Archive for junho \30\UTC 2008

A Paradinha dos Covardes

junho 30, 2008

     O pênalti já é chamado aqui de penalidade máxima porque nada é tão definitivo como esse castigo que põe o atacante só, sem barreira, diante do goleiro obrigado a defender um espaço que, em teoria,´não é totalmente defensável. Um chute no alto e no canto, não permite defesa.

      Mesmo assim ainda há quem diga que o pênalti é uma loteria, como se convertê-lo em gol fosse uma questão de sorte.Não é; definitivamete, não é. É questão de treinamento, de calma, de cabeça, e, mais ainda, de capacidade técnica.

      Ao goleiro, coitado, cabe a dificílima missão de defender o quase indefensável, embora seja a única situação em que está em vantagem contra o atacante: se a bola entrar, nada demais.Mas se ele defender, torna-se um herói.

      Agora, no entanto, os atacantes encarregados de cobrar o pênalti estão-se revelando, todos, uns covardes. Jánão basta a vantagem que têm sobre os goleiros, ainda correm para a bola, fingem que chutam, dão uma paradinha e, enquanto os goleiros pulam ridiculamente para umlado, têm tempo suficiente para tocar para o outro, sem perigo de errar. Ou com pouquíssima possibilidade de erro, se ele for um mau cobrador. O que acontece,  mas é raro.

      Árbitros de futebol e ex-árbitros travestidos de comentaristas, dizem que a paradinha é legal. E sob os olhos da FIFA e do International Board pode ser, mas é imoral.Álém de ser uma atitude covarde, falta a ela um pingo de fair play ,  de ética e, se é aética é imoral e deveria ser banida. Logo a FIFA que finge se importar tanto com o fair play vai deixar que os contraventores do pênalti saiam comemorando a vitória da safadeza, da malandragem, do desrespeito?

      Goleiros do mundo, uní-vos e exijam providências imediatas para restabelecer a cobrança justa, limpa, sem artifício. Vocês, com um passo à frente, são punidos;os safados, com a paradinha são saudados como artilheiros. Não é justo. Cobranças assim estão desmoralizando o já desmoralizado futebol.

      Ainda bem que, de vez em quando, mesmo com paradinha, o povo se recusa a eleger deputado e o conselho do clube se recusa a eleger presidente a quem passou anos confiando na impunidade e insistindo em jogadas pouco recomedáveis.

 

 

 

Os Velhos e o Futuro do Ser Humano

junho 30, 2008

             O corpo humano não foi planejado para ser bípede e, quando teve necessidade de se por de pé para sobreviver, ficou com os problemas de coluna que transmitiu às gerações futuras. Da pré-história para cá é certo que evoluiu, mas ainda não resolveu  esse problema.

            Do ponto de vista anatômico e do funcionamento fisiológico o homem atual é idêntico ao que vivia nas savanas há 50 mil anos. Só que ele era capaz de andar quilômetros todos os dias, coletando frutos, raízes e folhas para comer e ainda tinha disposição para caçar, se quisesse comer carne. Era preciso estar muito atento, o tempo todo, para proteger os filhos e não ser morto por um predador. E, aí está um problema sério, sua expectativa de vida não passava de 40 anos.

            A Teoria da Evolução fez 150 anos, ensinando como as espécies evoluem a partir de mutações aleatórias e da seleção natural; e que é impossível inferir por que caminhos seguirão. Mas há sérias dúvidas a respeito do Homo sapiens, que pode dar origem a uma nova espécie ou ser extinto.

            Segundo Ricardo Campos da Paz, professor de evolução na Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro (Unirio), é preciso entender que a seleção natural tem mais a ver com o sucesso reprodutivo da sua espécie, com a sua capacidade de passar genes à frente, do que com aptidão para a sobrevivência. O importante é sobreviver até reproduzir. Saindo do período reprodutivo não temos mais função para a natureza.

            Hoje, a expectativa de vida ultrapassa muito os 40 anos e o preço por viver quase o dobro é muito elevado. O organismo humano esteve em harmonia com o ambiente por milênios. Mas em pouco tempo (do ponto de vista da evolução) e de forma abrupta, o ambiente mudou radicalmente, não dando tempo para a adaptação biológica a esse mundo criado pelo próprio homem, um mundo sedentário, repleto de alimentos calóricos e no qual a expectativa de vida é de mais de 70 anos. Em resumo: somos os mesmos, em um lugar completamente diferente. O resultado: problemas de hipertensão, entupimento das artérias, diabetes, obesidade, tudo relacionado ao consumo de gorduras e açúcares, ao sedentarismo.

            A longevidade maior trouxe problemas de faixas etárias que o corpo do homem não estava programado para alcançar. Cumprida a função reprodutora, já testemunhamos o nascimento de netos e até de bisnetos. Mas a verdade é que deixamos de ter função evolutiva, do ponto de vista biológico, e viver mais faz aumentar muito a probabilidade de começarmos a conviver com falhas no sistema do nosso corpo.

            Parkinson e Alzheimer, por exemplo, são doenças de velho. Como o câncer da próstata, sempre associados ao aumento da expectativa de vida e a esse descompasso entre ambiente e biologia.

            É possível que, ao longo de milhares de anos, o ser humano evolua de forma a se adaptar, pela seleção natural, a esse novo ambiente. O problema é que o ambiente continua mudando, para pior. Outra esperança é a ciência e tecnologia criados pelo próprio ser humano, que pode encontrar soluções para os problemas da velhice, permitindo a conivência com taxas mais altas de gordura, sal e açúcar na comida.

 

            Para Sérgio Danilo Pena, geneticista da Universidade Federal de Minas Gerais, a evolução biológica é lenta, depende de mutações da genética que são raras, enquanto a evolução cultural é mais rápida, contagiosa, e se transmite tanto verticalmente quanto horizontalmente, graças à velocidade da comunicação.

            Não é que o homem tenha parado de evoluir, mas a evolução natural é hoje quase irrelevante frente aos avanços da medicina, por exemplo, dando sobrevivência a indivíduos que, no passado, morreriam. Em outras palavras: o futuro evolutivo não vai depender da biologia, mas da cultura. Vivemos num mundo que tem pouco de natural. A revolução biomolecular indica, com bastante clareza, a possibilidade da interferência humana a seu favor, abrindo caminho até para a criação de seres humanos mais bem preparados para a sobrevivência.

            Principalmente a partir da Revolução Industrial, alteramos drasticamente o ambiente e essas mudanças não impactaram só a biologia humana, mas a própria vida no planeta, com conseqüências que a evolução humana  talvez não consiga mais controlar. Nem com a evolução cultural.

Franklin Rumjanek, do Departamento de Bioquímica Médica da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) diz que vivemos na crença de que somos o ápice da evolução, o que é uma enorme mentira. Darwin mostrou que somos apenas mais uma espécie. Na escala de tempo do planeta nós acabamos de chegar e talvez nos tornemos, pelo abuso, mais uma das espécies que não deram certo. A humanidade faz parte de uma rede de vida na Terra e não podemos continuar abusando ou vamos determinar nossa própria extinção. (O que, para o planeta, não fará a mínima diferença, uma vez que a espécie humana não tem capacidade suficiente para prejudicá-lo ou para influir no seu futuro.)

Os especialistas reconhecem que na espécie humana há diferentes espécies potenciais. O problema, segundo Cláudia Russo, chefe do Departamento de Genética da UFRJ, é que seriam necessários dois indivíduos, um homem e uma mulher da mesma linhagem, compatíveis entre si e incompatíveis com a linhagem original para dar início a uma nova espécie. E, depois, que esse ser humano, nascido de tal casal,  encontrasse outro como ele para dar seguimento biológico a essa espécie.

