Archive for outubro \20\UTC 2008

O ORIGINAL E GENUÍNO MOLHO DE WORCESTER

outubro 20, 2008

            Lorde Sandys nasceu em Worcester, cidade inglesa conhecida pela indústria de alimentos e principalmente por sua porcelana. Ele, bom gastrônomo, foi servir na Índia no começo do século 19.

            Sua primeira providência em Bombaim foi procurar um bom cozinheiro. Encontrou, a bom preço, um mestre de forno e fogão que fazia pratos elegantes, ocidentais e orientais, e usava para temperá-los um molho escuro de sua criação cuja fórmula não revelava por dinheiro algum.

            A história não revela como e o quê o bom Lorde fez para conseguir a receita, antes de voltar à Grã-Bretanha. Mas o fato é que conseguiu. Mandou comprar todos os ingredientes e trouxe-os consigo na bagagem.

            Em 1835, chegando à sua casa, em Worcester, passou a fórmula a dois donos de uma casa farmacêutica de manipulação, um certo Mr. John Wheeley Lea e um Mr. William Perrins, desde que tivesse fornecimento permanente do molho. Os ingredientes conhecidos: anchovas fermentadas, alho, cravo-da-índia, échalote (bulbo assemelhado à cebola), extrato de carne, melaço, molho de soja, pimenta-do-reino, essência de tamarindo, vinagre de malte, curry.

            O resultado não agradou ao Lorde, a Lea e a Perrins. E o molho foi parar, esquecido, em uma prateleira empoeirada.

            Só três anos depois os dois farmacêuticos encontram o molho e resolveram experimentar outra vez. O molho rejeitado havia se transformado em um tempero divino.

            Em 1837 começaram a produzi-lo em larga escala, deixando que ele envelhecesse por um ano, sob a marca Lea & Perrins e com o nome de Worcestershire Saúde, literalmente, molho da região de Worcester. Ou, simplesmente, para o mundo, Molho Inglês.

            O nobre inglês seria o 3º barão de Sandys, ex-governador de Bengala. Mas outros historiadores identificam de Sandys como seu antecessor, Arthur Moyses William Hill, o 2º barão de Sandys (1793-1860), uma figura pública, tenente-coronel do Exército Britânico, membro da Câmara dos Comuns.

            Só que um antigo funcionário da Lea & Perrins desmente toda a história e garante que nunca houve um barão de Sandys ou receita vinda da Índia (o que é bem pouco provável).

            Há ainda outra versão, segunda a qual o molho não teve pai inglês e sim mãe: Mary Hill (1774-1836), 1ª baronesa de Sandys, única pessoa a usar o título nobiliárquico familiar em 1835, ano da encomenda do molho a Lea e Perrins.

            Rótulos originais do molho alimentam a fantasia porque não mencionam a identidade do barão ou da baronesa. Diz apenas que o molho procedia “from the recipe of a nobleman in the county” (“da receita de um nobre do condado”).

            Inspirado por homem ou  mulher, é quase certo que o chamado molho inglês seja mais um dos produtos que os britânicos subtraíram da Índia, tornando-se a invenção britânica mais conhecida do mundo.

            Há algumas curiosidades em torno do molho: em 1904, quando o explorador e oficial britânico Francis Edward Younghusband ocupou militarmente a cidade de Lhasa, no Tibete, deparou-se com uma garrafinha do molho. E em 1970, os arqueólogos que escavaram as ruínas de Te Wairoa, na Nova Zelândia,  soterrada em 1886 pela explosão do vulcão Tarawera, também encontram um vidrinho de molho inglês. A vula havia sido soterrada comn as povoações de Te Ariki, Moura, e as escadarias e piscinas naturais de água quente dos Pink e White Terraces, uma formação geológica classificada entre as dez maravilhas do mundo. O molho estava ótimo.

            A receita, até hoje, é um segredo bem conservado num cofre da Lea & Perrins, mas há muitas imitações e tentativas de rprodução, em todo o mundo, inclusive no Brasil. Onde o tal molho inglês é feito de vinagre de cana, açúcar mascavo, alho, cebola, cenoura, corante caramelo, extratode carne, gengibre, molho de soja, pimenta vermelha, sal, salsa, salsão, cravo, canela e outros condimentos.

