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A ESCRAVIDÃO NEGRA NO BRASIL

agosto 10, 2009

Depois de Palmares (na verdade uma federação de vários agrupamentos com uma população de pelo menos 20 mil negros) os escravos não conseguiram reproduzir qualquer coisa parecida. Os senhores de terra e os governantes cuidaram para que o estrago não se repetisse. E mesmo depois da abolição da escravatura os negros nunca mais deram uma demonstração de sua capacidade de organização, disciplina, planejamento, bravura, que derrotou até o exército imperial mais de uma vez.
A verdadeira história dos quilombos ainda está para ser bem pesquisada e escrita mas já é certo que o número d quilombos foi grandemente exagerado pelas autoridades do Império. Com raras exceções os quilombolas não chegaram a ser uma ameaça ao regime escravista. Na sua maioria, os grandes quilombos ficaram perdidos no alto das serras, distantes da sociedade que detinha o poder de manter escravos.
Os escravos fugidos, amiúde, viviam próximos a engenhos, fazendas, lavras, vilas e cidades, plantando, colhendo, trocando e vendendo para os brancos, de quem recebiam até armas e munições.
Os amocambados também assaltavam viajantes nas estradas, tornando-as às vezes intransitáveis. De raro em raro atacavam fazendas, para roubar bens e recrutar escravos, mas nunca foram organizados para isso: também plantavam, colhiam, casavam, faziam família.
Em alguns casos, de um modo ou de outro, conseguiam ganhar o suficiente para comprar a alforria, passando de negros fugidos a negros libertos.
No Brasil escravista, segundo Alberto da Costa e Silva, alguns negros chegaram a ter seus próprios escravos e não foram poucos os que se tornaram traficantes, enriquecendo com o tráfico atlântico.
Sheila de Castro Faria informa que a essa prática não eram estranhas as mulheres negras, o que fica bem claro no título da sua tese: Sinhás pretas.
Gilberto Freyre escreveu que a nossa escravidão foi mais adocicada que a norte-americana, mas só olhou para a casa grande e não para a senzala. Nenhum historiador negou a violência do escravismo, em qualquer tempo ou lugar.
Um dos aspectos que merece maior pesquisa e documentação é o das fazendas que empregavam negros sabidamente fugidos. Esses coiteiros de quilombolas eram preferidos como senhores por seu trato mais humano e pelo objetivo básico de otimizar a produção.
“De qualquer forma, isolados ou integrados, dados à predação ou à produção, o objetivo da grande maioria dos quilombolas não era demolir o edifício da escravidão”, como escreveu João José Reis, “mas sobreviver em suas fronteiras e, se possível, viver bem”.
Não há provas de que a idéia dos quilombolas fugidos fosse recriar a África no interior do Brasil, com o objetivo de construir uma sociedade alternativa à escravocrata. Mesmo aqueles africanos natos, que usaram tradições africanas para se organizarem, raramente imaginavam “criar uma África no Brasil”, assim como poucos tinham o sonho de voltar à África. É que a necessidade de mesclar culturas aceitar valores brancos foi um imperativo da sobrevivência, um exercício de sabedoria.
Johan Nieuhoff, que visitou o Brasil em 1640 escreveu que os negros “retêm algo do culto religioso dos portugueses, mas têm seus peculiares sacerdotes e juízes”. Escravos e quilombolas foram forçados a mudar coisas que não mudariam se não estivessem submetidos à pressão escravocrata. Mas foi deles mesmos a direção e intensidade dessas mudanças.
Não se pode negar que os quilombos contribuíram, muito, para melhorar a qualidade de vida dos que continuaram nas senzalas. Principalmente no sentido de diminuir a crueldade típica do tempo colonial, quando os negros fujões tinham o tendão de aquiles cortado e até uma perna amputada.
