Archive for the ‘Ensaios’ Category

Os Velhos e o Futuro do Ser Humano

junho 30, 2008

             O corpo humano não foi planejado para ser bípede e, quando teve necessidade de se por de pé para sobreviver, ficou com os problemas de coluna que transmitiu às gerações futuras. Da pré-história para cá é certo que evoluiu, mas ainda não resolveu  esse problema.

            Do ponto de vista anatômico e do funcionamento fisiológico o homem atual é idêntico ao que vivia nas savanas há 50 mil anos. Só que ele era capaz de andar quilômetros todos os dias, coletando frutos, raízes e folhas para comer e ainda tinha disposição para caçar, se quisesse comer carne. Era preciso estar muito atento, o tempo todo, para proteger os filhos e não ser morto por um predador. E, aí está um problema sério, sua expectativa de vida não passava de 40 anos.

            A Teoria da Evolução fez 150 anos, ensinando como as espécies evoluem a partir de mutações aleatórias e da seleção natural; e que é impossível inferir por que caminhos seguirão. Mas há sérias dúvidas a respeito do Homo sapiens, que pode dar origem a uma nova espécie ou ser extinto.

            Segundo Ricardo Campos da Paz, professor de evolução na Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro (Unirio), é preciso entender que a seleção natural tem mais a ver com o sucesso reprodutivo da sua espécie, com a sua capacidade de passar genes à frente, do que com aptidão para a sobrevivência. O importante é sobreviver até reproduzir. Saindo do período reprodutivo não temos mais função para a natureza.

            Hoje, a expectativa de vida ultrapassa muito os 40 anos e o preço por viver quase o dobro é muito elevado. O organismo humano esteve em harmonia com o ambiente por milênios. Mas em pouco tempo (do ponto de vista da evolução) e de forma abrupta, o ambiente mudou radicalmente, não dando tempo para a adaptação biológica a esse mundo criado pelo próprio homem, um mundo sedentário, repleto de alimentos calóricos e no qual a expectativa de vida é de mais de 70 anos. Em resumo: somos os mesmos, em um lugar completamente diferente. O resultado: problemas de hipertensão, entupimento das artérias, diabetes, obesidade, tudo relacionado ao consumo de gorduras e açúcares, ao sedentarismo.

            A longevidade maior trouxe problemas de faixas etárias que o corpo do homem não estava programado para alcançar. Cumprida a função reprodutora, já testemunhamos o nascimento de netos e até de bisnetos. Mas a verdade é que deixamos de ter função evolutiva, do ponto de vista biológico, e viver mais faz aumentar muito a probabilidade de começarmos a conviver com falhas no sistema do nosso corpo.

            Parkinson e Alzheimer, por exemplo, são doenças de velho. Como o câncer da próstata, sempre associados ao aumento da expectativa de vida e a esse descompasso entre ambiente e biologia.

            É possível que, ao longo de milhares de anos, o ser humano evolua de forma a se adaptar, pela seleção natural, a esse novo ambiente. O problema é que o ambiente continua mudando, para pior. Outra esperança é a ciência e tecnologia criados pelo próprio ser humano, que pode encontrar soluções para os problemas da velhice, permitindo a conivência com taxas mais altas de gordura, sal e açúcar na comida.

 

            Para Sérgio Danilo Pena, geneticista da Universidade Federal de Minas Gerais, a evolução biológica é lenta, depende de mutações da genética que são raras, enquanto a evolução cultural é mais rápida, contagiosa, e se transmite tanto verticalmente quanto horizontalmente, graças à velocidade da comunicação.

            Não é que o homem tenha parado de evoluir, mas a evolução natural é hoje quase irrelevante frente aos avanços da medicina, por exemplo, dando sobrevivência a indivíduos que, no passado, morreriam. Em outras palavras: o futuro evolutivo não vai depender da biologia, mas da cultura. Vivemos num mundo que tem pouco de natural. A revolução biomolecular indica, com bastante clareza, a possibilidade da interferência humana a seu favor, abrindo caminho até para a criação de seres humanos mais bem preparados para a sobrevivência.

            Principalmente a partir da Revolução Industrial, alteramos drasticamente o ambiente e essas mudanças não impactaram só a biologia humana, mas a própria vida no planeta, com conseqüências que a evolução humana  talvez não consiga mais controlar. Nem com a evolução cultural.

Franklin Rumjanek, do Departamento de Bioquímica Médica da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) diz que vivemos na crença de que somos o ápice da evolução, o que é uma enorme mentira. Darwin mostrou que somos apenas mais uma espécie. Na escala de tempo do planeta nós acabamos de chegar e talvez nos tornemos, pelo abuso, mais uma das espécies que não deram certo. A humanidade faz parte de uma rede de vida na Terra e não podemos continuar abusando ou vamos determinar nossa própria extinção. (O que, para o planeta, não fará a mínima diferença, uma vez que a espécie humana não tem capacidade suficiente para prejudicá-lo ou para influir no seu futuro.)

Os especialistas reconhecem que na espécie humana há diferentes espécies potenciais. O problema, segundo Cláudia Russo, chefe do Departamento de Genética da UFRJ, é que seriam necessários dois indivíduos, um homem e uma mulher da mesma linhagem, compatíveis entre si e incompatíveis com a linhagem original para dar início a uma nova espécie. E, depois, que esse ser humano, nascido de tal casal,  encontrasse outro como ele para dar seguimento biológico a essa espécie.

Segundo ela, 20% dos casais são incompatíveis do ponto de vista reprodutivo. São férteis, os dois, mas por alguma razão, mas incapazes de procriar juntos. O inverso, portanto, pode acontecer: indivíduos inférteis com o resto da população, mas férteis entre si, por terem ambos a mesma mutação.. Que isso exista, não há dúvida matemática. O problema é que, estatisticamente, essa possibilidade ainda é muito pequena.

 

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A Centenária Umbanda

abril 10, 2008

            A umbanda fez 100 anos ainda em busca de respeito e reconhecimento social, violentamente atacada pelos evangélicos (principalmente os das seitas) que consideram a umbanda coisa do demônio.

            Reconhecidos por sua capacidade de sicretizar,  assimilar e de misturar rituais, crenças e símbolos do catolicismo popular, do espiritismo kardecista, de cultos africanos e da pajelança dos povos da floresta, de tradições orientais e, mais recentemente, do esoterismo, os umbandistas ainda são estigmatizados e têm dificuldade de firmar uma identidade, além de uma imagem positiva.

            Perseguida durante décadas pela policia, depois pela Igreja Católica e, mais recentemente, pelos evangélicos neopentecostais, sofre um declínio de seguidores, segundo o Censo de 2000.

           

O dia 15 de novembro de 1908 foi uma data marcante do umbandismo porque o Caboclo das Sete Encruzilhadas baixou numa sessão espírita em Neves, São Gonçalo, município fluminense ao lado de Niterói.

Desde 1865 o Doutrina Espírita do francês Allan Kardec (pseudônimo de Hippolyte Léon Denizard Rivail) tinha seguidores no Brasil. E nunca houve antes manifestação igual.

Quem recebeu o caboclo indesejado foi Zélio Fernandino de Moraes, um rapaz\ de 17 anos que se preparava para entrar na Escola Naval. Na mesma sessão ele incorporou o preto-velho ao Antônio, e os dois espíritos reclamaram contra o modo como eram tratados os umbandistas e a umbanda. No século 19 os kardecistas nem admitiam que os índios e escravos negros baixassem em centros espíritas, por considerá-los “marginais e pouco evoluídos”.

