, a situação econômica (inclusive do país, com os subdesenvolvidos sendo mais lentos), com a época, com os acontecimentos.

O psicólogo Peter Mangan, em outubro de 1997, no encontro anual da Sociedade para a Neurociência, já anunciara que a idéia de que o tempo parece passar cada vez mais rápido não era uma mera suposição.  Ele cuidou de medir a percepção do intervalo de um minuto com voluntários de quatro grupos de idade diferentes: de 10 a 14 anos, de 20 a 24, de 45 a 50 anos e de 65 a 75 anos.  As pessoa deviam informar, sob controle, quando, em sua opinião, um minuto houvesse passado.

Os testes foram repetidos e o resultado não mudou: para o grupo dos mais moços o minuto parecia acabar aos 55 segundos.  Ou seja, o tempo real de 60 segundos parecia ser 8,3% mais lento do que a sua realidade.

Para o grupo jovem a percepção foi praticamente igual: 60 segundos demoravam 60 segundos a passar.

Para as pessoas na faixa dos 40 anos o minuto real pareceu ser 9% mais lento e eles anunciaram o fim do minuto aos 65 segundos.

Para os mais velhos a percepção do minuto chegava aos 74 segundos, uma variação de 23%.

Mas os dois trabalhos tratam de coisas distintas: uma coisa é a diferença de percepção do tempo para intervalos curtos, de acordo com a idade.  Outra coisa é a diferença de percepção de períodos longos, como meses e anos.

Há cada vez mais pesquisadores dedicados ao assunto, mas já se sabe que a percepção de períodos curtos de tempo é influenciada pela variação dos níveis de dopamina, substância que (entre outras coisas) atua nos mecanismos cerebrais de controle do tempo.

Também já se sabe que os fatores emocionais também interferem na percepção do tempo e que a angústia, por exemplo, e a ansiedade podem fazer com que o tempo pareça mais longo do que é.  Um estudo do canadense Tom Huges mostra que pessoas com mais controle sobre as suas emoções são menos afetadas pela ação da dopamina.

Outro fator importante “é a capacidade da pessoa saber evitar o chamado choque da comunicação, o excesso de informação não digerida.  Indivíduos que têm maior e melhor capacidade de selecionar, com objetividade, o que querem ou não querem saber dos eventos à sua volta, concentrando-se apenas nos que têm relevância, têm um melhor aproveitamento do tempo e também uma melhor percepção desse tempo. O que quer dizer que quem tem a sensação de “não estar dando conta”, por falta de tempo, está perdendo a batalha da comunicação e, literalmente, perdendo tempo.

A idéia de que o homem vive em conflito com o tempo sempre existiu. Para evitar que algum dos seus filhos o castrasse e o dominasse (como ele fez com seu pai, Uranos), o deus Cronos (tempo, em grego) devorava seus filhos recém-nascidos, à medida em que iam sendo paridos por sua mulher, Réia.  Segundo o poeta Hesíodo, é que o tempo se encarrega de consumir tudo o que ele mesmo criou.

Escrevendo Sobre a Brevidade da Vida, o filósofo Sêneca afirmou que “finalmente constrangidos pela fatalidade, sentimos que ela já passou por nós sem que tivéssemos percebido”.

Com o capitalismo o tempo passou a valer dinheiro (Benjamin Franklin, em 1736, foi o autor da frase “Lembre-se que tempo é dinheiro!”) e a ter um papel fundamental nas relações econômicas, com um peso sem precedente na vida das pessoas. 

No século seguinte, o filósofo alemão Karl Marx afirmou (no livro Elementos Fundamentais para a Crítica da Economia Política, que antecedeu O Capital) que “toda a riqueza capitalista se baseia no roubo do tempo de trabalho alheio”.

Hoje, o problema é pior para as mulheres, segundo a socióloga Rosiska Darcy de Oliveira, autora de Reengenharia do Tempo e professora de pós-graduação da Faculdade de Letras da PUC do Rio. Na sociedade contemporânea o dia das mulheres não cabe em 24 horas.  Diz ela que a expressão “jornada dupla de trabalho” é um equívoco porque ao entrarem no mercado de trabalho (por necessidade econômica ou de realização pessoal) as mulheres não souberam negociar o tempo que sempre dedicaram à vida privada, “tempo que ninguém calcula e que as contas públicas desconhecem, mas que garante a preservação da família, especialmente das crianças e dos idosos”.

Diz ela que “as mulheres não voltarão para casa” como antes e que “o mundo tem de ser pensado incluindo esse dado, desocultando o papel civilizador da vida privada”.

Por si só o enorme banco de dados dos mais velhos leva a uma percepção de que o tempo passa muito mais rápido para eles.  E, a cada dia, cresce no cérebro o registro de dados sobre o passado e as lembranças de ontem competem com as idéias que temos do futuro, diminuindo cada vez mais a sensação do presente, segundo a psicóloga Maria Alice Pimenta, professora da Universidade Federal do Rio Grande do Sul.

Diz ela que a percepção do tempo pode ser influenciada pela emoção e ser intensificada nas pessoas que julgam, corretamente ou não, terem desperdiçado seu tempo e sua vida.

Os especialistas sugerem que a melhor maneira, a mais equilibrada,  de enfrentar a sensação da passagem do tempo é dar mais atenção ao dia-a-dia.  Valorizar o presente é estar mais atento às próprias ações e emoções, concorda o psicólogo José Roberto Leite, coordenador da Unidade de Medicina Comportamental da Universidade Federal de São Paulo: “Passamos a vida, geralmente, em brancas nuvens, sem ter plena consciência do que estamos vivendo a cada momento.  É preciso focar a atenção no que está acontecendo conosco, interna e externamente para melhor aproveitar a vida”.

Para ele, “a automatização do cotidiano leva à perda do prazer e é dessa perda que as pessoas se ressentem quando têm a impressão de que a vida passou depressa demais”.  Principalmente as pessoas idosas.

Outro aspecto importante ligado à idade é que, com o tempo, diminui e até cessam as novas sinapses, as conexões nervosas necessárias para que as células do cérebro se comuniquem entre si e, entre outras coisas, possam produzir pensamentos.  Mas há um aperfeiçoamento na rede de conexões dessas células nervosas: aumenta a camada de gordura que reveste os seus longos eixos, os axônios.

O fenômeno é conhecido como “desenvolvimento da bainha de mielina”, segundo o neorofisiologista Luiz Eugênio Mello, da Universidade Federal de São Paulo:  “É como um fio elétrico encapado, que está mais protegido que outro sem revestimento e que fica mais exposto a um curto-circuito.”

Esse processo, a mielinização, começa no ser humano ainda em formação e se conclui por volta dos 35 anos de idade.  Com uma rede de circuitos elétricos devidamente isolados e protegidos, com menor risco de curtos-circuitos, o processo otimiza as conexões entre os neurônios e favorece as funções cerebrais mais evoluídas.  Segundo o professor Mello, isso faz com que as pessoas sejam cada vez menos impulsivas e mais ponderadas, aumentando a seletividade na captação de dados e beneficiando a maturação neuronial.

O segundo foi convencionado como sendo a duração de 9.192.631.770 períodos da radiação de átomo do césio133, mas a verdade é que ele não é percebido do mesmo modo por todas as pessoas.  E o próprio tempo não é igual para todos. Por isso mesmo é que há muitos anos as crianças recitam: “O tempo perguntou ao tempo quanto tempo o tempo tem. E o tempo respondeu pro tempo que o tempo tem tanto tempo quanto tempo o tempo tem.”

Premido pelo pouco tempo para ocupar-se de tudo o que o preocupa e estimula, o homem contemporâneo precisa aprender também a organizar-se, a valorizar seu tempo, e decidir-se sobre prioridades no uso desse tempo.  Todos nós precisamos estar muito conscientes dessa contratura do tempo disponível, para que não nos venha a faltar tempo para as tarefas primordiais.

O Choque do Futuro

outubro 11, 2007

 Para descrever a esmagadora tensão e a desorientação que as pessoas sofrem quando estão sujeitas a uma carga excessiva de mudança em um prazo demasiadamente curto, o sociólogo Alvin Toffler criou (em 1965) a expressão choque do futuro.

O choque do futuro está aumento na mesma proporção em que se acelera a comunicação e aumenta a velocidade das mudanças, porque é cada vez maior a diferença entre o ritmo da mudança ambiental e a capacidade de reação e adaptação humana a essas mudanças.

Nunca, na história do homem, viveu-se em um meio ambiente submetido a mutações tão velozes quanto hoje; e a tanta impermanência.

Além disso, essas mudanças não ocorrem de modo uniforme, nem atingem a todas as pessoas do mesmo modo.  O resultado é que estamos obrigados a conviver com indivíduos que apresentam reações desiguais e adaptações diferentes às mudanças; que têm concepções morais e valores éticos diferentes, assim como comportamentos diferentes. Porque os conceitos são vários, e até contraditórios, a respeito do tempo, do espaço, da economia, do trabalho, da religião, do amor, do sexo, da família, da educação e mesmo da saúde.  Valores de ontem já não valem coisa alguma para uns, mas ainda têm valor absoluto para outros; e ninguém é capaz de dizer, com segurança, quais são os valores da sociedade de hoje.  Verdades de ontem foram desmentidas e as pessoas estão perplexas diante da mutação incessante, nervosa e enervante, provocando  estresse, insegurança e problemas psicológicos.

Hoje, há uma insuportável carga de informação, e as pessoas que não conseguem defender-se dessa corrente de notícias acaba afundando nela.  A fadiga da informação aumenta o nível do estresse e pode causar outras doenças.  Antes disso, provoca uma paralisia na capacidade de analisar, de decidir, leva ao adiamento de decisões importantes, aumenta a ansiedade e as dúvidas, provoca decisões levianas, conclusões equivocadas e, em alguns casos, neuroses.  Em resumo: informação em excesso, mal digerida, pode ser tão perigoso quanto a desinformação e a contra-informação.

A isso chamamos de choque da comunicação, uma síndrome já reconhecida pela medicina.

O famoso choque entre gerações não envolve mais duas gerações; Na mesma geração há “gerações de comunicação” diferentes, de acordo com o modo como a pessoa se informa, é informada, absorve informação e é capaz de transformá-la em cultura.  É por isso que os choques estão aumentando, fazendo aumentar as crises porque a sociedade de hoje  comporta pessoas de níveis muito diferentes em suas informações, nos seus  valores e costumes.

As novidades incessantes, a mudança excessiva, nossa relativa   incapacidade física e mental de acompanhá-las e absorvê-las, provoca ansiedade e medo do futuro.  O choque do futuro não é mais um perigo potencial, mas uma doença real que atinge a quase todas as pessoas, mesmo que elas não percebam.  A doença da transformação é tanto física quanto psíquica.  O adulto que não consegue programar o DVD para gravar e chama uma criança para fazê-lo, conhece um pouco do sofrimento da inadaptação às mudanças.

O que é mais impressionante é a percepção de que as pessoas que provocam as mais amplas mudanças na vida dos outros não têm a menor noção do que estão provocando e das conseqüências dos seus atos.

Como é que podemos nos preparar para enfrentar as mudanças?  A verdade é que permanecemos miseravelmente ignorantes a respeito de como o ser humano será capaz de enfrentar as alterações sem entrar em choque.  A chamada  “educação para o futuro” e a “educação para a mudança” não estão resultando.  Apenas os psicólogos registram que algumas pessoas resistem, com uma força e uma convicção aparentemente irracionais, às mudanças. É uma forma de defesa, alienante, por certo, mas capaz de funcionar momentaneamente, ganhando algum tempo.

Uma das saídas talvez seja a ampliação da consciência do futuro, o exercício permanente do pensamento a respeito das mudanças, é estar preparado para o que vem, para os novos desafios da alteração imaginável.  É, ao contrário de alienar-se, encarar o futuro, tentar estar em dia com as previsões de mudança.  É especular racionalmente, é tentar antecipar-se aos fatos e não se deixar surpreender nem admitir a superação, para nos colocarmos à altura da exigência incessante a cada vez maior por mudança que caracteriza o nosso tempo.

O choque cultural e a atordoante desorientação provocada pelo choque do futuro podem ser a mais importante doença social do século 21.  O mal-estar, a neurose coletiva, a irracionalidade, as drogas, os riscos conscientemente assumidos de contaminação pelo HIV, a agressividade descontrolada, a violência desmedida, o excesso de velocidade, a falta de limites, a corrupção, tudo são sintomas de uma doença que não é reconhecida pela Organização Mundial de Saúde e não está no Index Medicus, mas é o resultado já evidente da superposição forçada de uma cultura velha por uma  nova cultura. O que é pior: as vítimas são um enorme perigo para si mesmas e para os outros.

Os efeitos das revoluções tecnológicas que estamos atravessando, a revolução informática, a revolução biomolecular e a revolução quântica, serão mais profundos  do que qualquer mudança social que o ser humano tenha experimentado no passado.  Maior até do que a invenção da agricultura, ocorrida na idade neolítica.  Basta verificar o impacto de uma ferramenta contemporânea para acreditar nisso: a automação, em si mesma, é a maior de todas as mudanças em toda a história da humanidade.

Kenneth-Bpulding, economista e pensador social escreveu que “o mundo dos nossos dias é tão diferente do mundo em que eu nasci, como este o era  em relação ao mundo de Júlio César”.

As duas últimas gerações nasceram no meio do desenvolvimento da história humana.  Pode-se dizer que houve tanta mudança depois de termos nascido quando houve antes do nosso nascimento.  O século 21 será reconhecido, no futuro.como o século da encruzilhada, como a data que divide a história da humanidade em duas metades.  O que quer dizer que o futuro já chegou.

Nos últimos anos o mundo vem passando pelas maiores transformações da história da humanidade.  Agora a Terra é uma aldeia global; mas nunca estivemos mais tribalizados; a economia está globalizada, mas perdeu o dimensão do social, do humano; há cada vez mais trabalho e menos emprego; a informação ficou mais importante do que a cultura; o sexo por prazer  superou o sexo para reprodução e o sexo irresponsável vence o sexo seguro; criou-se uma variedade notável de extensões cada vez mais velozes para o homem, mas o trânsito nas grandes cidades flui mais lento que a caravana de camelos; o homem está cada vez mais místico e menos religioso; a expectativa de vida subiu com a qualidade de vida, mas a saúde pública está em crise em todo o mundo e velhas doenças erradicadas estão voltando com força total.

No Brasil, além disso, em menos de uma geração deixamos de ser um país essencialmente agrícola para ser um dos dez mais industrializados; passamos de eminentemente rural a desesperadamente urbano, com cidades inchadas, verticais, sem quintais, sem solidariedade humana, sem serviços de qualidade; trocamos o progresso lento pelo desenvolvimento desordenado e insustentado que cria excluídos; passamos a país rico e cheio de  miseráveis;  deixamos  de  ser conscientes  poupadores  para  sermos inconscientes  consumidores; aumentamos a expectativa de vida mas perdemos na qualidade; aumentamos o produto interno bruto mas ficamos entre os últimos do mundo em distribuição de renda. Nosso índice de desenvolvimento humano é dos piores do mundo, a mortalidade infantil é campeã, os ricos estão cada vez mais ricos e os pobres melhoram de vida pelo consumo, mas tornam-se miseráveis e excluídos. A violência é um fenômeno em ascensão e estamos entre os países onde há mais corrupção.

 Participamos de uma nova era, sem conseguir observála.  Sem admitir e nem sequer perceber que a era anterior desapareceu.

O professor e economista austríaco (naturalizado americano) Peter Drucker já anunciou o pós-capitalismo afirmando que, no futuro, o mercado continuará sendo o que mais importa, mas com uma diferença: estará necessariamente pactuado com o cidadão em um contrato social. Será o capitalismo social, com dimensão humana, ou não será coisa alguma.

Ele imaginou, para um futuro próximo, o capitalismo do conhecimento e argumentou: a terra, o capital e o trabalho estão produzindo lucros cada vez menores, e a mão-de-obra barata já não tem mais importância na competitividade.  A tecnologia que rende cada vez mais é o conhecimento,  e ele acreditava que, no futuro, o maior e melhor capital estará nas patentes e no know how, no saber fazer, na experiência provada. 

As pressões sociais são cada vez mais fortes e ameaçam ficar insuportáveis, porque o que provoca a violência não é a pobreza, mas a exclusão.  A globalização, que é o braço operacional do neoliberalismo, defende a sacralidade do livre mercado e sua única preocupação é a produção.  O que importa é agregar valor ao produto e a santíssima trindade é qualidade, competitividade e rentabilidade.  Por isso mesmo o projeto neoliberal não tem dimensão humana e acaba excluindo a maior parte das pessoas.  Nunca, na História, o desemprego foi tão grande e à economia neoliberal repugna custear a sobrevivência, a saúde, a educação e a previdência dos explorados e excluídos.  Em busca dos resultados contábeis os arianos econômicos fazem aumentar cada vez mais a distância entre ricos e pobres, encaminhando os excluídos para os guetos. Não demora muito e vão acabar sugerindo alguma solução final para os economicamente inferiores, segundo Viviane Forrester.

Como ela escreve, “vivemos em meio a um engodo magistral, um mundo desaparecido que teimamos em não reconhecer como tal e que certas políticas artificiais pretendem perpetuar.”

É hora de perguntar, como ela: “Quando tomaremos consciência de que não há crise, nem crises, mas mutação? Não mutação de uma sociedade, mas mutação brutal de uma civilização?”  Até quando vamo-nos enganar e quanto tempo mais será preciso para tomarmos consciência?

                                  

Na história do homem, os canais de comunicação de ponta sempre foram apontados como os responsáveis por tudo o que há de ruim na face da terra: a imprensa já foi culpada por todos os males, depois o rádio, o cinema, a televisão, a rede de computadores, os video games.  (Na visão da maioria, os culpados não somos nós, são os instrumentos que nós usamos…)

Caulos, com sua mineirice, fez um cartum em que Átila, o huno,  conversa com seu general favorito, em um campo de batalha coberto de cadáveres.  E diz: “General, como é que fomos capazes de fazer tudo isto sem ver televisão?”

Do tambor ao telefone celular, do moleque de recado à Internet, a história da comunicação entre os homens chegou ao tempo do celular global, um telefone sem fio, com plataforma digital, via 152 satélites em órbita, alcançando mais de 70% do planeta.  Com um prefixo para falar no país e outro com o resto do mundo, pode-se falar com 10 milhões de pessoas em qualquer canto da Terra.

E a verdade é que a grande maioria não está preparada para a crise da globalização e para as aceleradas transformações que a toda hora modificam o nosso ambiente. (Basta dizer que o impacto social da Internet foi dez vezes maior que o do tipo móvel de Gutemberg.) É preciso ter consciência da crise e fazer de tudo para não permitir que um número cada vez maior de pessoas fique indiferente, alheio, alienado, só pagando o preço da velocidade da comunicação e do choque do futuro. Esta é uma das funções sociais da mídia, da educação e da rede mundial de computadores.  A outra é tentar responder: para onde estamos indo.

Entre as mais estranhas doenças que podem afetar o ser humano está a progeria. É uma doença das células, que envelhecem a um ritmo anormal, aceleradamente.  Os sintomas são a senilidade, o endurecimento das artérias, a queda dos cabelos, o enrugamento da pele, catarata.  Uma criança de dez anos atacada de progeria morrerá por falência múltipla dos órgãos, com a aparência de um velho.

Os casos de progeria são, felizmente, muito raros.  Mas no sentido metafórico as sociedades altamente desenvolvidas estão sofrendo de progeria.  Não estão ficando velhas ou senis, mas estão experimentando índices anormais de alterações, de decadência física, mental e moral.  O chamado “desafio das mudanças” parece fora de controle.

Estamos, certamente, vivendo o mais estimulante período da história da humanidade, mas a maioria ainda teme as mudanças que, sabemos, estão em processo de aceleração.

Até o século 20 a mudança social era tão vagarosa que poderia passar despercebida ao longo da vida de uma pessoa.  Agora, isso é impossível. O índice de transformação aumentou de tal maneira que nem mesmo a nossa imaginação parece poder acompanhá-lo.

Só para dar uma idéia, a metade de toda a energia consumida pelo ser humano nos últimos 2 mil anos foi consumida apenas no século 20. 

O problema do sr humano, além da adaptação às mudanças, é o rimo de vida, porque a crescente aceleração das transformações no mundo está se refletindo no nosso equilíbrio interno, alterando a maneira como vemos a realidade.  A aceleração que se nota no exterior também se traduze numa  aceleração do nosso ritmo interno.

Os habitantes do planeta Terra estão divididos por esse ritmo. Um grupo ainda vive colhendo alimentos e caçando para sobreviver, como o ser humano costumava fazer há milênios.  Há os que dependem basicamente da agricultura. Vivem no passado e somam cerca de 70% da população.  A maioria dessas pessoas depende da agricultura, comem carne de gado criado, mas podem ser encontradas nas cidades da sociedade industrializada onde têm uma vida moderna.  São 25% do total e levam uma vida moldada na primeira metade do século 20, pela mecanização e pela educação de massa.  Essas são as pessoas do presente.  E há os que não são mais pessoas do passado e nem mesmo do presente, porque vivem aceleradamente, participando ativamente das transformações culturais e tecnológicas, vivendo o futuro.  São os agentes avançados da sociedade, os pioneiros do amanhã, anunciando o futuro superindustrial. Elas totalizam apenas  3% do total da população..  Os 2% que faltam droparam, isto é, desistiram do ritmo mais rápido, das grandes cidades, da competitividade, desengajaram-se, gostariam que o mundo parasse para que eles pudessem saltar.

A diferença de ritmo e a indiferença ao tempo podem ser extremamente irritantes. O paulista diz que os nordestinos são preguiçosos, porque a vida deles é regulada por outro ritmo.  Cada cultura tem seu ritmo próprio, mas os alemães não suportam a lentidão e os atrasos dos trabalhadores turcos. Os italianos de Milão desprezam os lentos sicilianos.  Os suecos não conseguem entender o devagar-e-sempre dos lapões.  Norte-americanos desprezam os mexicanos que deixam para amanhã o que podem fazer hoje.  E o poeta nordestino Ascenso Ferreira diverte-se com a pressa dos gaúchos, cavalgando à toda. Pra quê? Pra nada.

O resultado mais sensível dessa pressa, desse ritmo frenético, da nova sensação de tempo, é a transitoriedade, o clima e o sentimento de impermanência. Filósofos e teólogos sempre disseram que o ser humano é efêmero e que a transitoriedade é parte da própria vida.  Só que, hoje em dia, a impermanência é mais aguda, mais profunda.

As relações fragilizaram-se, com as pessoas, com os lugares, com as instituições, com as idéias e isto é que forma um tecido social que está esgarçado.

Vivemos, cada vez mais, em uma sociedade de utilizações não-duráveis e não é de estranhar que se estude como aproveitar o sentimento de transitoriedade para vender mais.  Entre as melhores qualidades de um produto a durabilidade já não importa como antes e assim como há especialistas que nos vendem a desejabilidade de um produto que, na verdade, não nos interessa, há especialistas em obsolescência planificada.  Isto é, engenheiros que estudam resistência de materiais, de modo a produzir bens duráveis, mas não tanto, que depois de um tempo pré-determiando precisem ser substituídos por um novo.

Isto criou o consumismo, onde o ter é mais importante do que o ser, um sentimento que vem sendo tão exagerado  que, insistimos,  já não basta ter, é preciso ter um novo.

No passado, a permanência era o ideal. Todas as energias criativas e produtivas eram centradas em dar a durabilidade máxima, com qualidade, aos produtos.  O ser humano fazia para durar e uma das conseqüências disso era uma sociedade estável.

A tecnologia desenvolvida fez baixar os custos dos manufaturados muito mais rapidamente do que os custos dos consertos, porque um é automatizado e o outro ainda é artesanal.  Freqüentemente é mais barato substituir do que consertar.  E, do ponto de vista da economia, é melhor produzir produtos baratos e descartáveis do que produtos caros que possam ser consertados.

Além disso, a tecnologia avançada produz, em grande velocidade, produtos cada vez melhores.  Cada geração de computadores é bem melhor do que a anterior e os intervalos dessa melhora são cada vez mais curtos.

À medida que a mudança é acelerada, atinge recantos cada vez mais remotos da sociedade e quase tudo, hoje, é efêmero, de consumo rápido, descartável, substituível, o que torna a própria sociedade instável e impermanente.

O crescimento do impulso que alimenta a cultura das utilizações únicas modifica também o ser humano e as suas reações sociais, encurta nossas vinculações com o mundo e torna mais transitórios até os relacionamentos humanos, criando  novas formas de relacionamento rápido, como a pegada ou a ficada.

