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O Sono e o Julgamento Moral

setembro 25, 2008

            A revista Sleep publicou uma pesquisa do Serviço Médico do Exército americano revelando que a falta de sono pode fazer com que os soldados fiquem incapacitados para tomar decisões repentinas e certas, em situações emocionalmente extremas. A falta de sono foi determinada como sendo duas noites sem dormir ou três mal dormidas.

            Essa pesquisa confirma outra, do Centro Médico de Nottingham com médicos. Sem uma padrão regular de sono, os médicos ficam cada vez menos capacitados para tomarem decisões importantes. E se estiverem sem dormir há duas noites podem cometer erros fatais.

            Já se sabia que pouco sono afeta as funções da concentração e da memória.

            Os especialistas há muito tempo  afirmavam que pessoas diferentes têm diferentes necessidades de sono,  e que essa necessidade podia ir de três horas a oito horas por noite. Agora sabe-se que há caos extremos em que algumas pessoas precisam de 11 horas de sono e outra de apenas quatro períodos de 15 minutos. (Há, inclusive, um exemplo célebre: Napoleão cochilava 15 minutos e estava pronto para cumprir com as suas obrigações, mesmo no campo de batalha. E o mesmo acontecia com o Marechal Rommel.)

            Segundo William Killgore, do Instituto de Pesquisas Walter Reed, do Exército, a falta de sonho não leva a um declínio da moralidade, ou das crenças morais, mas pode prejudicar o julgamento moral. “O que acontece é que as pessoas ensonadas ficam seletivamente mais lentas em suas deliberações a respeito de dilemas morais pessoais e menos capazes de decidir com rapidez e qualidade.”

            Mas, na verdade, privados de sono por 72 horas, muitos soldados mudaram sua visão do que seria moralmente aceitável.

            A Sociedade Britânica para o Sono concorda. E afirma que a falta de sono faz com que as pessoas não reajam normalmente porque têm afetado suas capacidades de julgamento moral. Assim como afirma que quanto menos alguém dorme, pior a situação.

            A quantidade de sono para cada pessoa é determinada por seus genes, de acordo com cientistas da Universidade de Surrey, na Grã-Bretanha. Dizem eles que o gene Period 3 (apelidado de gene do relógio)  é o responsável pelas diferenças. E há duas variantes do Period 3 na população humana, em versão longa ou curta de determinada proteína.

            Os voluntários ficaram acordados em laboratório por 48 horas e depois foram submetidos a testes de atenção, reflexo e desempenho, segundo seu grupo (de gene longo ou curto). Os participantes de gene longo tiveram dificuldade em ficar acordados e os outros “viraram a noite” sem problemas..

            As diferenças nos resultados foram mais pronunciadas no início do dia, entre as 4 da madrugada e oito da manhã. O grupo do gene longo teve o pior desempenho nos testes de atenção e memória. E este é, exatamente, o período em que trabalhadores noturnos têm mais dificuldade de ficar acordados e quando ocorre a maior parte dos acidentes.

Os cientistas observaram ainda que quando os voluntários puderam dormir normalmente, os de gene longo passaram 50% a mais do tempo na forma mais profunda de sono, um sinal de que tinham necessidade de dormir mais.

            Outra descoberta importante é que, repetindo-se a experiência em tempo relativamente curto (uma semana), os pacientes de gene longo ficavam estressados. E que um único episódio de estresse extremo podia ser suficiente para destruir células nervosas do cérebro.

            Os pesquisadores da Universidade Franklin Rosalind, nos Estados Unidos, acreditam que a perda dessas células é uma das causas da depressão.

            A pesquisa foi publicada no Journal of Neuroscience.

            O estresse afeta as células do hipocampo, que é a área do cérebro responsável pelo aprendizado, memória e emoção. O hipocampo é uma das poucas regiões cerebrais que continua a desenvolver células nervosas durante toda a vida.

            O estresse não impediu a produção de novas células (como os cientistas suspeitaram) mas elas tiveram dificuldade em sobreviver, Isto significa que houve uma redução do número de neurônios novos para processar sentimentos e emoções. Uma semana após o teste, apenas um terço das novas células produzidas haviam sobrevivido.

            Vendo pelo lado positivo: os pesquisadores acreditam que o estudo possa ajudar no desenvolvimento de tratamentos para impedir que situações muito estressantes causem problemas de depressão. Como os neurônios não morrem imediatamente após o episódio de estresse, o tratamento imediato poderia impedir a perda de células.