No livro Umbanda Cristã e Brasileira, de J.Alves Oliveira, o autor conta que o caboclo teria dito: “Se julgam atrasados esses espíritos dos pretos e dos caboclos, devo dizer que amanhã estarei em casa deste aparelho (o médium Zélio) para dar início a um culto em que esses pretos e índios poderão dar a sua mensagem e, assim, cumprir a missão que o plano espiritual lhes confiou”.

Zélio testemunhou que quando o espírito se revelou como caboclo brasileiro, foi contestado por um médium kardecista que via nele “restos de vestes clericais”. Ao que o caboclo respondeu: “O que você vê em mim são restos de uma existência anterior. Fui padre, meu nome era Gabriel Malagrida e, acusado de bruxaria, fui sacrificado na fogueira da Inquisição por ter previsto o’ terremoto que destruiu Lisboa em 1755. Mas, em minha última existência física, Deus concedeu-me o privilégio de nascer como um caboclo brasileiro”.

Quando perguntaram por seu nome, ele respondeu: “Se é preciso que eu tenha um nome, digam que sou o Caboclo das Sete Encruzilhadas.” Sobre a sua missão disse: “Venho trazer a umbanda, uma religião que harmonizará as famílias e que há de perdurar até o final dos séculos”.

 

O mesmo Zélio de Moraes abriu o primeiro terreiro de umbanda, o Centro Espírita Nossa Senhora da Concveição . E foi paradigma para dezenas de terreiros umbandistas.

Os umbandistas pretendiam se diferenciar “das práticas de feitiçaria contidas nos cultos de origem africana”, que consideravam primitivos. E dar espaço de honra para os espíritos de caboclos e escravos africanos que queriam manifestar-se.

Pioneira no estudo da umbanda na década de 60, a antropóloga norte-americana Diana Brown constatou que is fundadores da umbanda eram, majoritariamente, da classe média, insatisfeitos ao mesmo tempo com os centros de macumba (que funcionavam nas favelas) e com os centros kardecistas.

Eles achavam os rituais da macumba “mais estimulantes e dramáticos” do que as sessões de mesa do espiritismo, mas ao mesmo tempo recusavam a matança de animais e a incorporação de espíritos diabólicos como Exu.

Essa umbanda branca, desafricanizada, adotou princípios e ícones do catolicismo, mas acreditava que os espíritos caboclos e entidades africanas eram mais competentes no uso da medicina popular para o tratamento de doenças tropicais ou que afetavam a maioria da população.

 

Mesmo com toda a liberdade religiosa pregada pela República, o Código Penal de 1890 proibia a prática do espiritismo, da magia e de sortilégios. O Código de 1942 ainda reprimia os feiticeiros, mas agora apenas os que fazem trabalhos para o mal, segundo a antropóloga Yvonne Maggie (O que significa que a elite acreditava nos poderes sobrenaturais dos feiticeiros do mal…)

Muito perseguidos no Estado Novo, presos e impedidos nos seus cultos, a Polícia Central do Distrito Federal (quando o Rio era a capital da República) mantinha uma Coleção de Cultos Afros conhecida como Coleção da Magia Negra, com cerca de 200 imagens, vestes, guias e objetos de culto apreendidos.

As primeiras Federações Umbandistas foram criadas exatamente para enfrentar a discriminação social e a repressão policial. As figuras de proa eram presas, sistematicamente, durante a ditadura Vargas e apanhavam muito, principalmente quando eram presos pela chamada Polícia Especial.

Jaú, ex-zagueiro do Corinthians de 32 a 37 e da seleção brasileira que disputou a Copa do Mundo de 38, na França, tornou-se pai-de-santo em São Paulo. Foi preso tantas vezes e apanhou tanto que era considerado o grande mártir da Umbanda.

Foi ele o criador das festas a Iemanjá nas praias do litoral paulista no final dos anos 40, mas isto só serviu para que fosse mais humilhado e torturado. A redemocratização do país, em 1945 melhorou o ambiente de liberdade religiosa mas só em 1963 caiu a exigências de registro obrigatório na Polícia dos terreiros de umbanda, restando apenas o registro civil em cartório público.

Na década de 50 mais terreiros recém-abertos se declararam centros de umbanda do que centros espíritas. Houve apenas um registro de centro de candomblé. Nos anos 70, foram registrados 7.627 terreiros de umbanda, 856 de candomblé e 202 centros espíritas.

Mas a partir dos anos 70 começaram as perseguições pentecostais, até com violência física. Em 2005 a Justiça Federal condenou a Rede Record e a Igreja Universal por intolerância religiosa, num processo ganho pelo Superior Órgão de Umbanda do Estado de São Paulo. O processo está no Supremo Tribunal de Justiça.

Nas favelas, os pentecostais uniram-se aos donos do tráfico de drogas e praticamente acabaram com os centros de umbanda, de candomblé, e até com o espiritismo de mesa.

No Censo de 2000, 432 mil brasileiros se declararam umbandistas, uma queda de 20% em relação ao Censo de 1991. E a tendência de queda persiste, embora uma pesquisa da UFRJ tenha identificado muitos freqüentadores que procuram os centros de umbanda para conselhos ou curas, mas não se consideram umbandistas (principalmente por medo ou vergonha).

 

O compositor, pesquisador e escritor Nei Lopes (autor da Enciclopédia Brasileira da Diáspora Africana) é contra essa umbanda branca, afastada das raízes africanas, que recusa tambores e se pretende esotérica. “Para essa gente essa coisa de tambor e sacrifício de animais é coisa de selvagens. E nessa oposição entre selvagem e civilizado é que está o racismo”, disse ele ao jornalista Marcelo Beraba, da Folha de S.Paulo.

Ele recusa, inclusive, o que chama de mito da origem da umbanda, porque antes de Zélio receber o caboclo e o preto-velho, já havia, além dos calundus coloniais (que não tinham organização social, comunitária) os candomblés, desde 1850. Na virada do século 19 a ialorixá baiana Mãe Aninha vinha ao Rio onde fundou, por volta de 1906, uma filial da sua roça, o Opô Afonjá, que funciona até hoje em Coelho da Rocha, São João de Meriti, na Baixada Fluminense.

Para Nei, a umbanda é herdeira direta de cultos bantos como o da cabula e cresceu sob influência do candomblé baiano, incorporando as figuras dos orixás jeje-nagôs e outros elementos.

Diz ele que, fundamentalmente, o que distingue a umbanda é o culto ais pretos-velhos, que não existem no candomblé. E esses pretos-velhos são representações de espíritos familiares bantos, da área de Angola, Congo e Moçambique, daí os seus nomes: Vovó Conga, Pai Joaquim de Angola, Tia Maria Rebolo, Pai Joaquim de Aruanda.  O candomblé, segundo Nei, vem da Nigéria.

Nei cultua os orixás. Mas não é do candomblé; já foi. Diz ele que se dedica á forma de culto que em Cuba se conhece como santeria. E propõe ao IBGE que inclua umbanda, candomblé e santeria  numa rubrica só: religião de matriz africana.

 

A umbanda já foi citada, na metade do século passado, como um símbolo do subdesenvolvimento brasileiro, A antropóloga Diana Brown discorda. Pioneira no estuda da umbanda (é autora do livro Umbanda – Politics of an Urban Religious Movement) e morou numa favela durante quase seis meses para estudar esse movimento religioso que supunha ser de negros pobres. Descobriu que era um movimento de classe média, infiltrado de brancos.

Por essa época ela fazia o doutorado na Columbia e o Departamento de Antropologia (como a maior parte das universidades americanas) acreditava que as religiões de matriz africana estavam em declínio e deveriam desaparecer, com o desenvolvimento do país. Supostamente, elas faziam parte do setor tradicional ou atrasado da sociedade. Por isso mesmo ela foi orientada a pesquisar na favela, os viviam os setores mais pobres, menos escolarizados,

Menos atingidos pela modernidade.