            O Worcestershire Sauce é versátil e pode temperar carnes em geral, ensopados, sopas, caldos, recheios. Faz parte também de um coquetel, o Bloody Mary.

            O produto original matura por três anos antes de ser comercializado. Por falar em original, ele, e só ele, recebeu da Câmara Alta britânica o direito de ostentar no rótulo o título de “original e genuíno”.

 

            Se o ilustre passageiro aspirar fazer bom molho, caseiro é bem verdade, tome nota, por favor, dos ingredientes:

·        uma xícara (das de chá) de açúcar;

·        uma e meia xícara (das de chá) de vinagre de álcool;

·        meia xícara (de chá) de água

·        uma pitada de pimenta-do-reino moída;

·        u,a pimenta vermelha picada;

·        uma folha de louro;

·        uma pitada de noz-moscada ralada;

·        um tablete de caldo de carne;

·        duas colheres (das de sopa) de extrato de tomate;

·        duas colheres (das de sopa) de azeite de oliva.

E anote como fazê-lo:

Numa caçarola coloque o açúcar e deixe amarelar em fogo brando, mexendo e cuidando para não queimar. Junte os outros ingredientes, menos o azeite. Deixe em fogo brando por mais 15 minutos. Retire do fogo e deixe descansar até o dia seguinte, mantendo a panela tampada. No outro dia coe o preparado em uma peneira fina e misture o azeite. Coloque em vidro escaldados e tampe. Guarde por pelo menos uma semana em local bem escuro e seco. E eis o molho pronto para ser usado.

Punhado de Ossos

outubro 17, 2008

 

Esse punhado de ossos que, na areia,

alveja e estala à luz do sol a pino

moveu-se outrora, esguio e bailarino,

como se move o sangue numa veia.

 

Moveu-se em vão, talvez, porque o destino

lhe foi hostil e, astuto, em sua teia

bebeu-lhe o vinho e devorou-lhe a ceia

o que havia de raro e de mais fino.

 

Foram demais tais ossos, foram reis,

e príncipes e bispos e donzelas

mas de todos a morte apenas fez

a tábua rasa do asco e das mazelas.

 

E ali, na areia anônima, eles moram.

Ninguém os escuta. Ao ossos não choram.

 

                                                 Ivan Junqueira

Tudo Como Dantes no Quartel de Abrantes

outubro 9, 2008

            Depois que falhou a reação militar das monarquias européias contra a Revolução Francesa e seus ideais republicanos, Napoleão consolidou seu poder e tratou da conquista territorial da Europa em todas as direções. A frente de guerra francesa ia da Rússia ao Norte da África, da Escandinávia à Península Ibérica.

            Napoleão ordena a Portugal que feche seus portos aos navios ingleses (com quem a França estava em guerra aberta). D. João, o Príncipe Regente, resiste, manobra, negocia, adia. A decisão portuguesa de manter a neutralidade deixa Napoleão impaciente e ele ordena que o general Andoche Junot leve 28 mil homens para atacar Portugal.

            Junot marcha, com apoio espanhol, e a 19 de novembro de 1807 transpõe a fronteira portuguesa à frente de um exército castigado pelo inverno das serras do Norte de Espanha. Sua progressão pela região da Beira, inóspita, sem estradas, pobre, é trágica. Os soldados estão famintos, descalços, subnutridos, muitos estão doentes ou feridos.

            As tropas francesas entram em Abrantes no dia 24 de novembro. O General quer parar, recompor suas forças e aí instala um quartel-general. Mas Napoleão ordena que a invasão prossiga imediatamente. Junot seleciona os elementos que podem continuar a marcha e no dia seguinte parte em direção a Lisboa.

            Transposto o Zézere, a muito custo, e as terras alagadas da Golegã, Junot entra em Santarém dia 18 com um Estado-Maior incompleto e um regimento de poucos homens, incapacitados para o combate. E no mesmo dia, seguindo as ordens de Napoleão, marcha para Lisboa.