Outro tema a ser investigado e discutido é o suicídio. O suicido, certamente, era um ato de resistência individua. Mas a teoria do banzo e da saudade da África não pode ser levada a sério porque as poucas pesquisas já demonstraram que a taxa de suicídio era maior entre os crioulos, isto é, entre os negros nascidos no Brasil. É certo, no entanto, que entre os africanos natos havia uma teoria do retorno, segundo a qual o suicídio propiciava a volta à terra natal e aos antepassados, através da Kalunga, o mar-oceano.
A historiadora Mary Karash estudou particularmente o grupo banto, vindo de Angola, Congo e Moçambique, confirmando a crença do retorno pelo suicídio. A tese não existia entre os yorubás (nagôs), hauçás, e jejes, entre outros., vindos do Golfo do Benim. Para os nagôs, por exemplo, o suicídio era uma morte “não natural”, isto é, em desacordo com a Natureza. Segundo o pesquisador nigeriano Isola Olomola, suicidas não podiam receber as cerimônias fúnebres adequadas e teriam dificuldades na outra vida.
O que é certo é que entre os índios escravizados nos primeiros tempos da colônia a freqüência de suicídios era grande. Segundo as leis portuguesas, os gentios da terra eram livres. Mas a realidade não era esta. Os portugueses não admitiam como próprio para eles o trabalho braçal, escravizando os índios ou, pelo menos, tentando escraviza-los.
Os índios dispunham até de meios legais para recorrer contra as injustiças de que fossem vítimas. E deles lançavam mão. O problema era que a legislação que os assistia era cheia de meandros e exceções, o que dava origem a complicados litígios. Por exemplo: índios que fossem capturados em guerras ou “ações de resgate consideradas justas”. Mas quem podia afirmar isso eram as tropas que participavam dessas ações e isso tornava quase impossível verificar se a afirmação era verdadeira ou mentirosa.
Os índios podiam protestar no Juízo das Liberdades mas o processo era longo, demorado e custoso. Além disso, as sentenças desse Juízo podiam ser revogadas pela Junta das Missões, pelo voto dos ministros religiosos. Eles deveriam ser os defensores da liberdade e não da escravidão dos gentios da terra, mas é sabido que eles também mantinham escravos, principalmente os padres e os jesuítas.
Segundo Joseph Miller, da Associação Americana e História e um dos maiores especialistas em escravidão, a história da escravatura no mundo clássico não tem coisa alguma em comum com a escravidão moderna, produto do desenvolvimento comercial do Atlântico. Pouca gente percebe que os africanos controlavam a escravidão na África e que os brancos europeus permaneciam no mar fazendo o tráfico. Foi um momento em que houve oportunidade de crescimento para a economia comercial, um crescimento maior do que em qualquer outra ocasião e lugar.
Os escravos eram comprados a prazo, o que exigia a existência de uma autoridade pública e financeira para tratar das questões legais que esses créditos envolviam. Nos séculos 16 e 17 fez-se a legislação que definiu a escravidão moderna como instituição pública legal e a escravidão passou a ser objeto do direito comercial, civil e político não só no império português, mas na França, na Inglaterra e na América do Norte.
É quase certo que o número de escravos da África desembarcados nas Américas tenha passado dos 11 milhões, sobreviventes dos 12 milhões e 500 mil embarcados. Desses, mais de 40% vieram para o Brasil, a maioria vinda da Grande Angola (que se estendia do Gabão ao Brunei). Em torno de 20% vieram da chamada costa Mina, a África Ocidental.
Um mito já derrubado é o da cachaça, jeribita para os negros. Originalmente eles não bebiam e nem conheciam bebida destilada, só tomando cerveja doméstica, vinho de palma. A demanda foi criada pela oferta dos negreiros.
No Brasil, escravos e café tiveram a mesma origem: a África. Natural das montanhas da Etiópia, o café era originalmente comido em pasta. No mundo árabe é que passou a ser torrado, reduzido a pó e lançado em água fervente. Essa fórmula de café, chamado café turco, ao ser introduzido na Europa (através da Itália) passou a ser filtrado.