Segundo ela, 20% dos casais são incompatíveis do ponto de vista reprodutivo. São férteis, os dois, mas por alguma razão, mas incapazes de procriar juntos. O inverso, portanto, pode acontecer: indivíduos inférteis com o resto da população, mas férteis entre si, por terem ambos a mesma mutação.. Que isso exista, não há dúvida matemática. O problema é que, estatisticamente, essa possibilidade ainda é muito pequena.

 

Anomia, Desvio e Revolução.

junho 17, 2008

 

            Anomia vem do grego. A significa ausência, falta, inexistência e nomia quem dizer lei, norma. Assim, anomia, etimologicamente, é a falta de lei ou a inexistência de uma norma de conduta. Foi assim que Durkheim usou a palavra pela primeira vez em um estudo (que ficou famoso) sobre a divisão do trabalho social.

            Mas nem todos usam a palavra com o mesmo sentido e Robert Bierstedt identificou três significados diferentes:

1.      desorganização pessoal de um indivíduo desorientado ou fora da lei, com pouca vinculação à estrutura social e às normas das sociedade;

2.      conflito de normas, resultando em situações sociais que dificultam ao indivíduo um comportamento de acordo com as  normas, porque elas são contraditórias;

3.       ausência de norma, situação social que, em seus casos limítrofes há anarquia e desgoverno.

A anomia indica ausência desvio de comportamento, que pode ocorrer por ausência de lei, conflito de normas, falta de governo ou por desorganização pessoal.

Em toda sociedade do mundo, por mais eficientes que sejam as suas normas de conduta e bem estruturadas e aparelhadas as suas instituições jurídicas, há comportamento de desvio. O fenômeno é universal.

Pode variar de intensidade e conforme a sociedade há maior ou menor incidência de comportamentos de desvio, mas o fenômeno sempre existirá.

Muitos sociólogos têm se empenhado em encontrar as causas do comportamento anômico, que ocorre mesmo em sociedades com boas leis, bem elaboradas, adequadas aos interesses sociais e com instituições eficientes e bem estruturadas para manter a ordem jurídica.

Eles distinguem, preliminarmente, causa de fator.

A causa é aquilo que determina a existência de uma coisa, a circunstância sem a qual o fenômeno não existe. É o agente que causa o fenômeno social. Eliminada a causa, o fenômeno desaparece.

O fator não dá causa ao fenômeno, mas concorre para a sua maior ou menor incidência. É a circunstância que concorre para o resultado. Por exemplo: pode-se dizer que a pobreza e a miséria são fatores de incidência da criminalidade. É que, segundo as estatísticas, mais de 90% da população carcerária é constituída de pessoas provenientes das classes sociais menos remuneradas. Mas pobreza e miséria, certamente, não são a causa da conduta delituosa, porque há muitos desvalidos que não delinqüem.

Como se pode dizer que a ignorância e o analfabetismo são fatores de criminalidade, porque na mesma população presidiária cerca de 85% das pessoas têm,  no máximo, educação primária. No entanto, há milhões de analfabetos que não andam nos caminhos do crime.

Umas coisas sabem os especialistas: não adianta eliminar os fatores, que são muitos, sem eliminar as causas.

 

Especialista é aquele indivíduo que sabe cada vez mais sobre cada vez menos. E á media que o indivíduo aprofunda os seus conhecimentos, diminui-lhe a extensão ou amplitude e isso se tornou uma necessidade, uma exigência, pela vastidão do saber atual.

Há muito foi-se o tempo em que era possível saber de tudo. Hoje, o saber humano é dividido em várias áreas ou ciências e em cada uma delas há inúmeras especialidades.

O mesmo ocorre com a atividade humana, há cada vez mais diferentes profissões e em cada uma delas inúmeras especializações.

A coisa chegou a um ponto que (e é verdade), um homem estava agarrado a um poste, na Travessa do Ouvidor, no Rio, com expressão de muita dor. Um amigo, passando, perguntou o que estava havendo. Ele, gemendo, disse que estava com uma dor escruciante no testículo esquerdo.

O amigo, solícito, disse-lhe que, felizmente, ali mesmo, no prédio em frente, estava um grande urologista, dos maiores especialistas brasileiros. No quarto andar.

O homem largou o poste e, com muita dificuldade, entrou no prédio, abriu a porta  de grades do elevador e apertou o botão do quarto andar. Quando o elevador parou no terceiro andar ele, sem perceber o engano, desceu e dirigiu-se para a sala defronte, seguindo as instruções do amigo.

Entrou, dirigiu-se à mesa no fundo, coberta de papéis, e disse ao cavalheiro que o cumprimentou:

_ Doutor, eu estou com uma dor escruciante no meu testículo esquerdo.

O senhor olhou espantado para ele e respondeu:

_ Desculpe, amigo, mas não posso fazer nada pelo senhor. Eu sou especialista em direito.

Entendendo mal, nosso amigo desesperou-se:

_ Vá ser especializado assim …

E o palavrão completou seu pensamento.

 

O médico generalista está desaparecendo, substituído por um especialista em diagnóstico. Cada vez mais, por uma contingência social, é preciso saber fazer muito bem alguma coisa para poder competir no mercado de trabalho.

A especialização, no entanto, limita a visão social do indivíduo, fazendo-o perder a visão global ou de conjunto da atividade social. Com essa perda de visão da obra comum e do seu sentido, ocorre também o enfraquecimento do sentimento de solidariedade global. O indivíduo se isola dentro do grupo e se junta a outros indivíduos de sua especialidade, formando grupos menores, às vezes até com interesses rivais aos interesses do seu próprio grupo geral.

Isso é até comum nas sociedades superdesenvolvidas e as pessoas que vão a esses países em visita queixam-se da frieza, da falta de calor humano e de solidariedade que encontram por lá.

Aqui, nem precisa ser sociólogo para perceber a diferença entre o comportamento no interior e na cidade grande. Na cidadezinha do interior todos se conhecem, se cumprimentam, se preocupam, estão dispostos a servir. Há calor humano, solidariedade. Na cidade grande ninguém sabe de ninguém e cada qual corre atrás de seus próprios interesses. Somos capazes de morar anos no mesmo prédio sem reconhecer a maioria dos vizinhos. Pior ainda: a maioria faz questão de não conhecer, de não se dar.

 

Em 1938, Robert  K. Merton, um sociólogo americano, escreveu um artigo de apenas 10 páginas que ficou famoso por estabelecer os fundamentos de uma teoria geral da anomia. (O artigo, mais tarde, foi transformado em sua obra clássica Teoria e Estrutura Sociais.)

Ele afirmou que em todas as sociedades existem metas culturais a serem alcançadas, valores sócio-culturais indispensáveis para o indivíduo ser feliz. Para atingir essas metas existem os meios, recursos institucionalizados pela sociedade e normas de comportamento.

Só que os meios não são suficientes nem estão ao alcance de todos, o que resulta num desequilíbrio entre os meios e os objetivos a serem atingidos. Todos são estimulados, com insistência, a alcançar as metas sociais, mas poucos conseguem ter a seu dispor os meios.

Sucesso na vida é a meta mais importante da sociedade de consumo; e a publicidade vende o sucesso como sinônimo de felicidade.O que quer dizer que quem não consegue sucesso é infeliz. Sucesso é ter dinheiro, prestígio, poder e popularidade. Mas poucos chegam lá porque os meios estão concentrados nas mãos de uns pouco na sociedade. Disso resulta um desajustamento, um descompasso entre meios e metas, provocando comportamentos de desvio pessoal e até em grupo, porque o indivíduo que não dispõe de meios para alcançar as metas buscam outros meios para ter sucesso, mesmo que eles sejam contrários aos interesses sociais.