            Nas proximidades da cidade é recebido por um destacamento da cavalaria portuguesa perfeitamente capaz de enfrentar e vencer rapidamente o exército francês enfraquecido.

            Mas as ordens de D. João eram claras e ele havia determinado que as tropas portuguesas recebessem as francesas como amigos, porque não havia uma invasão, mas uma simples “marcha de tropas estrangeiras”. Os soldados portugueses deveriam bem recebê-las, cuidar de aquartelá-las e dar a elas toda a assistência de que necessitassem, “conservando sempre a boa harmonia que se deve praticar com os exércitos das nações com as quais nos achamos unidos no Continente”.

            Aquele exército depauperado pela fome, pelo clima, pelo cansaço, de uniformes rasgados e descalços, espingardas arruinadas, entra na capital do Reino protegido pela cavalaria portuguesa.

            Na véspera, toda a Corte portuguesa havia embarcado rumo ao Brasil , às pressas e sem muita organização, em 35 navios mercantes e de guerra. Mas disposta a levar a Rainha e o Príncipe para estabelecer a capital do Reino português em suas terras brasileiras, longe do poder napoleônico e mantendo o poder da família de BRagança.

            Junot assume a Regência em Portugal, em nome de Napoleão, e declara findo o reinado da família Bragança. Ergue a bandeira francesa  no Castelo de São Jorge e trata de desarmar os militares portugueses. Em seguida, envia os regimentos portugueses para as frentes de batalha francesas, com uniformes modificados às pressas.

            Abandonada pela Corte, reprimida pelos franceses, a população fica revoltada em vários pontos do país. E a resistência é heróica, permanente, muitos lugares ao mesmo tempo. Foram esses focos de rebelião populares que permitiram às forças inglesas planejar um assalto por mar ao teritório português. A 6 de agosto de 1808, o general inglês Arthur Wellesley (futuro Duque de Wellington) desembarca na Baía de Vagos e começa o longo processo de reação aos franceses.

            Mas no quartel de Abrantes, tudo estava como dantes, na mão dos militares franceses. Depois, esse dito tornou-se um provérbio  (Tudo como dantes no quartel de Abrantes) com o significado de inoperância e inconformismo.

            O descontentamento popular acabou por livrar Portugal da ocupação, mas suas igrejas, seus palácios, suas riquezas, tudo fora parar na França. Para trás ficara a destruição e a desorganização social. O esgotamento dos bens de consumo, a falta de alimentos, a ausência de autoridade, a falta do Rei e da Corte, tudo interferiu para criar-se uma Constituição que pretendesse transferir o poder legislativo para um Parlamento e proclamar a República. Liberais e Absolutistas entraram em choque, veio a guerra civil que adiou mais ainda o progresso português e sua estabilidade social.

            Até que, pressionado, o rei D. João voltasse, trouxesse de volta a Corte, e imaginasse ser possível fazer do Brasil, novamente, uma colônia. Mas não podia e bem cuidou de deixar um filho em terras brasileiras para construir uma nova nação.

            O quartel de Abrantes ficou, como um símbolo e um ditado popular, memória de maus dias.

             

Alcachofra, uma flor de comida.

outubro 9, 2008

            Ao escrever sobre flores comestíveis deixei de fora a que se come há mais tempo: a alcachofra. E logo recebi dezenas de protestos de adoradores de alcachofra, indignados e reclamando que se dê à Cynara scolymus seu devido lugar de destaque.

            A alcachofra que consumimos é uma flor imatura, da mesma família das margaridas e dos girassóis, a família das Compostas.

            Ela saiu dos jardins e foi para a mesa no Império Romano, quando suas propriedades nutritivas e medicinais foram descobertas. A alcachofra era privilégio da mesa dos nobres.

            Iguaria exótica, esta hortaliça foi feita para ser comida pétala por pétala. E assim mesmo, apenas a parte carnuda delas. Depois, retirada a parte espinhosa, sobra o chamado fundo, coração ou cú da alcachofra.