As pessoas, hoje, têm menos bons amigos do que antes.  E, certamente, menos “velhos amigos”.  Uma simples mudança de endereço favorece o desgaste suficiente para esquecer uma amizade. Escrevendo sobre as amizades do futuro, o psicólogo Courtney Tall sugere “a estabilidade baseada em relacionamentos íntimos com umas poucas pessoas não terá qualquer importância efetiva, devido à alta mobilidade, ao raio maior de amplos interesses, à variedade de capacidade de adaptação e de transformação registrados entre os membros de uma sociedade profundamente submetida à automação e mudança”. Só as crianças ainda sentem a perda de amigos e conhecidos com uma mudança.

Os interesses das pessoas, mudando rapidamente, repelem e atraem outras pessoas com velocidade, fazendo e desfazendo relacionamentos.  As amizades de longa duração serão cada vez mais raras.

O ser humano já provou ser o mais adaptável dentre todas as formas de vida. E, por isso mesmo, é um sobrevivente que fez sucesso e dominou todas as outras espécies. Mas ele é um biossistema e todos os sistemas desse tipo atuam dentro de limites que não podem ser transpostos.  Há limites quanto à carga de mudanças que o organismo pode absorver e algumas exigências serão intoleráveis.

O psiquiatra Thomas H. Holmes e seu assistente Richard Rahe, criaram uma escala para medir as unidades de mudança de vida e o quanto dessa mudança uma pessoa pode suportar.  Como as mudanças nos atingem de modos diferentes, fizeram o inventário delas: mudança de casa, de trabalho, de cidade, no casamento, morte de parentes e mandaram a lista para milhares de pessoas de várias condições sociais pedindo que as colocasse em ordem de importância, segundo o impacto que provocavam e a dificuldade de adaptação que elas ofereciam.

Foram surpreendidos pela ampla concordância de pessoas com culturas absolutamente diversas e puderam montar uma escala com valores numéricos onde a morte da mulher é a única mudança com valor de 100 pontos.  Estudando as respostas sobre a adaptação, eles puderam até fazer uma relação das mudanças com a saúde física e mental das pessoas atingidas pelo impacto que elas provocam.  Quanto maior o impacto das mudanças, maior a probabilidade de adoecer de modo sério.  O que possibilitou definir que se nos submetermos a um número grande de mudanças de vida dentro de um período relativamente curto, isto representará um grande desafio para o nosso corpo e para o nosso espírito, pelo esmagamento dos mecanismos de adaptação.  

Quer dizer que existe uma relação próxima, uma conexão precisa, entre as defesas do corpo e as exigências de mudança que a sociedade impõe.  Vivemos em um equilíbrio dinâmico permanente, e quebrá-lo oferece perigo. Nós convivemos com vírus que só causam doença quando o nosso sistema imune é abalado, quando o sistema de defesa está em nível baixo.

Viúvos têm 40% a mais de possibilidade de morrer, até um ano depois da morte da mulher.  E viúvas têm 30% a mais de probabilidade de morrer no ano da morte do parceiro.

Em resumo: toda mudança tem um peso fisiológico e psicológico; e quanto mais radical a mudança, maior o preço a pagar nessa sociedade em permanente mudança e quase sem valores permanentes.

A Globalização e a Exclusão Social

outubro 11, 2007

Os neoliberais afirmavam que mercados livres e abertos produziriam ganhos de produtividade que fariam com que a competitividade criasse um novo mundo, onde o próprio mercado seria um agente social e instrumento de desenvolvimento social. Não foi assim: os ganhos de produtividade foram, de fato, enormes, mas a realidade é a exclusão social.

A utopia social terminou com o fim da Guerra Fria entre Estados Unidos e União Soviética, e a derrubada do Muro de Berlim. Cuba ficou como um bom exemplo de socialização da pobreza.  A arrogância, prepotência e hegemonia capitalista anunciaram que haveria uma prosperidade econômica geral, impulsionada pelos mercados abertos, livres e pelos ganhos de produtividade.  A lógica estimulante da competitividade seria capaz de criar um novo mundo onde mercadorias e pessoas circulariam livremente e o próprio mercado funcionaria como o instrumento e a garantia da paz e da harmonia.

            Não era verdade e a desilusão veio rapidamente. Primeiro para a Rússia e os países do Leste europeu, incapazes de assimilar com rapidez as novas regras do mercado.  Mas, logo em seguida, para todos os países na periferia do capitalismo, inclusive aqueles chamados “países em desenvolvimento”, com a percepção de que a dinâmica capitalista que move a economia estava agravando a exclusão social, fazendo crescer o desemprego, exigindo a flexibilização das regras de proteção social ao trabalhador, aumentando a pobreza, a marginalidade, a insegurança social, a fome, a violência e até o terror.

            O modelo aparentemente vitorioso do capitalismo global e das transnacionais continha, em si mesmo, os elementos estruturais que agravaram e continuam a agravar a exclusão social.

            Os chamados tigres asiáticos sucumbiram à crise (1997-1998) que se espalhou por todo o mundo, provocando um rebaixamento das perspectivas de crescimento econômico das nações em desenvolvimento, que animavam o fim do século.  A virada do século e do milênio viu um número crescente de indivíduos postos à margem das apregoadas vantagens da globalização, nome que se deu à internacionalização progressiva das economias capitalistas a partir da década de 80..

            Foi a revolução da informática que tornou possível a globalização e acarretou dois tipos de mudança com vinculação direta com a exclusão social: o surgimento de um novo paradigma de emprego, mais flexível, precário, sem garantias sociais, e a minimização da importância do Estado como guardião das garantias sociais. Os mercados ficaram on line, em tempo real, e o capital ganhou uma extraordinária mobilidade e velocidade.

A integração dos mercados financeiros e dos processos produtivos em nível planetário, com o crescimento do comércio internacional que se seguiu à queda generalizada de barreiras protecionistas nos países da periferia do capitalismo (tentando atrair capital e negócios) favoreceram a transformação das multinacionais em transnacionais.

A internacionalização das decisões e a incrível mobilidade das grandes massas de capital deixaram evidente a principal diferença entre as multi e as transnacionais: a lógica autônoma em relação às decisões e necessidades dos Estados nacionais.  O espaço para a operação de políticas públicas foi muito diminuído, em prejuízo da população mais pobre, criando mais exclusão.

            Sem pátria e bandeira, as transnacionais objetivam o mercado global e o fazem utilizando, com o máximo de eficácia, tecnologia, mão-de-obra e matérias-primas onde quer que elas possam ser encontradas com menor custo.  O produto final, global, é composto por várias partes, explorando ao máximo as vantagens competitivas de diversos países.  O resultado foi uma fragmentação da produção que reduziu o enorme custo do desenvolvimento de novas tecnologias dos produtos em escala mundial, viabilizando o processo à custa da exploração da miséria.

            Resultado: a exclusão social está aumentando com o capitalismo contemporâneo (merecidamente chamado de ganancioso por Allan Greenspan, quando ainda dirigia o Federal Reserve) não só nos países da periferia do capital como nos países centrais.

A manipulação das políticas monetárias também foi afetada pela imensa massa de recursos que circulam com rapidez no mercado financeiro internacional, e que podem invadir um país de uma hora para outra, retirando-se depois com a mesma velocidade, criando problemas graves.  As políticas fiscais e os gastos governamentais (inclusive o investimento na área social) encontraram novos limites, por seus efeitos inflacionários que podem minar a competitividade dos produtos nacionais.

            Essa mobilidade do capital e sua falta de compromisso com os países, aumentou seu poder de barganha diante dos Estados, constrangendo-os, restringindo suas capacidades de operar os principais instrumentos discricionários e até o poder de decidir.

As transnacionais não têm preocupação moral ou social e além de conquistarem o mercado consumidor global, globalizaram a produção e usam a melhor tecnologia disponível em um país, a matéria-prima mais barata de outro e a mão-de-obra daquele mais disposto ao sacrifício dos direitos de seus trabalhadores.  Até o uso de mão-de-obra escrava e infantil, para eles, é valido, e cada transnacional age conforme lhe for mais conveniente: em tempo parcial, pagando por peça, com contratos precários, transferindo para terceiros a responsabilidade das contratações, das relações de trabalho e dos problemas sociais..

A pobreza, em si mesma, não tem a capacidade de gerar violência, porque os pobres não sabem os seus direitos de cidadão e a força que têm..  Mas a exclusão social tem essa capacidade, por transmitir ao excluído a noção clara de injustiça e de desrespeito aos seus direitos.

A expressão entrou em moda na mídia, nos documentos de economistas, cientistas políticos e pesquisadores sociais.  Mas é usada em mais de um sentido. O que é, afinal, exclusão social?

É a soma de vários fatores:

  • § da pobreza, com a impossibilidade de garantir a sobrevivência e o atendimento das necessidades básicas;
  • § da insegurança física em relação à vida, pelo risco de não poder garanti-la;
  • § da insegurança psicológica, pelo medo do futuro, por não poder proteger-se nem dar proteção à família;
  • § do desrespeito aos direitos humanos;
  • § da falta de serviços públicos garantidos por lei;
  • § da injustiça e da certeza de estar sendo furtado dos seus direitos de cidadão.

Quer dizer que excluído é aquele que tem direitos garantidos por lei, mas a quem eles não atingem, ficando só com os deveres, entre eles os tributos.

As grandes alterações na lógica da produção tiveram impacto no nível macroeconômico, mas afetaram também as pessoas, modificando (por supressão) valores e padrões há muito sedimentados. Quem perde o emprego imagina que a situação é temporária e injusta.  E precisa de um longo período para perceber que não vai conseguir outro no mesmo nível para restabelecer a “vida normal”.

            A exclusão não ocorre só entre os analfabetos e os menos preparados profissionalmente, ou com a mão-de-obra da periferia.  Ela está ocorrendo em todas as classes. 

            O que muita gente não percebeu (ou se recusa a perceber) é que há um novo paradigma de emprego, mais flexível, precário, desprovido das garantias de estabilidade, sem benefícios sociais e, geralmente, pior remunerado. Há trabalho, mas não há emprego como antigamente e a maioria absoluta ainda se pauta pelo velho paradigma de emprego.

Em sociedades (como a nossa) em que o emprego sempre teve um papel central para criar renda, para integrar socialmente o indivíduo e até para a formação de sua identidade como pessoa, é difícil aceitar e entender a nova situação.  Todos os que tinham emprego, ganhavam dinheiro, tinham acesso a benefícios garantidos pelo Estado e eram alguém, estão perplexos, assustados, com medo e sem entender a mudança do padrão.  Sentem-se injustiçados.  E o sentimento é agravado pelo desamparo criado com o fato do Estado (há muito tempo identificado como o guardião das garantias sociais) estar promovendo sua reestruturação e o debate sobre a redefinição dessa função.

A qualidade de vida piorou.  Pioraram as expectativas e o sentimento de injustiça cresceu pela perda de acesso a bens públicos e benefícios sociais que já estavam incorporados ao dia-a-dia de cada um como um direito adquirido.

            Pior: isto aconteceu (e continua a acontecer) no momento em que as aspirações de consumo haviam-se elevado a níveis nunca antes alcançados.  As artimanhas do marketing fizeram acreditar que consumir era ser feliz e transformaram o desejo de consumir em necessidade de consumo.  Ter, passou a ser um padrão de vida e ter um novo um modo de vida desejável, embora claramente não fosse acessível a todos. (Observem o anúncio do carro que é considerado perfeito, mas tem que mudar alguma coisa.  Por que?   Porque quem quer ter um novo precisa ter a certeza de que seu carro será reconhecido como novo, “do ano”…)

Resultado: hoje, quem não tem como comprar a felicidade expressa por produtos da moda, é capaz de usar de violência para obter o quinhão de felicidade a que se julga com direito.  Marketing e mídia desrespeitaram as pessoas e criaram um dragão da maldade, ao insistirem na idéia de que ter é mais importante do que ser, e de que não basta ter, mas é preciso ter um novo.

            As teorias de felicidade do consumo dividiram as pessoas em três grupos: o dos que têm cartão de crédito; o dos que não têm, mas querem ter, porque ele é visto como um passaporte para o paraíso do consumo; e o dos que nem sabem o que é cartão de crédito,

A sociedade contemporânea tem esse problema: ao centrar no consumo a maior parte da realização pessoal ou social e ao adotar o consumo como principal sinal exterior de sucesso, provocou a crise para quem deixa de consumir e fica impossibilitado de comprar, o que é uma condenação que diminui o indivíduo.  É exatamente nesse grupo que o sentimento de ser excluído é mais intenso, porque suas aspirações e expectativas de consumo foram frustradas.

Cada sociedade tem um conceito sobre o que seja integração social, mas a exclusão é a quebra do vínculo social entre o indivíduo e a sociedade.  Teoricamente, caberia ao Estado a obrigação de inserir os excluídos. 

Se, antes, a grande preocupação era com as condições de exploração que excluía e dificultava a inserção, agora o problema é  encontrar uma forma de inserção (qualquer forma de inserção) para recuperar os excluídos.  Já vai longe o tempo em que o pesadelo da modernidade, retratado por Chaplin, era um operário apertando parafuso indefinidamente. Hoje, esse posto de trabalho é cobiçado, desejável, um sonho distante de segurança e estabilidade.

            Pobreza é a falta de dinheiro para atender às necessidades básicas da pessoa e é o principal foco da definição de exclusão social, que é onde e quando o Estado não consegue garantir, minimamente, a sobrevivência dos seus cidadãos e os seus direitos. A linha de pobreza aponta para a renda mínima de que o indivíduo necessita para ter acesso a uma cesta de bens e serviços essenciais à satisfação de suas necessidades básicas. Quem está abaixo dela, é um excluído.

            Mas, quais são as necessidades básicas?  Do ponto de vista fisiológico é o necessário e suficiente para garantir a sobrevivência física.  No entanto, afirma Amartya Sem (economista e sociólogo, criador do índice de desenvolvimento humano, IDH), o critério é ambíguo, porque há sobreviventes com dietas mínimas (como na Somália, por exemplo) mas a vida deles não é digna e a expectativa de vida é muito baixa.  Uma coisa é não morrer de fome, outra é ter uma sobrevida digna.

            Dignidade é a palavra-chave na medida da exclusão.  Para que alguém possa viver e usufruir a vida com dignidade deve ter o direito de comer, de morar, de ter saneamento básico, de ter acesso à educação e de ter à disposição serviços de saúde.  Pode parecer muito, mas menos do que isto vai resultar em um pobre desassistido, sem direitos sociais, um excluído.

A discussão da linha de pobreza e de exclusão envolve conceitos, culturas, políticas e terá sempre  certo ar de arbitrariedade. Meghnad Desai (o sociólogo indiano) chama atenção para a situação do Brasil, que tem limites sérios com as transferências de recursos para os programas sociais e, no entanto, tem uma lei de incentivo à cultura com dinheiros públicos que não causa escândalo à maioria, nem mesmo entre os intelectuais bem informados.

            Em uma sociedade de mercado é preciso ter habilitações (entitlements):

  • § a capacidade de trocar (bens ou competências);
  • § de produzir (com recursos próprios ou contratados);
  • § de trabalhar (isto é, de explorar o próprio trabalho);
  • § de herdar (receber uma herança ou ganhar na loteria, por exemplo).

Quem tem uma dessas habilitações tem acesso a cestas alternativas de bens, em maior ou menor grau.  A pobreza e a fome aparecem quando o indivíduo não tem ou perde suas habilitações, ou elas não são suficientemente boas para o mercado.  Duas pessoas com rendas semelhantes podem ter situações diferentes de pobreza segundo suas habilitações, capacidade de adaptação à realidade e modo de encarar o futuro.  Grupos que partilham a mesma pobreza podem ter chegado lá de diversas maneiras e têm diferentes probabilidades de saírem dela, segundo suas habilitações.  Também é preciso levar em conta que capacitações iguais podem não render do mesmo modo, assim como se deve verificar que pessoas com a mesma renda podem ser pobres diferentes: basta, por exemplo, que uma delas tenha um problema grave ou crônico de saúde.

Os chamados fatores agravantes da pobreza são de responsabilidade do Estado e combater a pobreza deve ser uma política pública.  Mas o que importa mais, verdadeiramente, não é acabar com a fome e a pobreza, mas conquistar para aquele indivíduo a dignidade.  Para que alguém seja feliz é preciso ser respeitado, ter recursos materiais para atender às suas necessidades básicas, ter segurança e amor próprio.  Não é um problema de renda, porque quem ganha 50 vezes mais não é, necessariamente, 50 vezes mais feliz.

Numa sociedade em que a sede por diferenciação é tão grande que alguns bens são consumidos justamente por serem caros (o que impede o acesso às massas e realimenta a diferenciação), devemos reconhecer que esses bens são produzidos com fundamento na idéia da exclusão.

Nesse mundo competitivo, a insatisfação de um indivíduo que está retido no congestionamento não é o engarrafamento, em si, mas a velocidade com que se move a fila do lado.  Infringir a lei e ultrapassar pelo acostamento não é apenas um ato pouco civilizado, mas a demonstração prática de que na sociedade não-solidária sempre haverá quem se sinta realizado por superar o outro, mesmo que seja de modo ilegal. (Sabendo que quem é capaz de uma falcatrua social é capaz de falcatruas maiores, porque o que falta a ele é, exatamente, atitude ética.)

A propósito, a exclusão social ocorre por falta de ética social.

            A regra geral do capitalismo ganancioso é a de poucos e grandes grupos por setor, todos operando a nível global e buscando a diminuição de custos de seus fatores de produção.  Pior: participando da dança especulativa.

Por exemplo, a General Electric oferece aos seus clientes mais serviços financeiros do que a American Express, que é um grupo financeiro típico.  E não é de estranhar que a GE gere mais lucros na área financeira do que na industrial.

A enorme escala de investimentos necessários para alcançar a liderança tecnológica de produtos e processos de produção, aliada à necessidade de redes mundiais e de mídia de massa, concentrou e continuará concentrando recursos de capital, num processo que só permite chegar à liderança das principais cadeias de produção um pequeno número de empresas, gigantes mundiais.  São uma centena, fazendo alianças, fundindo-se, absorvendo, comprando, crescendo para não desaparecer.  Essas transnacionais é que decidem tudo: o que produzir, como, onde, com quem, quanto e a que preço.  Assim como há as que decidem os serviços.

Ao mesmo tempo elas competem por custos e preços, e qualquer diferença, por menor que seja, mínima mesmo, pode ser a diferença entre o sucesso e o fracasso.

            Na corrida por qualidade e preço, deu-se a fragmentação, aconteceram as franquias, a terceirização, a flexibilização, a informalização, abriu-se espaço para uma grande quantidade de empresas locais que alimentam a cadeia produtiva central oferecendo custos mais baixos para a matéria prima ou mão-de-obra mais barata. É uma das grandes contradições do processo: concentração versus fragmentação. (A taxa de aumento da concentração é maior do que a de crescimento da economia mundial.)

A Nyke, uma das maiores fabricantes de sapatos de tênis do mundo, não produz um único cadarço.  Seus 15 mil funcionários diretos trabalham na estrutura da estratégia mercadológica, criando e desenvolvendo produtos, subcontratando fornecedores e produção. A terceirização gerou 90 mil empregos e denúncias do UNICEF e da OIT sobre trabalho escravo de crianças na Tailândia, nas Filipinas e em Taiwan,. A resposta da Nyke: são empresas que produzem para nós sob contrato, mas nós não temos responsabilidade sobre a produção…

            Não é a única contradição: a outra é inclusão versus exclusão. Por um lado, a incapacidade progressiva de gerar empregos formais em quantidade e qualidade suficientes, provoca exclusão; mas por outro, a ganância capitalista garante sua dinâmica fazendo baixar os preços para ganhar a competição, o que incorpora novos mercados.  Se compararmos os bens de consumo que os pobres de hoje possuem, com o que possuíam os pobres de 50 anos atrás, vamos ficar surpresos com o aparente “enriquecimento” dos pobres.  Sobrevoar qualquer favela permite fotografar uma floresta de antenas de televisão, inclusive parabólicas.  E é sabido que, no Brasil, há mais casas com televisão do que com geladeira (o que é explicado por uma consumidora pobre: “Geladeira, a gente abre e às vezes não tem nada; na televisão tem sempre alguma coisa e é de graça“).

            Na virada do milênio, as cem maiores corporações mundiais detinham um terço de todo o investimento direto e respondiam por cerca de 80% do fluxo de pagamentos.

As nações, sem proteção, buscaram unir-se, formando grupos regionais que pudessem resistir às transnacionais, mas o mercado financeiro gira 24 horas por dia e tem uma mobilidade que não respeita fronteiras nacionais ou regionais, e por isso não se deixou abalar.

            O que é uma transnacional?  É uma corporação global que tem:

  • § a competência de controlar suas atividades, simultaneamente, em vários locais do planeta;
  • § a capacidade de tirar vantagem dos diferentes fatores de produção entre países (inclusive as políticas governamentais);
  • § a flexibilidade geográfica suficiente para deslocar seus recursos e operações em escala global e com rapidez.

            Os espaços que não são funcionais à nova lógica do sistema não conseguem se inserir na economia global.  Então, além de pessoas excluídas temos países excluídos.

Os segmentos dos processos produtivos que utilizam trabalho intensivo não-qualificado foram deslocados para países nos quais esse fator é abundante e barato, os países da periferia do capitalismo.  Quando os produtos estão amadurecidos e há pouca possibilidade de inovação, há uma rotina na produção e a mão de obra com pouca qualificação pode ser usada intensamente. Mas, para minimizar os riscos da possibilidade de interrupção da produção, as transnacionais costumam ter uma ou duas empresas, em locais diferentes, que podem, numa emergência, iniciar imediatamente a produção.  Quer dizer: com elas, greve não adianta.  Foi exatamente o aumento da pressão sindical por melhores condições de trabalho e remuneração (principalmente na Alemanha e na França) que levou as transnacionais a deslocar indústrias para a periferia do capitalismo, o que introduziu a exclusão nos países centrais.

O historiador inglês Eric Hobsbawn (autor de A Era dos Extremos) escreveu que o período de 1950 a 1975 “assistiu à mudança social mais espetacular, rápida, abrangente, profunda e global já registrada na história mundial”.  Pela primeira vez na história do homem o campesinato tornou-se minoria em todo o mundo.

A industrialização da periferia acarretou tensões e contradições, e o aumento do poder de barganha dos trabalhadores, assim como a sua capacidade de mobilização, sacudiram as estruturas dos países em desenvolvimento.  A capacidade de negociar como classe teve efeitos que chegaram ao centro do capital.

            Mas a incorporação maciça de novidades tecnológicas aos processos produtivos mudaram a correlação de forças entre as classes sociais.  No início dos anos 80 o conflito entre capital e trabalho já apresentava nova estrutura, segundo Gilberto Dupas (o economista brasileiro autor do livro Economia Global e Exclusão Social). A nova estrutura significava:

  • § emergência de um novo padrão de acumulação pelo uso de capital intensivo, em substituição ao trabalho intensivo (e em desfavor dos trabalhadores, porque o desemprego estrutural funciona como um disciplinador da força de trabalho e os sindicatos perdem força);
  • § flexibilização dos direitos trabalhistas, mesmo os históricos (porque para não ficar desempregado o trabalhador passa a aceitar corte nos seus direitos, sabendo que o capital vai colocar-se onde há as melhores condições de mercado, isto é, as piores condições de trabalho);
  • § rearticulação das transnacionais (e das outras empresas, por gravidade, levando à inadequação das estruturas trabalhistas. A rearticulação dos sindicatos em centrais sindicais, para aumentar a força de negociação, não tem o efeito imaginado. Hoje, a força de trabalho privada filiada aos sindicatos é de apenas 10%.)

A dificuldade de ter um emprego formal (e até informal), principalmente para os jovens que entram no mercado de trabalho sem experiência, reforça o senso individualista e até egoísta nas relações de trabalho e nas relações sociais como um todo.

            O pior é que a ameaça de deslocar a produção é sempre cumprida pelas transnacionais, o que faz com que a desregulação e a flexibilização sugeridas pelos neoliberais como necessários em tempo de capitalismo global, sejam aceitas até por trabalhadores, sem que o Estado tenha força para sustentar as políticas de proteção e bem-estar social.

Isto leva a uma diminuição dos trabalhadores empregados em tempo integral e com perspectiva de carreira, e à expansão do número de trabalhadores temporários, flexibilizados, sem direitos.  Não é sem razão que Leôncio Martins Rodrigues (no livro Perspectivas para o Sindicalismo no Século XXI) pergunta: “Estariam os sindicatos, como certos espécimes animais, condenados a desaparecer pela destruição do seu habitat?”

            O movimento sindical é mesmo um animal ferido.  Os sindicatos europeus priorizaram salários e provocaram o desemprego; e os sindicatos americanos priorizaram o emprego e fizeram cair não só os salários como os direitos do trabalhador.