Merton identificou na sociedade vários comportamentos:

1.      o conformista

2.      o inovacionista

3.      o ritualista

4.      o evasor

5.      e o rebelde.

O conformista busca atingir as metas sociais através dos meios institucionalizados. Estão de acordo com as metas sociais e os meios, respeitando as normas da sociedade.É a conduta da maioria, principalmente dos estudantes.

O inovacionista está de acordo com as metas sociais, mas percebendo que os meios são insuficientes e não estão ao seu alcance, busca realizar as metas através de outros meios. De um modo geral afirmam que os fins justificam os meios, ainda que não sejam socialmente aprovados. Muitos procuram vencer na vida sem fazer força.

O ritualista é o inverso do inovacionista. Percebendo que as metas sociais são muito elevadas e os meios existentes insuficientes para atingi-las, abdica das metas, apegando-se aos meios de tal modo que os transforma em fins. É uma inversão de valores. As normas do comportamento social são cumpridas a todo preço e em qualquer circunstância, porque encontram nelas uma forma de realização pessoal, mesmo que estejam vazias de sentido, significado ou interesse social. (è o caso de pessoas que se gabam de estar há 40 anos na mesma repartição, no mesmo serviço, nunca havendo faltado ou atrasado. Mas sua colaboração efetiva é praticamente nenhuma e ele nunca registrou qualquer progresso funcional ou sucesso. O ritualista abandona as metas, perde de vista os fins, os objetivos, os valores sociais, acomoda-se, se apega às regras como se fossem sagradas, imutáveis, transformadas em fins.

O evasor é aquele que abandona as metas e os meios sociais. Percebendo que as metas sociais são muito elevadas e os meios escassos, foge da sociedade, renunciando a tudo o que ela oferece ou determina. São pessoas que estão na sociedade mas não são dela, vivem no meio social mas não aderem a ele. Exemplo claro: os hippies, que consideram todos os valores sociais irrelevantes ou incapazes de realizar o bem-estar social. São pessoas com baixas expectativas.

O rebelde também está contra as metas e os meios sociais, julgando-as excessivamente altas e insuficientes. Propões novas metas com a institucionalização de novos meios. Seu propósito é derrubar os meios e metas, estabelecendo novos parâmetros mais simples e alcançáveis, e  novos meios, mais abundantes e melhor distribuídos na sociedade. O objetivo do rebelde é, em síntese, uma nova estrutura social. Em tese, é a situação dos sem-terra.

O conformista não tem comportamento de desvio, evidentemente e é o tipo citado como exemplo social.

Todos os outros são desviados, de um modo ou de outro, contrários aos padrões de metas culturais e meios institucionalizados para atingi-las.

O ritualista é grandemente prejudicial à sociedade quando se trata de homem público, seja ele do executivo ou do legislativo, porque eles se recusa a participar ou promover mudanças ou reformas sociais necessárias, mantendo as velhas e arcaicas instituições ou disposições legislativas que já não são adequadas à novas realidades sociais.

Os evasores são um peso-morto na sociedade.

O rebelde é o mais extremado, o mais radical, porque quer derrubar tudo e não vê impedimento às suas manobras para substituir meios e metas sociais de maneira total. É um revolucionário que não quer aperfeiçoar instrumentos ou instituições:             quer acabar com eles e substituí-los por seus próprios. Normalmente ele se manifesta nos momentos de grandes crises sociais, quando o desequilíbrio entre metas e meios se torna maior e insustentável. Foi assim na França, na Rússia, em Cuba; como é assim com os sem-terra, os sem teto e outros radicais.

O inovacionista é o comportamento de desvio mais freqüente na sociedade. A própria sociedade concorre para isso ao deixar de proporcionar, com a mesma generalidade com que estabelece as metas, os instrumentos prescritos (ou admitidos) para atingi-las. Assim, cria condições específicas para estimular o abandono ou a burla das normas socialmente fixadas para se atingir as metas culturalmente estabelecidas. As normas são abandonadas ou contornadas, num esforço do indivíduo para superar os obstáculos institucionais ou instrumentais, e atingir os alvos culturalmente estipulados por todo o sistema, através de meios não-convencionais.

Nesse desvio de comportamento estão retratadas todas as formas de delinqüência, da juvenil à mais grave criminalidade, as faltas disciplinares e a inobservância das regras de conduta social.

Só há um aspecto positivo no comportamento inovacionista: quando ele cria novos meios, mais eficientes, para realizar os objetivos sociais. Sem o espírito inovacionista nós não teríamos a luz elétrica, o motor a explosão e milhões de criações e invenções que se traduzem em desenvolvimento científico.

Quer dizer que nem todo comportamento inovacionista é necessariamente contrário à ética do grupo social. A conduta inovadora-criadora é bem distinta da inovadora-anti-social.

O tema da anomia não se esgota com as teorias disponíveis, porque ela tem muitas causas. O desequilíbrio entre metas e meios sociais é a causa principal da anomia, provocando uma reação em cadeia que acaba provocando comportamentos anômicos de diferentes gravidades.

Por exemplo: no caso da violência urbana no Brasil, o Estado não se fez nem se faz suficientemente presente nas áreas favelizadas. Isso permite que marginais ocupem o espaço vago e o surgimento do crime organizado, forma mais grave de comportamento anômico. O verdadeiro poder paralelo que assim se instaurou passou a impor suas próprias regras, gerando dúvida na população (conflito de normas): que regra deve ser seguida, a das autoridades ausentes ou a dos marginais sempre presentes?

Os líderes comunitários são obrigados a aceitar as regras do poder paralelo para não serem mortos ou obrigados a sair da comunidade. Com isso, aos poucos, os valores são invertidos, perdem-se as referências, mudam os paradigmas. Os jovens, seduzidos pelo ganho fácil e pelas manifestações exteriores de poder, vivem uma ilusão à qual dificilmente resistem. Viciados, armados, despreparados para o exercício do poder, aterrorizam a população e vão para o confronto com a polícia. Os seus ícones são as grifes famosas, as siglas das facções e as armas.

Se essa é a realidade social, o que fazer para modificá-la?

A situação exige soluções de curto, médio e longo prazos. Presenças do governo e das autoridades nas comunidades, com serviço suficiente para cobrir suas necessidades e carências. Reconquista da autoridade perdida pela polícia e da confiança da população. Políticas públicas voltadas para a maioria e com resultados absolutamente visíveis e mensuráveis. Promover as mudanças sociais possíveis e necessárias nas leis, nas instituições, nas leis, na ordem econômica, na distribuição de renda, na redução das desigualdades, eliminar a exclusão social, melhorar a qualidade da educação, oferecer possibilidade de planejamento familiar para todos, promover ações afirmativas. Em resumo: diminuir sensivelmente o desequilíbrio entre as metas e os meios sociais. E, idealmente, fazer desaparecer a sociedade consumista e desperdiçadora, com as suas metas equivocadas.

Por isso mesmo a inovação deve ser uma das principais qualidades dos homens públicos que têm nas mãos o destino da sociedade. Um espírito inovador-criador (e não ritualista), para realizar as reformas sociais necessárias, principalmente nas instituições e nas leis capazes de tornar as metas mais acessíveis e os meios melhor distribuídos, ao alcance da maioria.

Quando isto não é feito, mais cedo ou mais tarde vem a revolta, a rebelião, a revolução, porque o desequilíbrio se torna tão grande que a sociedade, na sua maioria, não encontra outra solução a não ser a de promover umas reorganização total, estabelecendo novas metas e institucionalizando novos meios.

Tatuagem e Piercing

junho 13, 2008

            Duas das formas de modificar o corpo, as mais usadas, são a tatuagem e o peircing.

