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A ALMA DO BRASIL

janeiro 7, 2009

 

O barroco foi introduzido no Brasil no início do século 17 pelos missionários católicos, especialmente os jesuítas, como instrumento de doutrinação cristã. Seu apogeu na literatura foi com o poeta Gregório de Matos (O Boca do Inferno) e com o orador sacro frei Antônio Vieira. Nas artes plásticas com as esculturas de Aleijadinho e a pintura de mestre Ataíde. Na arquitetura, principalmente com as cidades históricas de Minas Gerais. Na música sobreviveram poucos mas belos documentos do barroco tardia, como as missas do padre José Maurício.

            Entre outras heranças que o barroco deixou no Brasil está o Carnaval, a maior festa barroca popular do mundo. Na verdade, o barroco é que ajudou a fundar nossa cultura popular, porque no Brasil, muito além da arte, o barroco se traduz numa maneira de festejar e viver, segundo a historiadora Cristina Ávila.

            O nome barroco vem de uma pérola exótica, de formato irregular, encontrada pelos portugueses na Índia e chamada de Baróquia. Barroco designava, primitivamente, qualquer forma artística bizarra e irregular.

            Colônia pesadamente explorada pela metrópole, lutando contra piratas, índios e a natureza selvagem, a corrente estética e espiritual cujo forte é o contraste, o drama, o sofrimento, a incerteza, a paixão, a bravura, a religiosidade, confunde-se e dá forma a uma grande parte da identidade e do passado brasileiro. Por isso mesmo o barroco já foi chamado de a alma do Brasil.

            Em ambiente de pobreza e escassez, o barroco brasileiro foi acusado de ser pobre e incompetente, quando comparado com o barroco europeu, erudito, cortesão, sofisticado e branco, Mas nosso barroco, popular, inculto, muitas vezes naif, feito por artistas sem preparo sólido e por artesão autodidatas mas muito criativos, deixou um acervo original e rico, entre a glória espiritual e o êxtase carnal que hoje é Patrimônio da Humanidade.

            A denúncia de luxo excessivo dos Reformistas e a recomendação de austeridade do Concílio de Trento foram ignorados no Brasil, onde o barroco teve um sentido cenográfico e declamatório fundamental para atraior o povo e seduzir as almas, com estímulos visuais que representavam os momentos mais dramáticos da história sagrada, com Cristos sanguinolentos, Virgens com o coração trespassado, santos sofredores e tristes.

            No Brasil, quase toda a obra barroca é religiosa. E a escassez de palácios e profusão de igrejas é a prova de que a arte colonial brasileira foi centralizada à serviço da religião.

            O barroco só perdeu força em 1808, com a chegada da Corte Portuguesa e seu gosto pelo neoclássico.

MARIA MADALENA

janeiro 1, 2009

            Maria de Magdala, ou Maria Madalena, é a figura feminina mais citada no Novo Testamento. Mais do que Maria, mãe de Jesus. Além disso, é o personagem mais importante na morte e na ressurreição de Cristo.

            No Evangelho segundo Mateus ela é mencionada duas vezes. Na cena da crucificação, é a primeira a ser nomeada entre as mulheres que acompanhavam Jesus desde a Galiléia. E no relato da ressurreição (ocasião em que Jesus aparece às mulheres e ordena que elas dêem notícia aos apóstolos, mandando que sigam para a Galiléia continuar a pregação) ela é citada em primeiro lugar: “Maria Madalena e a outra Maria foram ver o sepulcro”.

            Marcos se refere a ela quatro vezes. Na cena da crucificação é citada em primeiro lugar. Depois é apontada como testemunha do sepultamento. O relato da ressurreição é o que dá mais importância a Madalena. Ela é destacada duas vezes: indo comprar aromas para embalsamar Jesus e como a primeira testemunha de Jesus ressuscitado.

O Evangelho segundo Lucas faz alusões diretas a Maria Madalena. Ela é mencionada como uma das mulheres que seguiam Jesus. E está dito que o Senhor afastou dela sete demônios; que ela prestava assistência a Cristo com os seus bens; e que assistiu à crucificação, preparou aromas e bálsamos para ungir o corpo do Mestre.

Em resumo: Maria vivia na cidade de Magdala, era solteira, tinha posses, tornou-se discípula de Jesus, acompanhou-o em todas as viagens, financiou-o, testemunhou sua morte, sua ressurreição. E foi um dos discípulos prediletos de Jesus. Diferentemente de outras mulheres citadas nas Escrituras ela é identificada por seu lugar de origem e não através da referência a um homem. Ela também escreveu um Evangelho.

Só que, o que escreveu não é reconhecido pelas igrejas cristãs, a Católico Romana, a Cristã Ordodoxa ou os protestantes evangélicos. Seu Evangelho é considerado apócrifo, embora inclua Epístola dos Apóstolos, Apocalipses e textos que tratam de temas pré-cristãos como o Gênesis e o Livro de Adão,

O termo apócrifo vem do grego apókpryphon, que quer dizer, originalmente, segredo, secreto. Texto não usado oficialmente na liturgia das primeiras comunidades cristãs, conservado escondido por não ser aceito, considerado falso e não inspirado, para a Igreja Católica é parte da lista de 60 livros não-aceitos do Novo Testamento, muitos dos quais foram parar na fogueira e, desde o Papa Gelásio (ano 496) proibidos aos cristãos.