            Sua pesquisa desmontou a tese antecipada. No Jacarezinho, no primeiro fim-de-semana, encontrou-se com o líder de uma das federações umbandistas: era um General do Exército.

            Logo ela resolveu fazer a pesquisa na classe média. E explica: “Naquele momento, todo mundo se interessava pelo candomblé e desprezava a umbanda que havia se misturado com outra religiões. Só o puro é que era considerado bom e autêntico.”

            Segundo Diana, “o candomblé era tido como cultura popular autêntica e a umbanda era kitsch” e ela não concorda com isso porque “a imagem de autenticidade é uma construção social”

            Criada protestante, afastada da Igreja, para ela a umbanda tem a mesma validade de outras religiões, “talvez um pouquinho mais”. Por que? “Porque não posso dizer que acredito nos espíritos, mas também não posso negar tudo o que eu vi acontecer nos terceiros. Seja qual for a causa, funciona muito bem: ela cuida, trata e cura”.

 

Na concepção umbandista, o termo exu serve para nomear uma porção de espíritos de homens e mulheres que, em vida, tiveram uma biografia socialmente marginal. O culto dessas entidades é reunido na quimbanda, uma divisão da umbanda que hoje me dia é encontrada também em terreiros de candomblé. A quimbanda cuida de situações de vida que a moralidade dos caboclos e pretos-velhos que compõem a maioria na umbanda rejeita e reprime.

         O exu mais importante é a Pombagira, que tem muitas identidades: Maria Padilha, Sete Facadas, Maria Molambo, Pombagira das Almas, Dama da Noite, Maria Bonita. Apela-se a elas para a solução de problemas, desejos e fracassos da vida amorosa e da sexualidade. Ela junta e separa casais, protege as mulheres agredidas pelos maridos, propicia as uniões amorosas mais difíceis, favorece os instintos, as pulsões sexuais, as aspirações, os desejos inconfessos, qualquer tipo de união erótica, hétero ou homossexual.

         Para elas, qualquer pedido feito com fé e ardor pode ser atingido, não há desejo ilegítimo nem fantasia reprovável.

         Daí a força da quimbanda e da própria umbanda para um grande número de pessoas, não necessariamente umbandistas.

 

 

 

 

 

Maestro Anacleto

março 4, 2008

            Anacleto de Medeiros , filho de uma escrava liberta, nasceu, num dia 13 de julho e recebeu o nome do santo do dia.  Cresceu, viveu, morreu e está enterrado na Ilha de Paquetá.Ffoi uma das figuras mais significativas da música brasileira, porque ele, Chiquinha Gonzaga, Antônio Callado e Ernesto Nazaré é que estabeleceram as bases definitivas do choro, um ritmo urbano tipicamente carioca.

            Começou na música tocando flauta e flautim na Companhia de Menores da Banda do Arsenal de Guerra do Rio de Janeiro. Aos 18 anos entrou para a Tipograia Nacional  como aprendiz e para o Imperial Conservatório de Música, onde chamou a atenção por dominar todos os instrumentos de sopro.

            Tinha preferência pelo saxofone e fundou, entre os operários da Imprensa, o Clube Musical Gutemberg, primeiro conjunto musical que organizou.

Formou-se no Conservatório em 1886, diplomado em professor de clarineta. No mesmo ano organizou a Sociedade Recreio Musical Paquetaense e começou a compor músicas sacras, executadas na igreja de São Roque, em Paquetá.

Em seguida sua banda dava concertos no coreto da Praça de São Roque, executando principalmente música ligeira..

            Estudioso, devotado, com apurado talento, ele montou várias bandas, como a Sociedade Recreio Musical Paquetaense, inclusive a Banda da Fábrica de Tecidos Bangu, a da Fábrica de Tecidos dos Macacos, a da Piedade, em Magé, e a Banda do Corpo de Bombeiros. Foi ele quem transformou a rispidez sonora das bandas com a beleza de suas harmonias e o talento de incrível arranjador. Em lugar de só tocar dobrados e marchas militares, fixou o gosto pelas valsas, polcas, schotttisch e quadrilhas, transmitindo-as na linguagem das rodas de choro.

            É ele que cria uma forma particular de interpretar e escrever para seus companheiros chorões do Cavaquinho de Ouro, na Rua da Carioca 4, onde conheceu Villa-Lobos.

            Como compositor foi um dos mais expressivos da música brasileira, mas só criou cerca de cem músicas. A qualidade do seu trabalho de compositor fez com que o maestro e compositor Villa-Lobos utilizasse o seu choro Yara (que depois fez sucesso com letra de Catulo da Paixão Cearense com o nome de Rasga Coração) como base para compor o seu Choros nº. 10.

Foi em 1896 que Anacleto recebeu o convite do tenente-coronel Eugênio Jardim para montar a Banda do Corpo de Bombeiros. Montou, ensaiou mas não regeu na inauguração: estava em Paquetá para a festa do padroeiro, São Roque, de quem era devoto.

Mas a banda fez tal sucesso que foi convidada para gravar os primeiros discos produzidos no Brasil, “especialmente para a Casa Edson” (Rua do Ouvidor 107, do tcheco Fred Figner).

Segundo o pesquisador Humberto Franceschi, haveria no Rio, naquela época, menos de 250 fonógrafos e gramofones. Diz ele que a relação das primeiras gravações do catálogo da Casa Édson, datado de 1902, é toda de discos gravados pela Banda do Corpo de Bombeiros, com o maestro Anacleto de Medeiros à frente.

Para Henrique Cazes, a diferença de som entre as bandas montadas por Anacleto e as outras é “absolutamente evidente”.  As outras “não passam de bandas militares”, não têm a maciez de interpretação e o mesmo rendimento técnico. Uma das razões: Anacleto não dispensava a colaboração musical de chorões de boa técnica, principalmente trompetistas como Casemiro Rocha e Luiz de Souza. Os chorões é que davam melhor afinação,  leveza e permitiam arranjos bem acabados.

Anacleto adaptava também trechos de peças sinfônicas e outras peças clássicas que, no entanto, caiam no gosto popular, segundo o pesquisador José Ramos Tinhorão, porque vinham junto com músicas de gosto popular e do agrado público.

Seus músicos eram convidados para animar bailes de máscaras e as grandes festas de salão. E ele é apontado como o criador da escola brasileira de sopros.

Aos poucos, foi criando fama como compositor e suas peças passaram a ser executadas em bandas de todo o país. Exímio melodista, excelente harmonizador, sabia orquestrar de formas muito evoluída, dando às suas bandas afinação, leveza, dinâmica e alegria contagiante.

Foi o criador da “banda de câmara, um quinteto de metais, e o sistematizador do xote.

O xote vem das dança de salão schottisch, geralmente em compasso binário, como a polca,  mas um pouco mais lenta. O nome original é alemão mas o ritmo chegou ao Brasil via Inglaterra, onde foi introduzido por volta de 1848.

No Brasil chega em 1851, introduzido pelo professor de dança José Maria Toussaint.

O xote não alcançou o mesmo sucesso da polca, segundo o pesquisador Baptista Siqueira, porque a polca era sempre composta em tom  maior e quase todos os xotes em tom menor.

Em 1935, por iniciativa do pintor e escultor Pedro Bruno, a rua onde Anacleto nasceu (Ria do Muro) recebeu o nome de Anacleto de Medeiros.

Mestro caprichoso, ríspido e até violento, mandou jogar fora instrumentos de sopro vindos da Alemanha, porque estariam todos com defeito, semitonando. Mas sem a batuta na mão era manso, sincero e fiel amigo, delicado e cortejador.