            A alcachofra tem excelentes propriedades nutritivas e medicinais: boas doses de vitaminas do complexo B, potássio, cálcio, fósforo, iodo, sódio, magnésio e ferro. O leve sabor amargo estimula as secreções digestivas. E a água de cozimento da alcachofra é um excelente chá (que pode ser tomado quente ou gelado), um diurético excelente, estimulante da vesícula biliar e ativador da digestão.

            A clarina, uma substância também encontrada na alcachofra é considerada um bom remédio para o fígado, ideal para os diabéticos com problemas no fígado.

            Várias experiências com o extrato da alcachofra atestam sua eficiência na redução de gordura no sangue, para combater a anemia e o raquitismo.

 

            É tempo de acabar com um preconceito que se tornou um mito: desde o tempo de Catarina de Médicis (que adorava alcachofras e fazia questão de comê-las em todas as refeições) se diz que a alcachofra é um afrodisíaco. A tal ponto que os médicos recomendavam que não se desse de comer às damas, para não provocar nelas “impulsos sexuais incontíveis”. No século 16 o consumo foi mesmo proibido às mulheres, por lei, com base no comportamento sexual da mulher de Henrique II.

            Mesmo então, os médicos reconheciam suas propriedades para reduzir a febre, cuidar do fígado, reumatismo, e como antidepressivo.

           

            As alcachofras vieram para o Brasil trazidos por imigrantes europeus, há mais de 100 anos. No sul da Europa e norte da África é uma planta de clima temperado a frio. Em regiões quentes vegeta bem, mas não forma os botões florais comestíveis.

            A colheita vai de agosto a novembro e são quatro as variedades mais encontradas: Violeta de Proença, Roxa de São Roque, Verde Lion e Verde Grande da Bretanha.

            Segundo os nutricionistas, o ideal é consumir a alcachofra no mesmo dia em que é colhida, sabendo que a cada dia que passa ela começa a perder suas melhores qualidades.

            Ao comprar, prefira as que têm talo longo, firme, com a inflorescência bem compacta e arroxeada. A parte espinhenta só deve ser retirada depois do cozimento. Também é recomendável consumí-la logo depois do cozimento, para melhor aproveitamento de suas propriedades medicinais e nutritivas.

 

            O preparo:

            1. Corte o talo perto da base, deixando apenas um ou dois dedos.

            2. Lave a alcachofra em água corrente, abrindo bem as pétalas para que a água penetre.

            3. Deixe de molho em água com sal e algumas gotas de limão, para não escurecer.

            4. Use panelas esmaltadas ou em aço inoxidável. As panelas de alumínio escurecem a alcachofra.

            5. O tempo médio de cozimento é de aproximadamente 40 minutos. Em panela de pressão, 20 minutos.

            6. Para saber se está cozida, é só puxar uma folha: se ela se soltar com facilidade, está no ponto.

            7. Evite o excesso de água: coloque apenas o suficiente para cobrir metade da alcachofra.

            Os talos da alcachofra também são comestíveis. É só retirar a parte fibrosa, descascando com uma faca. Depois, deixe os talos mergulhados em água com limão durante alguns minutos. Leve para cozinhar por 30 minutos (15 em panela de pressão).

            O melhor acompanhamento para a alcachofra, dizem os entendidos, é meia xícara de azeite, duas colheres (das de sopa) de suco de limão, uma colher (de sopa) de vinagre, salsa picada, duas colheres (das de chá) de mostarda, umas gotas de Worcestershire Sauce (molho inglês) e sal a gosto. É passar as pétalas no molho e saborear. Depois, mergulho os pedaços do coração da alcachofra nesse molho, para comer com garfo e faca.

 

 

Vestido de Noiva

outubro 9, 2008

            O primeiro povo, no Ocidente, a institucionalizar o casamento foi o grego, criando uma cerimônia reconhecida pelo estado que criava deveres para marido e mulher. As noivas, desde que se tem memória, já se vestiam de modo especial para o casamento.