 

            A tatuagem é, das formas de modificação do corpo, talvez a mais conhecida do mundo e a mais antiga. Tatuar é a arte de pigmentar a pele com a aplicação subcutânea feita através de agulhas com tinta. Durante muitos séculos a tatuagem era irreversível e a tentativa de remoção deixava cicatrizes, marcas e variações da cor da pele,

            Há provas arqueológicas de tatuagens egípcias de 400 mil anos antes de Cristo. E tatuagens coloridas anteriores a 2000 antes da era cristã. A tatuagem cerimonial também era comum na Polinésia, nas Filipinas, na Indonésia e na Nova Zelândia, onde os maoris são considerados os maiores tatuadores de largas áreas (freqüentemente o corpo inteiro),

            Na Idade Média a Igreja Católica baniu a tatuagem, afirmando que ela era um desrespeito à criação do Senhor (o corpo humano). No ano 787 foi expressamente proibida pelo Papa com o argumento de que era “coisa do demônio”. A Igreja, assim, pretendia mudar antigas culturas e costumes, em favor da sua doutrina.

            Isso gerou um preconceito e qualquer cicatriz, má formação ou desenho na pele era visto como marca do demôno”.

            No século 18 a tatuagem tornou-se bastante popular entre marinheiros, especialmente os que viajavam para os Mares do Sul.

            A palavra tatuagem vem do francês tatouage e do inglês tatoo, cuja origem é o taitiano tatau, uma onomatopia do barulho dos martelos de madeira batendo as espinhas de peixe. Todos os povos do Oceano Pacífico, na região dos mares do Sul, praticavam a tatuagem.

            O pai da palavra tatoo seria o capitão James Cook (também divulgador do surf), que escreveu em seu diário a palavra tattow como sendo o som da tatuagem.

Marinheiros ingleses, principalmente, foram os que divulgaram a tatuagem pelo mundo. Mas, quando o Reino Unido adotou a tatuagem como forma de identificação de criminosos em 1879, a partir daí a tatuagem ganhou  má fama e a conotação de fora-da-lei no Ocidente.

Mesmo assim, a tatuagem continuou sendo feita, principalmente q   uando Samuel O’Reilly desenvolveu um aparelho elétrico para fazer tatuagem.

Durante a Segunda Grande Guerra a tatuagem ficou muito popular entre soldados e marinheiros que mandavam gravar o nome da pessoa amada… Mas os nazistas também usaram tatuar o número de registro no braços das vítimas enviadas aos campos de concentração: judeus, ciganos e homossexuais.

No Brasil a tatuagem elétrica só chegou nos anos 60, em Santos, onde foi introduzida pelo dinamarquês Knud Harold Likke Gregersen (Lucky Tatoo). Só que a sua loja era na zona de prostituição do porto, o que deu má imagem para as tatuagens.

A tatuagem, fora da Polinésia, sempre foi marcada por preconceito e discriminação, mas nos últimos anos chegou aos moços, principalmente as moças.

 

Outra forma de modificar o corpo humano é furar o corpo para introduzir peças de metal esterilizado.

Os papuas da Nova Guiné usam piercing principalmente no nariz e as decorações corporais servem para dar às pessoas as virtudes do animal de que provêm esses adornos.

Nossos kayapós perfuram as orelhas dos recém-nascidos e o lábio de baixo dos meninos pequenos. O chefe kaiapó tem a prerrogativa de ostentar um adorno labial de quartzo nas cerimônias.

Para os esquimós do Alasca, o piercing no lábio e na língua marcam o momento da transição da criança para caçador.

Na Índia é comum que as mulheres furem o nariz, o septo nasal e as orelhas e a ala do nariz (onde a prática é reservada às castas mais altas, para a colocação de um brilhante).

O septo nasal perfurado é originário da Nova Guiné,

Na época dos faraós o piercing no umbigo era exclusivo da família real.

Os maias e os astecas perfuraravam lábios, nariz e orelhas.

Há diversos materiais para o piercing. O que se diz é que o material mais  indicado é o aço cirúrgico, mas não é verdade: o material que provoca menos reação e alergia é o titânio, ou o teflon. Não é recomendável o uso de ouro, por ser altamente alergênico.

Quem faz piercing não deve entrar no mar enquanto a cicatrização não estiver completa. Nem colocar álcool no local, água oxigenada, mertiolato e mercúrio. Os piercings devem ser lavados com água e sal ou sabonete anti-séptico.

O tempo de cicatrização varia de dois meses (lábio, bochecha braço, até um ano (cartilagem da orelha), variando de 8 semanas (pênis) a 8 meses (sobrancelha). Consulte sempre o especialista.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Pornografia e Erotismo

junho 3, 2008

            A diferença entre pornografia e erotismo é questão de princípio. E no princípio pornographos, em grego, queria dizer, literalmente, “escritos sobre prostitutas”. Á o erotismo é uma palavra moderna, do século 19, e é um adjetivo derivado de Eros, deus do amor e do sentido sexual no sentido mais antigo .

            É difícil, senão impossível, traçar os limites claros, mas podemos ficar com a definição do escritor francês Robbe-Grillet: “Pornografia é o erotismo dos outros”.

            De qualquer modo, seja um ou outro, a característica essencial do discurso, seja na pornografia ou no erotismo, é o sexo, a sexualidade e é de se supor   que ambas pretendam excitar o apetite ou a paixão sexual do consumidor.

            Há, no entanto, uma sutileza, quando introduzimos o conceito de obscenidade..

            Segundo o Aurélio, obsceno é 1. o que fere o pudor,, impuro, desonesto; 2. diz-se de quem profere ou escreve obscenidades, isto é, aquilo que se mostra em frente à cena (de ob, em frente e sceno, em cena).

            Já Havelock Ellis, médico inglês do século passado e pioneiro da sexologia, sugere que a palavra é uma corruptela de scena e que seu significado literal seria fora de cena. Em outras palavras, dizer uma obscenidade é colocar em cena alguma coisa que deveria estar escondida.

            Há algum consenso quando afirmamos que  o que distingue o erotismo da pornografia  é que o pornógrafo é, por excelência,  o discurso veiculador do obsceno, mostrando aquilo que não deveria ser revelado, permanecendo escondido. Pornografia, na definição de Pitigrili, é “a exibição do indesejável”, do “sexo fora do lugar”, “daquilo que não devia ser, mas é”, o “escândalo do sexo”.

            Cassandra Rios, ela mesma uma pornógrafa, dizia que não se pode definir erotismo e pornografia através de critérios morais, mas reconhecia que o erotismo pressupõe uma qualidade artística refinada, gráfica ou literária.

            Para complicar, se tivermos visão histórica vamos ver que muito do que já foi classificado como pornografia, perseguido e proibido, hoje não é mais. O que certamente quer dizer que o tempo, a etnia, a cultura, e algum subjetivismo

contribuem para classificar alguma obra como pornográfica ou não.

            Em 1857 o promotor Ernest Pinard acusou Gustave Flaubert de imoral e queria vê-lo preso por escrever e publicar Madame Bovary. No mesmo ano o moralista promotor cuidou de denunciar Baudelaire por As Flores do Mal, conseguindo condená-lo. O autor foi multado por atentar contra a moral e os bons costumes e o juiz considerou-se apto a censurar alguns versos e cortar, na íntegra, seis poemas. (A rigorosa sentença só foi reformada em 1949 quando, finalmente, depois de quase 100 anos foi possível ler na íntegra o famoso livro As Flores do Mal.)

James Joyce não conseguiu ser publicado na Inglaterra e nos Estados Unidos, depois de publicar Ulisses na França em 1922. Seus livros eram contrabandeados até 1933, quando a sentença do juiz Woolsey, de Nova York, reconhece na obra “um comentário, antes muito trágico e rigoroso, acerca das vidas íntimas de homens e mulheres”, recusando a acusação de imoralidade.

