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Torcer

agosto 6, 2008

Torcedor é aquele que torce, retorce, entorta, verga (mas não quebra), dobra, inclina, desloca, altera, desvirtua, corrompe, faz mudar o rumo ou de tensão, sujeita ou faz ceder. É aquele que grita e gesticula durante uma partida esportiva, para animar os atletas que têm a camisa igual à sua.

Ao ato ou efeito de torcer chama-se torcida. O mesmo nome que se dá à coletividade de adeptos de um clube, os torcedores.

Nesse campo há três verdades fundamentais:

1.Sem torcedor não há jogo. Uma pelada é uma pelada até que junte uma torcida. Daí em diante é um jogo. Por isso mesmo, jogar com portões fechados é uma burrice dos dirigentes, uma atitude contrária ao próprio espírito do esporte.

2. O torcedor é, antes de tudo, um homem movido pela fé e pela paixão. Fé que pode fazer milagres; e paixão que pode cegar.

3. O torcedor nem sempre tem o time que merece.

A quarta verdade nem sempre funciona: a torcida ganha jogo.

Torcer é desabafar e ficar muito abafado; torcer é preocupar-se despreocupadamente; torcer é desfiar fibra por fibra, lentamente e com violência; torcer é um ser contente, descontente.

]Torcer é ser ridículo, é ser trágico, é ser cômico, é ser tudo ao mesmo tempo e no segundo tempo também. Torcer é ser absolutamente, totalmente, normalmente dramático.

Torcer é ter olhos e ver, é ter boca e gritar, é ter ouvidos e ouvir o urro da torcida quando a bola passa raspando à trave, torcer é sentir, e muito.

Torcer é usar as mãos para ajudar o goleiro da gente a defender;é ter pés para auxiliar o armador no passe perfeito e o atacante a chutar em gol com precisão; é ter cabeça para cabecear, na defesa e no ataque e para pensar na melhor substituição. Torcer é ter rins capazes de esperar o intervalo e aproveitar a hora em que os jogadores vão lá dentro para ir lá fora.

Torcer é ter fígado para filtrar o sangue bom, é ter vesícula, mas é principalmente ter pulmões e coração, unhas e sabugo.

Torcer é ficar de pé no intervalo para (num eufemismo) descansar as pernas. É ficar de pé na hora em que o atacante da gente entra na área. É ficar de pé e pular na hora do gol.

Torcer é ter medo que a bola entre; é ter medo que a bola saia; é ter medo que a bola entre e o juiz não veja; é ter medo que a bola entre só um pouquinho e o danado do juiz veja.

Torcer é vaiar o arbitro antes do jogo começar e chamar o juiz de ladrão.

Torcer é torcer, é distorcer, é contorcer-se ao sol e até debaixo d’água, sacrificar-se para exigir sacrifício, ter raça para exigir jogadores raçudos, ter garra para exigir garra do time. Torcer é morrer, se for preciso (matar nunca).

Torcer é rogar praga, é xingar, é cantar palavrão em coro. (Moça educada não ouve palavrão e quando fala não sabe o que está dizendo…)

Torcer é apostar o ouro.

Torcer é ter a certeza de que sabemos mais de futebol do que o técnico, é pedir a cabeça dele e chama-lo de burro, é carrega-lo em triunfo depois da final.

Torcer é saber mais regra de futebol do que o juiz e o bandeirinha somados, mesmo sem nunca ter lido as regras ou acompanhado as decisões da International Board.

Torcer é gritar para o adversário contundido: Mancou sacrifica e enterra aí mesmo!

Torcer é gritar para o adversário que agarrou um jogador do seu time: Agarrou seu homem leva pra casa!

Torcer é padecer no paraíso e encontrar alegria no inferno.

Torcer é ter coragem para vestir a camisa do clube em quaisquer circunstâncias, levantar a bandeira e sair com ele erguida, orgulhoso, na derrota.

Tornar é ser supersticioso sem acreditar em superstição, ter medo de escrita, acreditar em trabalho e na força do raminho de arruda. É usar sempre a mesma cueca ou a mesma camisa nas vitórias e marcar de perto a camisa da derrota para nunca mais usa-la.

Torcer é ser forte sendo fraco, é fazer da fraqueza força, é uma luta, democrática, pelo direito à liberdade de torcer, ao direito de torcer.

Torcer é fumar sem parar, é estalar os dedos, roer as unhas. É dizer que assim eu não agüento, mas agüentar; é dizer assim não dá mas ficar à espera de um milagre.

Torcer é passar instruções táticas para o time; é pedir bola na ponta; é gritar para o ala ir à linha de fundo.

Torcer é pedir pênalti quando o jogo está duro. E rir amarelo quando pedir mal, justificando: Pedir a gente pede, né? Torcer é pior ainda: é acreditar mesmo que foi pênalti e não acreditar ‘’no que a televisão insiste em mostrar.

Torcer é negar o lance duvidoso contra a gente; é afirmar o lance duvidoso a favor; é ver impedimento sem ter ângulo e negar impedimento do meio do campo.

Torcer é ver má intenção na entrada do zagueiro adversário e dizer que futebol é jogo pra homem na entrada brusca do nosso beque.

Torcer é reclamar quando o juiz não dá vantagem; é reclamar quando o juiz dá vantagem.

Torcer é discutir, até com os amigos, a ferro e fogo. Torcer é gozar o adversário na vitória e não admitir gozação na derrota.

Torcer é rer e descrer no mesmo lance, amar e desamar numa jogada, vaiar e bater palma no mesmo lance.

Torcer é pular como um louco, de alegria, na bola mal chutada mas que entra e que ele classifica como golaço.

Torcer é rir, torcer é chorar, alternadamente ou ao mesmo tempo. Torcer é exaltar e exaltar-se, é exasperar-se com a defesa e com esse ataque de nervos.

Torcer é perder a compostura, a dignidade, a noção de ridículo. Torcer é pular abraçado com uma pessoa que você nunca viu nem sabe quem é.  Torcer é ser democrata, não ser racista, nem fascista.

Torcer é, mesmo ruim de bola, garantir que esse gol até eu fazia. Ou, mesmo sabendo que a mãe da sua mãe não está jogando essa bola toda afirmar que essa, até minha avó agarrava.

Torcer é comprar briga, é separar briga, é gritar para que os brigões se sentem porque você quer ver o jogo.

Torcer é ver o jogo ouvindo radinho, é discordar do comentarista, é garantir que quem comenta a arbitragem já foi um juiz ladrão.

Torcer é torcer.

Torcer é morrer do coração na emoção da vitória e morrer de paixão na emoção da derrota.

Torcer é exigir que, ao morrer, ponham sobre o caixão o manto sagrado, a bandeira do Flamengo.

 

 

 

* Publicado originalmente no número 1 do Urubu!, O jornal da torcida rubro-negra, em março de 1978.

 

 

 

 

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