Certa tarde, notando a presença de Carlos Gomes na platéia, Anacleto dirigiu-se a ele e ofereceu a batuta que o compositor recusou, dizendo:

_ NInguém, à frente desta banda, estará melhor que você,  maestro Anacleto.

O Corrupto-Mór

fevereiro 29, 2008

                        “Quem furta pouco é ladrão,                                   

                         Quem furta muito é barão;

                        Quem mais furta e esconde                        

                        Passa de barão a visconde.”      

      Os versos de mal-dizer, anônimos, referem-se ao Visconde do Rio Seco, o maior corrupto que veio de Portugal com a Corte de D. Maria I e seu filho D. João. Joaquim José de Azevedo foi o encarregado de organizar a fuga, oficialmente chamada de Translado da Corte portuguesa para o Brasil. Depois de exercer vários cargos importantes no reinado de D. Maria I, na madrugada de 25 de novembro de 1807 deram-lhe dois dias para cuidar de toda a logística do embarque. Tinha carta branca até para decidir quem viria e quem não deveria vir. O plano de fuga era antigo e estava acertado como os ingleses, que dariam cobertura armada à frota. Mas como o Príncipe D. João tinha dúvidas e tentou enganar os franceses até o último minuto, ninguém tinha coragem de se mexer para os preparativos da viagem.     

      A notícia, publicada em Paris, de que Napoleão havia dito que a Casa de Bragança já não reinava, disparou a decisão. À meia-noite acordaram o Oficial da Corte Joaquim José para uma reunião com o Conselho de Estado, no Palácio Real. E lhe deram ordem para organizar o embarque imediato.Ele tratou de assegurar lugar para a própria família e para seus bens, e dirigiu-se ao porto. O mau tempo adiou a viagem para o dia 29 e ainda assim a pressa e o improviso deixaram a organização a desejar.      

      O Tesouro Real não veio todo. Como não vieram os livros da Biblioteca Real e muitos documentos importantes de governo. Não vieram todos os arquivos necessários e ficou muita louça, roupa e carruagens. As ucharias reais deixaram para trás muita comida que faria falta nos dois meses da viagem. E muitos nobres viajaram apenas com a roupa do corpo, na pressa de embarcar. O próprio Azevedo embarcou a família com calma,  mas resolvendo os últimos problemas burocráticos não conseguiu embarcar, impedido pela multidão em fúria. Chegou ao navio já no dia 29, num barquinho a remo que lhe custou uma pequena fortuna. E foi obrigado a deixar no cais documentos e seu próprio dinheiro…       

      Chegado ao Rio ele tratou logo de recuperar suas perdas financeiras, ocupando o cargo de encarregado das  compras e do abastecimento da despensa real. Enriqueceu tanto e tão rapidamente que sua imagem ficou ligada á roubalheira e a corrupção, expressada em muitos versos populares. A tal ponto que, na volta de D. João a Portugal, as Cortes proibiram que ele fosse junto..      

      Até no teatro ele era personagem ridicularizado. Ficou no Brasil, gozando de grande conforto, num palacete do Rocio Grande (atual Praça Tiradentes) que está sendo restaurado mas que por um tempo abrigou o Detran, palco de muita transação corrupta.        Locupletou-se no poder e ganhou o título de Barão do Rio Seco a 13 de agosto de 1812. Depois, em 16, foi elevado a Visconde. E a 1º de dezembro de 1822, D. Pedro I deu-lhe o título de “visconde com grandeza”, o primeiro no país.A 12 de outubro de 1826, D.Pedro deu-lhe um título brasileiro, o de Marquês de Jundiaí.     

      No Museu Imperial, em Petrópolis, há um manuscrito seu de cem páginas, destinado a D. Pedro. E em que ele nega, em detalhe, todas as acusações de corrupção e malversação de dinheiros públicos.       

      Só que o povo, insistia no mal-dizer:      

      “Rico ladrão, foi a Conde      

       E mais ainda a Visconde.      

       Não parou de roubar, e aí,     

       Virou Marquês, de Jundiaí.”         

O Massacre dos Sabinos

fevereiro 29, 2008

            Sabino foi o médico, jornalista e líder político que deu nome à sabinada, o mais bem sucedido movimento armado urbano no Brasil, que chegou a conquistar a cidade de Salvador, a segunda maior cidade do país,  e a declarar a Bahia uma república independente,na madrugada de 6 ara 7 de novembro de 1837. Por nome todo ele era Francisco Sabino Álvares da Rocha Vieira.          

      Quatro meses depois, nos dias 13, 14  e 15 de março de 1838, a cidade sofreu os mais sangrentos combates da sua história. Mais de 60 prédios foram bombardeados pelas tropas imperiais; e soldados e oficiais rebelados abandonaram os postos e eram massacrados, impiedosamente, mesmo depois de entregarem suas armas. Foram 1.089 mortos entre os rebeldes e 40 entre os legalistas.           

      Na verdade, o movimento republicano não era uma unanimidade entre os rebeldes. Todos estavam contra o governo central e o gatilho da revolta foi a saída do regente eleito Diogo Antônio Feijó, em setembro. Dizia-se que, com sua queda. O novo governo imperial iria diminuir a autonomia da Província. Todos protestavam também contra os impostos, que só beneficiavam a Corte. E contra o reconhecimento do valor da luta contra os portugueses que dominavam o mercado varejista de Salvador.           

      O presidente eleito, Inocêncio da Rocha Galvão  e seu vice, João Carneiro da Silva Rego, quatro dias depois da declaração de independência modificaram a posição dos revoltosos para limitar a república e a independência, que só teria validade até a maioridade do Imperador Pedro II (a 2 de dezembro de 1843)           

      Quer dizer que os sabinos não eram separatistas, apenas queixavam-se do governo da Regência.As queixas eram muitas entre os rebeldes, cuja maioria era da classe urbana pobre. A redução do efetivo militar, de 1831, deixaram muitos oficiais desempregados. E a Guarda Nacional, com seus oficiais eleitos (criada naquele mesmo ano), substituía o Exército por uma força civil que só interessava às elites brancas. Na Guarda o racismo exigia batalhões segregados, de brancos, mulatos e negros e muitos dos negros eram oficiais muito populares. Daí o apoio, na sabinada, da maior parte da população, que era negra. Curiosamente, a nova República manteve a escravidão, “por ser um direito de propriedade”, num esforço de conquistar a classe senhorial baiana que, aos primeiros movimentos retirou-se para o Recôncavo.

      Os senhores de engenho é que armaram o Exército para enfrentar os revoltosos. A cidade foi bloqueada, primeiro por mar e depois por terra. A notícia de que os escravos estavam fugindo para alistarem-se nos batalhões deSabinos criou um problema: os soldados só admitiam pretos crioulos, isto é, nascidos no Brasil. Os escravos que haviam vindo da África eram considerados estrangeiros e não podiam servir na tropa…           

      Os portugueses da cidade começaram a ser atacados e os ataques foram ficando cada vez mais violentos. Todos os estrangeiros começaram a ser aterrorizados.Os radicais, com José de Santa Eufrásia, major da milícia negra à frente, exigiam que o poder fosse entregue aos negros.As divisões enfraqueceram o movimento.

      Quando os legalistas tomaram posse de Salvador, a 13 de março, mataram todos os líderes negros. Os líderes brancos foram condenados à morte, “por incitarem escravos à rebelião e por homicídio”. Escaparam da forca porque, em 1840, D. Pedro II anistiou a todos, desde que fossem morar longe de Salvador. Sabino foi viver em Goiás

      O Hino 7 de Novembro, de Domingos da Rocha Mussurunga, cantava: 

“Já que bravos Artilheiros

Com denodo e heroicidade

Ergueram na pátria opressora

O pendão da Liberdade,

Eia, baianos!