A Terra, de Emile Zola,, foi censurado em 1888 na Inglaterra e o motivo da proibição foi uma passagem em que uma jovem leiteira leva uma vaca para ser fecundada por um touro.

Num processo célebre, nos Estados Unidos, o autor Marcus Gordon, autor de um desimportante livro intitulado Variações, ao ser acusado de escrever pornografia leu no tribunal os capítulo 16 e 23 do Livro de Ezequiel:

            “Passando junto de ti, verifiquei que já havia chegado o teu tempo, o tempo dos amores. Estendi sobre ti o pano do meu manto, cobri tua nudez; depois fiz contigo uma aliança ligando-me a ti pelo juramento – oráculo do Senhor Javé – e tu me pertenceste.

            “Então eu te mergulhei na água para limpar o sangue de que estavas coberta, e te ungi com óleo. Eu te vesti de tecidos bordados, calcei-te com sapatos de pele de golfinho, cingi-te com um cinto de fino linho e um véu de seda. ornei-te de adornos: braceletes nos teus pulsos, colares em teu pescoço, um anel para o teu nariz, brincos para tuas orelhas, uma coroa magnífica para tua cabeça. Teus ornatos eram de ouro, prata, com vestimentas de linho fino, de seda e panos bordados; teu alimento era trigo, mel e óleo. Cada vez mais bela, chegaste à dignidade real.

            “A reputação da tua beleza correu entre as nações, pois essa beleza era perfeita, graças ao esplendor que te havia eu preparado – oráculo do Senhor Javé.

            Tu, porém, te fiaste na beleza, aproveitaste da tua fama para te prostituíres e ofereceste a tua sensualidade a todo transeunte, a quem te entregaste.            Tomaste tuas vestimentas para delas fazeres lugares altos para ti, ornados de panos de variegadas cores, e te deste à depravação, o que jamais deveria ter sucedido, e que te não sucederá jamais.

            “Tomaste as esplêndidas jóias feitas com o meu ouro e minha prata, jóias que eu te havia doado, e fabricaste com elas imagens humanas, com que te prostituíste, cobriste-as com as tuas próprias vestes bordadas, e lhes ofereceste o meu óleo e os meus aromas. O pão que eu te havia dado, a flor da farinha, o óleo e o mel com que te nutrias, deste-os em oferenda de agradável odor. Eis o que tens feito – oráculo do Senhor Javé.

            “Depois tomastes os teus filhos e tuas filhas, que para mim deste à luz, e os ofereceste a eles para sua nutrição. Por acaso são poucas as tuas prostituições?

            “Degolaste os meus filhos e os fizeste passar pelo fogo em sua honra. Em meio a todas essas depravações abomináveis, não te lembraste do tempo de tua juventude, quando estavas toda nua e te rolavas em teu sangue. Para cúmulo de todas essas maldades – Ai! Ai de ti! Oráculo do Senhor -, edificaste uma colina, um lugar alto em todas as encruzilhadas. À entrada de cada rua erigiste um lugar alto, e desonraste a tua beleza, dando teu corpo a todos os que vinham, multiplicando as tuas depravações. Tu te prostituíste com os egípcios, teus vizinhos de corpos vigorosos, e multiplicaste as prostituições para me irritar.

            “Mas eu estendi a mão contra ti; reduzi a tua porção, deixei-te à mercê das tuas inimigas, as filhas dos filisteus, envergonhadas elas próprias do teu infame proceder. Tu te prostituíste também com os assírios, porque não estavas satisfeita, e ainda assim não te deste por saciada; multiplicaste as tuas depravações no país dos mercadores, entre os caldeus, sem que, contudo, te tenhas fartado.

            “Como é frouxo o teu coração – oráculo do Senhor Javé -, para teres tido ali o comportamento de uma prostituta, por teres construído um montículo em todas as encruzilhadas, e um lugar alto à entrada de todas as ruas, sem mesmo procurar um salário como meretriz. Tens sido mulher adúltera que acolhe os estranhos em lugar do esposo.

            A todas as prostitutas se dão presentes, mas tu fizeste brindes a todos os teus amantes, procedeste com largueza para que de todos os lados viessem prostituir-se contigo. Tens sido o avesso das outras mulheres em tuas depravações: não te procuravam; eras tu que pagavas ao invés de receber, fazendo tudo ao contrário do que fazem as outras.”

            E assim leu todo o capítulo e mais o de número 23, para provar que o que escrevia não era mais ofensivo à moral que a linguagem da Bíblia. Foi absolvido, mas, ao sair à rua, foi agredido e quase morto, por um grupo enfurecido de jovens evangélicos.

            Só para dar uma idéia do ridículo da censura, em 1898 a Alfândega inglesa apreendeu e destruiu toda a edição de  A Violação de Nossas Costas, antes de descobrir que se tratava de uma tratado técnico sobre erosão do solo…

 

            A maior parte do prazer, hoje em dia, é solitário, movido a pilha, bateria ou está na Internet. A pornografia deve ser inscrita, merecidamente, entre os prazeres proporcionados pela diversão. Mas o prazer que proporciona é rápido, passageiro e exige sempre mais e vicia.

            Uma mulher nua, esculpida em calcário e medindo apenas 11 centímetros de altura, representando uma mulher gorda, com grandes mamas, barriga saliente, cadeiruda, coxas grossas, com o sexo claramente indicado inclusive  os labios minora é a Vênus de Willendorf, tem 20 mil anos de idade e

É testemunha de que, na |Idade da Pedra, já havia artistas pornográficos.

            Tudo leva a crer que, antigamente, as pessoas aceitassem com mais naturalidade textos claramente pornográficos, embora não escritos com essa intenção. Judeus e cristãos não admitem como pornográficas muitas passagens da Bíblia.

            Em 1877, na Inglaterra, Annie Besant, acusada e julgada por publicar uma obra obscena (na verdade um folheto sobre controle da natalidade), preparou para o juiz uma lista com 150 textos do Antigo Testamento e seis do Novo com a questão: Será a Bíblia Condenável?

            O Antigo Testamento tem, na verdade, várias descrições de prostituição, isto é, de pornografia. Tamar, fazendo-se passar por prostituta, seduz o sogro, Judá, para vingar-se do marido, Er. E há a sugestão de que ele fosse homossexual.

            Rahab, prostituta de Jericó, usa suas habilidades sexuais  para salvar toda a família do exército de Josué.

            O famoso rei Salomão fica ainda mais famoso por julgar uma questão de duas prostitutas que reclamavam um filho, que ele sugeriu cortar ao meio para que cada uma ficasse com uma metade.

            Nem é preciso procurar muito porque há de tudo, inclusive incesto, com as filhas embebedando o velho pai para poderem tê-lo sexualmente.

            Na Grécia clássica é abundantíssima a pornografia, no sentido original. As cortesãs gregas foram as musas de Diógenes, Aristipo e Diógenes, por exemplo. Frinéia, a prostituta, foi o modelo da estátua que Praxíteles esculpiu em ouro para o templo de Apolo, em Delfos. Outra prostituta, Laís, era tão linda que todos os pintores da Grécia cuidavam de procurá-la  para copiar seus seios.

            A comédia Lisístrata tem um tema abertamente sexual. A tal ponto que foi censurada, proibida por censores americanos, 2.450 anos depois de escrita por Aristófanes. Lisístrata era uma dama de Atenas que propôs às mulheres atenienses uma greve total de sexo, até que os maridos concordassem em fazer a paz..