Na América Latina o chamado setor informal já atinge cerca de 70% do mercado de trabalho e cresce a 4%, enquanto o formal cresce a menos de 1%. Para um jovem, qualificado ou não, a probabilidade do primeiro emprego está no setor informal, sem direitos trabalhistas.  Muitos dos desempregados nem conseguem espaço no mercado informal, a não ser com criatividade e inventando seu próprio nicho. (É o exemplo de um velho, numa feira-livre do Rio, que vende legumes cortados em formas criadas por ele e que explica: “As madames compram porque é novidade e com os restos do corte a gente faz uma boa sopa lá em casa.“)

O sindicalismo, para não desaparecer, precisa adaptar-se e aprender a lidar com o trabalho temporário e flexível.  Se não se adaptar à realidade da exclusão social estará definitivamente condenado à extinção.

Há, de um modo geral, pouco otimismo dos analistas em relação também ao futuro da política de blocos, a última trincheira de resistência dos Estados nacionais, com o objetivo de estabelecer políticas protecionistas (pelo menos temporárias).  Os acordos globais de livre comércio tendem a minar sua lógica em um prazo que não chega a ser longo. Basta estar atento às intermináveis rodadas de Doha.

Giovani Arrighi (no livro O Longo Século XX) conta: “No final da década de 80, aqueles que haviam recebido em seu território a primeira rodada da expansão industrial externa japonesa – os “quatro tigres” – já haviam se transformado, considerados enquanto grupo, nos principais investidores externos diretos nos países da Asean.  Quando a alta dos salários minou as vantagens competitivas dos “quatro tigres” na extremidade inferior do valor agregado da produção industrial, as empresas desses Estados juntaram-se à iniciativa japonesa para explorar os recursos de mão-de-obra ainda abundantes e baratos de um grupo ainda mais pobre e mais populoso de países vizinhos, a maioria da Asean.  O resultado foi uma segunda rodada de expansão industrial externa, através da qual uma massa ainda maior de mão-de-obra barata foi incorporada.  Essa maior incorporação de mão-de-obra barata reforçou a vitalidade do arquipélago capitalista do leste asiático.  Mas também minou a competitividade em que se baseava, em termos de recursos humanos.  Tão logo isso aconteceu (o texto é de 1994) iniciou-se uma terceira rodada.  Às empresas japonesas e aos “quatro tigres” vieram juntar-se empresas dos países que receberam a segunda rodada de expansão industrial regional (sobretudo a Tailândia), transplantando as atividades do extremo inferior da mão-de-obra intensiva para países ainda mais pobres e mais populosos (em especial a China e o Vietnã) que ainda são dotados de reservas grandes e competitivas de mão-de-obra barata.”

            Releiam os jornais do primeiro semestre de 1997.  Todos, em toda parte, davam cobertura aos “tigres asiáticos” e ao maravilhoso desempenho das economias da Coréia do Sul, Cingapura, Taiwan e Hong Kong.  E havia na mídia as entrevistas e os artigos dos economistas e sociólogos de plantão, até de educadores, para explicar que o sucesso se devia à capacidade de estudar e à vontade dos povos asiáticos.  Os editoriais e as agenciais internacionais pediam nossa reflexão para uma economia regional que vinha crescendo a uma taxa média de 6,8% ao ano, nas últimas três décadas.

A Indonésia, Malásia e Tailândia também ganhavam aplausos e a China, crescendo a quase 10%, provocou um célebre historiador inglês que, de tão entusiasmado, previu que a Ásia seria o centro da economia mundial globalizada, no século 21.

O Banco Mundial e o FMI eram só elogios e cuidavam de direcionar para lá uma grande quantidade de recursos em investimento direto e empréstimos.

Não havia uma só referência ao “risco Ásia” e, no entanto, poucos meses depois, as bolsas da Tailândia, Malásia, Indonésia, Coréia e Filipinas haviam perdido mais da metade do seu valor em dólares.  A queda era menor, mas,mesmo assim dramática, em Cingapura, Hong Kong e no Japão.

A enorme redução no valor dos ativos provocou pânico geral e busca de liquidez, ocasionando grandes desvalorizações das moedas locais.  O sistema bancário japonês, um dos grandes financiadores dos tigrões e dos tigres, registrou perdas pesadas, e suicídios, e ameaçou tornar instável a própria economia japonesa.

Paul Krugman (velho jornalista econômico americano) havia sido um dos poucos a alertar para a fragilidade do milagre asiático, escrevendo sobre o crescimento baseado em gastos de investimento sem elevação da produtividade (quer dizer, produtividade marginal do capital em declínio com aumento de estoque).  Causa principal da crise: exatamente o crédito fácil, em excesso, para projetos mal formulados, fatores microeconômicos, alimentados por otimismo exagerado e pela crença de que os governos assumiriam o eventual prejuízo.  O pânico irracional que se seguiu à tentativa dos credores de exigir pagamento imediato dos enormes empréstimos de curto prazo (que tinham elevado artificialmente os preços dos ativos locais), correu o mundo em ondas de choque. (Foi, diga-se entre parêntesis, o mesmo que ocorreu com o chamado Milagre Brasileiro, criado pelo então Ministro da Fazenda Delfim Neto.)

O equilíbrio mundial ficou dependente da China e da reação dos mercados.  A moratória russa, por sua vez, ensinou ao duramente prejudicado mercado acionário americano que, para construir um mercado na Rússia, era preciso bem mais do que demolir o comunismo e receitar pílulas mágicas.

Outra descoberta importante, para todos: o sistema hegemônico de plantão não tem poder suficiente para fazer abortar as crises, o que aumenta a percepção dos riscos e a preocupação com um crash econômico global, por conta da rapidez de reação em cadeia dos mercados unidos em real time.

Uma fenda profunda abriu-se no arrogante discurso liberal de que as forças de mercado sempre encontram a melhor solução. Não é verdade.

            O aumento do desemprego nos países centrais do capitalismo chegou a dobrar nos anos 70 e 80.  O ambiente recessivo acelerou a necessidade e o desejo de mudança nas transnacionais, obrigadas a racionalizar, a reestruturar, ao downsizing. Quase sempre foi preciso desenvolver novas tecnologias para poupar trabalho, o que prejudicou o emprego dos menos qualificados dos países desenvolvidos.  O outro expediente foi flexibilizar os direitos do trabalhador e correr para produzir em países periféricos.

No relatório do Banco Mundial de 1977 está escrito que os pobres “não podem se dar ao luxo de ficar desempregados; eles são obrigados a aceitar o subemprego”.

            O impacto das novas cadeias de produção sobre os empregos variou por conta de vários fatores:

  • § a acomodação de cada país dentro da cadeia produtiva;
  • § a forma de entrada do investimento direto estrangeiro;
  • § o tipo de cadeia (uso intensivo de capital ou de mão-de-obra);
  • § substituição ou não da produção local;
  • § possibilidade de complementação por investimentos locais;
  • § conhecimento tecnológico adquirido.

           A tendência geral foi gerar menos empregos por dólar investido. Motivos:

  • § introdução de novas tecnologias;
  • § automação e informatização;
  • § novos sistemas de gestão e produção;
  • § processos de reengenharia e downsizing;
  • § concentração na parte superior da cadeia.

            A tendência do mercado de trabalho é de redução, mesmo com as transnacionais investindo cada vez mais.  Motivos principais::

  • § baixo crescimento econômico;
  • § tecnologias modernas de produção;
  • § adoção de tecnologia poupadora de mão-de-obra;
  • § aceleração da integração das cadeias internacionais de produção;
  • § subcontratação (com queda dos empregos diretos e aumento dos indiretos).

Quando os investimentos foram direcionados para o processo de privatização das empresas públicas, a racionalização que se seguiu (e que era indispensável) reduziu significativamente os empregos locais.

            Resumindo: quanto maior a revolução tecnológica aplicada à produção, à distribuição e às vendas, no processamento de dados e na transmissão de informações a longa distância em tempo real, mais se acentua o processo de redução de empregos qualificados e formais, mais aumenta a flexibilização, o uso crescente de trabalho informal, os baixos salários e a exclusão.  E maior é a violência, o crime, a marginalidade viciosa.

No topo, a nova lógica das cadeias reduz, qualifica e exclui; na base flexibiliza, contrata informalmente, não garante direitos sociais nem benefícios, mas inclui.  Por outro lado, na medida em que a qualidade melhora e os custos baixam, os preços permitem incluir novos segmentos de mercado à cadeia.  A renda dos consumidores não melhora, mas melhora sua capacidade aquisitiva de determinados produtos.

O problema e não se saber em que direção a lógica das transnacionais vai fazer caminhar a economia local.  Sabe-se que é em seu favor, mas não se sabe se vai favorecer ou desfavorecer nossa economia, como e quanto.

O Discurso Neoliberal e a Economia

outubro 11, 2007

  Quase todas as economias do mundo seguiram a cartilha neoliberal: redução do Estado, abertura dos mercados, redução do custo-país, flexibilização dos direitos trabalhistas. O fim do estado protetor e o aumento dos gastos de governo, a substituição das políticas de demanda por políticas de oferta, assim como a falta de políticas públicas sociais só renderam benefícios no centro do capitalismo. A falta de caráter social dos agentes econômicos levou à globalização e à crise à periferia capitalista.

O discurso neoliberal atingiu a todas as economias do mundo, afirmando que a redução das dimensões do Estado era a solução econômica para os problemas do setor público estrangulado por dívidas.  A pregação desestatizante sugeria ainda a flexibilização dos direitos do trabalhador, com a eliminação de certas garantias sociais  que, segundo eles, só dificultavam a empregabilidade e aumentavam o custo-país.  Acabar com o Estado produtor e protetor foi a principal bandeira dos liberais durante anos e anos.

Curiosamente, nesses anos todos, em plena globalização, quanto mais os liberais discursavam, mais aumentava a participação dos gastos do governo no Produto Interno Bruto.

As despesas públicas têm quatro grandes categorias:

  • § gastos do governo com salários e insumos;
  • § transferências e subsídios;
  • § pagamentos da dívida externa e interna ou dos juros;
  • § investimentos públicos.

Procurem adivinhar qual é a única parcela que está caindo significativamente, desde os anos 60?  Acertou quem pensou investimentos públicos.  E a que mais cresce?  A do pagamento de juros para rolar as dívidas.  O famoso controle do déficit público tem sido amplamente descuidado por um Estado que gasta mal e se endivida pior ainda para pagar seus gastos.

Przeworsky e Wallerstein  (no livro O Capitalismo Democrático na Encruzilhada) já escreviam em 1988 que uma “ofensiva da direita”, depois do primeiro choque do petróleo, na década de 70,  havia provocado uma crise nas finanças do Estado e ameaçava a própria democracia capitalista.

O keynesianismo acreditava que o Estado podia harmonizar a propriedade privada dos meios de produção com a gestão democrática da economia.  O Estado fazia o papel de provedor de serviços sociais, de regulador do mercado e era o mediador dos conflitos sociais.

Mas os liberais de direita atacaram.  E, entre outras coisas, se desenhou um quadro de inflação com baixas taxas de crescimento econômico.  Foi quando surgiram as tentativas de substituir políticas de demanda por políticas de oferta.  E a redistribuição da renda a favor dos lucros apareceu como um custo que a sociedade deveria suportar para obter taxas de investimento mais altas.

Na verdade, a manutenção do pleno emprego acabou sendo uma das principais barreiras ao investimento que melhoraria a produtividade, aumentaria a produção, elevaria os salários ou reduziria a jornada de trabalho, segundo prometiam os políticos liberais.

Pela primeira vez a direita tinha um projeto próprio: em nome da democracia: soltar todas as amarras impostas pela democracia.

Ao mercado caberia ser a instância reguladora das relações econômicas e sociais no capitalismo contemporâneo.  E a ele caberia determinar, inclusive, o tipo e a quantidade de investimentos da economia, uma decisão privada que teve profundos impactos públicos.

A anunciada incapacidade de gestão do Estado e o vácuo teórico  provocado por economistas desinformados ou mal informados, deflagraram a crise.  E abriram mais espaço para os que defendiam a tese do Estado mínimo, conservadores e liberais.

Peter Drucker, citando Adam Smith (o pai do liberalismo clássico), dizia que o governo, “por sua própria natureza” não podia conduzir a economia.  E brincava: “Ele não argumentava que elefantes não voavam tão bem quanto as andorinhas.  Ele argumentava que governos, sendo elefantes, não podiam voar.”

Em 73, o choque do petróleo e o câmbio flutuante marcaram o que Drucker chamou de “o início da inevitável conscientização acerca dos limites do Estado”.  A crise econômica generalizada, o desequilíbrio nos balanços de pagamento, a inflação, as taxas medíocres de crescimento, tudo parecia indicar que os governos tinham, de fato, limites muito mais estreitos do que se imaginava para conduzir a política econômica.  Mais do que isto: para ele, qualquer ação que se traduzisse em gastos do governo seriam ainda mais nocivas à economia, exacerbando a tendência à inflação.

Drucker atribuía às empresas transnacionais, no início dos anos 80, a qualidade de “agentes econômicos globais” e apresentava-os como “novos agentes sociais”.  Na era globalizada a consciência social do mercado seria suficiente para providenciar os benefícios sociais que o Estado não podia garantir.

O novo discurso liberal afirmava que ao governo competia apenas o monopólio da defesa nacional, a garantia da manutenção da lei e da ordem, da justiça e da segurança, e estabelecer as regras básicas que permitissem aos agentes sociais “movimentarem-se livremente”.  O mercado regularia tudo, inclusive as necessidades sociais.

A hipótese era fantasiosa e falaciosa, mas durou anos, e os liberais argumentavam que os agentes econômicos tinham “todo o interesse em manter e ampliar o mercado consumidor”.

Anos depois, em 1997, o mesmo Drucker reconheceu que aos agentes econômicos “faltava caráter social” e que cabia ao governo o papel de determinar as políticas sociais. O elefante precisava voar…

Em 1998, numa entrevista ao Clarin, o historiador Eric Hobsbawm dizia que “o capitalismo global e o marcado livre, sem controles, chegaram a um ponto crítico”.  E acrescentava: “Estamos no fim de uma era, mas ainda não enxergamos o novo rumo.”

Em 2002 o professor de economia Jeffrey Sachs escreveu: “A globalização está sob mais pressão que  nunca.  Suas tensões se manifestam por toda a parte.  A maior parte da África subsaariana, da América do Sul, do Oriente Médio e da Ásia Central está atolada em estagnação ou declínio econômico.  América do Norte, Europa Ocidental e Japão apresentam crescimento lento e correm o risco de sofrerem nova recessão.”

 Os defensores dos mercados abertos e do livre comércio estão com dificuldade para explicar a marcha da economia mundial e de informar por que a globalização corre risco. E Sachs sugere mais perguntas: Por que seus benefícios parecem concentrar-se em tão poucos lugares?  É possível alcançar uma globalização mais equilibrada?

Diz ele que “os mercados abertos são necessários para o crescimento econômico, mas não bastam para garantir o crescimento”.

Os americanos em geral, o senhor George W. Bush à frente, mas na companhia de alguns economistas e professores, tendem a imaginar que a maioria dos problemas dos países pobres é responsabilidade deles mesmos.  Mas a vida é mais complicada do que imaginam os republicanos americanos: Gana, Tanzânia, Maláui, Gâmbia, são países bem governados e o nível de vida vem caindo há anos.  E Paquistão, Bangladesh, Mianmar e Sri Lanka, com governança de pior qualidade, tiveram crescimento.

A regra parece ser que países com população grande (maior mercado interno) tendem a crescer mais depressa, assim como os países costeiros (com saída para o mar) e os emergentes (que são vizinhos de países centrais e favorecidos em relação aos que estão na periferia do capitalismo e longe do poder).

Se os ricos continuarem culpando os pobres e não derem importância aos problemas estruturais, às doenças, à instabilidade climática, aos solos pobres, à distância dos mercados e à baixa tecnologia, a distância entre perdedores e ganhadores continuará a crescer, a violência vai aumentar e a reação também, inclusive o terrorismo, prevê o professor Sachs. Boa governança e combate à corrupção ajudam, mas não decidem.

“A ideologia de estilo tamanho único, bom para todos, do Consenso de Washington, já acabou”, diz ele e “é urgente dar início ao trabalho duro de fazer a globalização funcionar para todos.  Isso pode ser feito.”

Só que, para fazê-lo, é necessário implantar um novo Estado, resultado de uma profunda revisão do seu papel.  Um novo ciclo de desenvolvimento auto-sustentado e politicamente suportado exige novas relações entre o Estado, a sociedade civil e o setor privado, e a disposição de todos para fazer um pacto social, elegendo prioridades que poderão, por vezes, até entrar em conflito com o primado absoluto do mercado.

Se quisermos desenvolver uma cultura da paz e reduzir a violência e o terror, é preciso ter um Estado eficiente e que assuma seu papel indutor-normativo-regulador, um Estado responsável.

Quase na virada do milênio o Fundo Monetário Internacional e o Banco Mundial fizeram autocrítica, por terem passado tanto tempo sem dar atenção e importância ao social e com as evidentes manifestações dos problemas que a economia de mercado e a globalização estavam criando em muitos países.

No relatório de fim de ano de 1997 o Banco Mundial apontou algumas razões principais para a preocupação generalizada com a redefinição e os limites do Estado:

  • § a implosão das economias socialistas;
  • § a crise fiscal do Estado de bem-estar social (welfare state) em países significativos das economias desenvolvidas;
  • § o colapso dos Estados.

Essas razões foram simultâneas à explosão das chamadas emergências humanitárias nos países periféricos (mas não exclusivamente), entre elas a exclusão social.

Na opinião dos teóricos do Banco Mundial, o Estado não podia ser mais o provedor, mas deveria ser o facilitador e o regulador: “O desenvolvimento econômico e social sustentável é impossível sem um Estado atuante. Tem se tornado crescentemente consensual a idéia de que um Estado atuante (e não um Estado mínimo) é central ao desenvolvimento econômico e social, ainda que mais como parceiro e facilitador do que como diretor.”

A posição do Banco implicou na revisão dos conceitos mais liberais que caracterizavam suas recomendações há muito tempo e até aquele ano.

A Organização Internacional do Trabalho apontou na mesma direção, passando a afirmar como “cada vez mais importante” o papel do Estado em um mundo globalizado.  No relatório de 97-98 está escrito que “a globalização requer grandes e não pequenos governos”.  E vai mais longe ao afirmar que “(…) reduzir as dimensões do Estado (o que tem sido uma tendência dos anos 90)  pode ameaçar a manutenção do livre comércio em escala global”.

Foi bom que o Estado saísse, progressivamente, da área de produção de bens e serviços.  Foi pena que aproveitasse tão mal o dinheiro das privatizações, aplicando em coisas não-produtivas, mesmo aliviando a caixa do Tesouro dilapidado pelos déficits recorrentes de suas empresas estatais ineficientes, mal administradas, gastadoras e endividadas. Foi péssimo que estabelecesse agências reguladoras sem capacidade de regular e conter as empresas privadas. Mas permanece urgente a necessidade de construir um novo Estado, indutor, normativo e regulador, eficaz.  Um Estado apto também a enfrentar sua enorme e indelegável missão de viabilizar serviços públicos essenciais à população de baixa renda (principalmente segurança, saúde, educação, saneamento básico, habitação e amparo contra a exclusão social).

Ao Estado, sem dúvida, é que compete formular as políticas sociais e, na medida do possível, executá-las.  Mas também tem que ser suficientemente capaz de adotar políticas fiscais e monetárias que evitem a dependência do país ao volátil dinheiro internacional para empréstimos de curto prazo destinados a cobrir o seu déficit, o que só faz aumentar a dívida.

Há muito tempo o capital das transnacionais tornou-se especulativo e a enorme massa de dinheiro, mesmo virtual, com a velocidade da informatização passou a ter muito poder.  Sua enorme mobilidade e volatilidade tornou-o capaz de gerar desastres econômicos com seus ataques especulativos (dos quais não escaparam nem os Estados Unidos).  Seus repetidos sucessos comprovam que o dinheiro virtual ganha sempre e que a economia global é o árbitro final das políticas monetárias e fiscais  Por isso mesmo o Estado precisa ser capaz de ter orçamentos públicos equilibrados, a primeira condição para a manutenção da ordem econômica nesse mundo globalizado.

As políticas de demanda (políticas nacionais voltadas para o aumento da renda e do emprego por meio de política fiscal e monetária) têm como conseqüência uma taxa de inflação superior à taxa dos países competidores.  Com isso, por um lado, há uma tendência a aumentar as importações (por conta dos aumentos de preços internos e da renda nacional), e por outro, a utilização de instrumentos de política monetária é muito dificultada pela internacionalização dos mercados financeiros, a abolição do controle de trocas e a expansão das operações de crédito por parte das instituições financeiras.

É o que Paul Hirst e Grahame Thompson (autores do livro Globalization in Question: International Economic Relations and Forms of Public Governance) chamaram de “estrangulamento da capacidade dos Estados nacionais de gerirem seus instrumentos de política econômica”.  Segundo eles, “mercados podem ser internacionais, mas a riqueza e a prosperidade econômica são fenômenos nacionais”.  Faltou acrescentar que a pobreza e a exclusão também são locais.

Em 1966 eles já acreditavam que fosse inevitável que os Estados nacionais assumissem o papel de garantir a construção do que chamavam de uma “coalizão distributiva”, que estaria baseada em cinco pontos (funcionando simultaneamente):

  • § na garantia do equilíbrio entre o consumo e o investimento;
  • § no comando de um acordo sobre níveis de taxação;
  • § no controle das relações entre capital e trabalho;
  • § na orquestração de um consenso social capaz de estabelecer uma cultura política de colaboração;
  • § no equacionamento da questão do equilíbrio fiscal entre diferentes níveis de governo.

Arthur Schlesinger Jr. (no livro Há Futuro Para a Democracia?), por outras razões, em dezembro de 1997, também se mostrava apreensivo quanto ao futuro do Estado-nação.  Em artigo para a revista Foreign Affairs ele escreveu que “o computador transforma o mercado em uma monstruosa máquina maléfica global que rompe todas as fronteiras” e que nega às nações “a possibilidade de moldarem seu próprio destino econômico”, o que cria “uma economia mundial sem uma sociedade mundial”.

E se pergunta: onde pode residir a democracia, sem uma autoridade capaz de exercer um controle internacional, uma vez que o Estado-nação, sua sede tradicional, está-se desmantelando.

Para Schlesinger, a democracia liberal “sobreviveu por pouco” ao século 20, marcado por guerras, destroçamento de velhas estruturas de segurança, revoluções inflamadas. Mas corre riscos ainda maiores no século 21.

Para J.L. Fiori (no trabalho Existe um Estado Brasileiro Pós-Fordista? Reforma e Funções do Estado Brasileiro no Novo Paradigma Industrial) já se construiu um novo paradigma industrial pós-fordista, mas ainda há um vácuo quanto ao modelo político-institucional que corresponda.  Para ele era, provavelmente, o pior risco que corria o primeiro governo de esquerda eleito no Brasil.

A base política da esquerda aumentou exatamente com o aumento da pobreza, do desemprego, da exclusão, porque ficou clara a dissonância entre o discurso liberalizante das elites e sua praxis política.  Cresceu a voz dos que protestam pela perda dos direitos sociais e de cidadão.

Para piorar a situação, a Previdência Social, tão imprevidente em aplicar bem os seus recursos em tempos de fartura e vítima quase permanente da corrupção, sofre com o aumento da expectativa de vida e o envelhecimento da população, o que aumenta seus custos a ponto de ameaçar inviabilizá-los.

Projetada para realidades sociais muito diferentes das de hoje, serviria, idealmente, para a redistribuição de renda.  Naquela época havia emprego para todos; os empregos eram relativamente estáveis, como o casamento; a população era mito mais jovem; e o patriarcado era pouco desafiado. Para cada trabalhador que se aposentava havia 40 que pagavam a previdência, nos dez primeiros anos da sua criação.  Em 50 esse número já havia caído para 60%.  No início da década de 90 só havia três trabalhadores ativos e com carteira assinada para cada aposentado.  E a tendência é piorar, levando em conta o crescimento da expectativa de vida e mesmo considerando a ampliação da idade da aposentadoria.

 No Brasil, onde os servidores públicos têm aposentadoria integral, mas não pagam previdência, a situação é quase insuportável e mesmo os que pagam a previdência não têm mais certeza de que ela terá capacidade de proteger o trabalhador de eventuais infortúnios, como se imaginava nos anos 40.

 Os gastos com a saúde sobem com a revolução tecnológica, com a ampliação dos serviços, com o surgimento de uma doença cara e de perfil epidemiológico assustador como a AIDS.  Além disso, as bactérias são mais rápidas, desenvolvendo resistência a um ritmo maior do que os laboratórios são capazes de produzir novas gerações de antibióticos. 

A crescente disparidade entre as demandas sociais em expansão e a capacidade do Estado de atendê-las, identifica o Estado-nação como um poder reduzido, incompetente, fraco, cada vez mais limitado para decidir plenamente sua política monetária, ameaçada pelos especuladores e aproveitadores de plantão.  O Estado tem dificuldade para definir seu orçamento, organizar a produção e o comércio, cobrar impostos das empresas de modo eficaz, evitar a sonegação, combater os subsídios e o protecionismo.  Ou seja: perdeu o controle e a maior parte do seu poder no âmbito econômico, mas continua com as pesadas responsabilidades sociais, lutando para fazer sobreviver sua capacidade reguladora e fiscalizadora.