            Os pares eram formados pelo gosto dos pais, quando o menino fazia sete anos. A noiva, normalmente, era uma menina um pouco mais velha. Quando o menino completava 13 anos, deixava a casa materna para casar, se a noiva já fosse moça. Ela usava um vestido que a destinguia das moças de sua idade: a veste nupcial. Por tradição, o rapaz partia para a guerra por três anos, quando voltava para consumar o casamento e ter filhos.

            Entre os romanos o casamento era sempre precedido pelo rapto da noiva, um costume herdado dos bárbaros e que servia para demonstrar a virilidade do noivo. A mulher, possuída pelo noivo, recebia um vestido nupcial que indicava sua condição de mulher casada, para que ninguém a confundisse e raptasse. Era uma túnica branca, envolta por um véu de linho muito fino, de cor púrpura, o flammeum. A mulher devia ainda arrumar o cabelo em tranças e, antes de engravidar, devia usar uma coro de flores de verbena, para propiciar a fertilidade.

            Em Bizâncio as noivas casavam-se vestidas de seda vermelha, bordada em ouro, e as tranças eram feitas com fios dourados, pedras preciosas e flores perfumadas.

            A Bíblia informa que o rapaz e a moça eram preparados para serem expostos em cerimônia pública, com banhos especiais e óleos aromáticos, e pediam bênçãos divinas para a união. Mas não há referência às roupas que as noivas deveriam usar.

            Durante a Idade Média a cristianização do Ocidente trouxe novos costumes matrimoniais. Foi Carlos Magno, no ano 800, quem tornou o casamento um sacramento religioso, com forte carga social e simbólica, como até hoje. A união de marido e mulher tinha a função de  unir duas famílias e seus patrimônios, ou garantir fronteiras, reconstituir territórios. O vestido de noiva clássico surgiu nesse período, com a função específica de destacar a noiva dentro da sua comunidade: era vermelho, ricamente bordado, longo e representava a capacidade da noiva de gerar sangue novo. As moças castas usavam um véu, necessariamente branco.

            Do noivo só se exigia que chegasse à igreja montado em um cavalo branco.

            Da noiva, seus dotes patrimoniais, tecidos para vestir a família, a casa onde o casal iria morar, e suas jóias, que o marido podia vender para custear o cultivo da terra. Noivas ricas usavam um anel em cada dedo.

            O casamento cristão teve início na Idade Média e era uma cerimônia pública, na igreja, o espaço mais público.

            As famílias humildes casavam-se com uma festa popular, na praça, num domingo de santo, especialmente no dia de Santo Antônio, protetor das noivas sem dote. Era costume o noivo apresentar, no dia seguinte, o lençol com o sangue que comprovava a virgindade da noiva. Esse lençol seria enterrado em maio, para propiciar fertilidade à terra e abundância na colheita.

            A noiva burguesa geralmente vestia verde, como símbolo de fertilidade, e para lembrar o horto das oliveiras, onde Cristo passou a última noite.

            Nesse período a noção de amor não era agregada à do casamento e raramente os noivos já se conheciam.

            Na Renascença, com a ascensão da burguesia mercantil, a apresentação da noiva foi ficando cada vez mais luxuosa e o costume exigia um vestido de veludo e brocado, com o brasão da família e as cores do noivo ao qual sua casa estava se filiando.

            O uso da tiara passou a ser um adereço obrigatório, segundo informa Queila Ferraz escrevendo sobre a história do vestido de noiva. A noiva devia ter pelo menos cinco damas e usar anéis em todos os dedos, significando que não precisava trabalhar.

            No final do Renascimento o código da elegância barroca foi determinado pelas cortes católicas de Espanha, onde se estabeleceu que o preto era a cor correta a ser usada pela noiva, como demonstração de sua índole religiosa.

           

            Há séria divergência a respeito da primeira noiva a vestir branco. Teria sido Maria de Médici, ao se casar com Henrique IV. Maria, mesmo sendo católica, não comungava da estética religiosa espanhola e recusou-se a casar de preto. Usou um vestido de brocado branco, com decote quadrado e colo à mostra, provocando grande escândalo no clero.

            Michelangelo pintou a noiva e seu vestido, branco, ornado a ouro. Maria tinha 14 anos e o pintor retratou seu candor virginal.