            Édipo Rei e Eletra, de Sófocles, têm o mesmo tema: incesto, mas na Grécia antiga havia toda uma atitude de liberdade em relação á sexualidade e aos jogos sexuais, o que se reflete, principalmente, nas esculturas com as cenas mais variadas de jogos sexuais.

As estatuas do deus Príapo, em forma de falos, eram comuns nas ruas e nas casas e as virgens, na véspera da noite do casamento, ofereciam a virgindade ao deus como forma de devoção. E os sapateiros faziam imitações do pênis, em couro, vendidos às damas para seu prazer solitário ou compartilhado com outra dama.

Os pratos de terracota dessa época são decorados com cenas de jogos sexuais e, a julgar pela maioria absoluta das ilustrações, há uma clara preferência pelo coito anal, seja com mulher seja com homem.

Já os vasos têm como motivo mais freqüente o amor entre as mulheres e o uso dos olisbos, o tal “consolo das mulheres”, de couro.

A homossexualidade masculina foi muito comum entre os gregos. No Banquete, Platão afirma que essa é uma forma elevada de amor. Os dramaturgos Ésquilo e Sófocles eram praticantes entusiasmados da paiderasteia, o amor de um homem mais velho por um adolescente.

Há mais de 18 séculos um obscuro estudioso do sexo  escreveu um minucioso estudo (kama) sobre a arte do amor. Ele copilou e condensou  textos de autores antigos que, segundo a tradição, haviam recebido as informações dos próprios deuses. Vatsayana talvez nem suspeitasse que seu Kama Sutra, Aforismos Sobra o Amor, viesse a ser um dos maiores clássicos da literatura erótica mundial.

Outro clássico é a Ars Amatoria, que Ovídio escreveu em Roma no século I. a Arte de Amar é a primeira grande obra erótica que vem do Império Romano e Boccaccio considerava “uma obra essencial, um sábio manual” que deveria ser posto na mão de todos os jovens e as jovens, por motivos pedagógicos. Segundo ele, o homem que não conseguia dar prazer à mulher era indigno da sua masculinidade. E a mulher que não se excitava o suficiente para ter prazer sexual era desprezível.

O sexo entre os romanos não é tão refinado quanto aquele dos gregos. Há sempre um elemento grosseiro, de brutalidade sexual e sadismo, cujo maior modelo é Calígula.

O Império Romano tem um mórbido prazer na flagelação. Basta ler a Sátira, de Juvenal, ou O Satyricon de Petrônio, reputado como o maior clássico da pornografia romana na antiguidade.

 

O cristianismo foi o grande responsável pela divulgação da noção de que o sexo é uma atividade pecaminosa, se não for feito com propósito de reprodução. Os primeiros cristãos tinham verdadeira obsessão que, certamente, perseguia-os nas longas e solitárias meditações sobre a virtude e a castidade.

Para dominar as tentações e os prazeres da carne a Igreja Católica não hesitou em empregar métodos extremos. O mais popular foi a mortificação da carne, cujo instrumento predileto foi a vara. Ermitãos, anacoretas, monges e religiosas se autoflagelavam com grande freqüência, “para castigar o diabo que traziam no corpo”.

As carmelitas eram particularmente afeitas a esses castigos: Santa Tereza tinha o hábito de açoitar-se diariamente, e às suas monjas. Santa Maria Madalena deixava-se açoitar com as mãos amarradas e em presença de todas as irmãs. Além de rolar num chão coberto de espinhos e golpear-se com correntes.

Nos primeiros dias os castigos físicos visavam as costas e os ombros dos penitentes. Mas  na Idade Média a preferência migrou para as partes baixas do corpo, o que resultou em aumento do prazer para os castigados e para os castigadores.

A exaltação da castidade chegou a tais extremos que os que pretendiam ser mais virtuosos mantinham a castidade até mesmo no casamento, como em muitos relatos medievais com cavalheiros de alma puras e virgens angelicais.

Mas, no fim da Idade Média, os ideais de virtude e de castidade tinham de ser assegurados por cintos de castidade, porque a rígida moral cristã estava em plena decadência. Tanto que a época é conhecida pelo número extraordinários de estupros

É nesse contexto que nasce a pornografia moderna.

 

Em 1371 Giovanni Boccaccio publica o Decameron, um dos primeiros livros impressos de que se tem registro. O pano de fundo é a peste que se instalou em Florença e que o autor relata no primeiro capítulo de seu livro. Para fugir ao contágio, sete mulheres e três homens de famílias ricas se mudam para uma villa, onde passam o tempo contando histórias uns aos outros. Cem relatos são narrados em dez dias, daí o título.

São histórias de sedução de mulheres casadas por seus amantes e das aventuras de maridos infiéis. Mas a presa principal de Boccaccio é a igreja, seus padres e bispos, a quem ele faz jocosas e impiedosas críticas, envolvendo-os nas intrigas amorosas.

Considerado lascivo e herege, o Decameron foi eclesiasticamente proibido em 1559, pelo Papa Paulo Iv, e condenado pela Inquisição a figurar no Index Librorum Prohibitorum. Mais de 500 anos depois da sua publicação foi proibido em toda a Grã Bretanha e nos Estados Unidos. Os americanos da Organização Nacional de Literatura Decente mantêm o Decameron como livro maldito, até hoje.

Em 1373, poucos anos antes da morte de Boccaccio, chegou a Florença o poeta inglês Geoffrey Chaucer, em missão diplomática. Influenciado pelo mestre escreveu o imortal Os Contos de Canterbury, narrando com humor essencialmente erótico, em verso, as estórias de um grupo de peregrinos que se reúne durante uma viagem e resolve passar o tempo contando casos eróticos, a maior parte deles sobre infidelidades.

Na mesma linha de Boccaccio há outro clássico, um dos poucos exemplos de literatura erótica feminina, o Heptameron, de Marguerite de Valois, mulher do rei Henrique IV, de Navarra. O livro só foi impresso depois da sua morte, em 1558 e nunca foi terminada: contém 72 histórias breves, contadas por um aristocrático grupo de damas e cavaleiros que procuram uma abadia como refúgio a uma enchente e lá ficam sete dias. Muitos desses relatos referem-se à luxúria incontida de religiosos e a sedução de monjas.

Independentemente da literatura pornográfica, a Rainha de Navarra ficou famosa como contista, figurando na maior parte das antologias do gênero.

Outro notável escritor pornográfico, sob as luzes do Renascimento, foi o italiano Aretino. Tendo sido um favorito do Papa, foi obrigado a refugiar-se em Veneza, em desgraça, por causa de 16 sonetos pornográficos que escreveu para uma série de desenhos pornográficos do artista Giulio Romano (diversas posições do ato sexual).

Aretino viveu em Veneza com todas as pompas, em um palácio muito freqüentado pelas cortesãs, conhecidas como aretinas e sempre dispostas a oferecer prazer sexual aos convidados do escritor.. Foi em Veneza que escreveu seus Regionamenti, que incluem a célebre La Putana Errante, uma série de diálogos entre duas cortesãs  que ensinam a uma terceira os segredos do amor carnal.

Aretino morreu em 1556, diz a lenda que de um ataque de riso, ao ouvir uma história indecente sobre a irmã.

Pierre Brantôme é um francês do século 17, que escreveu memórias retratando a vida promíscua da época. O texto é franco, sem pudores e reservas ou máscaras. Notabilizou-se, particularmente, o volume intitulado  Vila das Damas Galantes, com muitos episódios pornográficos.

O espanhol Tirso de Molina é outro clássico da pornografia. Em 1630 ele escreveu em espanhol O Trocista de Sevilha. Foi daí que Mozart extraiu material para a ópera Don Giovanni, criando um personagem imortal, Don Juan, o incansável conquistador.

