Os Velhos e o Futuro do Ser Humano

             O corpo humano não foi planejado para ser bípede e, quando teve necessidade de se por de pé para sobreviver, ficou com os problemas de coluna que transmitiu às gerações futuras. Da pré-história para cá é certo que evoluiu, mas ainda não resolveu  esse problema.

            Do ponto de vista anatômico e do funcionamento fisiológico o homem atual é idêntico ao que vivia nas savanas há 50 mil anos. Só que ele era capaz de andar quilômetros todos os dias, coletando frutos, raízes e folhas para comer e ainda tinha disposição para caçar, se quisesse comer carne. Era preciso estar muito atento, o tempo todo, para proteger os filhos e não ser morto por um predador. E, aí está um problema sério, sua expectativa de vida não passava de 40 anos.

            A Teoria da Evolução fez 150 anos, ensinando como as espécies evoluem a partir de mutações aleatórias e da seleção natural; e que é impossível inferir por que caminhos seguirão. Mas há sérias dúvidas a respeito do Homo sapiens, que pode dar origem a uma nova espécie ou ser extinto.

            Segundo Ricardo Campos da Paz, professor de evolução na Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro (Unirio), é preciso entender que a seleção natural tem mais a ver com o sucesso reprodutivo da sua espécie, com a sua capacidade de passar genes à frente, do que com aptidão para a sobrevivência. O importante é sobreviver até reproduzir. Saindo do período reprodutivo não temos mais função para a natureza.

            Hoje, a expectativa de vida ultrapassa muito os 40 anos e o preço por viver quase o dobro é muito elevado. O organismo humano esteve em harmonia com o ambiente por milênios. Mas em pouco tempo (do ponto de vista da evolução) e de forma abrupta, o ambiente mudou radicalmente, não dando tempo para a adaptação biológica a esse mundo criado pelo próprio homem, um mundo sedentário, repleto de alimentos calóricos e no qual a expectativa de vida é de mais de 70 anos. Em resumo: somos os mesmos, em um lugar completamente diferente. O resultado: problemas de hipertensão, entupimento das artérias, diabetes, obesidade, tudo relacionado ao consumo de gorduras e açúcares, ao sedentarismo.

            A longevidade maior trouxe problemas de faixas etárias que o corpo do homem não estava programado para alcançar. Cumprida a função reprodutora, já testemunhamos o nascimento de netos e até de bisnetos. Mas a verdade é que deixamos de ter função evolutiva, do ponto de vista biológico, e viver mais faz aumentar muito a probabilidade de começarmos a conviver com falhas no sistema do nosso corpo.

            Parkinson e Alzheimer, por exemplo, são doenças de velho. Como o câncer da próstata, sempre associados ao aumento da expectativa de vida e a esse descompasso entre ambiente e biologia.

            É possível que, ao longo de milhares de anos, o ser humano evolua de forma a se adaptar, pela seleção natural, a esse novo ambiente. O problema é que o ambiente continua mudando, para pior. Outra esperança é a ciência e tecnologia criados pelo próprio ser humano, que pode encontrar soluções para os problemas da velhice, permitindo a conivência com taxas mais altas de gordura, sal e açúcar na comida.

 

            Para Sérgio Danilo Pena, geneticista da Universidade Federal de Minas Gerais, a evolução biológica é lenta, depende de mutações da genética que são raras, enquanto a evolução cultural é mais rápida, contagiosa, e se transmite tanto verticalmente quanto horizontalmente, graças à velocidade da comunicação.

            Não é que o homem tenha parado de evoluir, mas a evolução natural é hoje quase irrelevante frente aos avanços da medicina, por exemplo, dando sobrevivência a indivíduos que, no passado, morreriam. Em outras palavras: o futuro evolutivo não vai depender da biologia, mas da cultura. Vivemos num mundo que tem pouco de natural. A revolução biomolecular indica, com bastante clareza, a possibilidade da interferência humana a seu favor, abrindo caminho até para a criação de seres humanos mais bem preparados para a sobrevivência.

            Principalmente a partir da Revolução Industrial, alteramos drasticamente o ambiente e essas mudanças não impactaram só a biologia humana, mas a própria vida no planeta, com conseqüências que a evolução humana  talvez não consiga mais controlar. Nem com a evolução cultural.

Franklin Rumjanek, do Departamento de Bioquímica Médica da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) diz que vivemos na crença de que somos o ápice da evolução, o que é uma enorme mentira. Darwin mostrou que somos apenas mais uma espécie. Na escala de tempo do planeta nós acabamos de chegar e talvez nos tornemos, pelo abuso, mais uma das espécies que não deram certo. A humanidade faz parte de uma rede de vida na Terra e não podemos continuar abusando ou vamos determinar nossa própria extinção. (O que, para o planeta, não fará a mínima diferença, uma vez que a espécie humana não tem capacidade suficiente para prejudicá-lo ou para influir no seu futuro.)

Os especialistas reconhecem que na espécie humana há diferentes espécies potenciais. O problema, segundo Cláudia Russo, chefe do Departamento de Genética da UFRJ, é que seriam necessários dois indivíduos, um homem e uma mulher da mesma linhagem, compatíveis entre si e incompatíveis com a linhagem original para dar início a uma nova espécie. E, depois, que esse ser humano, nascido de tal casal,  encontrasse outro como ele para dar seguimento biológico a essa espécie.

Segundo ela, 20% dos casais são incompatíveis do ponto de vista reprodutivo. São férteis, os dois, mas por alguma razão, mas incapazes de procriar juntos. O inverso, portanto, pode acontecer: indivíduos inférteis com o resto da população, mas férteis entre si, por terem ambos a mesma mutação.. Que isso exista, não há dúvida matemática. O problema é que, estatisticamente, essa possibilidade ainda é muito pequena.

 

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