            Mas não criou moda.

            Quando a Rainha Vitória, da Grã-Bretanha, casou em 1840, de branco, num rico vestido também bordado a ouro, quase todas as noivas britânicas depois disso também se casaram de branco. Moda que depois se espalhou pela Europa. (O mesmo vestido, reinterpretado, foi usado por Lady Diana Spencer em seu infeliz casamento com o Príncipe Charles, herdeiro da coroa britânica.)

            No Renascimento o casamento popular também era em praça pública, com os noivos seguindo um cortejo pela praça,  liderado pelo homem mais velho da cidade ou da vila. Os trajes eram simples e pobres e o valor da cerimônia estava na alegria da comemoração. A Noiva tinha sempre que ostentar o que de melhor sua família podia oferecer, sendo comum que a noiva sem posses alugasse um bom vestido para o casório. Mas, no enxoval, qualquer noiva devia provar que estava apta a casar, exibindo pelo menos três vestidos: um cerimonioso, um para os domingos na igreja e o do dia-a-dia.

            No período Rococó as noivas usavam vestidos brilhantes, bordados com pedrarias, com babados de renda nas mangas e decotes. As cores preferidas eram as florais apasteladas, principalmente o lilás, a cor de pêssego e o verde malva. E o hábito era seguido tanto pelas noivas da aristocracia quanto pelas noivas do povão.

            Na cabeça era elegante usar uma peruca, o pouf de sentimento, com um cupido e um medalhão retratando o noivo, frutas e verduras que simbolizavam a fertilidade e a fartura.

            A Revolução Francesa aboliu o padrão de elegância luxuoso próprio da aristocracia, que existia desde a Idade Média, e substituiu por um casamento cidadão, discreto, puritano e burguês, Padrão que passou a valorizar, acima de tudo, a virgindade da moça, a pureza da noiva, usando a cor branca como símbolo da inocência virginal. Um véu branco, transparente, era o símbolo da castidade, preso à cabeça por uma guirlanda de flores. Nesse momentro introduz-se o linho, a lã e os tecidos opacos como mais adequados para um vestido de noiva.

            O governo de Napoleão Bonaparte também comungou deste ideal de simplicidade, divulgando o estilo Império como um retorno à simplicidade da mulher grega. E estabeleceu idades limites mínimas para o casamentolegal: 18 anos para as moças e 21 anos para os rapazes.

            A partir de então tornou-se obrigatória a celebração da cerimônia civil do casamento, com todos os casamentos sendo registrados em cartório público para terem valor legal. O branco tornou-se, definitivamente, a cor-símbolo das noivas e o vestido de noiva, mesmo simples, devia ser o mais luxuoso que uma moça usa antes de se tornar uma senhora casada.

            Em 1854 o Papa Pio IX proclamou que as noivas deveriam vestir branco para homenagear a imaculada concepção da Virgem Maria.

            A fala papal estabeleceu para a noiva do Romantismo o padrão católico: a virgindade era a qualidade primordial de qualquer noiva. A noiva romântica agregou ao vestido um adereço novo, que levava na mão: um terço ou um pequeno livro de orações, demonstração de sua fé e religiosidade.

            A partir da segunda metade do século 19, o Iluminismo continuou representando a pureza e a castidade e agregou ao traje a flor de laranjeira como símbolo de fertilidade.

            A noiva do estilo Liberty era pura como um lírio, a flor preferido para decorar as igrejas, uma novidade nos casamentos. E o relicário de mão foi substituído por um buquê de flores naturais, colhidas no dia da cerimônia. Assim foi que Sissi casou com Francisco José, em 1854, e se tornou imperatriz da Baviera. Seu buquê era de rosas brancas.

            Por essa época a noiva com mais de 25 anos era impedida de usar o véu e os padres sugeriam que não se casasse de branco…

            A noiva mais famosa da primeira metade do século 20 foi a atriz de cinema Grace Kelly, que se tornou Princesa de Mônaco. E os vestidos de noiva do século acompanharam a moda da alta costura e suas variantes. A tal ponto que o final de todos os desfiles de moda se dava com a exibição do vestido de noiva da grife.