Há divergências, mas ainda há quem diga que as primeiras mudas de café chegaram ao Brasil clandestinamente. Teriam sido dadas pela mulher do governador da Guiana Francesa, por volta de 1720, ao português Francisco Palheta que as plantou no Pará.
O certo é quepPara o Rio vieram mudas de Goa, na Índia.
Cem anos depois o Brasil já era o maior produtor de café do mundo, principalmente na parte fluminense do Vale da Paraíba: Vassouras, Valença, São João Marcos, Rezende, Piraí, Paraíba do Sul. Desses municípios saíram os chamados barões do café, os ricos cafeicultores escravagistas do período imperial. Nem todos os barões do Império tinham escravos, mas quase todos os ricos cafeicultores foram barões. Homens ricos, eles viam no título prestígio social. Em momento algum, no Brasil a nobreza foi hereditária e a troca de favores entre os barões do café e os imperadores ajudou a Monarquia a se manter no Brasil por 67 anos.
De1808 a 1821 D. João VI concedeu 119 títulos; D. Pedro I deu 134 e Pedro II 1.065 títulos. Originalmente o baronato era para os proprietários rurais que se projetavam pela riqueza e pela boa vontade em colaborar com o Tesouro imperial. Raríssimos atingiram a elite da política imperial, reservada para os condes e os marqueses. Assim como poucos chegaram a ser ministros do Império. Nem mesmo delegados de polícia, vereadores ou juízes, porque a maioria nem sabia ler e escrever.
A segunda geração, no entanto, foi alfabetizada, viajou para a Europa, civilizou-se e formou-se, principalmente em Medicina e Direito, mudando os hábitos da família. Ela, por exemplo, deixou de comer na cozinha, o que fez as casas ganharem sala de jantar e mesa compridas para 10, 12 e até 18 cadeiras.
Mas antes disto em todas as casas não faltava um piano que, curiosamente, era franqueado também aos escravos. Nas fazendas não era incomum ver escravos músicos, formando conjuntos com outros escravos para animar os saraus, símbolos de distinção e refinamento.
A Abolição da escravidão foi o fim de muitas fazendas do Vale da Paraíba (onde hoje só uma fazenda continua produzindo café) e dos barões, assim como o fim do Império.
Poucas vezes, em todos os anos da escravidão no Brasil, os negros se revoltaram e usaram a força contra os brancos. A maior revolta ocorreu, coincidentemente, num 13 de maio, em1833, no distrito de Carrancas da vila de São João d’el Rei, comarca do Rio das Mortes (atualmente Cruzília) em várias fazendas da família Junqueira., os senhores mais abastados do sul de Minas.
Donos de muitas terras, de numerosa escravaria, com as maiores e mais bem estruturadas fazendas da região, também eram famosos, todos da família, pelos excessos na violência com que tratavam seus negros. Dizia-se que, donos de cavalos, de gado e de porcos, matavam os escravos fujões, que eram esquartejados e dados aos porcos para comer.
A rebelião começou com a morte do filho do deputado Gabriel Francisco Junqueira, assassinado a golpes de porrete na cabeça. Passaram para a fazenda Campo Alegre e foram para a Bela Cruz, onde mataram oito da família de José Francisco Junqueira, inclusive três crianças e ele próprio. Um grupo foi para a fazenda Bom Jardim onde João Cândido da Costa Junqueira estava bem armado, resistiu e matou os líderes Ventura Mina, João Inácio, Firmino, Matias e Antônio Cigano.
Os escravos dispersaram , foram para o mato e, aos poucos, acabaram sendo presos por uma força de 40 soldados, mandado às pressas. Os rebeldes cativos foram julgados e 16 deles condenados à morte por enforcamento e executados em praça pública em dias alternados em São João d’el Rei. Outros quatro foram condenados a açoite e ferros e dez absolvidos “por não terem participação direta nas mortes”. Foi a maior condenação à pena máxima aplicadas a escravos no Império. Basta dizer que ao fim da Revolta dos Malês, em Salvador, foram fuzilados quatro escravos.