 Neste almo dia

Morram tiranos,V

Viva a Bahia!”

A Rainha do Crime

janeiro 28, 2008

               Mais publicada que Shakespeare, Agatha Christie só perde para a Bíblia. Em inglês, foram um bilhão de cópias (por enquanto) e em traduções outro bilhão. Chamada de Duquesa da Morte ou de Rainha do Crime, Agatha Mary Clarrisa Niller Virlad adotou um  pseudônimo: Mary Westmacott para escrever romances água-com-açucar e peças teatrais de pouco sucesso, e depois assinou-se Agatha Christie para escrever oitenta romances policiais de muito sucesso, alguns deles transformados em filmes.

            Pioneira nos desfechos imprevistos, impressionantes e imprevisíveis (o que  faz com que o leitor não consiga descobrir o assassino até que ela o revele), fez a melhor literatura policial e ganhou os títulos de Duquesa da Morte e Rainha do Crime.

            Nascida em 12 de setembro de 1890, em Torquay, Wallingford, é a criadora de Hercule Poirot, Miss Marple, Tommy e Tuppence Beresford, Parker Pyne e Mr. Quin.

            Agatha casou-se pela primeira vez em 1914, com o coronel Archibald Christie, do Corpo Real de Aviadores. Teve uma filha, Rosalind, e divorciou-se em 1928, conservando o nome do marido.

            Durante a I Grande Guerra trabalhou como enfermeira. Com uma forte gripe que a deixou de cama, começou a escreveu para passar o tempo. Continuou a escreveu encorajada por Éden Phillpots, teatrólogo amigo da família. Escrevia história melosas, melancólicas, em que a maioria dos personagens morria.

Em 1926, após a média de um livro por ano, escreveu o que considerava seu melhor livro: O Assassinato de Roger Ackroyd, primeiro livro pára a editora Collins, começando um relacionamento que durou 50 anos e 70 livros. Foi o primeiro a ser transformado em peça de teatro (O Álibi). Nele foi criado o personagem Hercule Poirot, o pequeno detetive belga que se tornou mais popular que Sherlock Holmes Mereceu até estátua na Bélgica. (Os franceses dizem dos belgas o que os brasileiros diziam dos portugueses.)

Cada vez mais distante do marido depois da compra de uma casa de campo, ficava sozinha porque ele dedicou-se ao golfe três vezes por semana e por todo o fim-de-semana. Omã morte da mãe, ela resolveu assumir e organizar a propriedade da Família Ashfield, em Torquay. Ela e o marido resolveram fechar a casa depois que ela acabasse de organizar os documentos e objetos antigos da família. Ficou três meses sozinha e ele morando em Londres, no seu clube.

Com a missão concluída, iam reunir-se para uma viagem à Itália, mas Archibald pediu o divórcio: durante sua temporada londrina havia encontrado Nancy Neele e resolvido casar.

Em dezembro de 1926 o carro dela foi encontrado abandonado, com as portas abertas, á beira de um lago. Não havia indício do seu paradeiro nem uma linha escrita para justificar seu desaparecimento.

A polícia fez buscas intensas, sem sucesso. Os jornais noticiavam seqüestro, assassinato, crime. O marido infiel tornou-se o principal suspeito.  O lago foi drenado porque, pressupostamente, o marido jogara seu corpo no lago, depois do crime.

Depois de 12 dias o empregado de um hotel na cidade de Harrogate telefonou para a Polícia, informando que uma hóspede do hotel era “a cara na mulher desaparecida”. A Polícia foi lá e os investigadores viram que a hóspede Theresa Neele (o mesmo sobrenome da amante do marido) era Agatha. Ela ainda estava em pleno surto de um colapso nervoso.

Agatha jamais se explicou ou esclareceu o fato e chegou a ser acusada de ter dado um golpe de marketing

Em 1930 casou-se com o arqueólogo Sir Max Mallowan, 14 anos mais moço que ela, com quem viajou muito pelo Oriente Médio. Um casamento que durou até que a morte os separasse e que deu a ela cenário para muitos livros.

Durante a II Guerra Mundial trabalhou como voluntária na farmácia de um hospital e aproveitou para especializar-se em venenos. Muitos dos assassinatos em seus livros são cometidos com veneno.

A Ratoeira, sua peça mais famosa, estreou em 1952 e ficou em cartaz por 50 anos. É a peça de maior duração em cartaz na história e foi sempre encenada no mesmo teatro de Londres. Quando se resolveu tirá-la de cena a casa continuava lotada mas estava difícil encontrar atores que se dispusessem a renovar o elenco…

Agatha Christie foi feita Dama da Ordem do Império Botânico em 1971.

Ela morreu em 1976 e desde então vários livros ainda foram publicados, inclusive Um Crime Adormecido, Os Casos Finais de Miss Marple, Enquanto Houver Luz.Cai o Pano, narrando a última aventura de Hercule Poirot, foi publicado pouco antes da sua morte. Causou escândalo e até passeatas de protesto contra a escritora. Mas, numa entrevista coletiva, ela explicou que preferia matar Poirot  para evitar que, depois da minha morte, ele se envolvesse em aventuras que eu não aprovaria”.

Agatha Christie morreu de causas naturais, sem mistério, de causas naturais, em 12 de Janeiro de 1976. Deixou milhões de leitores e uma fortuna calculada em 20 milhões de dólares.

Ela está enterrada na Abadia da Torre (Torre Abbey) onde há uma placa comemorativa.

                       

Nossa Realidade É Virtual…

janeiro 28, 2008

     

            Uma nova teoria sugere que o universo não é real e que o chamado Big Bang não passa da inicialização de realidade virtual que já dura 15 bilhões de anos. A tese é do cientista Brian Whitworth, do Centro de Matemática e Computação Teórica da Universidade de Massey, Auckland, Nova Zelândia.

            É a primeira vez que um homem de ciência sugere que a realidade que vivemos não é objetiva, mas uma realidade criada pelo processamento de informação.

            Em defesa de sua tese ele começa lembrando que a física tem algumas leis estranhíssimas, embora todas provadas na teoria por equações matemáticas e na prática por experiências. E pergunta porque há necessidade de uma física macro, para as coisas observáveis, e um física micro, a quântica,

para tudo que é menor que o átomo… As partículas quânticas são teleportáveis e podem interagir simultaneamente quando induzidas ao emaranhamento quântico, de modo que se uma partícula fica num estado a sua gêmea ficará no mesmo estado, ainda que esteja em outro planeta.  Já na física da relatividade, a velocidade da luz não muda, é absoluta, enquanto a gravidade pode curvar o espaço e o tempo.

Brian lembra que, segundo a teoria do Big Bang, antes do universo não havia coisa alguma. Ele pergunta: como é possível que alguma coisa surja do nada e de tempo algum? Para ele, a aceitação de que vivemos uma realidade virtual, não objetiva (que nos parece bem real e palpável apenas porque fazemos parte dela) resolve todos os problemas da física.

A idéia do Big Bang faria sentido: é um grande boot e não há problema se antes do universo não havia nada, “porque antes não haveria mesmo tempo e espaço da forma como definidos no universo virtual”, “da mesma maneira que antes se  iniciar um computador nada existe.” Depois, esse universo virtual andaria de mãos dadas com todo tipo de cálculo, como quer a física, porque o processamento da informação é sua própria razão de existir.

