A MORTE DA IMPRENSA

           De tempos em tempos anuncia-se a morte da imprensa. Como a morte de Deus e do amor romântico. Mas todos resistem à morte anunciada. Agora, novamente, a morte da imprensa escrita está sendo prevista para “no máximo dez anos”. E não é um fenômeno local, é mundial. Na Grã-Bretanha, na Alemanha, no Japão, nos Estados Unidos, lá como cá, grandes jornais estão morrendo ou sendo mortos por uma crise tripla: queda na circulação, diminuição de espaços vendidos pela publicidade e pela velocidade cada vez maior na transmissão da notícia. Acredito que os dois primeiros motivos da crise são, pelo menos no momento, conseqüências diretas da velocidade cada vez maior com que as notícias vêem sendo transmitidas. As conquistas da informática e o desenvolvimento da internet estão possibilitando notícias instantâneas, em tempo real. E até mesmo comentários e análises que, ao fim e ao cabo, estão reduzindo muito as possibilidades de sobrevivência de jornais e revistas. O chamado jornalismo interpretativo chegou aos blogues e sítios bem informados com força total, e se o chamado lead continua sendo obrigado a responder o que aconteceu, quando aconteceu, com quem aconteceu, onde aconteceu, como aconteceu e por que aconteceu, precisa dar resposta à pergunta mais importante: e daí, o que é que isto significa para as pessoas comuns, quais são as conseqüências. Esse novo jornalismo é que está tornando as pessoas mais atentas ao noticiário, mais bem informadas, mais participantes e mais interessadas. Tanto que as pessoas estão lendo mais do que antes, embora as tiragens de jornais e revistas continuem caindo. O que sobra para um veículo lento como o jornal ou para um mais lento ainda, como a revista? Esse é o problema que aflige a imprensa escrita no momento. As revistas mais sérias estão encontrando um bom caminho nos ensaios temáticos. O problema é que precisam encontrar a justa medida, porque correm o risco de ficarem sisudas em excesso, difíceis, e o leitor está mais para o twitter e a língua simplificada do que para os altos estudos. Sem desistir do jornalismo interpretativo, cuidam de dar ares de atualidade para que a revista seja datada. E tome de reportagens exclusivas, cercando os grandes ensaios que devem ter argumentos claros e inéditos. A Newsweek, por exemplo, está anunciando uma nova revista para um mundo em mudança. Não é o jornalismo que está em crise, é a imprensa escrita em jornais. Na Inglaterra, 70 jornais fecharam em menos de dois anos. Os jornais franceses estão sendo subsidiados e Todd Gitlin, professor de jornalismo da Columbia University, escrevendo sobre “as muitas crises do jornalismo”, disse que além da queda de receita publicitária, da perda na circulação e da difusão de atenção do leitor, o jornalismo americano está enfrentando “um quarto lobo”: uma crise de autoridade, de confiança, de credibilidade que, lá, começou a ocorrer quando a imprensa aceitou as mentiras do Sr. George Bush e afirmaram que o Iraque tinha mesmo armas de destruição em massa, principal razão para dar início à guerra. No Rio de Janeiro, no final dos anos 50, tínhamos 17 jornais, divididos em matutinos e vespertinos. Quase todos desapareceram e vespertinos não há mais. E os nossos jornais estão custando muito a reagir, a mudar, a pelo menos procurar uma solução para os seus problemas crônicos que acabaram com a lucratividade das empresas. A crise é econômico-financeira. Está faltando criatividade, principalmente na área não-jornalística das empresas, que deveriam procurar novas fontes de receita e de exploração do conteúdo que produz, novos meios de captar assinantes e de favorecer anunciantes fiéis. Curiosamente, uma pesquisa da USP confirma a pesquisa americana que queria saber quantas pessoas só recebem informação online, resultando em mirrados 5%. O problema começa, lá como aqui, com o número de pessoas de 18 a 25 anos que não tinham recebido notícia alguma por qualquer forma de mídia: 33%. Em outras palavras, um terço das pessoas declarava-se, espontaneamente, totalmente desinformada. Quando se sabe que jovens de 15, 16 e 17 anos são analfabetos funcionais, incapazes de ler qualquer coisa e que um grande número de alfabetizados não consegue entender a leitura de uma notícia simples, é possível entender porque a população cresce tanto e as tiragens diminuem outro tanto. É certo que mais pessoas recebem informação via internet do que nas plataformas tradicionais, mais a internet também exige que haja leitores e que eles sejam, pelo menos, alfabetizados. A notícia não está em crise, a tecnologia é que vem criando espaços, revolucionando conceitos, criando novas ferramentas para fazer o que sempre foi feito: informar, discutir, analisar. O que me assusta é saber que o Google News não tem um único editor humano e que o processo de escolher e distribuir informação é inteiramente feito por robôs. E o que me anima é ler que o Guardian, depois das mudanças que promoveu, hoje em dia é mais lido do que nunca e que, por causa da internet, tem agora duas vezes mais leitores fora da Inglaterra do que em seu próprio país. A notícia não morreu e nem vai morrer, evidentemente. O problema de quem trabalha na mídia impressa é saber o que fazer para aumentar as receitas e sobreviver nos novos tempos.

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