Tudo Como Dantes no Quartel de Abrantes

            Depois que falhou a reação militar das monarquias européias contra a Revolução Francesa e seus ideais republicanos, Napoleão consolidou seu poder e tratou da conquista territorial da Europa em todas as direções. A frente de guerra francesa ia da Rússia ao Norte da África, da Escandinávia à Península Ibérica.

            Napoleão ordena a Portugal que feche seus portos aos navios ingleses (com quem a França estava em guerra aberta). D. João, o Príncipe Regente, resiste, manobra, negocia, adia. A decisão portuguesa de manter a neutralidade deixa Napoleão impaciente e ele ordena que o general Andoche Junot leve 28 mil homens para atacar Portugal.

            Junot marcha, com apoio espanhol, e a 19 de novembro de 1807 transpõe a fronteira portuguesa à frente de um exército castigado pelo inverno das serras do Norte de Espanha. Sua progressão pela região da Beira, inóspita, sem estradas, pobre, é trágica. Os soldados estão famintos, descalços, subnutridos, muitos estão doentes ou feridos.

            As tropas francesas entram em Abrantes no dia 24 de novembro. O General quer parar, recompor suas forças e aí instala um quartel-general. Mas Napoleão ordena que a invasão prossiga imediatamente. Junot seleciona os elementos que podem continuar a marcha e no dia seguinte parte em direção a Lisboa.

            Transposto o Zézere, a muito custo, e as terras alagadas da Golegã, Junot entra em Santarém dia 18 com um Estado-Maior incompleto e um regimento de poucos homens, incapacitados para o combate. E no mesmo dia, seguindo as ordens de Napoleão, marcha para Lisboa.

            Nas proximidades da cidade é recebido por um destacamento da cavalaria portuguesa perfeitamente capaz de enfrentar e vencer rapidamente o exército francês enfraquecido.

            Mas as ordens de D. João eram claras e ele havia determinado que as tropas portuguesas recebessem as francesas como amigos, porque não havia uma invasão, mas uma simples “marcha de tropas estrangeiras”. Os soldados portugueses deveriam bem recebê-las, cuidar de aquartelá-las e dar a elas toda a assistência de que necessitassem, “conservando sempre a boa harmonia que se deve praticar com os exércitos das nações com as quais nos achamos unidos no Continente”.

            Aquele exército depauperado pela fome, pelo clima, pelo cansaço, de uniformes rasgados e descalços, espingardas arruinadas, entra na capital do Reino protegido pela cavalaria portuguesa.

            Na véspera, toda a Corte portuguesa havia embarcado rumo ao Brasil , às pressas e sem muita organização, em 35 navios mercantes e de guerra. Mas disposta a levar a Rainha e o Príncipe para estabelecer a capital do Reino português em suas terras brasileiras, longe do poder napoleônico e mantendo o poder da família de BRagança.

            Junot assume a Regência em Portugal, em nome de Napoleão, e declara findo o reinado da família Bragança. Ergue a bandeira francesa  no Castelo de São Jorge e trata de desarmar os militares portugueses. Em seguida, envia os regimentos portugueses para as frentes de batalha francesas, com uniformes modificados às pressas.

            Abandonada pela Corte, reprimida pelos franceses, a população fica revoltada em vários pontos do país. E a resistência é heróica, permanente, muitos lugares ao mesmo tempo. Foram esses focos de rebelião populares que permitiram às forças inglesas planejar um assalto por mar ao teritório português. A 6 de agosto de 1808, o general inglês Arthur Wellesley (futuro Duque de Wellington) desembarca na Baía de Vagos e começa o longo processo de reação aos franceses.

            Mas no quartel de Abrantes, tudo estava como dantes, na mão dos militares franceses. Depois, esse dito tornou-se um provérbio  (Tudo como dantes no quartel de Abrantes) com o significado de inoperância e inconformismo.

            O descontentamento popular acabou por livrar Portugal da ocupação, mas suas igrejas, seus palácios, suas riquezas, tudo fora parar na França. Para trás ficara a destruição e a desorganização social. O esgotamento dos bens de consumo, a falta de alimentos, a ausência de autoridade, a falta do Rei e da Corte, tudo interferiu para criar-se uma Constituição que pretendesse transferir o poder legislativo para um Parlamento e proclamar a República. Liberais e Absolutistas entraram em choque, veio a guerra civil que adiou mais ainda o progresso português e sua estabilidade social.

            Até que, pressionado, o rei D. João voltasse, trouxesse de volta a Corte, e imaginasse ser possível fazer do Brasil, novamente, uma colônia. Mas não podia e bem cuidou de deixar um filho em terras brasileiras para construir uma nova nação.

            O quartel de Abrantes ficou, como um símbolo e um ditado popular, memória de maus dias.

             

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