“A teoria de uma realidade virtual poderia reconciliar a contradição entre a relatividade e a teoria quântica. A primeira mostraria como o processamento da informação cria o espaço e o tempo, e a segunda mostraria como, através do mesmo processamento, seriam criados energia, matéria e carga”, escreve Brian. “A famosa equação de Albert Einstein de transformação de matéria em energia seria simplesmente a informação indo de uma forma a outra…”

Embora cite o filme Matrix na sua tese, Brian afirma que no filme a realidade simulada existe dentro de um mundo físico. O que ele propõe é muito mais radical: que tudo o que existe seja fruto de um processamento externo. “Nosso próprio ato de observar o mundo pode cria-lo”, diz ele. Assim como na tela do computador, à medida que andamos por um mundo virtual ou game, o PC vai calculando a parte do mundo que estamos vendo e a exibe, no universo virtual isso também acontece, só que em três dimensões e dentro de nossa noção (programada, como são também as nossas sensações) de espaço e tempo.

A questão é que a interface em que vivemos é diferente de qualquer outra. Afinal, não somos feitos de pixels (ou somos?) e experimentamos tudo de dentro. Isto é, lembra André Medeiros nO Globo, se formos reais jogadores. Ai, como ele mesmo escreve, já seria outra história.

O Estupro de Nanquim

dezembro 18, 2007

O Exército Imperial Japonês, em seu projeto de expansão colonialista na Ásia, durante 14 anos marchou sobre a China, de 1931 a 1945. E um dos momentos mais bárbaros dessa invasão  completou 70 anos agora em 2007, ignorado por quase todo o mundo. No dia 13 de dezembro de 1937 os japoneses entraram em Nanquim, a antiga capital da China. Nos três meses seguintes assassinaram mulheres, crianças, velhos, soldados que se entregavam desarmados. No chamado Estupro de Nanquim foram assassinadas no mínimo 200 mil pessoas (segundo o veredito do Tribunal de Guerra de Tóquio, em 1948) ou mais de 300 mil segundo pesquisas de historiadores.

Os japoneses sempre foram incapazes de admitir um holocausto dessas proporções. E a amnésia pragmática da China não permite fazer estardalhaço sobre essa ferida não cicatrizada no momento em que os dois países tentam uma reaproximação economicamente interessante para os dois.

O que reacende a memória do holocausto esquecido é um filme, o documentário Nanking, com roteiro e direção de Bill Guttentag e Dan Sturman (ganhador do prêmio de edição do FEstival de Sundance e agora nas telas americanas).

O filme mostra, em 90 minutos, como um grupo de estrangeiros, liderados por um alemão (simpatizande do nazismo), John Rabe,  consegue criar uma zona neutra, de segurança, na cidade invadida, salvando a vida de 250 mil chineses. Ele,  pessoalmente, na qualidade de prestigiado representante da Siemens, deu abrigo a mais de 650 pessoas em sua casa.

Usando seus contatos em Berlim ele criou a zona neutra, protegida por bandeiras nazistas, e evitou a entrada dos sanguyinários soldados japoneses em busca de chineses refugiados e de mulheres para serem usadas como escravas sexuais.

A casa de Rabe foi recuperada pela Universidade de Nanquim e é agora um memorial da resistência. O próprio Rabe escreveu um Diário com as atrocidades que testemuinhou nas ruas da cidade, mas o livro só foi publicado em 1997.

 O esforço de reconstrução e o desejo de receber investimentos japoneses fez calar os chineses e mesmo os americanos só tomaram conhecimento das proporções da tragédia em 1997, depois da publicação do livro de Iris Chang, uma pesquisadora sino-americana. Filha de pais crineses, fugidos pára os Estados Unidos depois da Revolução Cultural, ela pesquisou a história do massacre por falta de informações sobre o episódio, mesmo em clássicos como Memórias da Segunda Guerra Mundial, de Winston Churchill, e A segunda Guerra Mundial do historiador Henri Michel.

Suas detalhadas pesquisas acabaram por provocar um enorme trauma psicológico e forte depressão nervosa, que terminou com o seu suicídio, em 2004.

No Japão, nem o livro esdtá à venda nem o filme tem previsão de exibição. O Partido Liberal Democrático. no poder, declarou oficialmente que “depois de pesquisas e consultas a documentos” concluiu-se que “apenas 20 mil pessoas morreram no ataque a Nanquim, principalmente soldados chineses que resistiram”. Duas mentiras, porque Nanquim rendeu-se sem oferecer resistência armada.O Ex´percito macionalista chinês havia recuado, deixando Mamquim totalmente desprotegida.

Vida Seca Severina I

outubro 24, 2007

“É inacreditável e inceitável que o governo se deixe surpreender mais uma vez pela seca no Nordeste. O fenômeno já está suficientemente estudado e é perfeitamente previsível, mas a cada seca ele se deixa surpeender. Imagino que a causa seja uma só: os ricos ganham dinheiro explorando a indústria da seca, que interessa a eles. Só os pobres sofrem. Filho de rico nunca morre na seca e nunca ouvi dizer de um rico imigrando por falta de chuva.”

A frase-desabafo é de um nordestino, que imigrou, e que hoje é Presidente da República. E, na Presidência, deixou-se surpreender por mais uma seca no Nordeste, que está castiogando 12 milhões de pessoas. Pior: se as ´[aguas do São Francisco, que ele aponta como solução, fossem suficientes para acabar com a miséria, não seria interessante primeiro fazer programas para o uso da água acabar com a miséria ribeirinha? Só que isso, certamente, não daria a ganhar tanto as grandes empreiteiras e aos grandes empresários, que vão ganhar milhões com a Transamazônica de água. Uma água que não vai matar a sede do nordestino nem resolver os problemas do Nordeste, mas servirá para tornar mais ricos os já muito ricos.

É como diz o poeta Leandro:

É grande a calamidade / é triste a situação / cada dia que se passa / aumentando a aflição/ sofre todo sertanejo / quando há seca no sertão.

A literatura de cordel, no Brasil, é um fenômeno tipicamente nordestino. A origem evidente está

nas folhas volantes  lusitanas, também chamadas de folhas soltas. Antes da imprensa o povo registrava sua poesia cantando, de memória. E quem sabia escrever enchia os cadernos manuscritos copiados a mão. Depois, com a prensa tipográfica, o registro era feito nas folhas  vendidas nas feiras, nas romarias, nas ruas e praças, no mercado, registrando fatos históricos, romances tradicionais, lendas, fantasias, notícias, versos de maldizer e de bem querer.

Geralmente eram vendidas barato, por cegos, um privilégio concedido por Provisão Régia. E ficavam expostos penduradas em cordéis, daí o nome.

A tradição veio para o Nordeste co os cantadores portugueses e aqui fixou-se. De início cantando os mesmos temas tradicionais portugueses, com a mesma métrica e as mesmas rimas. Mas aqui o romanceiro peninsular encontrou ambiente ideal, criativo, cresceu forte, encorpou, ganhou seu temas e assuntos, novas rimas, tornou-se atraente para o povo, ganhou a fisionomia da  própria gente da terra.

Em terra muito musical, de pouca leitura e muito analfabeto, os cantadores eram quase que a única fonte de notícia, de informação, de conmhecimento e de maravilha. Alguns dos maiores autores nunca escreveram um verso, por serem analfabetos.

Logo a cantoria passou a ser o maior canal de comunicação para qualquer acontecido, e para maravilha, o sonhado, o impossível desejado, para a beleza, e para a astúcia, para a crítica e a poesia, para a seca, a miséria e a vida severina.

Sobre a vida severina é bom lembrar os versos do Poeta Salomão, por nome Hégira Salomão, um islamita pernambucano de Olinda.