Todos os condenados foram executados, menos um, Antônio, que se ofereceu para ser o carrasco. Preso, fugiu da cadeia de Ouro Preto em 1835. Em 1848 voltou a ser preso e morreu na cadeia, tuberculoso.
A revolta contou com escravos de várias origens, crioulos, angolas benguelas, minas, bantos, nagôs. E é curioso que com tanta diversidade étnica e cultural, os escravos tenham esquecido seus conflitos e disputas para articular, planejar, organizar e executar a chamada Revolta de Carrancas.
Curiosamente, os processos foram levados sem o depoimento dos acusados, além da confissão dos crimes. E esta é uma característica da sociedade escravagista, que não ouve o escravo.
É bem verdade que o negro africano via o branco, o mulato e até o crioulo enbranquecido culturalmente como inimigo. Era natural que desconfiassem de qualquer curiosidade do opressor e das questões que ele, eventualmente, lhe propusesse.
Até entre os abolicionistas, que se saiba, não houve manifestação de muito interesse, por exemplo, no passado do escravo, por aquilo que ele fora antes do cativeiro, pelo lugar da África onde nascera. O escravo, mesmo para os abolicionistas, era um selvagem, um bárbaro sem cultura e sem passado articulado. Assim, não era objeto de estudo.
Muito raros, raríssimos, segundo Alberto da Costa Silva, foram aqueles que como José Bonifácio, Antônio da Costa Peixoto, Luis Antônio de Oliveira Mendes e Francis e Castelnau sentaram-se ao lado de um escravo, lápis e papel na mão, para registrar o que ele tinha a dizer, principalmente sobre o vocabulário de sua língua materna, a história de um reino africano ou o enredo da sua vida.
Castro Alves chega a ser ridículo na sua falta de informação sobre a África Negra que, para ele, era o norte desértico e arenoso do Saara…
Também é curioso ler os visitantes estrangeiros que passaram pelo Rio, registrando que a língua portuguesa, na capital do Império, não era a mais ouvida nas ruas. É que conservar a própria língua era crucial para os africanos, pois significava manter a identidade, a cultura, o conhecimento que tinham, sua forma de olhar, sentir, pensar.
Segundo o recenseamento de 1849, na parte urbana da Corte, nada menos de um terço era de africanos. A semelhança entre algumas línguas da família banto facilitava a comunicação. O quimbundo, o quicongo e o umbundo tinham muito em comum. Havia uma espécie de língua franca, comum, que permitia trocar idéias, praguejar e servir como instrumento de solidariedade e resistência.
O yorubá acabou formando uma língua geral em Salvador, o nagô até hoje usado no candomblé.
Nina Rodrigues foi o primeiro a estudar as línguas africanas, especialmente o yorubá, o ewe, o fon, o huaçá, comparando-as e tentando organizar um dicionário.
Para o branco, essa línguas (que ele não entendia e nem queria entender) eram línguas malditas, bárbaras, dissonantes, que inspiravam medo e, por isso mesmo, foram reprimidas ao máximo, mesmo nos ambientes rurais.
No entanto, essas línguas malditas influenciaram fortemente o modo de falar e escrever no Brasil, sobretudo em termos de vocabulário e pronúncia, mas também em termos de sintaxe.
Mais do que a língua é inegável a participação dos negros na cozinha brasileira, na música, na dança, nos folguedos populares.
Um velho ditado popular carioca diz que sapato em pé de negro indica a liberdade. Mas não bastava o sapato para ser livre: era preciso parecer livre. E este era o desafio dos negros nascidos livres ou que ganhavam a alforria na segunda metade do século 19. Para abrir caminho naquela sociedade exigente, competitiva e racista, e se fazerem aceitos ou pelo menos tolerados, lembra Sandra Sofia Machado Koutsouros, os negros precisavam “construir a sua imagem a partir de comportamentos tomados emprestados” dos brancos.