A Revolução Industrial acabou com a Vida Galante, mas antes que ela fosse encerrada surgiu o mais celebrado amante do Ocidente, Giovanni Giacomo Casanova, o cavaleiro de Seingalt. Em 1797, um ano antes de morrer, ele escreveu: “Minha história é a de um solteiro cuja principal ocupação na vida foi a de cultivar o prazer dos sentidos.”

Nos 12 volumes de suas Memórias  ele narra desde a sua clássica fuga dos cárceres de Veneza, até os mínimos detalhes de suas múltiplas relações amorosas, como a cópula oral a que ele se refere como o “jogo das ostras”.

Segundo Havelock Harris, “ele era um consumado mestre em narrar dignamente experiências indignas”.

 

As fogueiras da Inquisição, a excomunhões, as listas de censores puritanos, as campanhas virtuosas, nada conseguiu sustentar a Inglaterra contra a pornografia no século 17.  Era notório que, no século anterior, a chamada Rainha Virgem tinha amantes e o tamanho dos genitais deles era o tema favorito das anedotas obscenas da época.

Como contrapartida, a idéia do pudor e o sentimento de vergonha diante do sexo, herança dos puritanos, se desenvolviam amplamente, chegando aos extremos da hipocrisia  exatamente na  época vitoriana. Só que, paralelamente, as idéias de obscenidade e de pornografia evoluíam rapidamente, como uma compensação. Basta ver a grande figura pública da época, Donatien-Alphonse-François, o marquês de Sade.

Ele nasceu em 1740, em Paris, e morreu em 1814, num asilo de loucos. Nobre de Avignon, quando jovem foi oficial de cavalaria no exército francês e onde, dizia ele, desenvolveu o gosto pela perversão que se associa ao seu nome.

Sade casou-se aos 23 anos e, mesmo adorado pela mulher, preferia a companhia de uma criada, inspiradora do seu romance Juliette. Sua morte levou-o ao desespero e a uma vida devassa e libertina, nunca ultrapassada pela sua imaginação que ligava o sexo à crueldade.

Seu crime mais sério, na vida real, foi o estupro de uma mulher de 36 anos, Rosa Keller, a quem açoitou com um galho de árvore, cortou várias vezes com um canivete e colocou cera quente nas feridas.

Em Marselha, participou também de uma orgia de flagelação com várias prostitutas às quais havia administrado um poderoso excitante. Elas passaram tão mal que tiveram coragem de irem dar queixa a um magistrado.

Por essa e outras Sade foi confinado na Bastilha e esteve em outras prisões  por muitos anos.

Foi preso que, com grande sacrifício pessoal, até usando o próprio sangue como tinta, escreveu uma grande obra: Justine, Os 120 Dias de Sodoma, Juliette e Crimes do Amor. São histórias  extraordinárias, passadas em locais imaginários, onde os dejetos humanos são usados como alimento, os banheiros são capelas e vice-versa e os parceiros geralmente são consangüíneos. No Castelo de Silling o grupo participa  de cerca de 600 perversões.

 

Vinte e poucos anos depois da morte de Sade nasce, na Áustria, Leopold Sacher-Masoch, que vai emprestar seu nome à sua perversão predileta: o masoquismo. Seus biógrafos dizem  que desde menino era fortemente atraído por execuções e espetáculos de crueldade. Deliciava-se com gravuras de tortura.

Sua produção literária foi grande, quase toda tratando de práticas masoquistas. Seu livro mais conhecido é A Vênus das Peles, uma quase autobiografia.

O Barão casou-se duas vezes, a primeira com uma fabricante de luvas que, no início hesitou em concordar com os castigos físicos queria aplicar. Além de querer bater nela com um chicote coberto de pregos, que ele mesmo inventou, queria que a mulher fosse infiel. Chegou a colocar em um jornal anúncio que oferecia os préstimos sexuais dela.

Segundo ele, as chicotadas diárias eram um grande estímulo para o seu trabalho literário. A mulher até concordou, mas não admitia ser oferecida como objeto sexual e separou-se.

Em seguida casou-se com sua secretária e, surpreendentemente, levou uma vida tranqüila, de bom pai de família.

Fora o sadismo era um homem tranqüilo, não bebia nem fumava. Generoso, durante a guerra italiana pela independência serviu como combatente no exército austríaco e foi tão bravo que recebeu uma condecoração pelo seu valor.

Morreu em 1895 e ao padre que pretendia que se confessasse pediu que permitisse lhe dar umas chicotadas no traseiro, para partir feliz.

 

Em 1749, na Inglaterra, pressionado pelas dívidas e pelos devedores John Cleland escreve uma das  maiores obras-primas da  pornografia ocidental: Fanny Hill, com o subtítulo Memórias de uma Mulher do Prazer. Para seu desespero, tornou-se imortal, conhecidíssimo, mas nunca mais escreveu pornografia, depois de pagar todas as dívidas com o que ganhou às custas da pobre Fanny.

Cleland escreveu outros livros, ensaios, romances, um erudito trabalho de filologia, mas tudo ficou obscurecido pelo sucesso desse romance pornográfico que não contem uma só expressão ou palavra obscena. É certo que há cenas de  sedução, violação, homossexualismo, flagelação e até mesmo instruções sobre como simular virgindade e enganar o parceiro masculino, mas tudo em linguagem absolutamente comportada.

A história é contada pela heroína, Fanny Hill, em grandes cartas onde ela narra suas experiências com diversos amantes, e sua vida em um bordel de luxo. O que mais surpreende é o final feliz, pouco comum nesse tipo de literatura: Fanny não acaba na sarjeta, nem na prisão, não fica louca nem morre doente como outras heroínas do gênero. Ela termina casada, com o homem que ama, e garante um bom lugar na sociedade, gastando com ele a fortuna ganha com sua antiga profissão.

 

No século 19 o erotismo conhece um crescimento extraordinário, especialmente na Inglaterra, onde o pudor vitoriano “esconde debaixo das saias” tudo o que se relaciona com sexo. Isso torna o terreno fértil para a pornografia, que é uma reação da sociedade á hipocrisia da época. Os autores não usam seus nomes próprios, as edições são clandestinas, os melhores artistas dedicam-se a produzir desenhos e gravuras para ilustrar pornografia com arte pornográfica.

Os clássicos pornô são reeditados, com ilustrações e as edições chegam a ser gigantescas. O número de títulos editados é tão grande que não há uma só coleção completa do tempo.

Surgem as primeiras revistas pornográficas, mensais e até semanais.  A fotografia, recém descoberta, estabelece o rendoso negócio dos baralhos pornográficos e dos notáveis cartões postais que não eram propriamente pornográficos, mas retratavam mulheres nuas em posições pelo menos provocativas da libido.

Na França, Balzac, Baudelaire, Flaubert, Zola, Rimbaud e Verlaine cantam, em prosa e verso, os temas sexuais. Verlaine é eleito pelo público o Príncipe dos Poetas de inspiração homossexual. No entanto, os franceses chamavam a pornografia como “o vício inglês”, embora a expressão fosse mais específica para a flagelação. Nas escolas, nos lares, nas sacristias, nos bordéis e nos cárceres, sempre em nome da disciplina e da moral, a vara e o chicote eram absolutamente comuns e inspiraram Samuel Coleridge, Charles Lamb e Swinburne.

A medida que a pornografia ganhava popularidade e as edições aumentavam e ganhavam tradução, aumentava também a capacidade da repressão. Em 1802 foi fundada na Inglaterra a  Sociedade para Supressão do Vício, para atuar principalmente no combate ao comércio clandestino de publicações clandestinas. Havia um tráfico bastante ativo, principalmente dirigido aos internatos de moças, a Oxford e Cambridge.