O Evangelho de Maria Madalena este proibido em boa companhia: com Evangelho de Tomé, de Felipe, da Infância de Jesus, de Tiago, com os Atos de Pedro, de Tecla e de Paulo, com o Apocalipse de Tiago, de João, de Estevão, de Pedro, textos em grego, latim, siríaco, copta, etíope.

 

O Evangelho de Maria Madalena pertence ao Codex Akhmin, por ter sido descoberto na cidade de Akhmin, no Egito, em 1896. Comprado pelo pesquisador alemão Carl Reinhardt, só tinha oito das 19 páginas originais escritas sobre papiro, em dialeto copta egípcio. Faltavam as páginas de 1 a 6 e de 11 a 14. Mais tarde, outros dois fragmentos foram encontrados pelos ingleses, em 1897 e 1906, pelo egiptólogo Bernard Pyne Grenfell e pelo papirólogo Arthur Surridge Hunt. Escritos em grego os novos fragmentos completam e confirmam o Codex Akhmin, publicado em 1983.

O texto hoje conhecido como o Evangelho de Maria Madalena, tem a autoria atribuía a Maria, sem qualquer outra identificação,. Poderia ser da mãe de Jesus, ou Maria Betânia (irmã de Lázaro), mas não há dúvida de que é de Maria Madalena.

Rica, tinha uma situação privilegiada para as mulheres do seu tempo: era culta, letrada, bonita, bem falante e independente. Tida como companheira de Jesus no Evangelho de Felipe e no de Tomé, seu Evangelho aborda temas complexos da espiritualidade, que são evitados nos quatro evangelhos canônicos. Um dos capítulos fala da essência da alma.

Quando Pedro pergunta a Jesus o que é o pecado do mundo, Jesus responde: “Não há pecado: sois vós que os criais, quando fazeis coisas da mesma espécie que o adultério, que é chamado pecado. Por isso Deus Pai veio para o meio de vós, para a essência de cada espécie, para conduzí-la à sua origem.” Em seguida, Jesus diz: “Por isso adoeceis e morreis.” E, mais adiante: “Aquele que compreende minhas palavras, que as coloque em prática. A matéria produziu uma paixão sem igual, que se originou de algo contrário à Natureza Divina. A partir daí, todo o corpo de se desequilibra. Essa é a razão porque vos digo: tende coragem, e se estiverdes desanimados, procurai forças na diferentes manifestações da natureza. Quem tem ouvidos para ouvir que ouça.” Logo depois o Filho de Deus saudou a todos, dizendo: “A Paz esteja convosco. Recebei minha paz. Tomai cuidado para que ninguém vos afaste do caminho. Pois o Filho do Homem está dentro de vós. Segui-o. Quem o procurar, O encontrará. Prossegui agora, então, pregai o Evangelho. Não estabeleçais outras regras, além das que vos mostrei, e não instituais como legislador, senão sereis cercados por elas.”

Depois da crucificação de Jesus seus discípulos estavam abatidos, tristes, desanimados. E falavam: “Como vamos pregar aos gentios o Evangelho do Reino do Filho do Homem? Se eles não O pouparam, vão poupar a nós?” Foi quando Maria Madalena levantou-se, tomou a palavra cumprimentando a todos e disse: “Não vos lamenteis nem sofreis, nem hesiteis, pois sua força está inteiramente convosco e vos protegerá. Antes, louvemos sua grandeza, pois Ele nos preparou e nos fez homens”.

Pedro disse a Maria: “Irmã, sabemos que o Salvador te amava mais do que a qualquer outra mulher. Conta-nos as palavras do Salvador, as que te lembras, aquelas que só tu sabes e nós nem ouvimos.”

Maria Madalena respondeu: “Esclarecerei a vós o que está oculto.” E contou que havia tido uma visão do Senhor e perguntado a ele se a visão é vista com a alma ou com o espírito. Ao que Ele respondeu: “Não vê nem com a alma nem com o espírito, mas com a consciência.”

Mas os apóstolos duvidaram que o Salvador houvesse falado em particular com uma mulher e não diretamente com eles. E se perguntavam por que Ele teria preferência por ela. Maria disse a Pedro; “Pedro, meu irmão, o que estás pensando? Achas que inventei tudo no meu coração e que estou mentindo sobre o Salvador?”  E Levi completou: “Pedro, sempre fostes exaltado. Agora te vejo competindo com uma mulher como adversário. Mas, se o Salvador a fez merecedora, quem és tu para rejeita-la? Certamente o Salvador a conheceu bem. Daí a ter amado mais do que a nós. É, antes, o caso de nos envergonharmos e assumirmos o homem perfeito e nos separemos, como Ele nos mandou, e pregarmos o Evangelho, não criando nenhuma outra ou lei, além das que o Salvador nos legou.”