Em geral copiavam o modo de vestir, pentear, os gestos e as atitudes ditados pela moda européia, especialmente a francesa. E era importante que tivessem uma foto com a imagem de distinção e liberdade. Para um negro alforriado uma foto com os símbolos bem colocados era uma espécie de passaporte que legitimava a nova condição social. Qualquer estigma da escravidão, evidentemente, devia ser ocultado e é notável o cuidado que tinham os fotografados com os nós das gravatas e com os sapatos…
Em um país em que preto não entrava em igreja de branco, o pensamento abolicionista não se baseou na religião nem a Igreja Católica esteve empenhada na causa, antes pelo contrário. Padres e ordens religiosas eram coniventes e cúmplices da escravidão. A Bíblia, argumentavam eles, não proibia a escravidão e se o que importava era a alma livre do pecado e não a liberdade do corpo, os negros que cuidassem da própria salvação.
Um detalhe, no entanto, tem passado ao largo dos observadores: os padres, no Brasil, sempre foram empregados do Estado, cujos interesses tinham muita dificuldade de contrariar, segundo informa José Murilo de Carvalho.
Mais ainda, depois da abolição não houve qualquer ação digna de nota nos campos da educação, dos direitos políticos ou do acesso à propriedade da terra. Nada foi feito pelo Estado ou pela Igreja, ou por particulares, com pequenas exceções, para absorver na sociedade aquela enorme quantidade de pessoas que, livres, não tinham qualquer perspectiva de futuro.
Uma dessas raras pessoas preocupada com o futuro dos negros e do Brasil foi André Rebouças, mulato, baiano, filho de escravos, um dos abolicionistas mais radicais e que apresentou projetos importantes para garantir o futuro do negro como cidadão e como pessoa. Mas que foi sistematicamente derrotado.
Rebouças, que na memória carioca não passa de um túnel e na paulista é simplesmente uma avenida, liderou o primeiro movimento de opinião no Brasil.

André Pinto Rebouças nasceu em 1838, em plena Sabinada, a insurreição baiana contra o governo da Regência. Seu pai era Antonio Pereira Rebouças, um mulato autodidata que advogava sem ser formado em Direito. Rábula, ganhou o direito de advogar, foi deputado federal pela Bahia em diversas legislaturas e chegou a Conselheiro do Império. Sua mãe, Carolina, era filha do comerciante português André Pinto da Silveira.
O mais velho de sete irmãos, era mais ligado ao Antônio, um ano mais moço. Em fevereiro de 1846 a família veio para o Rio de Janeiro. Antônio se tornou seu grande companheiro na maior parte dos projetos profissionais. Alfabetizados pelo pai, estudaram no Colégio Militar. No Exército, ambos fizeram parte do Corpo de Engenheiros e foram complementar os estudos na Escola de Aplicação da Praia Vermelha., de onde saíram formados em Ciências Físicas e Matemáticas em 1859. No ano seguinte conquistaram os diplomas de engenheiro militar. Com bolsas de estudo foram à Europa, onde passaram quase dois anos.
De volta, comissionados pelo Estado, foram trabalhar na vistoria e aperfeiçoamento dos portos e fortificações do litoral brasileiro.
Na Guerra do Paraguai André e seu irmão sentaram praça como voluntários no 1° Batalhão de Artilharia a Pé. Serviram como engenheiros militares, de maio de 1865 a julho de 1886, quando André voltou ao Rio por motivo de saúde. Foi quando, preocupado com o futuro do país e sua modernização, fez uma série de projetos de estruturação de empresas privadas e tentou captar recursos em bancos para financiá-los. Mas não foi muito bem sucedido.