Há mais um complicador: o evidente aumento da violência e o progresso do crime e dos criminosos, dos seus armamentos, da capacidade de organização e da ousadia dos enfrentamentos, do aumento do poder de fogo e capacidade de atuar globalmente.

A falta de esperança no futuro, em qualquer futuro, leva o criminoso à política de explorar o aqui e agora, mesmo sabendo que sua carreira será breve. A impunidade para a maioria absoluta dos crimes e as facilidades que alguns encontram, mesmo depois de presos e condenados, para continuar a explorar o crime de dentro dos presídios e penitenciárias, anima-os a continuar.

O estabelecimento de parcerias e alianças estratégicas, faz com que o crime adote as estratégias de sobrevivência das grandes corporações, aproveitando-se inclusive da fraqueza do Estado. Colocando publicamente em xeque a eficiência e a eficácia das forças de segurança, a bandidagem quebra o monopólio estatal da violência.

Hoje, por exemplo, no Brasil, já há mais pessoas envolvidas com a segurança privada do que com a segurança pública.

Pior é que há várias polícias e quanto mais elas são, menor o sentimento de segurança que transmitem à população.  E a pior delas, sem dúvida, é a Polícia Militar, por motivos históricos.  Nos anos de chumbo da ditadura, os militares que comandavam a área de segurança (inclusive a PM), atribuíram aos policiais militares as piores missões da chamada “guerra suja”, as mais violentas e desrespeitosas aos direitos democráticos do cidadão. Vitoriosos (do ponto de vista militar) na repressão e desmantelamento da resistência, chegaram à redemocratização sem estarem reciclados, sem preparo, mantendo as mesmas chefias corruptas e os mesmos métodos brutais.

Esta é mais uma curiosidade típica da globalização: na aldeia global assistimos o fortalecimento das tribos, das identidades primárias, inclusive sob a bandeira de clubes de futebol, das torcidas organizadas (principalmente para a violência).  Como vemos crescer o bairrismo, o regionalismo, o nacionalismo, uma forma subjetiva de negar o globalizado.

Se o Estado não se adaptar, não mudar rapidamente e não conseguir mudar o modo de pensar dos políticos, a crise só tende a aumentar, sem que se saiba até quando, quanto e a que preço no futuro.  Mas não é difícil imaginar as conseqüências. A única certeza é a de que o passado não será recuperado.  A sociedade consumidora e baseada no desperdício criou pessoas que regrediram e vivem infantilmente, só para a satisfação dos seus desejos, sob o princípio do prazer e não o da realidade, como fazem as pessoas amadurecidas.  São pessoas que não foram educadas para ouvir um não, desajustadas, egoístas, só vivendo para a satisfação dos seus desejos e prazer, confundindo as necessidades básicas com as carências subjetivas, sem solidariedade.

O Estado contemporâneo está em crise interna e externa; ultrapassado, impotente, precisa urgentemente ser reformado para poder garantir o crescimento auto-sustentado e atuar com eficiência e eficácia na área social, principalmente para evitar a exclusão e a violência.  Diante da mobilidade do capital voraz e rápido no gatilho, o Estado não se sente capaz de barganhar, não encontra uma posição de força para decidir taxas e impostos, benefícios, leis ambientais e regimes de trabalho. 

As transnacionais têm poucos limites e manipulam os preços dos bens que são transacionados dentro de sua própria rede, cobrando alto às filiais situadas onde o imposto sobre o lucro é alto, ou em países em que há bom controle de remessa de lucros; e fazendo o oposto nos países onde as restrições já foram vencidas.

Alguns governos, como parte do esforço de atrair os fragmentos da produção, criam ilhas fiscais, (as ZPE), ou desvalorizam suas moedas para se tornarem mais competitivos.  O problema é que essa estratégia atrai apenas as partes da cadeia que geram menos valor adicionado.

A formação dos blocos regionais também influi na decisão estratégica das transnacionais, dependendo da importância que têm os mercados ou fatores de produção que elas buscam.

Parece claro que no mundo globalizado a cada intervenção do mercado deve corresponder uma atuação do Estado.  A questão é determinar o papel e a efetividade do Estado, dando a ele, inclusive, mobilidade suficiente para enfrentar as crises.  O desenvolvimento requer um Estado atuante, catalisador, rápido, capaz de facilitar e encorajar os negócios privados, mas também de regulá-los e de manter controle sobre eles.

O Estado precisa ter um governo voltado, prioritariamente, para os fundamentos sociais, com intensa participação do cidadão, parcerias e alianças estratégicas. O Estado que se quer é indutor, normativo e regulador e funciona com base em um pacto social que determine as políticas públicas da área social.  Só um novo e original acordo entre o governo e a sociedade civil, baseado em padrões éticos, no interesse público e no respeito humano, pode criar esse Estado moderno e indispensável.

Como afirma o Banco Mundial, “um bom governo não é um luxo, mas uma necessidade vital “.

Em uma crônica intitulada Estado Chantageado, Luís Fernando Veríssimo escreveu: “A utopia socialista e a utopia capitalista têm o mesmo lugar para o Estado: nenhum.”

Pela escatologia marxista o Estado não fazia sentido em uma sociedade de iguais.  E quanto aos liberais, queriam um Estado cúmplice que só interviesse no mercado para dar subsídio a quem não precisa, como os bancos.

Enquanto o novo Estado não vem, há muitas razões para inquietação quanto ao futuro do mercado de trabalho e ao crescimento da exclusão, especialmente na periferia do capitalismo.

O paradigma do emprego mudou e o modo como mudou é motivo para mais preocupações.  Os desajustes causados pela exclusão social de parte crescente da população mundial dos benefícios da economia global, e a progressiva concentração de renda que faz os ricos cada vez mais ricos e os pobres cada vez mais distantes, são o grande problema das sociedades atuais, pobres ou ricas.

A exclusão vem aumentando e ameaça marginalizar grupos até recentemente integrados ao padrão de desenvolvimento.  Como a revolução tecnológica continua, na informação, na comunicação, na produção, crescem as aspirações de consumo de grande parte da população, inclusive dos excluídos que, por exemplo, agora têm telefone celular.

O processo de globalização continua constrangendo progressivamente o poder dos Estados, restringindo sua capacidade de operar seus principais instrumentos discricionários.  As fronteiras nacionais foram escancaradas pela força do mercado.

É evidente que o movimento de precarização do emprego, tanto em termos de salário quanto de formas de contratação, é mais intenso nos países em que o mercado de trabalho mostra-se mais flexível.

O capitalismo atual é alimentado pela força de suas contradições e é claro que o novo modelo global de produção continuará provocando a exclusão social, o aumento do desemprego formal e da flexibilização.  Isto acarretará um aumento na pressão sobre o Estado, exigindo a retomada de políticas públicas eficientes e eficazes na área social.

A atual carência de recursos dos governos (comprometidos a zerar seus déficits) exige um novo e original acordo social que pressuponha a recuperação de indução do Estado, padrões éticos que fortaleçam sua legitimidade e eficiência, e a criação de estruturas eficazes que tenham condição de fiscalizar o cumprimento dos acordos e dos compromissos assumidos nos processos de regulação, incentivando e transferindo para a sociedade civil a operação dos sistemas de amparo social.

O único caminho garantido para diminuir o desemprego ainda é o crescimento econômico, mas mesmo o crescimento não é suficiente para garantir índices crescentes de emprego.  Os vinte anos finais do século 20 foram bastante ruins para o crescimento das economias da maioria dos países latino-americanos. Brasil, México e Argentina mergulharam em graves crises e sua inevitável inserção no mercado global teve sérias conseqüências, inclusive a exclusão de uma grande parte da população.

O Brasil deixou de ser majoritariamente rural para ser dramaticamente urbano,  deixou de ser agrícola para ser mal industrializado, deixou de ser cautelosamente poupador para ser desesperadoramente consumista, deixou de ter uma pobreza digna para ter a exclusão sem esperança, deixou de ter emprego para ter ocupação (se possível), deixou de ser solidário para ser violento e egoísta. (O desemprego dobrou a partir dos anos 80 e chegou ao final do século com 20%, o que levou para o setor informal 58% da força de trabalho nas cidades, fazendo aumentar a precarização, afetando duramente a qualidade do trabalho, a estabilidade de renda e a proteção social.)   No processo,  frustrou-se a possibilidade de uma sociedade mais justa.

O trabalho flexível, insistiam os liberais, seria uma válvula para manter o nível de desemprego sob controle, mas não foi assim; e quanto mais aumenta o setor informal, mais aumenta o desemprego.

Na verdade, quanto maior a vitalidade do mercado global, maior a exclusão social. Seu contínuo avanço não vai garantir que a sociedade futura possa, unicamente por mecanismos de mercado, gerar postos de trabalho (mesmo flexíveis) suficientes em qualidade e renda para as necessidades mínimas da população.

A lógica da globalização e do fracionamento da cadeia produtiva incorporou os bolsões de trabalho barato do mundo, sem necessidade de aumentar-lhes a renda. Os postos formais continuam crescendo menos do que os investimentos diretos. O setor informal acumula o trabalho precário e a miséria.  Os países da periferia estão ameaçados por fluxos e refluxos de recursos especulativos, mas mesmo os países centrais estão enfrentando surtos de liquidez e períodos recessivos. Os pobres de lá também estão mais pobres.

Os Estados nacionais estão em crise, subordinados a metas monetárias rígidas e obrigados a pagar uma dívida impagável.  Especialmente os governos mais pobres é que têm menos recursos e menos estruturas para garantir a sobrevivência dos novos excluídos.

As propostas de superação são tímidas, pouco articuladas, nada audaciosas.  O que se pode pregar é a mudança de atitude social.  E há até quem pregue uma revisão do conceito de felicidade. 

Estamos diante de um grave impasse que coloca a cultura econômica da violência em oposição à cultura da paz.  O futuro depende da nossa capacidade de mobilização e de pressão sobre o Estado, e de como, com responsabilidade, seremos capazes de buscar um caminho para enfrentar imediatamente o estigma da exclusão, que atinge cada vez mais pessoas e que impede a distribuição mais equânime dos resultados da acumulação.

Ao gerarem uma massa de pessoas supérfluas ao sistema, as recentes transformações socioeconômicas redirecionaram o foco dos debates sobre os problemas sociais que provocaram.  Antes, a grande preocupação era com as condições de exploração na qual a inserção se dava.  Agora, nossa preocupação é com a dificuldade de encontrar formas de inserção, quaisquer que elas sejam.

            É urgente participar do debate, agir, agitar, protestar, criar resistência, montar os nossos quilombos, desenvolver a cultura da paz, até por uma questão de sobrevivência.  Porque, assim como não havia preocupação com a sobrevivência dos escravos a não ser enquanto eles tivessem uma utilidade, hoje os donos do poder não estão preocupados com a sobrevivência dos que não têm utilidade e que, por isso mesmo, não parecem merecer a vida.

            Não é fácil encontrar economistas otimistas com a situação e com o futuro, mas Anthony Giddens (o auto do livro Para Além da Esquerda e da Direita) é um realista que propõe o “desenvolvimento alternativo”.  Ele reconhece o agravamento da exclusão e a violência que estão vinculadas ao capitalismo global e sugere uma solução que é mais voltada para uma ampla revisão das políticas públicas e enfocando mais o problema da pobreza e da exclusão do que o problema do desemprego.

            Suas bases para uma saída alternativa estão em um programa político capaz de:

  • § engajamento reflexivo de movimentos sociais e grupos de auto-ajuda;
  • § limitação de danos à cultura local;
  • § rediscutir os estilos de vida e a ética;
  • § restabelecer os valores morais;
  • § promover a autoconfiança e a integridade como meios de desenvolvimento, reconquistando a solidariedade;
  • § melhorar a posição da mulher em relação ao homem (já que elas realizam dois terços do trabalho no mundo, ganhando apenas 10% da renda global);
  • § fortalecer a medicina preventiva e dar autonomia à saúde pública;
  • § combater a exploração infantil (sexual e no trabalho);
  • § fortalecer a família;
  • § combater o patriarcado;
  • § enfatizar as responsabilidades do cidadão e não só os direitos;
  • § dar proteção à terceira idade e utilizar sua capacidade de gerar riqueza e de dar contribuição social;
  • § dar prioridade e proteção total à criança e ao adolescente;
  • § reformular as políticas de seguridade;
  • § combater radicalmente a pobreza;
  • § contestar o poder arbitrário e reduzir o papel da violência na vida social;
  • § restaurar o meio-ambiente;
  • § reconhecer a santidade da vida humana, o direito à realização, à paz e à felicidade.

Nos tempos que estamos vivendo, precisamos de duas palavras mágicas: metanóia e hipnogogia. 

Metanóia significa mudança de mentalidade, mudar o modo de entender e de ser, para poder mudar o modo de fazer.  A metanóia é uma atitude mental e não um processo ou meio de fazer.  O único caminho aparente para a sociedade fugir da situação que a revolução da informática e a globalização criaram com os neoliberais e o capital ganancioso, é deixar de competir pelo que existe, abrir mão das promessas do consumismo, trocar o esforço de sobreviver pelo trabalho para ter e ter um novo, e adotar a criatividade e a solidariedade para ser  e ser feliz..

A hipnogogia é a arte de aprender com o sonho e o que mais precisamos para vencer a crise é aprender a sonhar, levantar a auto-estima, acreditar no futuro e na possibilidade de realizar esse sonho e estabelecer metas que possam ser atingidas para conquistar o objetivo claro, bem traçado.

O Genoma Humano

outubro 11, 2007

Não há mais espaço para as teorias racistas e para a arrogância dos que ainda se imaginam terem sido feitos à imagem e semelhança de Deus. O genoma humano prova que o ser humano difere de outro em apenas 0,1%. Temos menos do dobro de genes de um verme e compartilhamos com ele 2.031 genes.

Freud explica que o homem, em toda a sua história, sofreu três rupturas graves no seu narcisismo:

  • ao descobrir (graças a Copérnico), que a Terra não era o centro do Sistema Solar e muito menos do Universo;
  • ao descobrir (graças a Darwin), que o Homem não era o centro da Criação e que, na verdade, descendia dos chimpanzés;
  • ao descobrir (graças ao próprio Freud), que não é senhor da sua própria casa e que nem sempre o racional comanda as suas reações e dita o seu comportamento.

Agora, acabamos de experimentar a quarta grande ruptura, porque ao descobriu a essência do ser humano os decifradores do genoma afirmam que não há mais espaço para a arrogância de quem se julgava ter sido feito à imagem e semelhança de Deus.

            Estamos começando a ler o livro de receitas que antes só era conhecido por Deus.  Foram precisos  três bilhões de anos de evolução para chegarmos a essa vitória”, disse Francis Collins, anunciando a conclusão do mapa genético do ser humano. Com isso, o 14 de abril de 2003 passa a ser uma data histórica: a do anúncio da conclusão do Projeto Genoma Humano, um dos mais importantes feitos da ciência. 

Esse mapa promete revolucionar a medicina com o diagnóstico antecipado, a prevenção e o tratamento de doenças hoje incuráveis.  Custou, ao todo, 2,7 bilhões de dólares (enquanto a guerra contra o Iraque havia consumido quase 40 vezes mais até junho de 2007).

            O genoma humano é o código químico com todas as instruções para fazer o ser humano e para que ele funcione.  É feito de DNA (ácido desoxirribonucleico), uma longa molécula composta por uma cadeia de fosfato e açúcar em forma de dupla hélice.  Os componentes do DNA são chamados de bases ou nucleosídeos: a adenina, a timina, a citosina e a guanina, respectivamente A, T. C e G, as letras com que se escreve o Livro da Vida.  A adenina sempre se liga com a timina e a citosina com a guanina.

            O DNA humano é composto por 3,2 bilhões de bases.  Os cromossomos são pacotes de DNA.  O ser humano tem 46 cromossomos: 22 pares e os cromossomos sexuais X e Y. Todos os cem trilhões de células humanas contêm um conjunto completo de cromossomos, menos as células sexuais (que só têm a metade) e as hemácias (que não têm).

            O anúncio de que o seqüenciamento (isto é, a identificação ordenada de todas as letras químicas que compõem o código genético do ser humano) estava concluído, chegou dois anos antes do que se esperava, no mês em que se celebra o 50º aniversário da descoberta da estrutura do DNA.  A honra do comunicado coube a James Watson, um dos descobridores da estrutura do DNA e um dos criadores do projeto.

            A conclusão foi oficialmente anunciada num estudo publicado na revista científica britânica Nature e numa conferência em Washington.  Francis Collins, o americano que é o diretor do Projeto disse que o Livro da Vida, com as instruções genéticas do corpo humano, tem acurácia de 99,9%, porque cada indivíduo é único.  Para ele, “o trabalho marca o início de uma nova era de avanços na biologia e na medicina”.

            Um ser humano difere do outro em apenas 0,1%, o que significa uma diferença de 2,1 milhões de letras entre cerca de 3,2 bilhões.  Ou seja, uma letra trocada a cada 500.  Em outras palavras, como diz Collins, “não há base genética para o conceito de raça”.

            Pouco mais de 2% do genoma humano é composto de genes, as seqüências funcionais do DNA que determinam a produção das proteínas necessárias à formação de cada parte do corpo humano. (os genes são como receitas de proteínas).

            Cerca de 98% do genoma humano é de DNA não-relacionado aos genes, mas hoje se sabe que têm importante papel na regulação do organismo e deixam de ser chamado DNA lixo para ser chamado de DNA circundante.

            Em comunicado conjunto, líderes das seis nações que coordenaram o projeto afirmaram que o mapa “fornece a base fundamental para a compreensão de nós mesmos, a partir da qual um revolucionário progresso será feito no campo das ciências biomédicas, da saúde e do bem estar da Humanidade”.

            O genoma é composto de cerca de três bilhões de bases de DNA em 23 pares de cromossomos.  Os genes que controlam o desenvolvimento e o envelhecimento do corpo são feitos de seqüências específicas de bases químicas.  Uma pequena mudança nessas seqüências é suficiente para causar uma doença.  Identificando essas alterações, os pesquisadores acreditam que poderão descobrir a causa de muitas enfermidades e desenvolver novos tratamentos.

            O Projeto Genoma começou em 1990, em 2000 publicou um rascunho (versão preliminar) do genoma humano e concluiu o seu trabalho em 2003, dois anos antes do previsto.

            Há cerca de dois metros de DNA dentro do núcleo de cada célula humana, mas o DNA é tão fino que fica enrolado numa estrutura de 0,0008 centímetros (um quinto do tamanho do menor grão de poeira visível). Mas se todo o DNA contido nas cem trilhões de células de um ser humano fosse esticado, teria a extensão de 600 viagens de ida e volta ao Sol.  E mais: a informação contida no DNA humano é suficiente para preencher cerca de 75 mil páginas de jornal, ou uma pilha de livros de 61 metros de altura…

            As instruções genéticas exclusivas para fazer um ser humano e que estão contidas no genoma, são ínfimas em relação ao total compartilhado com outros seres vivos.  Apenas cerca de dois centímetros e meio dos quase dois metros (por célula) são exclusivos do homem.  Homens e chimpanzés, por exemplo, compartilham mais de 98% do DNA.  Mais de 40% das proteínas humanas são similares às das moscas e dos vermes nematódeos.

            O ser humano tem entre 30 e 40 mil genes (como quase todos os mamíferos). Plantas têm 25 mil, vermes 19 mil, mosca 13 mil, fungos 6 mil, as bactérias cerca de 2 mil.

            Quando o projeto começou eram conhecidos 100 genes cujas falhas estavam associadas a doenças.  Hoje já foram identificados mais de 1.500.

            O seqüenciamento é a leitura da composição química do genoma e 99,99% de acurácia significa um erro a cada 10 mil letras do código da vida.

            A euforia dos cientistas tem razão de ser, mas agora é que vai começar a leitura do Livro da Vida.  As promessa de uma revolução no medicina e de curas espetaculares são válidas, mas ainda demorarão anos, talvez décadas. Segundo disse Allan Bradley, diretor do Instituto Sanger, em Cambridge, no Reino Unido (os maiores contribuidores de seqüências do genoma) “não devemos esperar grandes avanços imediatos, mas não há duvida de que embarcamos em um dos mais entusiasmantes capítulos do livro da vida”

.

O problema é que o genoma seqüenciado revela uma complexidade quase sem limites.  Ao procurar os genes presentes em menos de 3% do genoma que de fato contém instruções bioquímicas, os cientistas encontram muito menos do que esperavam: no máximo 40 mil.  É muito pouco para dar conta de mais de 100 mil proteínas que eles acreditam estar em ação no desenvolvimento e no metabolismo dos seres humanos.  Isto quer dizer que a relação entre os genes e as proteínas não é direta (como parecia nos primeiros tempos da genômica).  E quer dizer também que fica complicada a idéia de que, para curar determinada doença basta identificar a proteína problemática, pela comparação dos genes correspondentes com suas versões normais que estão no banco de dados.  Agora há uma certeza: podem ser dezenas e talvez centenas os genes e proteínas que participam de uma doença.  E a grande meta é a decodificação do proteoma.

            Felizmente, a Celera, empresa privada que ameaçava concluir a leitura do genoma antes do consórcio público e passar a cobrar pelo uso das informações recolhidas ao seu banco de dados e patenteadas, já nem se dedica mais a esse tipo de pesquisa.

            O estudo das células-tronco de embrião (capazes de gerar qualquer outra célula do corpo humano) é, segundo a maioria dos cientistas, um dos principais desdobramentos do conhecimento cada vez mais profundo da genética humana. Mas a criação de clones humanos ou homens transgênicos volta para a ficção científica depois que a clonagem de macacos resos mostrou-se impossível porque as células embrionárias não se dividem corretamente, tornando a gravidez impossível e desmentindo todos aqueles que anunciaram ter clonado seres humanos e conseguido o nascimento de bebês sadios.  Agora se sabe que é mentira.

Na verdade, temos apenas cerca de 30 mil genes (e não 100 mil como vaidosamente supunhamos), menos do dobro de um verme, 300 a mais que um camundongo, o mesmo número do milho.  Temos genomas inteiros de vermes e vírus em nosso código genético e compartilhamos 2.758 genes com a mosca-da-fruta e 2.031 com um verme.  Mais do que isto, ficou claro, segundo John Sulston (líder das pesquisas britânicas para decifrar o genoma humano), “que todos os seres vivos são descendentes de um único organismo que deve ter aparecido em condições especiais há quatro bilhões de anos”.

“A vida emergiu apenas uma vez na Terra”, afirma o geneticista Sergio Danilo Pena, professor na Universidade Federal de Minas Gerais. “A análise do DNA mostra que todos os seres vivos carregam genomas que descendem do genoma primordial.  Isto quer dizer que há uma unidade e que o homem faz parte da teia da vida na Terra.” O que, talvez, agora dê a ele mais responsabilidade ecológica e melhore sua atuação preservacionista sem preconceito contra qualquer espécie.

A genética baniu de vez o conceito de raça: negros, brancos e asiáticos diferem tanto entre si quanto dentro de suas próprias etnias. E essa diferença é de apenas 0,1%.

Dos 30 mil genes, em dois metros de DNA enrodilhados dentro de cada célula, menos de 1% (isto é, menos de dois centímetros) é exclusivamente humano.  A essência da humanidade está na interação desses genes com o ambiente e daí nasce tudo o que é humano: emoções, paixões, humor, medo, assim como as nossas capacidades.

Em resumo: o papel do ambiente é muito maior do que podiam imaginar os que defendiam a tese da determinação genética. Nossa complexidade e nossa inteligência emergem, principalmente, da nossa rica interação com o meio em que vivemos e não da nossa herança genética.

As diferenças biológicas estão restritas às que possam existir num conjunto de mil a dez mil letras genéticas, dentro de um código com três bilhões de letras.  Ao que Svante Paabo, do Instituto de Antropologia Evolucionária Max Plank (Leipzing, Alemanha), acrescenta: “Diferenças e semelhanças serão, ao mesmo tempo, uma fonte de humildade e de respeito à natureza, e um golpe contra a idéia da singularidade humana”.

Na verdade, deve diminuir muito a arrogância da espécie: o homem não passa de uma versão refinada do chimpanzé, tão próximo dele que a ciência ainda não tem certeza absoluta sobre onde estão as diferenças.

Em princípio, essa diferença parece estar na capacidade que os genes humanos têm de se arrumarem, rearrumarem e produzir proteínas.  Enquanto um gene de bactéria faz uma proteína, o gene humano pode fazer dez, com funções diferenciadas.

As diferenças seqüenciais (e não o DNA em si) é que identificam o homem e o fazem diferente, mas não isolado dos outros animais. A decodificação dos genes humanos é um salto em direção ao futuro, mas quanto mais soubermos sobre o genoma humano mais saberemos sobre o passado do homem.  Já sabemos, por exemplo, que o homem de Neandertal não é nosso antepassado, é apenas um homídeo extinto pelos primeiros homens modernos.

