Archive for the ‘A Poesia é Necessária’ Category

Poema de Sol nas Entranhas

outubro 20, 2007

VISÃO DO ÉDEN NA MIRA DO TREISOITÃO 

Reynaldo Valinho Alvarez 

procuro um retalho do que vi ser em lojas empoeiradas
há um resto de sangue ainda quente  na sobrevivência desses velhos balcões envidraçados
no rosto sulcado nos cabelos ralos no crânio amarelo
na face de sombras lívidas fatigadas
nas paredes abaladas por pintar
nas teias de aranha e gatos sonolentos

república do Líbano Luis de Camões regente Feijó
ali a cedofeita a menor sapataria do rio e a que mais caro  vende
ali na Buenos Aires Garcia Coutinho ltda. trocou os coros pelos plásticos
e acabou morrendo sem plástica nem nada

o bar éden tinha um proprietário oliveira que vinha cumprimentar meu avô pressurosamente
as missas rezavam-se no santíssimo sacramento
os sinos reboando sobre a avenida Passos e a praça Tiradentes

na igreja da lampadosa Machado foi sacristão que coisa interessante
imaginem que morava no morro da providência ou era do livramento
vejam quanta história e ainda tem colombo
só não existem mais os sebos da são José
e veja só o Lima Barreto na briguet
e a Eneida com o Carlos Ribeiro na livraria são José
e olha só que pena acabaram com todo o lado da quaresma

meu Deus que cidade alencarina machadiana barretiana
tão marquesrabelo e rodrigueseana

vá passando o dinheiro que isto aqui é um treisoitão

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Dois Poemas da Vitória

outubro 20, 2007

O VENCEDOR

Eu sempre lutei do lado certo,
mas perdi todas.
Até quando pensei estar ganhando,
ao fim e ao cabo,
estava era perdendo.
E perdendo feio, compadre.
Não me sinto, no entanto, um perdedor,
mesmo tendo perdido todas,
porque estava sempre do lado certo.
E porque venci a mim mesmo,
venci a facilidade da desonestidade,
a enganação, a corrupção,
venci o conformismo
e me mantive maria de ir sozinho
e não com as outras.
Perdi todas;
de cabeça erguida,
mas perdi.
E digam o que disserem
palavras não consolam:
perder dói.
Dói mais ainda
quando você se olha no espelho
e vê um vencedor.

outubro 19, 2007

O CAMPEÃO

Aos 72 anos constato,
perplexo,
que nunca fiz um gol.
Nada de sentido figurado:
Nunca, nunca mesmo,
meti a bola nas redes,
jamais balancei o véu da noiva,
sou virgem
de botar a nega lá dentro
ou de empurrar a perseguida
pros barbantes.
Passei toda a vida
nessa inutilidade,
anti-artilheiro,
sem fazer a galera vibrar.
Nada.
Nem um golzinho no treino,
na linha-de-passe,
a vera,
mesmo na pelada.
E não que eu fosse goleiro,
nunca fui,
não posso alegar isso
em minha defesa.
Enquanto tive meniscos
só joguei lá na frente,
de cara pro gol.
Chutar, chutei,
mas nunca marquei,
nem em impedimento
ou com a mão de Deus.
E agora,
na hora da minha morte,
nem com sorte
vou poder fazer
meu gol de honra.
No entanto,
não sou um perdedor;
não, não e não:
já fui até um campeão.