Bons projetos aqui no Rio foram os de abastecimento de água para a cidade, o das docas D. Pedro II e a de construção das Docas da Alfândega (onde ficou de 1866 até 1871).
Dava aulas e organizava debates com políticos e ministros. Professor da Escola Politécnica, conseguiu levantar dinheiro para Carlos Gomes voltar à Itália. Secretário do Instituto Politécnico e redator da sua revista, era do Clube de Engenharia e o encarregado de receber as visitas, por ser fluente em francês e inglês.
Participou da Associação Brasileira de Aclimação e defendeu um melhor acondicionamento para os produtos agrícolas que o país exportava, para enfrentar a concorrência no mercado internacional. Inventor, foi responsável pela seção de máquinas e aparelhos na Sociedade Auxiliador da Indústria Nacional.
Foi em 80 que André Rebouças se engajou na campanha abolicionista, aliando-se a Joaquim Nabuco, José do Patrocínio, Aristides Lobo para lançar um Manifesto da Confederação Abolicionista. Redigiu os estatutos da Associação Central Emancipadora.Ajudou a criar a Sociedade Brasileira Contra a Escravidão e publicou muitos artigos contra a escravidão e a favor da reforma agrária dando terras para os negros.
Em 82 e 83 esteve na Europa procurando apoio para a campanha abolicionista. Mas não queria simplesmente a abolição e sim garantir o futuro dos escravos, principalmente através da educação.
Quando a República foi proclamada, acompanhou por sua vontade o Imperador no exílio. Ficou dois anos exilado em Lisboa, como correspondente do The Times, de Londres.
Em 1892, com problemas financeiros e perseguido pelos republicanos que não aceitavam suas críticas que a República estava criando um Brasil de segunda classe, aceitou um emprego em Luanda, Angola, onde ficou por 15 meses.
Deprimido, mal de saúde, debilitado, fixou-se no Funchal, na Ilha da Madeira, em meados de 1893. No dia 9 de maio de 1898 matou-se, pulando em um penhasco próximo do hotel em que vivia, deixando trabalhos inéditos sobre a reforma agrária que considerava indispensável para receber a mão-de-obra dos escravos libertos. Morreu na miséria.
Além de promover o primeiro movimento de opinião no Brasil, André Rebouças compreendeu bem que vivíamos um bloqueio estrutural para a emergência de indivíduos livres. E que a liberta~ção dos escravos, por si só, não seria suficiente. Ele entendia a abolição como o primeiro passo ao qual deveria seguir-se a eliminação do monopólio da terra com a transformação do ex-escravo em pequeno produtor independente Rebouças escreveu e fez muitos discursos tentando convencer os políticos e as autoridades de que o único caminho de libertação dos homens pobres, pretos ou brancos, ex-escravos ou imigrantes, era a reforma agrária.
Ele apontou vários caminhos e soluções, apresentando inclusive um projeto de imposto territorial progressivo para financiar os primeiros passos da reforma agrária. Tentou fazer a refundação nacional, por temer uma guerra civil, mas não foi entendido. Mesmo sendo monarquista convicto, não podia aceitar que a princesa Isabel fosse retratada nos jornais da época como a santa redentora dos escravos. Criticava essa visão que os pintores insistiam em mostrar, com Isabel entronizada, cercada por negros descalços e ajoelhados, como se estivessem rezando para abençoar a padroeira. Ele sabia que essa imagem era falsa: a Redentora erecta, olhando para o céu, e os negros curvados, humildes, servis e subservientes. Era péssima imagem essa lição de cidadania, como diz Lilia Schwarcz: “a liberdade combinada com humildade e servidão, distante das noções de livre-arbítrio e de responsabilidade individual”.
Em 1889, um grupo de negros libertos da região de Vassouras, no Vale do Paraíba, mandou ao ministro Ruy Barbosa uma carta na qual exigia instrução pública para os seus filhos, como um direito. Dizendo-se republicanos, afirmavam que eles e não a Princesa Isabel foram os verdadeiros protagonistas, autores da abolição.