Os ancestrais do homem separam-se dos macacos há seis milhões de anos, mas o chimpanzé tem 98% de genes comuns com o ser humano.

A grande investigação em andamento é identificar os marcadores genéticos adquiridos ao longo da evolução humana.  Outra é investigar e entender o antes chamado DNA lixo, que não controla a produção de proteínas mas tem uma participação importante na produção diferenciada de proteínas e constitui 98% do nosso DNA.

Ana Tereza Ribeiro de Vasconcelos, do Laboratório Nacional de Computação Científica, é uma especialista em DNA lixo, melhor chamado circundante.  Ela acredita que essa parte do genoma ganhou nova importância: “Ele parece ter os sistemas reguladores do genoma.” (Em bactérias já sabemos que é assim.)  Ela compara o genoma a uma orquestra, onde os genes seriam os instrumentos e o DNA circundante um maestro.  O problema é saber como o maestro orquestra seus músicos, agora que sabemos que a sinfonia humana se resume, quase inteiramente, a notas velhas tomadas de outras peças musicais.  Somos únicos, mas não somos feitos de peças únicas.

Ela diz que ainda há muita pesquisa a ser feita, anos de trabalho para, por exemplo, descobrir porque o DNA circundante guarda restos de genes já sem função aparente.  “A natureza não joga nada fora à-toa.  Se foram guardados pelo DNA devem ter alguma função.” Para Ana Tereza, a primeira coisa a fazer é mudar o nome do DNA que muita gente ainda chama de lixo. No mínimo, ele é reciclado, ou circundante.

A aplicação mais imediata das descobertas sobre o genoma humano será muito provavelmente, no diagnóstico de doenças.  Num futuro não muito distante, o exame de uma gota de sangue será suficiente para prever ou detectar mais de 800 doenças.  E esse número tende a crescer.

Decifrar o genoma humano aumentará também o número de opções terapêuticas e permitirá o desenvolvimento de drogas mais eficientes e até de remédios personalizados, destinados a corrigir falhas genéticas específicas.  Isso diminuirá muito o risco de efeitos colaterais.

É certo que a medicina será muito mais voltada para a prevenção.

Outro setor que vai ser beneficiado é o do combate aos vícios porque o mapeamento genético permite entender como as drogas atuam no mecanismo molecular para viciar a pessoa.

Aumentaram muito as esperanças de tratamento para os diversos tipos de câncer, porque todos eles têm origem genética, por alteração de um ou mais genes.  O tratamento será mais personalizado, pode ser mais barato, e o prognóstico da doença mais correto.

Do que se sabe hoje, entre os genes há diferenças acentuadas e eles distribuem-se de forma irregular pelos cromossomos.  Por exemplo, os números 17, 19 e 22 têm um grande número de genes (e sua diversidade foi comparada à de uma floresta tropical).  Já os cromossomos X, Y, 13 e 18 foram chamados de “desertos genéticos”.

Além disso, os genes existem em ilhas, separadas por oceanos do DNA circundante, que são seqüências de bases genéticas repetitivas e sem significa conhecido, que herdamos dos transposons, vírus parasitas e constituem 98% do genoma que não consiste de genes.

Os cromossomos 1, 6 e X carregam mais mutações ligadas a doenças do que todos os outros.  Só no X há genes ligados a 200 doenças.

Aprender a ler o nosso código genético ainda é uma tarefa “para décadas”, segundo Eric Lander, principal autor do estudo do Projeto Genoma.  E não esperem uma revolução da medicina para já: ela pode demorar muitos anos, talvez décadas.

A sociedade precisa pensar agora nos limites éticos dessa grande viagem pelo corpo humano e nas implicações das mudanças prometidas.  O homem está pronto para alterar a própria espécie e a sociedade pode ser beneficiada ou prejudicada, dependendo de haver ou não um comportamento ético. 

Por exemplo: as patentes da engenharia genética vão beneficiar a maioria ou só a elite econômica que possa pagar? A Celera já havia  pedido patente das suas descobertas e queria ficar com o direito de exploração comercial.

Falar em ética com os pesquisadores genéticos privados talvez não seja fácil, se considerarmos que a Incyte Genomics oferecia acesso a 120 mil genes humanos, a Human Genome Sciences garantia ter identificado 100 mil, a Double Twist 105 mil e a Alfymetrix 60 mil genes, quando o homem tem apenas entre 35 e 40 mil… Era, evidentemente, vigarice e reserva de mercado.

Enquanto se discute, em todo o mundo, se é ou não é ético clonar o ser humano para fins reprodutivos, rediscute-se a prória ética na ciência, que nem sempre tem padrões éticos.

O exemplo clássico de falta de ética na ciência foi dado por Sigmund Freud não foi ético ao abandonar a Teoria da Sedução e criar o Complexo de Édipo. Freud sabia da violência sexual contra crianças porque, até seu pai, Jacob, violentava regularmente sua irmã e seu irmão.  Sua paciente Emma foi vítima de incesto aos 12 anos e ele sabia disso.

            Freud insurgiu-se de público contra essa barbárie, em 1896, quando lançou a corajosa Teoria da Sedução, denunciando os efeitos nocivos dos ataques sexuais às crianças. Uma teoria comportamental.

            Os médicos, em bom número abusadores e estupradores de crianças, não podiam concordar e cuidaram de usar a máquina corporativa para boicotar aquele “perigoso corruptor da moral da classe”.

            A teoria de Freud virou uma simples nota nas atas das conferências. O Neurologisches, que noticiou as conferências detalhadamente, sequer mencionou a Teoria da Sedução.

            As Correspondências Completas de Freud omitem uma carta-desabafo a Fliess a respeito.  O que Freud não sabia é que Fliess também violentava o filho, Robert. E que ele manipulava histórias reais de estupro como fantasias.

            Freud quase foi à falência.  Seu consultório não conseguiu novos clientes e perdeu os antigos, por conta de campanha dos colegas. Ele, então, decide abandonar sua Teoria da Sedução, em 1897, substituindo-a depois pelo Complexo de Édipo (uma teoria genética).  Como diz o psicólogo Jacob Bettoni, da Universidade Federal do Paraná, que revelou a falcatrua de Freud, um passe de mágica transmutou a vítima infantil em acusada e o marmanjo estuprador em vítima das tentações edipianas, para total aplauso de colegas, amigos, parentes e clientes.

           Freud sempre soube de adultos impondo práticas sexuais contra crianças, contra as próprias filhas e filhos, que não as desejavam nem incentivavam.  E escreveu sobre isso a Fliess (carta também sonegada das chamadas Correspondências Completas).

          Em 1980 Jeffrey Masson localiza documentos sonegados ao público por psicanalistas, mostrando que o Complexo de Édipo era uma fraude, um embuste montado com interesses corporativos e com a cumplicidade da imprensa da época.  Resultado: perde o cargo de diretor da Associação Psicoanalítica Internacional (fundada por Freud em 1910).

            Para Bettoni, a difusão atual do Complexo de Édipo, depois de comprovado o embuste, deve ser encarada, academicamente, como uma fraude científica, e judicialmente como propaganda enganosa, porque ludibria a sociedade e incentiva a impunidade.

            O que é certo é que o debate ético não vai impedir o avanço da ciência nem as experiências de clonagem. E a busca do que faz um ser humano ser um ser humano vai continuar, para muito além do genoma.  Os genes são insuficientes para nos explicar e a chave do conhecimento humano fica mesmo à espera do resultado de uma outra maratona científica: a decifração da proteoma, que nos faz tão diferentes de moscas e vermes.  O homem deve fabricar, possivelmente, 300 mil proteínas diferentes, combinantes, e isso é que faz a singularidade do ser humano, que permanecerá um mistério ainda por muito tempo.

            Só que, agora, bem mais humilde.

Aqui vai um pequeno vocabulário para quem quer conversar sobre o assunto genoma.

            Genoma Humano. O genoma humano é um código químico que contém as instruções para que seja feito um ser humano.  É feito de DNA. uma longa molécula (dois metros) composta por uma cadeia de fosfato e açúcar, em forma de hélice dupla.

DNA. É o ácido desoxirribonucleico, que é composto por bases ou nucleosídeos: adenina, timina, e citosina e guanina. A adenina sempre se liga com a timina e a citosina com a guanina. O DNA humano tem 3,1 bilhões de pares de bases. É no DNA que estão os genes.

DNA lixo. O ainda chamado de DNA lixo não tem genes, apenas restos de genes que já não funcionam.  Aparentemente, esse DNA não tem função mas os cientistas já admitem que possa ter papel importante na evolução e na proteção natural contra as mutações prejudiciais à espécie.  Corresponde a 98% de todo o DNA e alguns cientistas já se referem a ele como DNA circundante.

Cromossomo. São pacotes de DNA.  O homem tem 46 cromossomos (22 pares mais os cromossomos sexuais X e Y).  Todas as 100 trilhões de células humanas contêm um conjunto completo de cromossomos, menos as células sexuais, que só têm a metade, e as hemácias, que não têm qualquer cromossomo.

Genes. São seqüências funcionais de DNA.  Elas é que determinam a produção das proteínas necessárias à formação de cada parte do corpo humano.  Os genes são uma espécie de “receita de proteína”.  Pouco mais de 2% do genoma humano é composto de genes mas, ao que se sabe, os genes humanos são capazes de produzir várias proteínas, com funções diversas. (Os genes dos vermes, por exemplo, só têm capacidade para produzir uma proteína com uma função.)  O homem tem cerca de 30 mil genes e é 98% semelhante ao chimpanzé. (Plantas têm até 25 mil, vermes microscópicos têm 19 mil, a mosca-da-fruta 13 mil, um fungo 6 mil, uma bactéria 2 mil).

O Código Genético. A imprensa anunciou que o código genético estava decifrado mas ainda falta muito para isto.  Conhecemos o código, mas não o seu significado, o que deve demorar talvez uma década.  Os cientistas só conseguiram isolar 15 dos 30 mil genes humanos. A função de 7 mil é conhecida (ainda que superficialmente).  E já se reconhecem 1.570 genes que, quando defeituosos, podem causar doenças.

 O Brasil está na elite mundial da pesquisa genômica e é o único país do Hemisfério Sul a ter domino dessa tecnologia.  Já se fez aqui, no ano passado, o primeiro seqüenciamento de um genoma: o da bactéria Xylella fastidiosa (com o patrocínio da Fapesp).  Existe um BRGene (Projeto Genoma Brasileiro) no Conselho Nacional de Pesquisa, reunindo cientistas de todo o país e vamos promover a Brazilian International Genome Conference (em Angra dos Reis, Estado do Rio de Janeiro, de 26 a 29 de março), quando estarão reunidos alguns dos maiores especialistas do mundo.

Quem organizou a pesquisa com o genoma no Brasil foi um inglês. O geneticista Andrew Simpson, que está aqui desde 1989, casou-se com brasileira e tem dois filhos brasileiros. Ele esteve à frente da pesquisa com a Xylella, bactéria que atacava os laranjais e dava grande prejuízo aos produtores

Os brasileiros já concluíram também o seqüenciamento do genoma da bactéria Xanthomonas citri e o dos genes da cana-de-açúcar e estamos de investigar o genoma de outras dez bactérias prejudiciais à agricultura.  É uma estratégia, para que a pesquisa genômica torne-se auto-sustentável e para que o Brasil faça contribuições inéditas.  Como deve ser o caso da pesquisa da BRGene com a Chromobacterium violarem, nativa do Rio Negro, que tem vida livre e grande potencial para a biotecnologia: ela produz uma substância com propriedades antibióticas e uma espécie de plástico biodegradável, além de concentrar ouro e abrir perspectivas novas na biomineração.

Mas também temos bons resultados na pesquisa do genoma humano do câncer, que já atingiu um milhão de seqüências de genes expressos em tumores.  Na prática isto significa uma aceleração dos testes de diagnóstico e a possibilidade de novos medicamentos. O que se anuncia  para um futuro não muito distante, são remédios personalizados, depois de identificadas as características geneticas dos tumores de cada paciente. Outra área promissora é a da identificação das mulheres sujeitas a câncer de mama e daquelas 20% que, mesmo operadas, têm câncer de mama novamente.  A quimioterapia tende a desaparecer.  Mas o conhecimento de que o mesmo mecanismo de mutações que possibilita a evolução da espécie é que causa o envelhecimento e o câncer, permitirá controlá-lo melhor, pessoa a pessoa, com mais sucesso.

Só que, como bom cientista, Simpson não se engana: “Quanto mais nós avançamos nas pesquisas e descobertas, mais estamos certos de que somos mais ignorantes do que sábios e que temos cada vez mais o que aprender, inclusive sobre nós mesmos.”

O Ser Humano É Um Erro da Evolução

outubro 11, 2007

O ser humano tem três cérebros e não tem como determinar qual deles está com o comando da situação no momento. E tem dois tipos de inteligência: o racional e o emocional. Engana-se que defende que a razão deve superar a emoção. O ideal é a harmonia entre o sentimento e o pensamento, no controle que permite ação com sentimento.

Antigamente, a amígdala ficava na garganta.  Hoje fica no cérebro e é um feixe em forma de amêndoa (amigdala, em grego) situado acima do tronco cerebral, perto da parte de baixo do anel límbico.            Há duas amígdalas, uma de cada lado do cérebro, localizadas nas laterais da cabeça.

            A amígdala cortical funciona como um depósito de memória emocional e a vida emotiva, sem ela, é totalmente impossível.  Relativamente grande, em comparação com a de qualquer primata, a amígdala e o hipocampo eram duas partes importantes do primitivo “nariz cerebral” que deu origem ao córtex e depois ao neocórtex. Até hoje essas estruturas límbicas são responsáveis por grande parte da aprendizagem e da memória do cérebro. A amígdala é especialista em questões emocionais, e se ela for retirada o resultado é que a pessoa passa a ter uma impressionante incapacidade de avaliar o significado emocional dos fatos, um mal chamado de “cegueira afetiva”. E fica incapaz de chorar, já que as lágrimas são provocadas pela amígdala cortical (e uma estrutura próxima, a circunvolução cingulada).  Sem amígdala não há lágrimas para aliviar o sofrimento e por mais que você seja abraçado, afagado ou reconfortado, não tem como receber consolo e acalmar-se.

            Quando alguém é submetido a uma violenta emoção, fica furioso e pode cometer atos irracionais.  Depois, dirá que “perdeu a cabeça” e que sentiu como se ela estivesse explodindo.

            Essas explosões emocionais são conhecidas pelos especialistas como “seqüestros neurais” ou “seqüestros emocionais” e também chamados de “seqüestros da amígdala”.  Um centro no cérebro límbico proclama uma emergência e recruta o resto do cérebro para o seu plano de emergência. O seqüestro ocorre momentos antes do neocórtex ter a oportunidade de perceber o que está acontecendo e de poder decidir sobre a melhor reação.  Uma característica desse seqüestro é que, assim que ele passa, o cérebro dominado não tem a menor noção do que deu nele: é o que um advogado criminal chamaria de “privação dos sentidos”.

            Esses seqüestros não são raros nem levam necessariamente a crimes brutais. Na verdade, a tomada do poder neural ocorre com freqüência com todos nós e nem sempre é aflitivo.  Quando ouvimos uma anedota muito engraçada e nossa risada explode, essa também é uma resposta límbica, um seqüestro neural.

            Na arquitetura do cérebro a amígdala é,principalmente, o alarme.  Quando há algum perigo, o alarme dispara mensagens urgentes às principais partes do cérebro e lança no organismo todos os hormônios necessários para lutar ou fugir, mobiliza  os centros  de  movimento, ativa o sistema cardiovascular, os músculos e os intestinos.  Ao mesmo tempo, para aumentar a capacidade de reação das principais áreas do cérebro e tornar os sentidos mais alertas, manda sinais para a produção imediata de gotas de noradrenalina.  Faz mais ainda, determina ao tronco cerebral que acelere o coração, que aumente a pressão sangüínea e que reduza o ritmo da respiração, enquanto vasculha a memória cortical procurando dados importantes sobre a emergência e sobre o melhor procedimento para a situação: a luta ou a fuga.

            Isto é apenas parte de uma série de medidas que a amígdala determina ao cérebro e ao resto do corpo, com uma velocidade assombrosa, através de sua extensa rede de ligações neurais que permite, em qualquer emergência emocional, que ela assuma o comando completo do cérebro, inclusive da sua parte racional.

            A velocidade de resposta da amígdala se deve ao fato de que os sinais sensoriais captados pela visão, pela audição, pelo olfato, pelo tato ou pelo paladar viajam no cérebro pelo tálamo e, por uma única sinapse, direto para a amígdala. Um segundo sinal sai do tálamo para o neocórtex (o cérebro pensante, racional).  Quando a amígdala já está decidindo, é que o cérebro pensante começa a preparar uma resposta cuidadosa para a situação.  A amígdala é capaz de nos lançar em uma ação automática, enquanto o cérebro racional, um pouco mais lento, traça um plano de ação mais refinado.  Em resumo: algumas das nossas reações são o resultado de lembranças emocionais que não têm qualquer participação consciente ou baseada no conhecimento, porque a ligação direta do tálamo com ela contorna o neocórtex. (Por isso mesmo, diante de uma reação emocional brusca e abusiva, nós perguntamos a quem age assim: “Você não pensa antes de agir?”).

            Nos primeiros milésimos de segundo depois de percebermos alguma coisa, compreendemos inconscientemente (isto é, sem consciência) o que é, decidimos se gostamos ou não e reagimos de acordo.  Nossas emoções têm uma mente própria que pode ter opiniões muito diferentes das que tem a nossa mente racional.

            Na amígdala ficam guardadas as opiniões inconscientes, as memórias emocionais.  Na estrutura do sistema límbico, o hipocampo é que faz o registro e atribui sentido, dá a memória precisa dos fatos e permite lembrá-los com exatidão.  Mas é a amígdala que retém o significado emocional que acompanha aqueles fatos.  O hipocampo reconhece o cachorro que avança, mas a amígdala é que sabe que ele é uma ameaça, um perigo.

            Os mesmos sistemas de alarme neuroquímicos que preparam o corpo para reagir a qualquer emergência ou perigo, também gravam esse momento na memória emocional.  Sob tensão, ansiedade, excitação ou intensa alegria, um nervo que liga o cérebro às glândulas supra-renais (que ficam acima dos rins) provoca a produção de dois hormônios: a epinefrina e a norepinefrina.  Esses hormônios invadem o corpo, preparando-o para a emergência, ativam receptores no nervo vago, transmitem mensagens para regular o coração e ainda retransmitem mensagens para o cérebro.

            A amígdala é o primeiro e o principal ponto do cérebro para onde vão esses sinais, e ali ativam neurônios, que por sua vez emitem sinais a outras partes do cérebro, dando reforço à memória sobre o que está acontecendo. Esse estímulo da amígdala, ao que se sabe, é o principal responsável pela gravação, na memória, dos estímulos emocionais mais intensos.  Quanto mais intenso o estímulo da amígdala, mais forte o registro.  Todas as experiências mais emocionantes, boas ou más, ficam gravadas para sempre.

            Isto quer dizer que o cérebro humano tem dois sistemas de memória: um para os fatos e datas comuns e outro para tudo o que sentimos e que está carregado de emoção.  Na luta pela sobrevivência animal, a memória emocional era fundamental para sobreviver aos perigos imediatos, mas hoje as memórias emocionais podem ser um mau conselheiro.

            Enquanto a amígdala prepara uma reação ansiosa e impulsiva, outra parte do cérebro emocional possibilita respostas mais cuidadosas: na outra ponta de um circuito principal do neocórtex, nos lobos pré-frontais, logo atrás da testa, fica a região que permite sufocar ou controlar a emoção, ganhando tempo para tratar da situação depois de avaliá-la melhor.  Essa região neocortical do cérebro dá respostas mais analíticas e mais adequadas a nossos impulsos emocionais, submetendo a amígdala a outras áreas límbicas.

As áreas pré-frontais geralmente governam nossas reações emocionais porque a maior parte das informações sensoriais do tálamo vão para o neocórtex e seus muitos centros e não para a amígdala.  Mais informado, o neocórtex, coordenado pelos lobos pré-frontais, pode planejar e organizar as ações de resposta, depois de uma série de análises da informação através de vários circuitos. Se for identificada a necessidade de uma resposta emocional, os lobos pré-frontais são capazes de determiná-la, trabalhando com outros circuitos do cérebro emocional, inclusive a amígdala.

Quando uma emoção dispara, quase imediatamente os lobos pré-frontais fazem uma avaliação do tipo custo/benefício e decidem qual a melhor reação: atacar, fugir, tentar apaziguar, procurar persuadir, atrair simpatia, provocar culpa, fazer uma bravata, mostrar desprezo e mais um sem-número de ardis emocionais de um vastíssimo repertório.

A resposta do neocórtex é, evidentemente, mais lenta do que o mecanismo do seqüestro, porque precisa transitar por mais circuitos.  Mas também é mais ponderada e certamente mais criteriosa, porque mais pensamentos trabalharam a emoção.

Como acontece com quem perde a amígdala, quem perde o funcionamento dos lobos pré-frontais perde uma grande parte da vida emocional, porque sem compreender que alguma coisa merece uma resposta emocional, não existe resposta.

Não é incomum encontrar crianças e adolescentes com QI acima da média, mas com fraco desempenho escolar: eles sofrem de deficiência no funcionamento do córtex frontal. Essas pessoas, impulsivas, ansiosas e, muitas vezes, perturbadas têm problemas de disciplina e são as mais propensas a ter problemas de relacionamento, mais sujeitas ao envolvimento com álcool e outras drogas, e com a criminalidade.  Elas não têm qualquer deficiência intelectual, mas têm deficiência de controle emocional.

O circuito pré-frontal / amígdala é uma entrada de fundamental importância para o repertório de preferências e aversões que montamos ao longo da vida e muitas vezes tomamos decisões erradas por termos perdido contato com aquilo que foi aprendido através da emoção. Os sentimentos são indispensáveis nas decisões racionais, embora às vezes nos levem a ações irracionais.

O certo é que temos praticamente três cérebros e duas mentes, dois tipos diferentes de inteligência: a emocional e a racional. Nosso desempenho na vida é determinado pelas duas e é preciso haver um equilíbrio inteligente entre as duas para sermos bem sucedidos.  Engana-se quem defende que a razão deve superar a emoção; assim como está enganado quem imagina que a emoção é que deve prevalecer sobre a razão.  A verdade, como sempre, está no meio, no equilíbrio, na razão com emoção, na harmonia do sentimento com o pensamento, no controle que permite a ação, mas leve em conta os sentimentos.

Inteligência emocional, segundo o psicólogo Daniel Goleman, autor do livro Emotional Intelligence, traduzido no Brasil como Inteligência Emocional, é:

  • a capacidade de criar motivações para si próprio e de persistir em um objetivo, apesar das dificuldades;
  • a capacidade de controlar impulsos e de saber esperar pela satisfação de seus desejos;
  • a capacidade de manter-se em bom estado de espírito e de impedir que a ansiedade interfira na capacidade de raciocinar;
  • a capacidade de ser empático e autoconfiante.

E diz mais: que as aptidões emocionais necessárias para se ter uma inteligência emocional podem ser aprendidas e aprimoradas por crianças pequenas, se nos dermos ao trabalho de ensiná-las.

Há muitas evidências de que as pessoas emocionalmente competentes, as que conhecem bem e sabem lidar com os próprios sentimentos, as que entendem e respeitam os sentimentos dos outros, dão-se bem e levam vantagem nas suas relações de parentesco, nas relações amorosas e nas relações de negócio.  Ao contrário, as emocionalmente menos inteligentes não conseguem pensar com clareza e geralmente se dão mal, como pais, como maridos e como empregados ou patrões.

Também há muitas evidências de que nem sempre os mais inteligentes ou mais preparados têm mais sucesso: muitas pessoas de QI baixo e teoricamente mal preparadas se dão melhor porque são autoconfiantes, têm empatia, mantêm-se em bom estado de espírito, são menos ansiosas, controlam seus impulsos e são mais fiéis aos seus objetivos.  Em resumo: são emocionalmente inteligentes.

Outro psicólogo, Howard Gardner, da Escola de Educação de Harvard, diz que “devíamos gastar menos tempo avaliando as crianças e mais tempo ajudando-as a identificar suas aptidões e dons naturais e a cultivá-los. Há centenas e centenas de maneiras de ser bem-sucedido e muitas, muitas aptidões diferentes que as ajudarão a chegar lá”. 

Para Gardner (autor do livro Frames of Mind) o âmago da inteligência emocional está na capacidade de discernir e responder adequadamente ao humor, temperamento, motivação e desejo de outras pessoas, assim como na capacidade de reconhecer nossos próprios sentimentos, classificá-los e usá-los para orientar nosso comportamento.