A AVENTURA DO DINHEIRO

setembro 25, 2008

            José era o filho preferido de Jacó. Por isso mesmo seus irmãos queriam se livrar dele. Planejaram matá-lo e chegaram a jogá-lo dentro de um poço seco, em local deserto. Mas a aproximação de uma caravana de mercadores sugeriu a oportunidade de livrarem-se dele ganhando algum dinheiro. José foi vendido como escravo.

            Concluídas as negociações, segundo a Bíblia, receberam 20 moedas de prata e voltaram para casa em Canaã, enquanto o irmão era levado para o Egito.

            A história está contada no Gênesis, o primeiro dos cinco livros do Antigo Testamento. Pode ser verdadeira, mas contém um erro histórico: os irmãos de José não poderiam ter recebido 20 moedas de prata pela venda porque, no início do segundo milênio antes de Cristo ainda não havia moeda na Palestina. Nem em qualquer outro lugar do mundo.

            Os mercadores podem ter pago em jóias de prata, mas nunca em moedas.

            Provavelmente é um erro de tradução e do ponto de vista bíblico a observação é irrelevante, mas para a história do dinheiro é uma heresia.

            Mas foi mesmo no Oriente Médio (culturalmente o lugar mais rico da Antiguidade) que o dinheiro foi inventado. Antes, comprar e vender era uma operação um pouco complicada, porque os metais de valor deviam ser pesados e cada um tinha sua própria balança, com pesos que não eram rigorosamente iguais. Com o metal cunhado, originalmente apenas para indicar seu peso, não havia necessidade de pesar, bastava contar as unidades.

            No romance José e Seus Irmãos, o escritor alemão Thomas Mann conta uma longa negociação de cinco horas, com os vendedores pedindo 30 peças de prata e os compradores oferecendo 15.

            Para os historiadores da moeda, a ficção é mais fiel à História do que a Bíblia, porque o debate se desenvolve em torno de siclos, babilônicas e fenícias.E o siclo era uma medida de peso. Por 400 siclos, por exemplo, Abraão, patriarca dos hebreus, compra o terreno com a gruta que serviu para enterrar Sara, primeiro pedaço de chão dos antepassados de Israel na terra de Canaã.

            De qualquer forma, siclo é medida de peso, não moeda. Muito depois é que passou a ser denominação de moeda (como a libra esterlina também era peso e virou denominação de moeda).

            Essa e outras histórias estão contadas no livro A Aventura do Dinheiro, de Oscar Pilagallo, editado pela Publifolha e que custa menos de 20 reais.

            Aqui no Brasil, no tempo da Colônia, circulava muito pouco dinheiro e quase todo o comércio era de escambo: as pessoas trocavam mercadorias entre si, por falta de moeda.

           

Ora, direis, comer flores!

setembro 23, 2008

          Há mais de cem espécies de flores comestíveis. Uma dieta só de flor não sustentará ninguém, mas elas podem deixar o prato mais colorido, a mesa mais alegre e perfumada. Comecem, por exemplo, com os ipês amarelos, amores-perfeitos e lírios. Uma salada de flores tem vitaminas e não engorda.  O jardim é a mais nova fronteira agrícola num mundo faminto.

            Algumas flores já eram conhecidas e fazem parte da nossa mesa há tempos, só que não eram vistas como flores: a couve-flor, o brócolis, a cambuquira (flor de abóbora). Mas agora alguns restaurantes já oferecem capuchinhos, rosas, begônias, calêndulas, cravinas e verbenas-limão.

            A Athaea officinalis, da família das malváceas, já erra conhecida a séculos dos ingleses. Suas flores cor-de-rosa eram usadas em saladas e, da mucilagem das raízes, faziam doces: marshmallow. Além de servir como alimento também eram muito conhecidas por seu valor laxativo.

            No tempo da rainha Vitória servia-se pétalas de rosa cristalizadas, isto é, cobertas com clara de ovo, um pouco de água e açúcar. Rosas fazem parte das receitas de saladas, geléias e tortas chinesas há milênios.

            Evidentemente, as flores para comer não podem ser compradas em qualquer lugar, porque devem estar livres de agrotóxicos. E é preciso cuidado porque algumas flores são altamente venenosas, como por exemplo a azaléia e o bico-de-papagaio.

            Aqui vai uma lista de algumas flores comestíveis:

            :Agave americana. É uma planta americana e sua florescência demora entre 20 e 30 anos. É cultivada no México desde 1561 e lá suas flores são comidas com tortilhas. Sua seiva, fermentada, dá o pulque, bebida que é destilada para originar a tequila e o mescal.