Não foi muito bem sucedida em impedir o processo, embora conseguisse mover 159 processos, dos quais 154 resultaram em condenações. Sucesso entre os estudantes fez a moda das caixinhas de rapé com gravuras ou fotos indecentes dentro das tampas.

Quando a polícia conseguia apreender edições pornográficas, editores e impressores iam para o xadrez, mas mesmo assim a pornografia continuou florescendo.

Um grande momento é com Oscar Wilde, que surgiu como um nome definitivo na literatura, pelo menos na Inglaterra. Mas sua carreira de sucesso, meteórica, foi interrompida bruscamente pelo escândalo: um processo por homossexualismo que o levou à prisão. Crítico mordaz dos costumes vitorianos, seu livro mais famoso é O Retrato de Dorian Gray, de 1891.

Também é atribuída a ele a co-autoria de Teleny ou o Reverso da Medalha, obra anônima publicada clandestinamente em 1893 e que, ao que tudo indica, foi escrito a várias mãos. O romance, em dois volumes, narra a violenta paixão de um jovem por um pianista famoso que, por sua vez, é amante da própria mãe. O desfecho é trágico.

 

Na virada do século, na França, Guillaume Apolinaire, poeta e crítico de arte, publica clandestinamente duas pequenas novelas eróticas, assinando-as G.A. Uma delas, As Onze Mil Varas, tem as mais extravagantes cenas de sexo, como a orgia no vagão-leito de um trem, e singulares episódios em bordéis e cabarés por onde desfilam sádicos e masoquistas, mas também vampiros.

O ano de 1928 merece destaque porque duas grandes obras da literatura erótica  são publicadas: O Amante de Lady Chaterley, de D.H. Lawrence e A História do Olho, assinada com o pseudônimo de Lord Aush.

O livro de Lawrence foi editado, originalmente, na Itália, depois de ser denunciado (antes mesmo da publicação) como “pornográfico e nevando”, tendo os originais sido condenados à destruição. Salvos pelo autor, foram editados em inglês, na Itália, e contrabandeados com grande sucesso.

O verdadeiro autor de A História do Olho, Georges Bataille, só se revela na edição de 1943. A essa altura já  lançara Madame Edwarda, assinando-se Pierre Angélique, um grande sucesso. Nos dois livros Bataille trabalhou com a identidade entre o prazer e a dor levados aos extremos.

Henry Miller e Anais Nin conheceram-se em Paris no inverno de 1931 e tornaram-se íntimos.  É em Parias que, em 1934, ele publica seu primeiro livro maldito: Trópico de Câncer, só editado na América 27 anos depois da edição original francesa. Seguiram-se: Primavera Negra, Trópico de Capricórnio e a trilogia Sexus, Nexus e Plexus. Com grande sucesso de crítica literária e de público.

Em 1940 um colecionar de histórias eróticas, anônimo, oferece a Henry Miller cem dólares por mês para escrever pelo menos dois contos eróticos. A princípio ele aceita, mas a obrigação de escrever o aborrece e ele passa o contrato para Anais Nin.  Essa série de contos se transforma no livro  Delta de Vênus que, embora escrito circunstancialmente, foi considerado pela crítica uma obra-prima, e não só da literatura erótica. O livro também foi saudado pelas feministas por traduzir o ponto de vista feminino de que sexo e sentimento são indissolúveis.

Os anos 50 são especialmente férteis para a literatura erótica. Em 1954 surge na França História de Ó, assinado pela desconhecida Pauline Reage, que nunca se revelou ao público, deixando no ar a suspeita de que fosse um pseudônimo.

O livro narra, em detalhes, todo o processo de despersonalização e submissão da heroína, que concorda em passar por sofisticadas flagelações sexuais em um estranho castelo, chegando a extremos.

Um ano depois a Olympia Press, renomada editora de títulos eróticos, lança o romance Lolita, do russo Wladimir Nabokov, mas escrito em inglês. Um livro que alcançou enorme sucesso de venda e de crítica e foi traduzido em 32 idiomas. Ele trata da paixão de um homem maduro por uma menina de 12 anos, lançando o termo ninfeta.

A indústria pornográfica instala-se e se expande por todo o Ocidente. Vários romances pornográficos são publicados por grandes editoras e quase não há mais resistência editorial, desde que tenham boa qualidade literária. É o caso de O Complexo de Portnoy, de Philip Roth (1969) e O Medo de Voar, de Erica Jong (1973).

E a pornografia invade outras mídias: o cinema, o teatro, a internet, o mercado editorial de revistas, com tal rapidez e quantidade de produção que sufoca a produção literária. Editoras sem expressão especializam-se em publicar histórias pornográficas sem valor literário

A grande novidade do século é a publicação clandestina de histórias eróticas desenhadas e chamadas de catecismos.

No Brasil, os grandes autores pornográficos também são grandes expressões literárias: Humberto de Campos, escrevendo como o Conselheiro XX, e  Dalton Trevisan, com seus personagens bem terra-a-terra, dia-a-dia, gente comum e envolvida em paixões arrebatadoras. Mas Dalton é poupado quando são citados os pornógrafos , O mesmo acontecendo com Jorge Amado (Tereza Batista Cansada de Guerra), Nelson Rodrigues (O Enterro da Cafetina) e a genial Hilda Hilst (A Obscena Senhora D), criadora do melhor personagem pornográfico brasileiro, a menina Lori Lamb.  

Ficamos então com Fernand de Villefond  (A Rainha Louca pelo Sexo) com romances cujo tema é só o incesto.  Ou com Lima de Miranda, que ambienta sempre seus personagens em locações paradisíacas, sempre em território nacional, mas sem caracterização geográfica. As orgias do seu herói, o profeta Teribré, têm o objetivo de fazer propaganda da Nova Nação Carajá, uma  civilização avançada ode o amor se dá livremente.

Só que Fernand  é um pseudônimo de Fernando Lima de Miranda.

Nesse cenários duas mulheres se destacam: Adelaide Carraro e Cassandra Rios.

Adelaide tem mais de 40 títulos editados, tendo publicado seu primeiro livro em 1963 (Eu e o Governador, já na 18ª edição. Ela não se acha pornográfica e sim realista, embora seus últimos títulos sejam francamente, decididamente pornográficos (O Castrado, Os Ricos Também Matam, Os Amantes).

Cassandra, por sua vez, tem 46 títulos publicados, uma produção que começou aos 16 anos com Volúpia do Pecado (hoje com mais de 20 edições). Seus romances são sobre os problemas existenciais do homossexual ou da homossexual em uma sociedade com valores morais hipócritas.

Quando a censura da ditadura militar atacou ela precisou valer-se de pseudônimos, como Clarence Rivier e Oliver Rivers. Seus romances continuaram sendo proibidos e seus rios estrangeiros tornaram-se sucessos de venda… Ela já passou do milhão de livros vendidos e é o escritor brasileiro mais consumido, com sucessos como Carne em Delírio, A Sarjeta e Veneno.

Curiosamente, a censura da ditadura descobriu um autor pornográfico entre os clássicos brasileiros, ao impedir a reedição de O Cortiço, de Aluísio de Azevedo… A mesma censura que, num roteiro de televisão, sugeriu que fossem citados “os homens de mau caráter de Rafael”, em lugar dos seus afrescos…

Duas moças, Eliane Robert Moraes e Sandra Maria Lapeiz, a partir de uma pesquisa  A Fala Perversa: Um Estudo do Discurso Narrativo Erótico escreveram o livro O Que É pornografia. E deram uma ótima definição do que seja o erotismo: “O erotismo pode ser definido pela procura de um limite que não há”. Como dizia Bocage, “pornografia é o erotismo feito com não limpa intenção”. E ponto final.