Na verdade, as emoções enriquecem a inteligência, mas se não tivermos controle sobre elas o modelo mental fica empobrecido.

Para ter uma inteligência emocional é preciso:

1.   conhecer as próprias emoções;

2.   saber lidar com elas;

3.   aprender a motivar-se;

4.   reconhecer as emoções dos outros;

5.   saber lidar com os relacionamentos.

Conhecer suas emoções é ter autoconsciência, é reconhecer um sentimento rapidamente, quando ele ocorre, e ter a capacidade de controlar sentimentos a cada momento, ter discernimento emocional.  A incapacidade de observar, reconhecer e controlar nossas emoções nos deixa à mercê delas.

Quanto mais segura é uma pessoa, a respeito de suas próprias emoções e sentimentos, mais capacidade tem de orientar sua vida, de tomar decisões, porque tem uma consciência maior. Saber lidar com as próprias emoções e as emoções alheias dá à pessoa uma enorme vantagem no relacionamento social.

Aprender a lidar com os sentimentos é uma aptidão que se desenvolve com a autoconsciência.  Tornar as emoções apropriadas, através de nossos mecanismos de controle, é ficar apto para usá-las do melhor modo possível em nosso benefício. Para isto é necessário motivar-se e descobrir quais são as motivações que mais e melhor funcionam.

Reconhecer as emoções dos outros, e respeitá-las, cria empatia, outra capacidade que se desenvolve na autoconsciência emocional e que é fundamental para que a pessoa entre em sintonia com as outras e seja bem recebida por elas. Saber escutar, entender o que os outros precisam, o que os outros querem, o que os outros esperam, é meio caminho para conseguirmos deles aquilo que queremos, porque empatia gera simpatia e boa vontade.

A arte do relacionamento é, na sua maior parte, a arte de escutar, de entender, de lidar com as emoções e os sentimentos dos outros.  Saber lidar com as pessoas por entendê-las é um pré-requisito da empatia, da popularidade, da liderança e da eficiência no trabalho em grupo, da comunicação entre pais e filhos. Interagir com tranqüilidade, controle e compreensão é uma forma de ser feliz e ter o respeito dos outros.

A base da aptidão emocional, do controle das emoções, é a afetividade. Se não houver muito carinho, muita atenção e uma afetividade muito rica, não se pode ensinar a criança a ser emocionalmente inteligente.  Nem se pode educar o adulto, embora ele possa melhorar seu comportamento, combater sua inaptidão e desenvolver algum controle emocional.

Pessoas com QI elevado são, naturalmente, ambiciosas e produtivas, previsíveis e obstinadas, mas também podem ser emocionalmente frias.  Pessoas com um alto grau de controle das emoções geralmente são equilibradas, comunicativas, animadas, têm grande capacidade de engajamento, são solidárias, atenciosas, éticas e têm vida emocional rica. É raro, mas é possível, encontrar pessoas que têm QI alto e bom controle emocional: são as pessoas de mais sucesso, à vontade consigo mesmas e com os outros, em tudo o que fazem, inclusive nos seus relacionamentos.

Mas uma coisa é certa: se formos ao passado das pessoas dos dois últimos grupos, todos tiveram um bom desenvolvimento afetivo.  O desamor, certamente, contribui muito para diminuir o controle dos sentimentos e a inteligência emocional.

Não há desaforo ou preconceito na afirmação, mas é mais fácil encontrar um homem do que uma mulher sem sentimentos.  O homem emocionalmente plano ou vazio não tem emoções, não demonstra seus sentimentos, é incapaz de uma reação. Impassível, indiferente, frio, e é assim porque não se emociona, não tem sentimentos fortes.  Sem raiva, tristezas ou alegrias, não compreende os outros.

Os especialistas chamam isso de alexitimia, palavra composta que vem do grego: a (ausência), léxis (palavra) e thimós (emoção).  Faltam a eles palavras para descrever os sentimentos, porque na verdade eles não têm sentimentos nem capacidade de manifestar emoção. Os alexíticos, por exemplo, raramente são capazes de chorar. Embora haja casos de incapacidade biológica, eles são raros e geralmente a doença foi provocada por acidentes que afetaram o cérebro dessas pessoas.  No entanto, a aleximia e a incapacidade de emocionar-se geralmente são provocadas por pais violentos, castradores e que não admitiam que os filhos ficassem emocionados ou demonstrassem sentimentos, castigando-os com violência quando isso ocorria. 

Ensinar a criança e o adolescente a manifestar suas emoções, a falar delas, a reconhecê-las é um meio de evitar a aleximia e de educar  para a sensibilidade e para a vida emocional. Quando você consegue colocar em palavras o que está sentindo, o sentimento fica sob o seu controle. Ao contrário, sem saber ou sem poder exprimir os sentimentos, você não toma posse do que está sentindo.

Crianças, adolescentes e mesmo adultos impedidos de expressar seus sentimentos, geralmente somatizam: isto é, exprimem a dor emocional através de uma dor física, quase sempre muito intensa (é bom não confundir a somatização com a doença psicossomática, quando problemas emocionais causam doenças físicas autênticas e que exigem tratamento médico).

Resumindo: o desenvolvimento intelectual, isto é, o desenvolvimento da inteligência racional, depende muito das nossas emoções, da nossa capacidade de reconhecê-las, de falar a respeito delas e de controlá-las.  Em outras palavras, depende da inteligência emocional.

Sentimentos fortes podem devastar e até impedir o raciocínio.  Mas a falta de consciência dos sentimentos é ainda mais destrutiva, principalmente na hora de avaliar e de tomar decisões importantes para a nossa vida, para o nosso futuro, decisões duradouras.  Essas decisões não podem ser tomadas apenas com a razão, exigem uma boa dose de intuição, da sabedoria emocional que acumulamos com experiências anteriores.

Houve uma enorme mudança na natureza da infância e da adolescência nos últimos 20 anos.  As habilidades emocionais e sociais básicas de crianças e adolescentes vêm decaindo. 

A crise está instalada e grande parte da literatura e das teorias educativas não dá importância a emoções e sentimentos.  A maioria nem toca no assunto e o resultado é que pais e mesmo educadores não sabem como controlar emoções (há alguma coisa mais antipedagógica do que um professor expulsar um aluno da sala por não saber lidar com ele?).

Não há educação para os sentimentos e as emoções parecem cada vez mais fora de controle e agora temos notícias inéditas até 20 anos atrás: crianças assassinas, não só de outras crianças como de adultos. E crianças cada vez mais jovens. E adolescentes envolvidos em gangues brutais, violentas, capazes de incendiar um índio “por diversão” ou de matar pelo prazer de provocar sofrimento e “ter o que fazer”

É claro que amor e atenção são a base da educação familiar, mas o que temos observado é que, às vezes, todo o carinho e cuidado não são suficientes, quando os pais ou mesmo um deles é emocionalmente descontrolado.  Ou quando o pai ou a mãe é emocionalmente incapaz, tem medo dos seus sentimentos, não consegue expressar suas emoções e nem conversar com os filhos a respeito.  Pais que não sabem lidar com os filhos quando eles estão irritados, ou tristes, ou sob estresse emocional não estão preparando os filhos para um desenvolvimento normal.  E, certamente, vão ter problema com eles.

Pessoas emocionalmente inteligentes são as que estão preparadas para lidar com os sentimentos e as emoções e as que sabem preparar seus filhos para lidar com elas. Esse preparo inclui a capacidade de regular os próprios estados emocionais, para dar o exemplo.

A comunicação emocional é possível e desejável e o treinamento da emoção faz com que pais e filhos compreendam-se e lidem juntos com sentimentos tidos como negativos, a raiva, o medo, a tristeza.  Isso aumenta a afeição e a lealdade dentro do grupo, aumenta a confiança e o diálogo.

Na verdade, não há sentimentos negativos o que há é a conseqüência negativa de alguns sentimentos não controlados emocionalmente.

É interessante verificar que pais emocionalmente atentos desde muito cedo e que cuidam de preparar os filhos ainda bebês, têm mais facilidade para colocar limites quando chega a hora.  É que a aceitação, a obediência e a responsabilidade vêm do afeto, da atenção e da ligação emocional da criança com os pais.  Isto quer dizer que quanto maior for a interação emocional de pai e mãe com a criança, melhor é a base de transmissão de valores e da formação ética e moral.  Mais tarde, é altamente provável que haja melhor diálogo entre os pais e essas crianças quando elas entrarem na adolescência, porque é verificável que famílias emocionalmente integradas têm mais intimidade entre seus membros, maior capacidade e facilidade para o diálogo.

O aumento das separações, da violência, das dificuldades do dia-a-dia tornam imprescindível criar filhos emocionalmente estáveis e bem resolvidos.

Como lidar com os filhos quando os ânimos esquentam? Tanto a criança quanto o adolescente precisam ser tratados com respeito e paciência, qualidades  indispensáveis para educar. Mas há momentos em que a provocação é tão intensa que é difícil ser paciente e manter o respeito, uma vez que nos sentimos desrespeitados e desacatados.  O problema é que o racional não funciona na crise e é preciso saber lidar com as emoções para evitar a crise e/ou para sair dela.

A ciência, nos últimos anos, descobriu muito sobre a importância das emoções e pode-se dizer hoje que sem saber lidar com os sentimentos é impossível ter sucesso e ser feliz.  Perceber os sentimentos próprios e os sentimentos dos filhos, ser capaz de compreendê-los, de controlar os impulsos e de ensinar a fazer esse controle, é o que exige a educação contemporânea.

É na família e com ela que a criança aprende, em primeiro lugar, a relacionar-se (bem ou mal) com os sentimentos, as emoções, os impulsos.  E essa formação não se faz apenas através do que dizemos aos nossos filhos, ou de como agimos com eles, mas do modo como lidamos com nossos próprios sentimentos, emoções e impulsos e do nosso relacionamento dentro da família.  Para o adolescente, isto é fundamental.

Há bons pais e maus pais, do ponto de vista emocional: os que têm controle emocional e orientam os filhos e aqueles que não se controlam e não conseguem dar orientação emocional a eles.

Os pais emocionalmente corretos envolvem-se com as emoções dos filhos, com a raiva, com o medo, com a tristeza. (Por falar nisso, qual é a diferença entre a tristeza e a melancolia?) Não as ignoram nem se opõem à manifestação de sentimentos da criança ou do adolescente.  Ao contrário, aceitam, como parte natural da vida, mas aproveitam os momentos de exaltação emocional da criança ou do adolescente para ensinar importantes lições de vida e construir um relacionamento emocional mais íntimo.

Pais que não dão importância àquilo que a criança está sentindo, que banaliza ou ignora as emoções da criança, os que criticam essas emoções e tentam evitá-las, os que castigam os filhos por demonstrarem suas emoções e os que simplesmente assistem, indiferentes, sem dar apoio, conselho ou limites, são todos maus pais, incapazes de ensinar inteligência emocional aos filhos.  Pais que desrespeitam o adolescente e são incompetentes para compreendê-lo, amá-lo e controlar as crises, são emocionalmente incompetentes.

Preparar emocionalmente uma criança ou um adolescente é um processo que exige que:

1.   os pais sejam capazes de reconhecer e lidar com os próprios sentimentos e emoções, controlando seus impulsos;

2.   percebam os sentimentos e as emoções da filha ou do filho;

3.   façam com que a criança ou o adolescente  reconheça seu sentimento ou a sua emoção; ajudando-o a encontrar palavras para expressar o que está sentindo;

4.   saibam ouvir com empatia, apoiando e legitimando os sentimentos e as emoções da criança ou do adolescente;

  • 5. aproveitem a oportunidade para ensinar, desenvolver os controles e aumentar a intimidade com a criança ou com o adolescente;
  • 6. coloquem limites e saibam explorar as estratégias para evitar as crises e/ou solucioná-las.

Quais são as vantagens do preparo emocional?

Em primeiro lugar, desenvolver os controles e a inteligência da criança ou do adolescente. Crianças e adolescentes com preparo emocional também são mais saudáveis, do ponto de vista físico, porque raramente somatizam.  Geralmente têm melhor desempenho na escola, fazem mais amizades e se dão melhor com colegas e amigos da mesma idade, têm menos problemas de comportamento e são menos propensas à violência.  Assim como, geralmente, têm menos atitudes negativas e mais atitudes positivas, e portanto também são mais saudáveis do ponto de vista emocional, o que não é de estranhar.

Além disso, são mais maleáveis.  Ficam com raiva, irritados, assustados ou tristes, mas acalmam-se com mais rapidez, saem da angústia com mais facilidade e procuram alguma atividade para distraí-los do problema.

Com a família em mudança e a estabilidade dos casamentos muito reduzida, é importante que os filhos tenham a capacidade de sobreviver saudavelmente, porque o aumento da violência entre crianças e adolescentes, assim como o aumento dos desvios de comportamento estão muito ligados à falta de controle emocional, de limites, e a casamentos doentes, mal resolvidos ou dissolvidos.

Pais e filhos emocionalmente bem preparados têm mais possibilidade de sobreviver com menos traumas, até porque esses pais costumam separar-se (sendo inevitável) mantendo a amizade.  E isto é fundamental para evitar o choque da separação, o sentimento de rejeição e de culpa, o baixo rendimento escolar, a agressividade, os desvios de comportamento e outras conseqüências comuns nesses casos. (Na separação, é comum que a criança e mesmo o adolescente, desenvolva um raciocínio primário: papai e mamãe casaram porque gostavam um do outro; agora não se gostam mais e estão separados. Quem garante que ainda vão continuar gostando de mim?)

Na verdade, o preparo emocional é a melhor proteção que a criança e o adolescente têm contra o trauma da separação, porque quanto mais conscientes estivermos acerca de nossas próprias emoções, mais facilmente podemos entender o sentimento alheio.  O autoconhecimento alimenta a empatia, que é indispensável para a sintonia emocional, para estabelecer o relacionamento que é a raiz do envolvimento (a falta de empatia também é reveladora e ela é claramente notada em criminosos psicopatas, estupradores e molestadores de crianças).

            As vantagens de poder interpretar sentimentos e emoções, inclusive a partir de gestos, atitudes e outras indicações não-verbais, incluem um melhor ajustamento emocional, mais abertura e uma sensibilidade maior.

            Testes de laboratório mostram claramente que as crianças aptas a interpretar sentimentos não verbalizados eram as mais queridas na turma e as mais estáveis emocionalmente. Além disso, tinham melhor desempenho acadêmico.  Repetidos com adolescentes, os testes deram os mesmos resultados.

Bebês que ainda não falam já são capazes de empatia e são solidários diante do choro angustiado de outro bebê.  E também reagem ao clima da casa, da família, a qualquer perturbação sentida naqueles que estão no seu meio ambiente, como se eles mesmos estivessem atingidos pela tristeza da mãe ou pelo nervosismo do pai.

            A simpatia é o sentimento que temos de agrado pelo outro e por aquilo que ele está vivenciando, mas sem sentir o que o outro está sentindo. Já a empatia faz com que possamos partilhar do sentimento do outro, sendo muito mais forte do que a simpatia e mais capaz de provocar intimidade, participação e confiança. Empátheia, em grego, quer dizer “entrar no sentimento”.

            É possível desenvolver a empatia em uma criança pequena, se desde cedo a educamos chamando fortemente sua atenção para a aflição que o seu mau comportamento, a dor ou o prejuízo que sua ação causa aos outros.  A empatia das crianças é moldada pelo exemplo de solidariedade dos pais, pela maneira como eles ficam atentos à aflição dos outros ou aos seus problemas.

            No adolescente é a mesma coisa.  Os adolescentes têm muita empatia e são muito emotivos, mas precisam ser levados a desenvolver a capacidade de serem solidários e de se envolverem sentimentalmente, porque também têm vergonha de sentir.

            Pais e filhos têm muitas oportunidades de vivenciar momentos íntimos em que passam por emoções e podem exprimir seus sentimentos.  Quando a criança percebe empatia e entende que os seus sentimentos estão sendo compreendidos, aceitos e retribuídos, entram em sintonia com os pais.  Essa experiência é muito mais marcante para o seu futuro do que outros momentos mais dramáticos ou traumáticos, a tal ponto que adolescentes criados com empatia tornam-se empáticos.

            A sintonia entre a mãe e o bebê, por exemplo, informa a ele que está sendo compreendido.  Nessa interação ganham os dois, porque se o bebê fica satisfeito, confiante e tranqüilo, emocionalmente ligado à sua mãe, ela também fica emocionalmente ligada ao filho e percebe que está interagindo, ficando íntima, criando um laço duradouro.

            Repetidas sintonizações dão à criança a certeza de que está apoiada e de que os seus sentimentos podem ser entendidos e partilhados.  Por volta dos oito meses os bebês já podem beneficiar-se claramente dessa segurança e não é difícil perceber quando eles ficam perturbados em momentos de crise, se não estão em sintonia com a mãe, porque a experiência é evidentemente angustiante para eles.

            Uma prolongada ausência de sintonia entre pais e filhos significa um pesado imposto emocional a ser pago pelas crianças, porque elas começam a tentar evitar a expressão das suas emoções.  Elas procuram esconder o que estão sentindo, seja tristeza ou alegria, desejo de aconchego ou pedido de apoio.  O resultado é que a intimidade torna-se impossível, há uma baixa geral na confiança e o desenvolvimento emocional e afetivo fica comprometido.

            Crianças cujos pais não conseguem sintonizar suas emoções com elas tornam-se menos ativas e até passivas, desistindo de tentar, de explorar, de descobrir, para não se emocionarem e não ficarem decepcionadas.  A não ser que tenha relacionamentos reparadores, com outros parentes ou com amigos capazes de sintonizar e de entrar em sincronia emocional, essas crianças estarão emocionalmente comprometidas.

            Os custos emocionais, para toda a vida, por conta da falta de sintonização, podem ser muito grandes, e não só para a criança.  O abandono emocional está na raiz da criminalidade e do abuso de drogas por parte dos adolescentes.  Os criminosos mais cruéis têm sempre uma história de falta de empatia com os pais, de falta de carinho, de desatenção, de falta de sincronia emocional, de violência.

A incapacidade de sentir qualquer dose de empatia é uma psicopatia que impede o criminoso de ter piedade ou de ter drama de consciência.  A frieza do psicopata está exatamente no seu defeito emocional, na incapacidade de ir além das mais tênues ligações emocionais.  Ao contrário, os grandes psicopatas chegam a sentir prazer com o sofrimento de suas vítimas.  Estupradores, molestadores de crianças, criminosos em série, todos têm um traço em comum: além de serem incapazes de empatia e de sentir a dor das vítimas, acreditam em mentiras que eles mesmos criam para justificar os seus crimes e imaginar que suas vítimas, na verdade, tiveram prazer e queriam passar por aquilo que sofreram.

Por isso mesmo, durante a ditadura, aqui no Brasil, os serviços que precisavam ter torturadores em seus quadros valiam-se de psicólogos e psiquiatras que apontavam o perfil ideal de candidato: os incapazes de empatia.  Psicopatas, todos eles, não tinham medo e, portando, não tinham piedade ou preocupação de punição no futuro.  Denunciados, depois, não se sentem culpados e sim injustiçados e perseguidos. Basta ler as entrevistas de ex-torturadores: todos têm justificativas, nenhum tem remorsos.

Curioso é que o abandono emocional embota a empatia, mas quando o abuso é intenso e constante algumas crianças tornam-se hiperalertas para as emoções dos pais e das pessoas que as cercam.  Elas desenvolvem mesmo uma preocupação obsessiva com os sentimentos dos outros e crescem para serem sujeitas a distúrbios limites de personalidade, como diagnosticam os psiquiatras. No entanto, podem ser extremamente preocupados e carinhosos com o pai, a mãe ou os pais que não tinham empatia com eles. Isto fica mais evidente na adolescência quando há moças e rapazes que tratam os pais relapsos e desatentos como se fossem excelentes pais.

            Hoje em dia, há indícios cada vez mais fortes de que a empatia tem uma grande base biológica e que há pessoas mais predispostas que outras para serem empáticas.  Mas é certo que quando o cérebro emocional dirige o corpo sob forte emoção, há pouca ou nenhuma possibilidade de empatia.  A empatia exige controle emocional, calma, muita receptividade para os sentimentos do outro e para os sinais não-verbais da emoção. É preciso ter bem presente que cerca de 90% de toda comunicação é não-verbal e está contida em um olhar, um gesto, um tom, uma atitude.

            Percebam que o oposto de empatia é o mesmo da simpatia: antipatia. Partilhando a emoção, o sentimento de uma pessoa, é que podemos sentir a sua dor, a sua aflição, e agir para ajudá-la.  Mas se antipatizamos com ela é impossível entrar em sintonia com ela.

            Vários educadores sugerem que a empatia é natural no bebê e na criança pequena, mesmo sendo elas egocentradas.  Só por volta dos dois anos é que a criança percebe que os sentimentos dos outros não são seus também, e aí só desenvolverá sua capacidade de empatia se tiver o exemplo dos pais, se for sintonizada com eles.  Para as crianças, o fim da infância é o período dos mais elevados níveis de empatia: elas já podem ser inteiramente capazes de entender a aflição dos outros e estão sempre prontas a partilhar emoções e sentimentos. Mas os adolescentes sofrem, preocupados com os pobres, os oprimidos, os injustiçados, os marginalizados, e querem participar, querem fazer alguma coisa para ajudar a corrigir o mundo. Jovens, se tivessem a força, poderiam aliviar a dor e o infortúnio de todos os seus semelhantes. É por isso mesmo que há tanto emprendedorismo entre os jovens, o que deve ser alimentado.

            Poder exercer controle sobre as emoções do outro é a base da arte de relacionar-se.  Mas para chegar à interação e à sintonia, a criança pequena tem que alcançar primeiro o autocontrole, o que só pode fazer com ajuda dos adultos, principalmente da mãe e do pai.  Quando ela aprende a controlar a raiva e o desejo de ser satisfeita imediatamente, quando aprende a dominar os seus impulsos, mesmo assim pode não sintonizar bem, se ela e seu parceiro não tiverem calma.  Quando ela suprime os ataques de raiva, os gritos, aprende a esperar sem chorar, a argumentar para conseguir alguma coisa, então falta apenas amadurecer sua empatia e ter calma para poder interagir, sintonizar com o pai, a mãe ou qualquer outra pessoa.

            Criado assim, o adolescente não terá dificuldade com o autocontrole.  Mas se não foi ensinado em criança a controlar-se, dificilmente terá sucesso na adolescência, porque sua tendência é para não aceitar os controles tradicionais.

            Pais e mães devem saber que o emocional contagia.  Se eles forem calmos, há uma enorme possibilidade de que os filhos também sejam.  Ao contrário, se não podem controlar suas emoções, a probabilidade maior é a de que seus filhos também não possam.

Introdução à Comunicação

outubro 11, 2007

Sem a comunicação a própria vida seria impossível. Comunicar e receber comunicação é que permite a convivência dos seres humanos, a socialização, e fazer cultura. A experiência dos sistemas nervosos alheios é tão importante que a sociedade humana é o resultado da integração desses sistemas, através da comunicação.

Um aluno de Marshall McLuhan perguntou a ele qual era a sua definição pessoal de comunicação, e o mestre canadense respondeu: “Tudo na vida é comunicação, inclusive a vida”.  Na verdade, sem a comunicação a vida seria impossível, porque em todos os chamados fenômenos vivos há algum processo de comunicação envolvido.

            A comunicação é tão ampla que há, inclusive, alguma confusão a  respeito de comunicações, comunicação e comunicação de massa.  Comunicações são o telefone, o rádio, a internet, instrumentos de comunicação.

            Comunicação é o meio pelo qual uma pessoa exerce influência sobre outra: ela é a verdadeira portadora do processo social.  É a comunicação que permite a interação e é através dela que os seres humanos se tornam seres sociais e assim se mantenham..  Sem comunicação as pessoas não poderiam ajuntar-se, empreender tarefas, fazer cultura, progredir no domínio do mundo físico.  Invenções e descobertas dependem, quase sempre, de um acúmulo de informações, de fazer cultura  desenvolvendo conceitos, de tal modo que apenas as invenções mais simples e os processos mentais mais elementares poderiam efetuar-se sem a comunicação.

            Se cotejarmos o que aprendemos por experiência direta com o que adquirimos através da comunicação de outros, verificamos imediatamente como é limitada a nossa experiência, por maior que ela seja.

            A “experiência dos sistemas nervosos alheios” é tão importante que podemos considerar a sociedade humana como o resultado da integração dos sistemas nervosos dos seres humanos através da comunicação.

            Imagine, se for capaz, como se sentiria se, de repente, visse cortada toda e qualquer comunicação com seus semelhantes, presentes ou passados.  A existência seria completamente solitária, nenhuma espécie de mensagem chegaria, estaria perdida a sensação de pertencer.  Incapaz de servir e de ser servido é provável que em pouco tempo se sentisse incapaz até de continuar a existir. O pior da experiência do náufrago Robinson Crusoe e não ter com quem falar, é a falta de diálogo.