            Mas nos anos 60 a moda foi tomada pelo prêt-a-porter e o vestido de noiva já podia ser comprado pronto, inclusive em versão mini. Brigite Bardot casou-se pela segunda vez vestindo um curto, em algodão, xadrez rosa e branco.

            O casamento de Lady Di com o Príncipe de Gales, em 1981, toda a cerimônia mostrou a tradição de elegância da realeza da Casa de Windsor, com a releitura do vestido de casamento da Rainha Vitória e no uso do diadema real como símbolo medieval do patrimônio das famílias.

            O matrimônio como instituição renasceu na década de 90 com o ideal do casamento sustentado no afeto e no ideal de fidelidade e felicidade para sempre. Mas as feministas do final do século lançaram-se contra o vestido de noiva tradicional, que consideraram um sinal da submissão feminina e um claro desperdício capaz de marcar mal um começo de vida.

            Mas as noivas resistem e hoje é comum, nas grandes cidades, lojas que alugam não só vestidos de noiva, mas vestidos para madrinhas, ternos, casacas, fraques e meios-fraques para noivos e padrinhos.

           

 

Pesquisas Eleitorais

outubro 6, 2008

            Poucas coisas na vida dão tanto prazer a um jornalista político quanto um erro de um instituto de pesquisa eleitoral. E quanto maior o erro, maior a alegria. Não que ele não acredite em pesquisa. Acredita sim. Mais do que isso: ele sabe da seriedade da maioria dessas pesquisas de institutos importantes, que vivem exatamente da sua credibilidade, para que possam continuar vendendo pesquisas.

            Acredito que seja exatamente por isso que o jornalista tenha prazer: é a certeza de que até os infalíveis podem falhar.

            Pois falharam, novamente, nas eleições para Prefeito em São Paulo.

            Na véspera da eleição, o Datafolha fechou sua pesquisa dando seis pontos de vantagem para Marta Suplicy. E o Ibope fechou a sua dando oito. É bem verdade que identificavam uma tendência de crescimento de  Kassab, mas ninguém acreditou o suficiente para coloca-lo dentro da margem de erro…

            Na hora da apuração o que se viu foi Kassab à frente, desde o início. E o povo do lado de lá afirmando, convicto, que aquilo era fogo de palha.

            Até a altura dos 60 por cento de votos apurados ainda se dizia para que nós, desinformados das realidades paulistanas, esperássemos a abertura das urnas da “zona da mata”, como se dizia nos velhos tempos.

            Só que não aconteceram os votos da zona da Marta e ela foi mesmo derrotada, para desespero de sua patota, que inclui o próprio presidente Lula, incapaz de transferir-lhe parte do seu rotundo prestígio de 80 por cento.

            Mauro Paulino, diretor do Datafolha, e Márcia Cavallari, diretoira do Ibope, usam o mesmo chavão para explicar a falha: pesquisa é só um retarto do momento. Segundo eles, o que aconteceu e vem acontecendo cada vez mais, é que os eleitores estão decidindo (quando decidem) cada vez mais tarde em quem vão votar. Daí os grande números de abstenção, de votos brancos e nulos, cada vez maiores a cada eleição.

             Para eles, os institutos de pesquisa devem ficar limitados a anunciar a tendência eleitoral e não tentar advinhar os resultados da eleição. Márcia, no entanto, afirma que de cada 100 pesquisas eleitorais, 95 apresentam resultados perfeitamente dentro da margem de erro. Nos 5 por cento restantes nós festejamos…

            Agora, dizem eles, é outra eleição. E no segundo turno Kassab vai ver com quantos paus se faz uma canoa.

            Kassab sabe, que é com um só. Não acredito que, com todo o apoio que possa receber, Dona Marta venha a vencer o candidato de José Serra, o grande vencedor.

            Aécio Neves, se aprendeu bem com o tio, já deve estar com as barbas de molho, porque o Serra emplacou até o Gabeira, e fez a eleição em Belo endurecer, contrariando as pesquisas.

            Ora, direis, ouvir pesquisas…