Vestido de Noiva

            O primeiro povo, no Ocidente, a institucionalizar o casamento foi o grego, criando uma cerimônia reconhecida pelo estado que criava deveres para marido e mulher. As noivas, desde que se tem memória, já se vestiam de modo especial para o casamento.

            Os pares eram formados pelo gosto dos pais, quando o menino fazia sete anos. A noiva, normalmente, era uma menina um pouco mais velha. Quando o menino completava 13 anos, deixava a casa materna para casar, se a noiva já fosse moça. Ela usava um vestido que a destinguia das moças de sua idade: a veste nupcial. Por tradição, o rapaz partia para a guerra por três anos, quando voltava para consumar o casamento e ter filhos.

            Entre os romanos o casamento era sempre precedido pelo rapto da noiva, um costume herdado dos bárbaros e que servia para demonstrar a virilidade do noivo. A mulher, possuída pelo noivo, recebia um vestido nupcial que indicava sua condição de mulher casada, para que ninguém a confundisse e raptasse. Era uma túnica branca, envolta por um véu de linho muito fino, de cor púrpura, o flammeum. A mulher devia ainda arrumar o cabelo em tranças e, antes de engravidar, devia usar uma coro de flores de verbena, para propiciar a fertilidade.

            Em Bizâncio as noivas casavam-se vestidas de seda vermelha, bordada em ouro, e as tranças eram feitas com fios dourados, pedras preciosas e flores perfumadas.

            A Bíblia informa que o rapaz e a moça eram preparados para serem expostos em cerimônia pública, com banhos especiais e óleos aromáticos, e pediam bênçãos divinas para a união. Mas não há referência às roupas que as noivas deveriam usar.

            Durante a Idade Média a cristianização do Ocidente trouxe novos costumes matrimoniais. Foi Carlos Magno, no ano 800, quem tornou o casamento um sacramento religioso, com forte carga social e simbólica, como até hoje. A união de marido e mulher tinha a função de  unir duas famílias e seus patrimônios, ou garantir fronteiras, reconstituir territórios. O vestido de noiva clássico surgiu nesse período, com a função específica de destacar a noiva dentro da sua comunidade: era vermelho, ricamente bordado, longo e representava a capacidade da noiva de gerar sangue novo. As moças castas usavam um véu, necessariamente branco.

            Do noivo só se exigia que chegasse à igreja montado em um cavalo branco.

            Da noiva, seus dotes patrimoniais, tecidos para vestir a família, a casa onde o casal iria morar, e suas jóias, que o marido podia vender para custear o cultivo da terra. Noivas ricas usavam um anel em cada dedo.

            O casamento cristão teve início na Idade Média e era uma cerimônia pública, na igreja, o espaço mais público.

            As famílias humildes casavam-se com uma festa popular, na praça, num domingo de santo, especialmente no dia de Santo Antônio, protetor das noivas sem dote. Era costume o noivo apresentar, no dia seguinte, o lençol com o sangue que comprovava a virgindade da noiva. Esse lençol seria enterrado em maio, para propiciar fertilidade à terra e abundância na colheita.

            A noiva burguesa geralmente vestia verde, como símbolo de fertilidade, e para lembrar o horto das oliveiras, onde Cristo passou a última noite.

            Nesse período a noção de amor não era agregada à do casamento e raramente os noivos já se conheciam.

            Na Renascença, com a ascensão da burguesia mercantil, a apresentação da noiva foi ficando cada vez mais luxuosa e o costume exigia um vestido de veludo e brocado, com o brasão da família e as cores do noivo ao qual sua casa estava se filiando.

            O uso da tiara passou a ser um adereço obrigatório, segundo informa Queila Ferraz escrevendo sobre a história do vestido de noiva. A noiva devia ter pelo menos cinco damas e usar anéis em todos os dedos, significando que não precisava trabalhar.

            No final do Renascimento o código da elegância barroca foi determinado pelas cortes católicas de Espanha, onde se estabeleceu que o preto era a cor correta a ser usada pela noiva, como demonstração de sua índole religiosa.

           

            Há séria divergência a respeito da primeira noiva a vestir branco. Teria sido Maria de Médici, ao se casar com Henrique IV. Maria, mesmo sendo católica, não comungava da estética religiosa espanhola e recusou-se a casar de preto. Usou um vestido de brocado branco, com decote quadrado e colo à mostra, provocando grande escândalo no clero.

            Michelangelo pintou a noiva e seu vestido, branco, ornado a ouro. Maria tinha 14 anos e o pintor retratou seu candor virginal.

            Mas não criou moda.

            Quando a Rainha Vitória, da Grã-Bretanha, casou em 1840, de branco, num rico vestido também bordado a ouro, quase todas as noivas britânicas depois disso também se casaram de branco. Moda que depois se espalhou pela Europa. (O mesmo vestido, reinterpretado, foi usado por Lady Diana Spencer em seu infeliz casamento com o Príncipe Charles, herdeiro da coroa britânica.)