Ruy não se dignou a responder, até porque, conservador como era, acreditava que a escravidão fora resolvida pelos homens esclarecidos, categoria que, certamente, par ele, não incluía escravos libertos. O que ele entendia por homens esclarecidos é discutível: basta dizer que Ruy havia mandado, como ministro, destruir toda a documentação referente à escravidão…

Em 1903 já estava circulando O Baluarte, que se anunciava como “órgão oficial do Centro Literário dos Homens de Cor” e dedicado “á defesa da classe”.
O jornal pretendia levantar a classe e prepará-la para as lutas da vida, ensinando-os a serem cidadãos no mais estrito senso da palavra…
Antes, que se saiba, foram dois os jornais de negros para negros: A Pátria, em São Paulo, em 1889 e O Exemplo, de Porto Alegre, criado em 1892.
O espaço na grande imprensa reservado em todos os jornais para cobrir os assuntos da comunidade negra era praticamente nenhum. E quando saia qualquer notícia, geralmente era negativa. Daí a chamada imprensa negra que começou a cuidar de dar voz, articular idéias e fazer reivindicação política de um segmento da população brasileira que não era ouvida: O Alfinete, O Kosmos, Tribuna Negra, Progresso, A Cruzada, A Revolta, Liberdade, Getulino, O Clarim da Alvorada.
Entre 1889 e 1930 é possível dividir a história da imprensa negra em duas fases, segundo Petrônio Domingues, sendo a segunda fase, a partir de 1920, predominantemente política e não de registro social.
A imprensa dos pretos para os pretos sempre teve circulação restrita, com muita distribuição gratuita, nas associações negras. Nenhum diário, havia os semanais, os quinzenais, os mensais e os que saiam em ocasiões especiais. Só O Clarim da Alvorada, do jornalista negro Jayme de Aguiar chegou a alcançar 2 mil exemplares.
Muitos tiveram vida curta. Só com o título O Quilombo, foram 13. As tipografias que imprimiam esses jornais eram artesanais, quase sempre instaladas na casa do editor, que tirava dinheiro do próprio bolso para financiar a edição. Raríssimos eram os anunciantes. Os colaboradores eram, quase todos, homens porque mesmo para os negros a missão da mulher era ser esposa e mãe…
A princesa Isabel era uma unanimidade como “redentora da raça negra”, o modelo de cultura era o francês, o discurso era puritano, de combate à vadiagem, aos jogos de azar, à vida boêmia e ao álcool. Virtudes eram o trabalho, a honestidade, a moral e os bons costumes. Todos os jornais davam espaço para a publicação de contos e de poesia. A herança cultural e religiosa africana era depreciada e vista com maus olhos, especialmente a música, a dança, a capoeira e a macumba.
O Bandeirante, em 1912, fez um editorial considerando a cultura africana como inferior, grotesca, bárbara e selvagem: “Se os nossos antepassados tiveram por berço a terra africana, é preciso que se note, nós temos por berço a Pátria, este grande país.” Não somos africanos, somos brasileiros!’
Só havia um consenso: o de que a educação é o instrumento mais eficaz para superar o racismo. Foi a imprensa negra que denunciou o racismo e a diferença de tratamento que recebiam pretos e mulatos em sociedade, impedidos de frequentar até igrejas, mas certamente clubes, hotéis, teatros, cinemas, restaurantes e afirmando o preconceito de cor.
A Lei Áurea declarou abolida a escravidão no Brasil no dia 13 de maio de 1888. Mas não se discutiu formas de reparação ou compensações social para os ex-escravos. Mais de cem anos depois, agora é que se fala em cotas para pretos e terras para os herdeiros dos quilombolas e ativa-se, mais uma vez a divisão e o preconceito. Não demora e vamos ter médicos formados e médicos de cotas…