“Quando é severa a seca / Nossa vida é severina Se for pobre ‘tá lascado / Velho, homem ou menino / Sofrendo por todo lado / Seja um forte ou um mofino./

Malaquias José de Mello, cearense do Crato, já versejava em 1933 dizendo que o problema do Nordeste não era a seca, era a cerca:

“Filho de rico não sofre/ Seca não é seu destino Para o pobre falta tudo / Quem é rico vive o fino Quem sofre só é o pobre / Sua vida é um desatino./

Francisco Fernandes da Motta, do Catolé do Rocha, na Paraíba, escreveu A Seca no Nordeste

Quem não conhece o Nordeste / Não sabe e nem imagina / A angústia de seu povo / Quando a seca predomina / A miséria que acarreta na região nordestina. /

Quem não tem conhecimento / De uma seca no sertão/ Não vê o sol causticante / Fazdndo incêndios no chão / Milhões de bocas famintas / Clamando por água e pão./

Se o plantio estáperdido / As chuvas são inconstantes / O sertão se torna um palco / Dre cenas horripilantes / As feiras são invadidas / Por levas de retirantes. /

O governo, segundo os poetas, finge que socorre, cria frentes de trabalho, dá trabalho a quem em compadre, e explora ainda mais o pobre na emergência, oferecendo mão de obra subsidiada, gratuitamente, para o trabalho dos donos da terra, como conta Leandro Simões da Costa, de Caicó, Rio Grande do Norte:

Eu nunca fui jornalista / Nem sou poeta repóter / Escrevo aqui o passado / Pois \aqui é meu esporte / Falando do sofrinmento / Do Rio Grande do Norte.

Vou contar esse problema / De tudo o que aconteceu / A emergência chegou / Quase nada resolveu/ Só é pra proprietário / Pro pobre nada valeu./

Antes de tudo um forte, ignorante, pobre, analfabeto, mal alimentado, o lavrador é literalmente um coitado, conformado, temente a Deus, crente, fatalista, crescido e educado no sofrimento, na necessidade, na tristeza da seca. A sonhar com a água de São José, com o verde, com a fartura, acreditando em lilagre e em São Saruê, uma terra mítica que ica no meio do sertão e onde falta nada, tudo e belo e farto.

São Saruê é criação da cabeça de Manoel Camilo dos Santos, de Guarabira, na Paraíba, mas que viveu em Fortaleza. Ceará, e em Natal, Rio Grande do Norte, em Campina Grande, na Paraíba. Poeta popular e editor, escrveu muito e foi o primeiro a registrar seus versos e a defender o direito autoral dos poetas de cordel. E dele o sempre citado, o clássico Viagem a São Saruê, que é de 1942.

“Doutor mestre pensamento / Me disse um dia você/ Camilo, vá visitar / O país São Saruê / Pois é o lugar melhor / Que nesse mundo se vê./

Eu que desde pequenininho / Sempre ouvi falar Nesse tal São Saruê / Destinei-me a viajar / Com ordem do pensamento / Fui conhecer o lugar. /

Iniciei a viagem / às duas da madrugada / Tomei o carro da Brisa / Passei pela Alvorada / Junto ao quebrar da barra / Eu vi a Aurora abismada. /

Pela aragem matutina / Eu avistei bem defronte / A irmã da linda Aurora / Que se banhava na fonte / Já o sol vinha aspergindo / Ao além do horizonte./

Surgiu o dia risonho / Na Primvera imponente / As horas passavam lentas / O espaço incandescente / Tornava a Brisa mansa / Em um Mormaço dolente. /

Depois de uma viagem fantástica no carro da Brisa, e depois no crro do Mormço e no carro da Neve Fria, o poeta chega ao mar  (no sertão!) e mais adiante vê a Cidade, “como nunca vi igual”:

Uma barra de ouro puro / Servino de placa eu vi / Com as letras de brilhantes / Chegando mais perto eu li / Dizendo São Saruê / É esse lugar aqui./

Quando eu avistei o povo / Fiquei de tudo abismado / Uma gente alegre e forte / um povo civilizado / Bem tratável e benfazejo / Por todos fui abraçado. /

O povo em São Saruê / Todo tem felicidade / Passa bem, anda decente, / Não há contrariedade, / Não precisa trabalhar /  E tem dinheiro à vontade. /

A cidade é um deslumbramento, com rios de leite, barreiras de carne assada, lagoa de mel de abelhas, atoleiros de coalhada. As pedras do calçamnto são de queijo e rapadura. Feijão lá nasce no mato, já maduro e cozinhado, e arroz nasce nas vázeas já prontinho e despopado. Lá não se vê mulher feia e as mitas de prata e ouro são mesmo que algodão. O poeta não diz por que não ficou no paraíso, e termina avisando que pode ensinar o caminho:

Porém só ensino a quem / Me comprar um folhetinho. /

Do sonho da vida boa de São Sruê para a reqlidade da seca vida severina, vi distância.

Mais uma ves a caatinga está seca, esturticada, e é rqro o verde enganoso das folhagens mais resistentes: algaroba, joazeiro, umbuzeiro, palma, entre os espinhos do xiquexique e do mandacaru. A média pluviométrica está 78% abaixo do normal e no agreste as chuvas registradas são 95% inferiores à média histórica.

È  pior seca do nvo século que começa e já atinge 1300 dos quse 1800 municíoios nordestinos. Muita gente só tem a amaga palma para comer, cactácea que o gado só aceita quando não há mais o menor sinal de pasto, “comida que entope mas não alimenta”. Falta água, falta comida, falta dinheiro, falta amparo e providência, até carro pipa para de servir porque acabou a verba. Como dizia o Lula, é inacreditável e inaceitável.

Como s’e a seca no semi-árido fosse novidade, mais uma vez ela surpeende os overnantes federais, estaduais e municipais.

Em 1967, durante o IV Congresso ltaiio-Americano de Astronomia, na cidadd do Natal, que Rõmulo Argentière, delegado de São Paulo, apresentou um trabalho: O Ciclo Solar e as Secas do Nordeste foi apaludido e aprovado. Pouco divulgado, sem espaço na mídia, logo ficou esquecido. Até que os pesquisadores do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (o INPE) o retomaram. E confirmaram: há dois ciclos diferentes que comandam as secas. Quando os dois coincidem, há um grande período de estiagem, a Grande Seca. O modelo é matemático, não falha.

Naqyuele Congresso foi sugerida e aprovada a riação de um Instituto das Secas, para estudar também a atividade solar e sua influência na microfísica das nuvens. Seria um organismo capaz de coordenar e organizar os estudos e as pesquisas, inclusive do passado, e fazer um diagnóstico, apontando as soluç~ioes. Nunac saiu do papel.

Mas entre as conclusões e certezas do Cogresso, ficou claro que:

  • Água não falta. O semi-árido Nordestino é uma das regiões áridas do mundo com maior precipitação de chuva (500 a 600 milímetros por ano, segundo técnicos israelenses).
  • O garnde problema é aprender a administrar a água.
  • E aprender a comviver com a seca e o clima da região, evitando atividades que sejam incompativeis com a realidade.
  • Evitar a enorme quantidade de água represada e exposta à insolação (de 2.800 a 3 mil horas de sol por ano), porque isso esquenta a atmosfera e impede a fixação das nuvens e sua precipitação. (O CEará tem mais água representa que o Paraná, com Itaipu e tudo. Orós é um mar interior e o Castanhão tem mais água que a baía da Guanabara.)
  • A dessalinização das águas de poço é possível e, à época, o Banco Mundial ofereceu recursos a jyros zero para a compra de equipamenrtos, o que foi recusado.
  • A cosntrução de pequenos reservatórios para recolher as águas da chuva seria suficiente para garantir toda a água suficiente para o consumo familiar por um ano.
  • E o Institutio de Estudos de Gestão das Águas afirmava, pelos seus técnios, que é mais fácil lidar com a seca do que com as cheias.
  • A Associação Brasileira de Águas Subterrâneas já havia concluído, há tempos, que é posívl retirar 19,5 bilhões de metros cúbicos de água dos lençóis subtyerrâneos nordestinos, sem esgotá-los. (Na Holanda, na Alemanha e na Bélgica, 90% da água distribuída nas cidades é captada no subsolo.)  