            No Renascimento o casamento popular também era em praça pública, com os noivos seguindo um cortejo pela praça,  liderado pelo homem mais velho da cidade ou da vila. Os trajes eram simples e pobres e o valor da cerimônia estava na alegria da comemoração. A Noiva tinha sempre que ostentar o que de melhor sua família podia oferecer, sendo comum que a noiva sem posses alugasse um bom vestido para o casório. Mas, no enxoval, qualquer noiva devia provar que estava apta a casar, exibindo pelo menos três vestidos: um cerimonioso, um para os domingos na igreja e o do dia-a-dia.

            No período Rococó as noivas usavam vestidos brilhantes, bordados com pedrarias, com babados de renda nas mangas e decotes. As cores preferidas eram as florais apasteladas, principalmente o lilás, a cor de pêssego e o verde malva. E o hábito era seguido tanto pelas noivas da aristocracia quanto pelas noivas do povão.

            Na cabeça era elegante usar uma peruca, o pouf de sentimento, com um cupido e um medalhão retratando o noivo, frutas e verduras que simbolizavam a fertilidade e a fartura.

            A Revolução Francesa aboliu o padrão de elegância luxuoso próprio da aristocracia, que existia desde a Idade Média, e substituiu por um casamento cidadão, discreto, puritano e burguês, Padrão que passou a valorizar, acima de tudo, a virgindade da moça, a pureza da noiva, usando a cor branca como símbolo da inocência virginal. Um véu branco, transparente, era o símbolo da castidade, preso à cabeça por uma guirlanda de flores. Nesse momentro introduz-se o linho, a lã e os tecidos opacos como mais adequados para um vestido de noiva.

            O governo de Napoleão Bonaparte também comungou deste ideal de simplicidade, divulgando o estilo Império como um retorno à simplicidade da mulher grega. E estabeleceu idades limites mínimas para o casamentolegal: 18 anos para as moças e 21 anos para os rapazes.

            A partir de então tornou-se obrigatória a celebração da cerimônia civil do casamento, com todos os casamentos sendo registrados em cartório público para terem valor legal. O branco tornou-se, definitivamente, a cor-símbolo das noivas e o vestido de noiva, mesmo simples, devia ser o mais luxuoso que uma moça usa antes de se tornar uma senhora casada.

            Em 1854 o Papa Pio IX proclamou que as noivas deveriam vestir branco para homenagear a imaculada concepção da Virgem Maria.

            A fala papal estabeleceu para a noiva do Romantismo o padrão católico: a virgindade era a qualidade primordial de qualquer noiva. A noiva romântica agregou ao vestido um adereço novo, que levava na mão: um terço ou um pequeno livro de orações, demonstração de sua fé e religiosidade.

            A partir da segunda metade do século 19, o Iluminismo continuou representando a pureza e a castidade e agregou ao traje a flor de laranjeira como símbolo de fertilidade.

            A noiva do estilo Liberty era pura como um lírio, a flor preferido para decorar as igrejas, uma novidade nos casamentos. E o relicário de mão foi substituído por um buquê de flores naturais, colhidas no dia da cerimônia. Assim foi que Sissi casou com Francisco José, em 1854, e se tornou imperatriz da Baviera. Seu buquê era de rosas brancas.

            Por essa época a noiva com mais de 25 anos era impedida de usar o véu e os padres sugeriam que não se casasse de branco…

            A noiva mais famosa da primeira metade do século 20 foi a atriz de cinema Grace Kelly, que se tornou Princesa de Mônaco. E os vestidos de noiva do século acompanharam a moda da alta costura e suas variantes. A tal ponto que o final de todos os desfiles de moda se dava com a exibição do vestido de noiva da grife.

            Mas nos anos 60 a moda foi tomada pelo prêt-a-porter e o vestido de noiva já podia ser comprado pronto, inclusive em versão mini. Brigite Bardot casou-se pela segunda vez vestindo um curto, em algodão, xadrez rosa e branco.

            O casamento de Lady Di com o Príncipe de Gales, em 1981, toda a cerimônia mostrou a tradição de elegância da realeza da Casa de Windsor, com a releitura do vestido de casamento da Rainha Vitória e no uso do diadema real como símbolo medieval do patrimônio das famílias.

            O matrimônio como instituição renasceu na década de 90 com o ideal do casamento sustentado no afeto e no ideal de fidelidade e felicidade para sempre. Mas as feministas do final do século lançaram-se contra o vestido de noiva tradicional, que consideraram um sinal da submissão feminina e um claro desperdício capaz de marcar mal um começo de vida.

            Mas as noivas resistem e hoje é comum, nas grandes cidades, lojas que alugam não só vestidos de noiva, mas vestidos para madrinhas, ternos, casacas, fraques e meios-fraques para noivos e padrinhos.

           

 

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