            A comunicação é mesmo uma necessidade orgânica fundamental, indispensável como instrumento de adaptação ao meio e de satisfação das necessidades básicas.

 

            Para o ser humano que se desenvolve, a comunicação com os semelhantes realiza três funções:

1.      padroniza o meio ambiente em que vive;

2.      define sua condição em relação aos outros;

3.      favorece sua adaptação ao meio.

Essas funções são importantes porque têm influência decisiva sobre a formação da personalidade e do sentido do eu (self).

A comunicação é que transmite os padrões e valores do grupo, e a consciência ética que eles têm (ou, eventualmente, deixam de ter).

  

            Crianças isoladas por muito tempo do contato com seres humanos e criadas como animais, ao serem encontradas não parecem seres humanos e têm o desenvolvimento retardado.  Enquanto não aprendem a comunicar-se e a receber comunicação não se verifica alteração sugestiva na inteligência delas.

            Assim como é possível perceber que quanto mais exposta à comunicação e tendo oportunidade de comunicar, a criança mais se desenvolve, principalmente se se sente segura e tem boa base afetiva.

            Uma das mais dramáticas demonstrações do efeito da comunicação com afeto é relatado por W.N. Kellog e L.A. Kellog, no livro The Ape and the Child): a chimpanzé Gua foi criada com uma criança pelos pais de uma bebê, até os 16 meses.  Ambas recebiam a mesma atenção, cuidado e afeto, passando pelas mesmas experiências de comunicação.  Com ano e meio a chimpanzé Gua aprendera tanto quanto Luiza e respondia a mais de 50 frases verbais de modo correto.  E mais, aprendera a controlar a bexiga e os intestinos, e aprendera a ser obediente.  Brincava cooperadamente com a amiga e manejava o meio físico tão bem quanto ela.  Mais ainda: suas reações emocionais também eram semelhantes às da criança, abrangendo um largo espectro de sensações que incluíam a amizade, a lealdade, o ciúme, a docilidade, a ansiedade, a tristeza e o negativismo.

 

            A importância da comunicação não se restringe ao indivíduo: ela é a força que permite a união do grupo e até a identificação desse grupo.  Qualquer grupo, seja de que natureza for, só funciona eficientemente quando se comunica com desenvoltura e facilidade.

            Margaret Mead analisou a crise nas relações entre soldados norte-americanos e ingleses durante a Segunda Grande Guerra e descobriu que elas eram devidas a um problema de comunicação: falavam a mesma língua e imaginavam que se entendiam, mas não a usavam da mesma forma e com as mesmas intenções, o que gerava desentendimento, discórdia e desconfiança.

            Voluntários brasileiros em Angola passaram pela mesma experiência.  A língua comum escondia diferenças até da forma de raciocinar.  Isto, inclusive, é motivo de anedota dos brasileiros, que não têm o mesmo raciocínio linear dos portugueses.  Por exemplo: perguntado se “essa estrada vai para Évora”, o cidadão português respondeu, sem esconder o seu espanto: “Não temos notícia disto”, acrescentando: “Mas, se for, vai-nos fazer grande falta!”

            Mais um exemplo: perguntado se a loja fechava aos sábados, o dono, um português, respondeu ao turista brasileiro que não.  Mas no sábado a loja estava fechada.  Na segunda-feira, ao ser interpela, o dono argumentou: “Mas é verdade, ao sábado não fechamos, porque sequer abrimos!”

            As barreiras à comunicação, reconhecidamente, provocam hostilidades.  A principal tarefa de um mediador é manter abertos os canais de comunicação entre os antagonistas, enquanto procura uma área para o comum acordo.  Faz parte da técnica de conciliação provocar os lados antagônicos para que falem entre si…

           

            Há inúmeras definições de Comunicação, mas as mais simples parecem ser as melhores.

             Comunicação é um processo pelo qual um espírito pode influir em outro.             Comunicação é o processo pela qual o comunicador transmite estímulos (geralmente símbolos verbais) destinados a modificar a atitude ou o comportamento do destinatário da comunicação.             Comunicação é o processo de tornarem comuns ou de trocar temas subjetivos como idéias, opiniões, crenças e informações, habitualmente por meio da linguagem, mas também através de representaçõers visuais.             Comunicação é toda e qualquer interação social significativa. 

            Há muitas definições, algumas complicadíssimas e até pouco comunicativas, mas em todas elas podemos distinguir:

§         um comunicador (a pessoa que inicia o processo);

§         o destinatário (a pessoa que recebe a comunicação);

§         o comunicado (o conteúdo da comunicação, a mensagem);

§         o efeito (o que foi entendido pelo destinatário e o que resultou desse entendimento).

É preciso, desde logo, deixar claro que entender uma comunicação nem sempre é suficiente para provocar o efeito imaginado pelo comunicador. Então, dizemos que a mensagem foi eficiente, mas ineficaz, o que não é incomum.  Quer dizer que. toda mensagem deve ser eficiente (para ser entendida pelo destinatário) e eficaz (para provocar o efeito desejado).

Os livros acadêmicos de comunicação são muito restritivos, ao mencionar os meios de comunicação.  É um erro.  Se bem que a comunicação, na maior parte das vezes, se realize por meio de símbolos verbais, as formas reais de estímulos responsáveis pelo contato são inúmeras.  Um balançar da cabeça, um picar de olhos, um sorriso, a batida de um tambor, o toque de um sino, a explosão de um foguete, o acender de uma luz, um trecho de música, movimentos de balé, tudo é capaz de comunicar uma idéia, um sentimento, uma intenção.

McLuhan citava sempre os zuñi, um povo que era capaz de usar um mesmo som, uma mesma palavra, com cinco ou seis significados diferentes e até antagônicos, dependendo das contorções faciais.  A linguagem dos boximanos, da Austrália, também não faz sentido se for apenas ouvida.  Os gadio, na África, não entendem a utilização do telefone, porque a expressão facial é fundamental para entender o sentido exato das palavras.

Há muitas formas não-verbais de comunicação e em meados dos anos 60 descobriu-se que a linguagem corporal das crianças de todo o mundo é muito semelhante.  Por exemplo, se você estiver falando e a criança estiver ouvindo com um ombro mais levantado do que o outro, pode estar certo de que, em qualquer lugar do planeta, a criança não está acreditando nas suas palavras.

Os japoneses têm uma palavra para sim: hai.  Mas, falando, nem sempre o sim quer dizer que sim.  Dependendo da entonação, pode querer dizer que sim, estou ouvindo; ou sim, estou entendendo sua pergunta; ou sim, posso responder ao que está sendo perguntado; e finalmente, sim, é isso mesmo.

Os orokaives da Nova Guiné, têm cada um a sua assinatura vegetal, uma planta que, conforme seu uso, significa concordância, discordância, indiferença, questionamento ou disposição de espírito.  Ofendido ou injuriado, o orokaive tem uma forma incomum de comunicar seu desagrado: impõe-se um sacrifício que fique público, para que todos saibam.  O ofensor, que não é acusado de público, geralmente assume sua culpa e pede ao ofendido que suspenda a autopunição.

 

            Qualquer mãe ou pai ou bem bem-sucedido sabe que a empatia é um instrumento fundamental na boa comunicação entre pais e filhos.  Muito antes de entender palavras um bebê é capaz de entender a expressão emocional.  Empatia é um dos antônimos de antipatia (o outro é simpatia).  A diferença é que a simpatia não é participativa e a empatia é a capacidade de entender a dor do outro e de participar do seu sofrimento, por exemplo.

            É biológico que a criança, quando mama, faça certos movimentos muito expressivos, como resposta à satisfação que está sentindo: satisfação por estar sendo alimentada, satisfação por estar no aconchego da mãe, satisfação por receber atenção e afeto.  A mãe, geralmente, é capaz de entender essa manifestação da criança, estabelecendo empatia “por contágio social“.  Por sua vez, a criança percebe a satisfação da mãe e estabelece-se a comunhão espiritual.

            Uma análise objetiva da comunicação empática foi feita por Desmond Morris, o zoólogo que cuidou de observar o “comportamento animal do homem”.  Para ele, a empatia é comunicada através de expressões faciais, posturas e tensões musculares, atitudes sutis, um conjunto de símbolos semelhante, em vários sentidos, à linguagem de sinais dos surdos.

            Existem diferenças significativas entre os modos possíveis de comunicação e os chamados canais têm alcances variáveis. Os que necessitam de linguagem escrita não podem se valer da inflexão da voz, da expressão facial, dos gestos, o que é uma redução da capacidade de comunicar.

            Mesmo certas formas de comunicação oral que implicam grande distância entre o comunicador e o destinatário excluem o emprego de gestos corporais e expressões faciais, como no caso do telefone e do rádio.

            Cinema e televisão, que permitem o impacto plenamente integrado da palavra, dos gestos corporais, das inflexões vocais, têm seus problemas: o modo como o destinatário recebe e entende ou interpreta a mensagem.  Além disso, há uma diferença entre a recepção da luz projetada do cinema e da luz introjetada da televisão, porque as imagens de tevê formam-se dentro do cérebro da pessoa.

            No entanto, seja qual for o processo usado para comunicar, o comunicador tem sempre um problema: a retroalimentação, de fundamental importância na comprovação do êxito de qualquer tentativa de comuniocação.  Só a retroalimentação permite observar o efeito da comunicação, a sua eficácia.

Diante do destinatário da comunicação cara a cara, podemos observar sua reação.  E até perguntar: Você entendeu?  Mas se ele responder que entendeu, o seu entendimento pode não ter sido aquele que pretendíamos.

Quando a comunicação passa informação, uma idéia, uma orientação para mudar atitude ou comportamento, pode ser difícil observar o sucesso da transmissão.  Primeiro porque o destinatário precisa responder se entendeu; e depois porque precisamos saber se o seu entendimento é igual àquele que pretendíamos passar.

Curiosamente, as pessoas não reagem todas do mesmo modo diante de uma mensagem e a leitura que fazem de um comunicado pode ser muito diferente daquele que se pretendia.  Conscientizar, mudar atitude e comportamento exige, em primeiro lugar, o entendimento da mensagem, a aceitação do seu conteúdo e a vontade de mudar.

Para isto é imprescindível interar, provocar com um estímulo uma resposta no sentido desejado, que movimente a vontade e, por sua vez, provoque novo estímulo.  Se a comunicação for bem sucedida, mesmo que o público não esteja presente para responder, dará resposta.  E sua resposta influirá nas futuras comunicações, até que o objetivo seja atingido.

Nem sempre a resposta é pronta, imediata, positiva e o mais difícil na comunicação é saber como medir, quando medir a reação do público. E até as respostas negativas são uma boa mensagem que deve ser aproveitada.  Só para dar um exemplo, no mundo inteira a grande maioria do público reagiu negativamente às campanhas de terror envolvendo o vírus da AIDS.  Rejeitando a mensagem, bloqueando-a, ela tornou-se inoperante, inútil e, pior do que ser ineficaz, perdeu tempo, espaço e dinheiro.

Outro exemplo: a campanha de trânsito “não faça do seu carro uma arma; a vítima pode ser você”, não foi capaz de reduzir a violência no trânsito e, ao contrário, só foi eficaz para fazer com que um número grande de pessoas adquirisse consciência de que podia usar o carro como uma arma…

Na comunicação de massa, principalmente, há uma constante inversão de papeis e o destinatário transforma-se em comunicador, mandando uma mensagem ao comunicador que precisa recebê-la e entender seu conteúdo antes de planejar e executar nova comunicação.

Ainda há uma outra dificuldade para o comunicador: o veículo de sua mensagem deve ter credibilidade, aceitação, empatia.  E é indispensável que o destinatário acredite que a mensagem é para ele e que ele está capacitado para agir como lhe pedem.  Por exemplo, durante a campanha da amamentação ao peito, observou-se que a maioria das mães (convencidas por campanhas anteriores de leite em pó), não eram capazes de acreditar na qualidade do próprio leite, que julgavam fraco (com a participação de alguns pediatras, desinformados ou cúmplices).  Restabelecer a auto-estima e a confiança dessas mães foi uma tarefa importante, o que foi feito de modo inteligente.  Uma mensagem de 30 segundos, divulgada pela televisão, mostrava uma vaca pastando, com latas de leite em pó no lugar das tetas.  Duas outras vacas, ruminando, foram “dubladas” e apareciam dizendo: “Coitada dela; depois que parou de amamentar e resolveu dar leite em pó para os seus bezerros, eles ficaram tão mal alimentados que não sobreviveram”.  Outra, afirmava  que o melhor leite para o bezerro era o da vaca, o melhor leite para os gatinhos o da gata, o melhor leite para os bebês o da sua mãe e o melhor leite para o industrial o leite em pó…  Uma terceira mensagem apresetava uma mulher, médica, que afirmava: “Nenhum leite em pó, por melhor que seja, chega perto do seu leite.  Se você estava forte bastante para engravidar e ter seu filho, está forte para amamentá-lo.”

O problema mais comum é o destinatário fazer distinção de público e imaginar que “isso funciona para os outros, mas pra mim não vai servir”.  Ou, o que também é comum, imaginar que “isso é bom pro povo da televisão, não pro povo da rua”.  E por que isso acontece?  Porque o transmissor da mensagem não foi reconhecido como um igual.  Na campanha do soro caseiro o grande impulso foi uma mensagem de 30 segundos feita com gente do povo, em suas casas, explicando como fazer e dar o soro.  Funcionou mais do que outras mensagens gravadas com médicos ou artistas de televisão.

Quando é que uma comunicação é bem sucedida?  Quando atinge o público-alvo eficientemente e com eficácia, provocando o efeito pretendido pelo comunicador.

Há muitos obstáculos à comunicação bem sucedida e eles pode estar no comunicador, no comunicado, no destinatário, e, às vezes, até no efeito pretendido.  Mas o mais difícil de vencer talvez seja a “mensagem subjetiva” , a “mensagem oculta”ou “mensagem não desejada”.  Isto é: um modo de entender a mensagem que não fazia parte dos planos do comunicador, mas que foi o modo como a maioria entendeu.  É o caso do carro usado como arma, por exemplo.  Ou o caso da mensagem inútil, como “diga não à droga”, que levou o drogadicto a comentar: “Eu digo não a ela, mas ela não me responde.” 

            O desenvolvimento da Comunicação de Massa se deu através de quatro ondas.

            A comunicação moderna data de 1450, quando um homem extraordinário juntou a prensa de uva (para fazer vinho, inventada na Grécia Antiga), os tipos de metal (inventados na Coréia 30 anos antes e reinventados na Mogúncia), o papel e a tinta (desenvolvidos na China séculos antes e levados para a Europa através do Oriente Médio) e resolveu imprimir usando aqueles tipos que podiam ser reutilizados em nova impressão.

            O resultado multiplicou por cem a velocidade da comunicação e da cultura, uma vez que, de certa forma, democratizou o conhecimento.  Antes de Gutenberg, um livro era copiado à mão, exemplar por exemplar.

            Em 500 anos de desenvolvimento a comunicação do ser humano adquiriu velocidade cada vez maior, tornando-se a história da mutável relação entre ele e as máquinas no processo de comunicar. Foram quatro passos fundamentais:

1.      a construção de uma máquina capaz de duplicar rapidamente a comunicação entre as pessoas;

2.      a invenção de uma máquina que visse e ouvisse pelo ser humano;

3.      a criação das habilidades e técnicas que tornaram possível a comunicação entre o ser humano e a máquina;

4.      a descoberta da possibilidade de comunicação entre máquinas, dando início à automação.

 

Não se tem notícia da primeira obra impressa por Johann Gutenberg, mas o documento impresso com data mais antiga ainda existente é um indulgência papal datada de 1454 e impressa  por Fust e Schoeffer.  E o livro mais antigo à nossa disposição é a Bíblia da Mogúncia, com páginas de 42 linhas, que se acredita ter sido impressa pelo próprio Gutenberg.

Desde que nasceu, a verdade é que a imprensa foi colocada a serviço da Igreja, o principal centro de poder dos tempos.  E a Igreja, ciente do  excepcional  poder da prensa cuidou de declarar que ler e escrever era um pecado contra a lei de Deus, deixando essas habilidades restritas aos membros da própria Igreja.  E, com isso, ficando dona de todo o conhecimento e do poder por um longo tempo.

A prensa, mesmo assim, espalhou-se pela Renânia, foi para a Inglaterra, para a Itália, para a França e menos de 30 anos depois de Colombo chegar à América certo Juan Pablos montava uma tipografia na cidade do México.

Pela própria característica do meio (lembram de McLuhan, “o meio é a mensagem”?), o prelo meteu-se a imprimir sobre todos os assuntos públicos do homem, os que exaltavam, estimulavam ou perturbavam o homem.  Tipógrafos foram presos, condenados, suas prensas queimadas.  Servia ao poder, mas servia aos revolucionários, do espírito ou políticos.  Serviu á Igreja, mas publicou os debates da Reforma.  Fez circular as idéias de Aristóteles e toda a produção intelectual da Renascença corria anônimo.  Huxley observou, com razão, que sem a imprensa poderia ter havido o Iluminismo, mas não a Revolução Francesa,

A imprensa serviu a muitos amos, a todos que a quiseram, mas serviu mais à democracia, conscientizando o povo e conduzindo-o a assumir o poder em fins do século 18.

É precisamente nessa ocasião, pouco depois de 1800, que o ser humano faz a primeira modificação importante na prensa de vinho, dando a ela uma nova fonte de força, como resultado da revolução industrial.  O vapor substituiu os músculos e o mesmo velho prelo passou a trabalhar mais depressa e, portanto, a imprimir mais, atingindo a massa de eleitores.

A educação pública desenvolveu-se, pela vontade de ler das pessoas. Surgiram os jornais periódicos, que davam lucro por conta das tiragens e da publicidade.  Foi o começo da comunicação de massa: preços que o homem comum podia pagar e circulação suficientemente grande para atrair publicidade.

A eletricidade acelerou ainda mais as prensas.  O telégrafo e o cabo submarino aceleraram a comunicação e reduziram o tamanho do mundo.  A fotografia fez aumentar a venda dos jornais. O telefone deu maior rapidez à notícia.

Mas o primeiro progresso realmente novo na comunicação de massa ocorreu no último quarto do século 19, quando o ser humano construiu a máquina que intercalou no processo de comunicação para que visse e ouvisse por ele. Foi o segundo grande passo na história da comunicação moderna.

Um pouco mais tarde o ser humano criou as habilidades e técnicas que tornaram possível a eficiente comunicação entre ele e as máquinas, dando o terceiro passo. O quarto, já em nosso tempo, conseguiu a comunicação entre as máquinas.

A cada passo corresponde uma onda na comunicação. O prelo limitava-se a imprimir, fazia um produto que podia ser lido, cabendo ao leitor tomar a iniciativa de comprar, ler, entender e interpretar.

A segunda onda da comunicação moderna provocou uma grande mudança, transferindo a iniciativa, pelo menos em parte, do receptor para o emissor.  Depois que o receptor fizesse sua escolha, o emissor encarregava-se do resto.  A máquina do rádio ou a força por trás dela, controlava o ritmo, as repetições, a ênfase. O tempo.

As novas máquinas, sendo mais rápidas, traziam notícias mais depressa, respondiam mais rapidamente a um argumento, encerravam um sentido maior de realidade que a imprensa nunca teve antes.  Possuíam, inclusive, uma qualidade emocional que atraía público.  Mas a segunda onda não se envolveu na mudança social como a primeira.  Maquinazinhas sociáveis, traziam personalidades à nossa sala de estar e nos transportavam a um sem-número de outras salas e salões.  A nova comunicação em que se intercalava a máquina, ampliou o meio do homem e dominou o seu entretenimento.  Porém, mais do que a imprensa, ofereceu oportunidades aos manipuladores.

A imprensa representou uma parte importante nas grandes revoluções do espírito e do Estado, enquanto o cinema, o rádio e a televisão desempenharam um grande papel na mudança de nossa maneira de viver.  A imprensa é mais informativa e os audiovisuais mais capazes de entreter e emocionar.  A imprensa ficou como o menor meio de comunicação de massa e a televisão como o maior.

A terceira onda de comunicação moderna, a da comunicação entre os homens e as máquinas desenvolveu-se lentamente, durante 100 anos, e atingiu o máximo nos anos 40 do século passado.

A quarta onda tem as mais diretas e importantes implicações para o ser humano, embora a comunicação seja entre máquinas.  Assim como as máquinas a vapor e movidas por eletricidade diminuíram o trabalho dos músculos, as novas máquinas diminuíram o trabalho cerebral.  Os grandes computadores, com suas qualidades (que diríamos cerebrais), comandaram a revolução da informática, uma das três revoluções mais importantes do século 20, junto com a revolução da física quântica e a revolução biomolecular.  Foram fabricadas máquinas que assumiram muitas qualidades anteriormente exclusivas do homem e logo teremos máquinas capazes de duplicarem a si mesmas.  E é nessa área, sem dúvida, que ocorrerão os mais empolgantes desenvolvimentos da comunicação.

A revolução na informática levou à globalização.  As multinaciopnais transformaram-se em transnacionais sem pátria e que não respeitam fronteiras.  O capital tornou-se volátil e é capaz de dar a volta ao mundo em segundos, de invadir países e de abandonar países em questão de segundos.  O chamado mercado livre aumentou a miséria, criou a exclusão e a violência social. Meu avô levou 15 dias para receber notícia do início da guerra de 1914, meu pai acompanhou pelo rádio o desembarque na Normandia, eu vi o homem pisar na Lua em tempo real.

Há 100 anos a informação ocupava, no máximo, alguns minutos da conversa do ser humano.  Há 50, já ocupava cerca de uma hora.  Hoje dedicamos de 3 a 5 horas diárias aos veículos de comunicação de massa.

Tudo este progresso na comunicação provocou profundas mudanças na maneira pela qual recebemos informações e na espécie e quantidade de comunicados que nos atinge em forma de informação, contra-informação e desinformação. E ainda devemos levar em conta a quantidade de informação a nosso dispor na rede internacional de computadores

Antigamente, a cultura era de poço: o ser humano delimitava o seu espaço de interesse e cavava, pesquisava, aprofundava-se, e quanto mais fundo ía, mais sábio era considerado, mesmo que fosse um ignorante a dois palmos da sua área de interesse.  Hoje, isto é praticamente impossível: a informação de massa e a massa de informação que o atinge faz com que ele tenha um espectro muito maior, obrigatoriamente.  E há tanta informação que ele é incapaz de digeri-la à tempo e á hora.  A cultura hoje é de aluvião, em camadas, muitíssimo mais extensa, sem dispensar o aprofundamento em determinados pontos.  Mas é outra, completamente diferente: antes, era focal, em preto-e-branco, hoje é um grande vitral multicolorido, um caleidoscópio com um grande número de espelhos que nos atraem mas que também nos confundem.

As Revoluções do Ser Humano

agosto 30, 2007

 As que foram feitas: 

A Revolução da Informática

A Revolução da Biociência

A Revolução Quântica

 E as que deveriam ter sido feitas: 

A Revolução Energética

A Revolução Ambiental

A Revolução da Educação

A Revolução Ética

A Revolução da Informática

agosto 30, 2007

A revolução da informática  foi a maior  do século 20

e os computadores do século 21 serão onipresentes e inteligentes, comunicando-se uns com os outros, dominando nossas vidas e talvez sejam distribuídos de graça. Estamos no rumo do planeta inteligente e um simples cartão comemorativo tem no chip que permite tocar uma música, mais poder computacional do que os computadores de antes dos anos 50.