Mas os discípulos não aceitaram de bom grado a situação. E, ao contrário, como demonstra o resultado histórico, cuidaram muito bem de abafar as palavras, as ideias e a própria figura histórica de Maria Madalena, inclusive inventando mentiras a seu respeito.

 

Nunca se falou tanto dos evangelhos apócrifos como agora. Talvez tenha chegado a hora de desvendar verdades que, por séculos, ficaram encobertas.

A Bíblia não é a mensagem única de Deus e não contempla em si todas as verdades religiosas, nem históricas, uma vez que existiram bem mais evangelhos do que os colocados na Bíblia.

Foi por volta de 327 depois de Cristo que o imperador romano Constantino, a partir do Concílio de Nicéia, copilou as principais tendências religiosas, fazendo nascer o cristianismo e determinando os textos que comporiam a Bíblia. Ficaram de fora, pelo menos, 60 evangelhos cristãos.

A decisão de Constantino foi mais política que religiosa, pois ele sabia que compilando as principais vertentes da época, acabaria por unir o império romano que estava dividido, o que punha em risco o seu poder imperial.

Não é difícil reconhecer que da corrente que tinha Mitra como deus pagão saiu a ideia da morte em sacrifício e da ressurreição ao terceiro dia (tal como era contada a história da Mitra). Da vertente religiosa que tinha Isis como deusa o Concílio de Nicéia serviu-se da idéia da Virgem Maria e da Família Sagrada, sem levar em conta que José tinha filhos de seu primeiro casamento e acabou tendo outros filhos com Maria, além de Jesus…

Quanto aos evangelhos apócrifos, ocorreu uma verdadeira caça às bruxas. Muitos foram queimados, por ordem do Papa Gelásio, destruídos por se oporem às bases do cristianismo colocado na Bíblia,.

Por sorte escaparam alguns evangelhos. Como o de Judas e Maria Madalena. Foi em 2006 que os cristãos foram surpreendidos com a divulgação (pela televisão a cabo da National Geografic) do evangelho segundo Judas, depois de 1700 anos desaparecido. Sua existência já havia sido confirmada por Irineu, primeiro bispo de Lyon, na metade do século II, quando o denunciou por heresias. São 26 páginas, em papiro, em dialeto copta do antigo Egito. É uma transcrição de texto mais antigo, não localizado. Desapareceu e só foi descoberto novamente no deserto egípcio de El Minya. Passando pelas mãos de diversos vendedores de antiguidades, chegou aos Estados Unidos e deteriorou-se por 16 anos (em cerca de 30%). Em fevereiro de 2001 a fundação suíça Maecenas Foundation for Anciente Art começou a preservá-lo e traduzi-lo.

O Evangelho segundo Judas, na tradução do professor Rudolf Kasser,  contesta a versão das quatro Evangelhos bíblicos: não houve traição a Jesus. Ele mesmo é que pediu para ser entregue, de  modo a se consumarem as profecias e libertar-se o Seu espírito.

Na verdade, o Jesus dos evangelhos apócrifos é bem diferente daquele inserido na Bíblia.  O Jesus exotérico dos textos não bíblicos transmitia conhecimentos mais complexos do que os divulgados pelo cristianismo. E ele não pretendia fundar uma religião ou uma igreja.

Desde a descoberta, em 1945, em Nag Hamadi, no alto Egito, dos evangelhos de Tomé e Maria Madalena, outros textos apócrifos têm sido divulgados, gerando grandes polêmicas principalmente sobre o seu enfoque espiritualista. De todos, o mais discutido pela Igreja é o de Maria Madalena, apresentada até como prostituta para ter sua imagem de companheira de Jesus demolida para os cristãos.

Algumas passagens do evangelho de Maria Madalena só agora são bem entendidos. Como a fala de Jesus: “Todas as espécies, todas as formações, todas as criaturas estão unidas; elas dependem umas das outras, e se separarão novamente em sua própria origem. Pois a essência da matéria somente se separará de novo em sua própria essência.”

Inegavelmente, segundo o evangelho de Felipe, a ligação de Jesus e Maria Madalena ia mais além:  “E a companheira do Salvador é Maria Madalena. Cristo amava-a mais do que a todos os discípulos e costumava beija-la na boca com freqüência. Os outros discípulos ofendiam-se com isso e expressavam sua desaprovação. Diziam a Ele: Por que Tu a amas mais do que a nós todos?”

O mais importante sobre os evangelhos chamados apócrifos é que eles enfocam uma outra forma de viver a espiritualidade, desapegada de rituais e religiões, vivenciada no interior de cada um, na ética,  com reflexo nos comportamentos externos em todos os lugares, mesmo fora dos templos.

É certo que a Igreja tem distorcido os ensinamentos terrenos de Jesus, ao longo do tempo, afetando consideravelmente o rumo da história espiritual terrena. Muito do que se sabe, ensinado pela religião, não corresponde ao que Ele deixou como legado. A verdade tem sido sabotada ao longo de dois mil anos, por ignorância de uns e interesses escusos de outros. Como é o caso de Maria Madalena e sua possível descendência.