Anos depois, segundo as Universidades Federais do Nordeste, o maior obstáculo para resolver o probela da seca é a falta de interesse político. 

Vida Seca e Severina

outubro 24, 2007

SOLUÇÕES

As Universidades Federais do Nordeste concluíram que “a estrutura agrária do semi-árido é moralmente injusta, economicamente improdutiva e socialmente geradora de miséria”. 

Afirmar que o Nordeste é inviável é esquecer que a civilização humana nasceu em região muito semelhante e que as terras áridas e semi-áridas cobrem a maior parte de 170 países. Mas, para que ele seja viável, desencravaram um velho projeto do coronel Mário Andreaza no governo José Sarney, a transposição do Rio São Francisco. (Como foi dele também a idéia da Transamazônica, anunciada como a “redenção do Nordeste e da Amazônia” e foi a redenção apenas para as grandes empreiteiras.) A promessa é de “resolver, definitivamente, o problema de água para consumo humano no Nordeste”. A mesma velha promessa dos açudões que, como se sabe, não matam a sede nordestina.

Andreaza propunha transpor 300 metros cúbicos por segundo, para fazer irrigação e matar a sede do povo”. Até hoje o projeto é apenas de transposição. Não há planejamento para o aproveitamento da água, a não ser para as grandes indústrias e os grandes complexos agroindustriais.

Nos anos 80 o Instituto Joaquim Nabuco já denunciava a “Transamazônica de água”, chamando-o de “megaloprojeto sem preocupação social”. No entanto, num bom retrato das elites nordestinas, são raríssimos os deputados federais do Nordeste que estão contra o projeto de transposição de águas.

  

De 1500 até hoje o Nordeste registrou 25% de anos mito secos. Mas a cada século está ficando pior. No século 20 tivemos mais de 30% de anos secos.

 A primeira providência concreta para solucionar os problemas do Nordeste é o que os professores universitários chamaram de “remoção das barreiras mentais” que “têm sido um entrave maior do que as secas”. Só isso permitirá ver que “o desenvolvimento do setor agrícola é que traz solicitações para todos os outros segmentos, porque as economias se desenvolvem normalmente e não de forma artificial”. Depois é preciso deixar de confundir desenvolvimento com progresso. O progresso tem preocupação social e o câncer é um desenvolvimento. 

A seguir é necessário deixar de combater a seca, que não pode ser vencida, e aprender a conviver com ela, de modo inteligente, de modo a tirar proveito, acabando com o desperdício de 90% da água que cai sobre o solo nordestino e aprendendo a usar melhor os recursos hídricos (como fizeram, por exemplo, os israelenses).

Deixar de concentrar água na superfície, dando preferência às barragens subterrâneas, que lidarão com os rios que correm por baixo e que, devidamente contidos, podem criar novas áreas agriculturáveis.

Então, mudar a estrutura econômica, o sistema produtivo, criar uma economia capaz de empregar, de criar renda. Fazer uma reforma agrária que não seja a simples distribuição de terras, assentando a população e criando uma infra-estrutura para escoar a produção, porque o minifúndio improdutivo já é um dos problemas do Nordeste.

Aqui estão as soluções apontadas pelos técnicos e professores das Universidades Federais do Nordeste, recolhidas em um Seminário (promovido pela Rede Globo) , que não foram implementadas e que têm tecnologias disponíveis:

·        Criação apenas de animais resistentes (caprinos, ovinos, asininos, muares, eqüinos, bovinos apenas da raça zebu, galinhas de capoeira, guiné, perus, patos, marrecos, preás e emas).

·        Criação de abelhas junto a bosques naturais ou plantações de algaroba, cajueiros ou xerófilas.

·        Criação de peixes e camarões de água doce em açudes, lagoas e viveiros.

·        Criação de camarões marinhos em fazendas marinhas, nos estuários dos rios ou em salinas desativadas.

·        Criação de moluscos, marinhos e terrestres

·        Fazendas marinhas de algas

·        Cultivo de forrageiras resistentes, como a algaroba e a palma, leuceria, sorgo, milhete, capim buffel e cunhã.

·        Construção de barragens sucessivas nos rios subterrâneos.

·        Construções de barreiros, implúvios e cisternas acessíveis à população.

·        Perfuração de poços tubulares e amazonas nos solos sedimentares e nos aluviões à margem dos rios.

·        Instalação de biodigestores.

·        Instalação de cata-ventos e quebra-ventos.

·        Uso extensivo de cobertura morta, silagem e fenação.

·        Exploração das vazantes dos rios para plantio e exploração comunitária.

·        Aplicação de técnicas de lavouras seca.

·        Uso de forrageiras nativas.

·        Irrigação controlada.

·        Dessalinização da água.

·        Uso extensivo de técnicas de agriculturas defensivas naturais (sem agrotóxicos).

·        Começar o novo Nordeste pelas chamadas frentes de emergência, só alistando quem precisa, sem intervenção de compadresco, pagando pontualmente um salário justo e permitindo que a comunidade participe do debate, oriente as prioridades de obras, decida e fiscalize os trabalhos.

·        Desvincular os programas sociais de interesses político-partidários.

·        Estabelecer como prioridades nas obras públicas o interesse público.

·        Desapropriar as áreas beneficiadas pelas obras públicas quando elas foram construída no interesse dos latifundiários.

No final do século 16 e durante todo o século 17, O Nordeste liderava a vida econômica do Brasil Colônia, em função do açúcar e do gado. O que deslocou o pólo dinâmico da economia brasileira para o Sul foi a descoberta do ouro, em Minas Gerais, em fins do século 17 e começo do 18. Com o café, primeiro no Rio de Janeiro e depois em São Paulo, já no século 19, é que se consolidou o predomínio do Sul-Sudeste.

E sempre houve seca no Nordeste.

Mesmo depois do ouro, do café e com toda a seca, as disparidades regionais não eram tão grandes, antes do processo de industrialização. Não havia, no nordeste,miséria nem abandono. E produzia-se, a tal ponto que até 1940 a receita do Estado de Pernambuco era maior que a do Estado de São Paulo.

Foi a industrialização, feita em torno dos grandes centros do Sul-Sudeste que atraiu os nordestinos para as maravilhas do consumo e a facilidade dos serviços públicos. As cidades incharam, por não haver planejamento para o crescimento urbano. Só nos últimos 60 anos é que a miséria e a fome se instalaram e afastaram cada vez mais o Nordeste da qualidade de vida do Sul Maravilha (como chamava o Henfil).

Não haverá solução para o Brasil, enquanto não solucionarmos os problemas do Nordeste. Recursos humanos não faltam. Inteligência e conhecimento também não. A taxa liquida de atividade, que retrata a participação da população economicamente ativa, é maior  no Nordeste do que no resto do país. O que quer dizer que não é por falta de trabalhar que o Nordeste não vê chegar novamente sua hora e sua vez.

Certamente, é preciso conscientizar mais os eleitores, porque a representação política, no geral, deixa a desejar e trabalha pouco para o Nordeste e para resolver seus problemas.

São Saruê é um país mítico, onde tudo é riqueza.  Mitologicamente ele fica no Nordeste brasileiro, mas só existe mesmo na imaginação criativa do povo nordestino. É uma utopia, um sonho,  mas o sonho é possível se não se quiser, como sempre, aproveitar a seca para tornar os ricos mais ricos, com o dinheiro devido aos pobres, tornando suas vidas cada vez mais severinas.