            Allium schoenoprasum. É a popular cebolinha, chives.

            Aloysia citridora Palau. A verbena-limão. Suas flores são muito usadas para aromatizar vinhos, recheios, aves, conservas e sobremesas, além do seu uso em vários licores franceses.

            Athaea rósea. De origem chinesa, é chamada de rosa-de-Jericó. Suas flores são grandes e as cor pode ser branca, amarela, vermelha ou cor de vinho tinto. É usada em saladas.

            Anthemis tinctoria. A camomila amarela. Dá no sul e centro da Europa e a floração ocorre entre julho e outubro. Faz-se com ela, principalmente, chás e geléias.

            Anthemis graveolens. É o endro, ou aneto, que os ingleses chama de drill. As flores são usadas como tempero de picles ou de pepino em conserva.

            Averroha carambola. Nossa carambola. As flores são usadas em salada. O suco da fruta é bom para beber e para tirar manchas das mãos e das roupas. Foi introduzida no Brasil em Pernambuco, em 1817, pelos portugueses, trazida da Índia, mas sua origem é provavelmente africana. De seu fruto verde também é feito picles.

            Bauhinia purpurea. Suas flores são grandes e a coloração é vermelha ou rósea. Geralmente é comida em saladas ou como acompanhamento de peixe, especialmente do atum.

            Borago officinalis. Popularmente, a borragem ou borrago.. As flores, frescas, têm m tom azula e quando começam a ficar passadas vão ficando rosadas. A origem é o Mediterrâneo e o sabor lembra o pepino. Os antigos acreditavam que comer borrago tinha um efeito mágico sobre o corpo e o espírito, tornando as pessoas alegres e felizes.

            Calendula officinalis. É a calêndula. Suas pétalas são misturadas ao arroz, à sopa, ao peixe, a queijos, iogurtes e nos omeletes, dando cor igual á do açafrão. Também se usa como corante de queijo e manteiga.

            Crocus sativus. É o chamado açafrão verdadeiro, uma planta caríssima porque para ter um quilo precisamos colher o pistilo de 100 mil flores… É usado há séculos em molhos, aves e no arroz.

            Curcubita pepo Duchesne. É a nossa abóbora. Podemos comer suas flores, fritas, empanadas em ovo e farinha, ou recheada de queijo forte. Ou ainda em sopa. A flor é a famosa cambuquira.

            Dianthus cayophyllus. É nossa conhecida cravina. Serve para saladas, tortas de frutas, sanduíches, para aromatizar vinagres, geléias, açúcar e vinho. Quando açucaradas servem para enfeitar bolos. Seu corante é muito usado em confeitaria.

            Hellanthus annuus. O famoso girassol. Os botões são cozidos e servidos como aspargos. As flores vão nas saladas. Era cultivada no norte do México há mais de 3 mil anos e muito considerada.

            Myrtus communis. É a murta e suas pétalas cabem muito bem numa salada de frutas.

            Pelargonium capitatum. Gerânio. Muito usado em saladas.

            Tabebuia impetiginosa. Ipê roxo. Como o ipê rosa, suas flores também são comestíveis. É originário da Mata Atlântica, onde floresce de maio a setembro.

            Tropaealum majus. Capuchinho ou chaguinha. As flores são vistosas, amarelas e vermelhas. Começaram a ser usadas como comida no Oriente. As flores, as folhas e as sementes têm gosto apimentado.

            Viola odorata. A violeta verdadeira (não é a violeta africana, encontrada nas floriculturas). Quando fresca é usada em saladas; cristalizada é usada na decoração de bolos e sorvetes.

            Flores comestíveis não são uma novidade na China, no Japão, na Indonésia, na índia, no Paquistão e seu uso também é antigo em grande parte da Europa e da África.

            O ideal é comprar flores comestíveis com produtores que exibem o selo da Associação de Agricultores Orgânicos (AAO), porque eles produzem sem agrotóxicos, em estufas protegidas e com irrigação adequada e bom cuidado de higiene. Suas flores são transportadas em caminhão refrigerado e em caixas de isopor. Para conservar melhor.

            Um dos melhores pratos com flor é o risoto de prímula, uma flor pouco usada na gastronomia brasileira, mas muito conhecida na Itália porque faz parte do famoso risoto de pétalas de prímula, que originalmente acompanha a tagliata de filet mignon e batata crocante.