  
 O computador, tal como o conhecemos hoje, vai desaparecer e a computação vai-se tornar onipresente: estará em toda parte: na nossa roupa, nas paredes da nossa casa, no nosso pulso, nas jóias, no chão das estradas e em incontáveis computadores descartáveis, mais fáceis de encontrar do que papel de rascunho (porque o papel, mesmo reciclado, vai-se tornar cada vez mais caro e difícil de encontrar). O Xerox PARC (Palo Alto Research Center), no famoso Vale do Silício, está fazendo pesquisas e procurando avanços que vão remodelar a vida no século 21. Ali foi inventado o PC, o computador pessoal. Ali foram lançadas as bases para a impressora a laser. Ali foi criado o programa que permitiu a criação dos sistemas operacionais Macintosh e Windows.Foi Mark Weiser, quando era chefe do Laboratório de Ciência Computacional do Xerox PARC, quem criou a expressão “computação onipresente”. Nas horas vagas ele era baterista numa banda de rock, mas seu verdadeiro prazer sempre foi a arquitetura informática. Em um artigo na revista Cable ele afirmou que os  microchips estão cada vez mais poderosos e mais baratos, e vão penetrar cada vez mais na nossa vida diária. Ele dá um exemplo: no futuro, não haverá roupa de verão e roupa de inverno: o tecido será um só e a temperatura vai ser controlado por microships que farão parte das fibras.Para ele, o computador vai ser uma força libertadora e as máquinas vão-se ajustar ao ser humano e ao seu ambiente, passando a fazer parte dele. Aos poucos, tornar-se-ão inteligentes e proporcionarão um conforto difícil de imaginar hoje em dia. Os microships vão-se comunicar uns com os outros pela Internet e as plenas implicações ficam restritas aos especialistas porque “pareceriam ridículas proposições da ficção científica”.Hoje, nós não “percebemos” a eletricidade, a não ser quando ela falta. Diz Weiser que o impulso rumo à invisibilidade deve ser uma lei universal: o homem deixa de ver os avanços tecnológicos, assim que se acostuma a eles. A televisão que assombrou nossos avós é olhada pela criança como alguma coisa absolutamente familiar, corriqueira, simples. A regra é: sempre que aprendemos algo suficientemente bem ou que nos acostumamos com ela, as pessoas deixam de percebê-la conscientemente.Os motores elétricos já são tão pequenos que há muitos deles na carroceria de um carro, para levantar e abaixar vidros, por exemplo, elevar e abaixar antenas, ligar o rádio e mudar de estação. No entanto, ao assumirmos o volante, estamos inconscientes de que vivemos cercados por até 22 pequenos motores e 25 solenóides embutidos na carroceria.Weiser faz outra analogia, com a escrita: há milhares de anos era uma arte secreta, cuidadosamente controlada por uma reduzida casta de escribas treinados para gravar símbolos em pequenas placas de argila. Essas placas, caras e raras, eram trabalhosamente cozidas e guardadas por soldados, tal a sua preciosidade. Quando o papel foi inventado, ele também era precioso, caro, e só os monarcas e a Igreja tinham acesso a ele. A maior parte das pessoas nascia e morria sem jamais ver uma folha de papel. Hoje, nem temos consciência de estarmos cercados por um mundo de papel e de escrita. E ao lermos, nada vemos de especial na escrita, que só maravilha o analfabeto.Na indústria de computadores, o intervalo entre a concepção de uma idéia e sua introdução no mercado é de cerca de 15 anos, em média. A computação onipresente foi imaginada em 1988 e em 2003 essas idéias já começaram a fazer parte da nossa vida de maneira apreciável. Mas para atingir massa crítica que barateie a produção e entusiasme o mercado, talvez seja necessário esperar até 2010. Como tudo, no mercado da informática, o preço inicial será inatingível para a grande maioria, mas, ano a ano, o preço cairá, com o aumento da desejabilidade, da produção e da compra.Em 2020 a computação não só será onipresente como dominará nossas vidas. Os que escrevem a história da informática dizem que ela tem três fases:·        a época do mainframe, ·        a do computador pessoal, ·        e a da computação onipresente. A primeira fase foi dominada pelo “gigante desajeitado”, o poderoso computador mainframe com que a IBM, a Burroughs e a Honeywell ganharam muito dinheiro. Os computadores eram enormes e tão caros que deviam ser compartilhados por centenas de pesquisadores, cientistas e engenheiros. A relação computador / usuário era, freqüentemente, de um para cem. John Kemeny, ex-reitor da Universidade de Dartmouth, escreveu em sua autobiografia que “havia certo misticismo nessa relação, a ponto de apenas acólitos especialmente selecionados terem permissão de estabelecer comunicação direta com o computador”. E mais: “As máquinas eram tão escassas e tão caras que o homem se aproximava do computador como um grego antigo de um oráculo.” Programadores, então, eram tidos na conta de sacerdotes desse culto, e sabiam manter o segredo de rituais inescrutáveis.A segunda fase começa com os anos 70, quando os engenheiros do Xerox PARC entenderam que a diminuição do tamanho dos chips e o aumento do poder do computador levariam, inevitavelmente, à relação um por um. Em 1972, para testar suas idéias, criaram o ALTO, o primeiro computador pessoal. E descobriam mais: que os sacerdotes faziam com que os computadores não fossem amistosos com os usuários; ao contrário, para manter o poder, criavam comandos confusos e rotinas que eram um forte obstáculo ao uso do computador por meros mortais. Por isso mesmo trataram de simplificar ao máximo o computador pessoal, criando uma tela de computador com figuras (ou “ícones“) que bastavam ser apontados com o mouse para abrir os programas e permitir sua manipulação.Mais descomplicados e acessíveis, os computadores deixaram de exigir do usuário penosos ritos de passagem e iniciação, passando a ser operados até por crianças. Usar um computador deixou de ser um problema difícil e além de útil chegou até a ser divertido e prazeroso, permitindo navegar e fazer inacreditáveis descobertas.Há, certamente, muito lixo cultural e bobagem na rede, mas também há nela, hoje, mais informação do que a que estava armazenada na famosa Biblioteca de Alexandria.Como santo de casa não faz milagre, não foi a Xerox que melhor usou as idéias dos seus engenheiros. Primeiro foi a Apple, que criou o Macintosh. Depois a Microsoft, que criou o Windows, logo adotado como sistema operacional universal para computadores baseados nos IBM vendidos no mundo inteiro.A transição entre as duas fases não foi fácil e esmagou até empresas multibilionárias que não acreditavam no futuro da informática. e imaginaram que o computador pessoal fosse moda passageira. Continuaram com seus mainframes e faliram (como a Wang) ou foram pesadamente deixadas para trás (como a IBM).A terceira fase dos computadores, a da computação onipresente, vai mudar novamente a relação com o usuário, que passará ao extremo oposto e virá a ser de cem computadores para cada pessoa.Bill Gates, o todo-poderoso da gigante de hoje, a Microsoft, já está preocupado porque a terceira fase começou e ele admite que “é um pouco assustador pensar que, à medida que a tecnologia da computação avança, o líder de uma nunca é o líder da era seguinte”.Compreendendo que a Microsoft poderia pagar um alto preço pelo sucesso da Internet, Gates forçou sua empresa a acomodar-se aos novos avanços em redes de computadores, um passo que ele não havia previsto na primeira edição do seu livro A Estrada do Futuro, de 1995.Não será surpresa se, um dia, o computador pessoal passar a ser dado, de graça, ao usuário, desde que ele se comprometa a só usar os programas da empresa do senhor Gates. temos o PC de bolso que cabe na palma da mão. E muitos analistas imaginam, para o futuro, uma quarta fase, com a introdução de inteligência artificial nos sistemas de computação. De 2020 a 2050 o mundo da informática poderá ser dominado pelas redes invisíveis de computadores inteligentes, capazes de raciocinar, de falar, de reconhecer e até de usar bom senso.Alguns analistas imaginam mesmo uma quinta fase, após 2050, quando as máquinas “terão autoconfiança e serão conscientes”.  Qual é o poder computacional que leva de uma fase à outra? De 1950 até 2000 a capacidade de processamento foi acrescida de um fator de cerca de dez bilhões (dobrando a cada 18 meses). Um aumento como esse é quase inédito na história da tecnologia. Basta dizer que é maior do que a transição da dinamite para a bomba de hidrogênio.Se retrocedermos mais 30 anos (para o começo da era do computador) o fator passa a ser de um trilhão.São esses números que permitem prever o futuro da tecnologia da computação. Como o preço dos miniprocessadores é cada vez menor, o puro poder da economia vai impelir a indústria para a nova fase. O preço dos microships está caindo. Já custou 50 centavos de dólar; em fins de 2005 custará sete e em 2010 apenas um centavo. Microprocessadores serão tão baratos que poderão até ser distribuídos gratuitamente para formar freguesia.Indústrias inteiramente novas surgirão no mercado acompanhando a explosão e as que não incluírem alguns chips de computador em seus produtos estarão em séria desvantagem competitiva. O processo já começou, com esses cartões de Natal, de aniversário, comemorativos, que quando a gente abre tocam uma musiquinha. O que faz isso acontecer é um chip, com mais poder computacional que os computadores existentes antes de 1950.Weiser acredita que, do mesmo modo como todo produto tem alguma coisa escrita, na terceira fase dos computadores todo produto deverá conter um microprocessador que dirá ao consumidor o que ele quer saber.Para um futuro não muito distante já se pode imaginar que o poder computacional será praticamente gratuito e praticamente infinito.  O transistor é, basicamente, uma válvula que controla o fluxo da eletricidade. A dinâmica dos transistores semicondutores é regida pela teoria quântica (segundo a qual, dentro de um semicondutor, a ausência de um elétron, isto é, um buraco, atua como se fosse um elétron de carga oposta. A teoria quântica é que dita como esses elétrons e buracos se movem no transistor.)Os transistores originais eram componentes elétricos toscos, mais ou menos do tamanho de uma moeda de dez centavos e conectados por fios. Eram feitos à mão, um a um. Hoje, são fabricados usando-se feixes de luz para fazer sulcos microscópicos e linhas em plaquetas de silício (fotolitografia). A luta para miniaturizar os transistores é que está empurrando a computação para a fase seguinte.Na Idade Média os filósofos e teólogos discutiam quantos anjos poderiam ocupar a cabeça de um alfinete. Hoje, os especialistas em computador querem saber quantos transistores podem ser reunidos em um microprocessador. Em chips de silício do tamanho de um selo do correio, já foram agrupados 7 milhões de transistores.O processo de miniaturização não pode durar para sempre, o limite é físico, é o comprimento da onda do feixe de luz.Ao longo das últimas décadas tem-se usado comprimentos de onda cada vez menores. Lâmpadas de mercúrio emitem luz com um comprimento de onda de 0,436 micrometro (na região visível) e 0,365 micrometro (na região ultravioleta), distâncias que são cerca de 300 vezes mais finas do que um fio de cabelo.O máximo a que a tecnologia atual pode chegar, talvez ainda no ano de 2007, é reduzir o comprimento da onda a 0,193 micrometro (na região do ultravioleta profundo), usando laser pulsado. Então, serão necessárias tecnologias inteiramente novas para ir à frente. Um dos principais futuristas do mundo é Paul Saffo, diretor do Institute for the Future. Ele acredita que a computação onipresente é inevitável, e é o autor da tese que chama de “ecologia eletrônica”, segundo a qual a cada dez anos há um avanço tecnológico que muda a relação entre as criaturas que vivem nesse meio ambiente.A força propulsora da revolução do PC, na década de 80, foi o microship. Na década de 90 o crescimento explosivo da Internet foi movido pela combinação do poder dos microprocessadores com lasers baratos e com a capacidade de transportar trilhões de bits de dados na velocidade da luz ao longo de fibras de vidro. No século 21, imagina ele, a próxima revolução será movida por censores baratos acoplados a microprocessadores e lasers.Segundo Saffo, na terceira fase estaremos cercados por microprocessadores minúsculos, invisíveis, que sentirão nossa presença, perceberão nossos desejos e até serão capazes de ler nossas emoções. Conectados à Internet, vamos interagir com nossos computadores através dos nossos gestos, da nossa voz, do calor do corpo, do nosso campo elétrico, dos movimentos do corpo, dos nossos sentimentos e emoções. Dirigir um automóvel não vai apresentar risco e as tarefas domésticas poderão ser quase todas realizadas por máquinas inteligentes.As casas e os escritórios dos ricos serão inteligentes e cheios de placas, pranchetas e quadros que tornarão a computação onipresente. Esses dispositivos computacionais terão 2,5 centímetros, 30 centímetros ou 1 metro. Cada casa terá cerca de 100 placas, de 10 a 20 pranchetas e um ou dois quadros por sala.As placas são crachás de identificação, com um transmissor infravermelho, a capacidade de um computador, permitindo a localização da pessoa. Quando você se move, a placa fornece a localização precisa, quando chega perto de uma porta ela se abre, se estiver escuro as luzes da sala se acendem quando você entra, e ainda pode-se usar a placa para comunicação com outras pessoas ou para resolver problemas. Programadas, elas podem transmitir noticiário a horas certas, alertar o usuário para a queda da bolsa e terminarão tão pequenas que poderão ser colocadas em abotoaduras ou alfinetes de lapela.As pranchetas serão finas como folhas de papel, descartáveis, estarão por toda parte e serão usadas para anotarmos coisas de que devemos nos lembrar, idéias e compromissos. Cada prancheta é um PC plenamente operacional, conectado ao computador central. É o começo do “papel inteligente”.Rabiscando na prancheta, o programa gráfico converterá nossos rabiscos em gráficos coloridos e texto gramaticalmente correto. Depois de salvarmos para o computador central, jogaremos a prancheta fora ou, provavelmente, vamos colocá-la em um depósito apropriado para ser reciclada.Os quadros são grandes telas computadorizadas, penduradas na parede. Podem funcionar como tela de vídeo, para a televisão interativa ou para a Web. Nos escritórios serão quadros de avisos, e quadros para anotações e exposição, funcionando também como um computador completo, ligado à Internet. Poderão ser usados para teleconferências ou para, por exemplo, supervisionar cirurgias à distância.Lembra quando a máquina de escrever ganhou um chip e foi transformada em processador de texto? No futuro os chips estarão conectados entre si e a casa inteligente fará tudo pelo seu conforto, recebendo a previsão de tempo, aumentando ou diminuindo a temperatura do ambiente, preparando a comida na hora certa. O banheiro inteligente já começou a ser testado e um protótipo revelou-se capaz de monitorar a saúde da pessoa que se senta na privada. Ele mede temperatura, pulso, pressão, faz uma rápida análise da urina e das fezes e, mais tarde, será capaz de fazer um eletrocardiograma e um ecocardiograma, além de detectar a proteína emitida por  tecidos pré-cancerosos. E, certamente vai contribuir para a diminuirão dos problemas de hemorróidas no futuro, porque a privada sanitária lavará e secará o usuário, além de dar a descarga automaticamente.Para o futuro estão imaginadas maravilhas possíveis, do ponto de vista tecnológico, como o uso do corpo humano como fonte de energia, que seria acumulada nos sapatos. Cada um de nós é capaz de gerar 80 watts de energia utilizável com nossos movimentos, o que dá cerca de um watt.Outra dessas maravilhas acaba com os tradicionais cartões de visita. Instalando eletrodos nos sapatos, podemos conectá-los a outros sapatos. Colocando nosso cartão de visitas entre os dados biográficos disponíveis, bastará um aperto de mão (porque a pele é salgada e boa condutora) para passar a informação para a mão, da mão para a mão do outro e de sua mão para o sapato onde será armazenada para uso futuro.No projeto Computadores Usáveis, do Massachussets Institute of Technology (MIT), já estão sendo produzidos óculos-computadores conectados com a Internet: o que uma pessoa vê através das suas lentes é transmitido para a Web, como nos filmes,Um quarto de todos os PC do mundo já é de laptops, o que quer dizer que os portáteis deixaram de ser um nicho de mercado para entrar na paisagem. À medida que os custos continuarem a baixar, muitos usuários vão substituir seus telefones celulares por portáteis cada vez menores (o problema é o teclado), com muito mais possibilidades de uso.Hoje, um paciente cardíaco já pode ser monitorado o dia todo, por uma parafernália que transmite informação para uma equipe de plantão. No MIT estão produzindo aparelhos cada vez menores e mais fáceis de portar, menos sujeitos a interferência, emitindo sinais melhores. E, algum dia, a maior parte das pessoas estará permanentemente monitorizada por seus serviços de saúde e companhias de seguro, acabando com as mortes inúteis por falta de socorro. O dinheiro está-se tornando digital há algum tempo. Já é possível pagar à vista sem usar dinheiro, cheque ou assumir dívida, usando um cartão de plástico para mandar fazer o débito direto na sua conta-corrente no banco onde você tem depósitos. No futuro, praticamente toda a moeda circulante estará depositada e as pessoas usarão cartões inteligentes, dinheiro digital e ciberdinheiro, porque o poder de compra estará expresso apenas em informação. Não só porque é mais prático e menos arriscado, mas porque manter uma sociedade com base em moeda sonante é muito caro: contar, deslocar, recontar, armazenar e proteger moeda sonante custa cerca de 4% de todas as transações. O que se perde guardando-se dinheiro em espécie em vez de mantê-lo rendendo, é uma quantia substancial, porque dinheiro parado não ganha juros, não tem seu valor aumentado, pode até estar sendo perdido, além do custo de precisar ser constantemente guardado. estão no mercado cartões com poder de compra, como os cartões telefônicos. E mesmo cartões que valem dinheiro para que sejam usados em compras em determinado lugar (que fornece o cartão). Muita gente já recebe parte do salário em um cartão que permite fazer compras, todos os meses, até um valor determinado. Na Europa há mais de 250 milhões de cartões inteligentes circulando e sendo usados para comprar bens ou serviços, como os cartões de abastecimento de gasolina.Na Alemanha, as empresas de saúde fornecem a seus clientes cartões inteligentes que contêm todo o seu histórico médico e os resultados dos seus últimos exames de laboratório. Com isto, poupam muito tempo e dinheiro, permitindo também uma medicina melhor com atendimento mais rápido.Não vai demorar muito para que os cartões inteligentes substituam os cartões de banco, de crédito, de telefone, de transporte, de pedágio, de estacionamento. E, no futuro, cada cidadão terá o seu cartão médico, com registros de seguro. Assim como todos nós teremos o cartão-cidadão, valendo como passaporte, carteira de identidade, cartão do Importo de Renda, INSS, FGTS e tudo o mais que o governo precisa para saber quem é quem. A indústria automobilística está cuidando de se atualizar com a revolução da informática e muitos carros já têm mais de um computador. Há, hoje, cerca de 600 milhões de carros na Terra, quase um para cada dez terráqueos. É a maior indústria manufatureira do mundo.Mas carros e estradas passarão por mudanças enormes. Os sensores são o principal acessório dos carros inteligentes e logo veremos veículos capazes de ver, ouvir, sentir, cheirar, falar, tomar decisões. E as estradas inteligentes acabarão com os congestionamentos, impedirão acidentes, manterão os carros a distâncias e velocidades convenientes, evitarão a distração, desatenção e negligência. Haverá até sensores-censores, que não permitirão que um motorista que passou da conta na bebida ligue o motor para sair dirigindo. há sensores que localizam por satélite o carro furtado ou roubado e que, devidamente acionados, podem até impedir que o ladrão saia do carro, chamando a polícia.Nas estradas do futuro, uma vez programados, os carros andarão com piloto automático, poupando o motorista nas viagens longas. É a telemática.No Japão existem mais de um milhão de carros com algum tipo de capacidade navegacional e já foi testado um protótipo capaz de seguir uma programação marcada em um mapa. Pessoas cegas poderão sair de casa em seus carros pré-programados para andar na cidade. E haverá programas suficientes das cidades e até para viagens mais longas.A lista de usos potenciais para a computação como sistema de posicionamento global é quase ilimitada. Durante séculos a ciência avançou fazendo teoria ou experimentando. Mas cada vez mais uma nova forma de ciência está crescendo, baseada em simulações da realidade: é a realidade virtual abrindo novos caminhos, novas áreas, novas perspectivas.Os computadores ajustam-se idealmente a modelar equações diferenciais que fornecem descrições surpreendentemente realistas de fenômenos físicos. As simulações por computador estão-se tornando tão exatas e precisas que já são usadas por milhares de pesquisadores e cientistas em muitas áreas. É certo que elas estão influindo e vão influir cada vez mais no desenvolvimento de novas tecnologias. Em muitas áreas, a propósito, o computador é mesmo a única forma de resolver um problema, solucionando equações diferenciais.Os futuristas afirmam que alguns assuntos podem ser mais bem estudados pela ciberciência. Por exemplo:·        Para observar e analisar supernovas, estrelas de nêutrons, buracos negros, a simulação por computador parece ser nossa única esperança de transformar a astronomia em uma ciência experimental.·        Quando uma proteína não pode ser cristalizada não é possível usar cristalografia por raios X para determinar sua estrutura. É preciso usar a teoria quântica e a eletrostática para encontrar a estrutura da proteína e as complexas equações que determinam essa estrutura só podem ser resolvidas pelos computadores, que ficam sendo o único meio de calcular também as propriedades de uma grande classe de proteínas. ·        A aerodinâmica e o fluxo de ar em torno de qualquer coisa que viaje muitas vezes além da velocidade do som também podem ser simulados em computador e é mais barato do que túneis de vento que, às vezes, teriam que ser gigantescos e usar muitíssima energia. As equações diferenciadas podem dar a chave para os vôos hipersônicos do futuro. ·        Atualmente, só os computadores podem determinar o acúmulo de dióxido de carbono na atmosfera (produzido pela queima de combustíveis fósseis), e do gás CFC, que provocam o efeito estufa e o buraco na camada de ozônio. As equações dirão até quando ainda será possível suportar a agressão continuada ao meio ambiente.·        E, importantíssimo para as construções que o homem pretende fazer em ambientes desconhecidos, o teste de esforço e tensão em materiais industriais pode ser mais bem calculado por computador, com economia de muito dinheiro em testes desnecessários e caros.  A revolução informática está nos levando no rumo do planeta inteligente. Um dia, em janeiro de 1977, o Conselheiro para Segurança Nacional do presidente Jimmy Carter, Zbigniew Brzezinski ouvia, na Casa Branca os planos recém implantados pelo Pentágono para “proteger a liderança da Nação em caso de um conflito nuclear generalizado”.  Era um plano detalhadíssimo e que previa inúmeras possibilidades, começando pela evacuação imediata do Presidente, do Vice, do Presidente do Congresso e do Presidente do Supremo, que se dirigiriam a locais diversos, todos em segurança.Quando o jovem oficial, orgulhoso, deu por encerrada a sua exposição, ZB ordenou uma evacuação total e imediata.             _ Imediata? Agora mesmo?            _ É uma emergência nacional, alerta máximo. Já.O assessor não conseguia falar, surpreso e parecendo assustado. Foi para o telefone vermelho e deu a ordem:            _ Alerta vermelho, evacuação imediata, comecem já.Do outro lado perguntaram por ordem de quem.  Consultado, ZB disse que era uma ordem direta do Presidente da República, e que ele mesmo se responsabilizava.  Ainda houve alguma dúvida, até que ZB gritou:            _ Já; estamos perdendo tempo precioso.Passaram-se horas, com marchas, contra-marchas, pedidos de verificação, senhas, explicação e confirmação, de erros, desentendimentos e berros, até que o primeiro helicóptero chegasse aos jardins da Casa Branca.  A segurança da Casa Branca quase o derrubou, declarando-o hostil e não-autorizado.  O piloto manteve distância até receber ordem para pousar.Zbigniew Brzezinski consultou o relógio: haviam-se passado não os dez minutos anunciados pelo jovem oficial, mas três horas e meia.  Ele disse:_ Fim do alerta vermelho.  O Presidente está morto e a guerra perdida.O episódio é absolutamente verdadeiro e foi contado pelo próprio assessor da Presidência. No dia seguinte começou a desmontagem dos planos estratégicos do Pentágono e foi criada a Advanced Research Projects Agency, uma agência governamental de projetos de pesquisa avançada, para criar uma tecnologia de computação que fosse suficientemente bem programada para começar a funcionar, automática e rapidamente, ao primeiro sinal de alarme disparado da Casa Branca.O primeiro documento da ARPA começava com uma citação do próprio ZB: “O planejamento perfeito é aquele que só admite erros contornáveis e que não prejudiquem o objetivo principal”.Daí resultou, principalmente, a Internet e a comunicação instantânea..           Muitas das maravilhas eletrônicas de hoje, como as videoconferências, a realidade virtual, os satélites de posicionamento global, a Internet, foram desenvolvidos a partir desse fiasco.  Como a Agência funcionava no Pentágono, seus cientistas trabalhavam em regime de sigilo total e as conquistas e avanços ficaram ocultos para o público, inclusive para outros cientistas.A obsessão militar pelo segredo, próprio da guerra fria, atrasou a revolução da informática por muitos anos e é responsável pelo desenvolvimento algo peculiar dessas tecnologias.Pior: alguns cientistas civis que trabalhavam na mesma direção foram submetidos ao silêncio e obngados a abandonarem suas pesquisas, pelas chamadas “razões de segurança nacional”. depois que acabou a guerra fria é que foram sendo preenchidas as lacunas deixadas pelos apressados autores de software e as tecnologias começaram lentamente a vir a público.  Livres do sigilo militar, as tecnologias desenvolveram-se rapidamente e conquistaram público, gerando novas indústrias e uma nova economia que movimentou bilhões de dólares, preparando o caminho para o século 21.Ficou a lição e a certeza de que a ciência e a tecnologia precisam de uma atmosfera aberta, de liberdade, para que os cientistas possam interagir, trocar idéias e fazer prosperá-las com rapidez e qualidade.Esta velocidade vai levar à terceira fase da informática, com os computadores conversando uns com os outros e criando uma espécie de membrana eletrônica vibrante em torno da superfície da Terra, com acesso fácil para todos.Como anunciou Bill Gates, “a Internet é uma estrada de terra esperando para ser pavimentada e tornar-se uma auto-estrada da informação, a infovia que conectará todos os computadores do mundo”.  A infovia está prevista para 2010 e até 2020 os cientistas especializados em computação esperam ver todo o mundo florescendo na Internet: informação, educação, economia, todas as atividades do homem.