A Centenária Umbanda

            A umbanda fez 100 anos ainda em busca de respeito e reconhecimento social, violentamente atacada pelos evangélicos (principalmente os das seitas) que consideram a umbanda coisa do demônio.

            Reconhecidos por sua capacidade de sicretizar,  assimilar e de misturar rituais, crenças e símbolos do catolicismo popular, do espiritismo kardecista, de cultos africanos e da pajelança dos povos da floresta, de tradições orientais e, mais recentemente, do esoterismo, os umbandistas ainda são estigmatizados e têm dificuldade de firmar uma identidade, além de uma imagem positiva.

            Perseguida durante décadas pela policia, depois pela Igreja Católica e, mais recentemente, pelos evangélicos neopentecostais, sofre um declínio de seguidores, segundo o Censo de 2000.

           

O dia 15 de novembro de 1908 foi uma data marcante do umbandismo porque o Caboclo das Sete Encruzilhadas baixou numa sessão espírita em Neves, São Gonçalo, município fluminense ao lado de Niterói.

Desde 1865 o Doutrina Espírita do francês Allan Kardec (pseudônimo de Hippolyte Léon Denizard Rivail) tinha seguidores no Brasil. E nunca houve antes manifestação igual.

Quem recebeu o caboclo indesejado foi Zélio Fernandino de Moraes, um rapaz\ de 17 anos que se preparava para entrar na Escola Naval. Na mesma sessão ele incorporou o preto-velho ao Antônio, e os dois espíritos reclamaram contra o modo como eram tratados os umbandistas e a umbanda. No século 19 os kardecistas nem admitiam que os índios e escravos negros baixassem em centros espíritas, por considerá-los “marginais e pouco evoluídos”.

No livro Umbanda Cristã e Brasileira, de J.Alves Oliveira, o autor conta que o caboclo teria dito: “Se julgam atrasados esses espíritos dos pretos e dos caboclos, devo dizer que amanhã estarei em casa deste aparelho (o médium Zélio) para dar início a um culto em que esses pretos e índios poderão dar a sua mensagem e, assim, cumprir a missão que o plano espiritual lhes confiou”.

Zélio testemunhou que quando o espírito se revelou como caboclo brasileiro, foi contestado por um médium kardecista que via nele “restos de vestes clericais”. Ao que o caboclo respondeu: “O que você vê em mim são restos de uma existência anterior. Fui padre, meu nome era Gabriel Malagrida e, acusado de bruxaria, fui sacrificado na fogueira da Inquisição por ter previsto o’ terremoto que destruiu Lisboa em 1755. Mas, em minha última existência física, Deus concedeu-me o privilégio de nascer como um caboclo brasileiro”.

Quando perguntaram por seu nome, ele respondeu: “Se é preciso que eu tenha um nome, digam que sou o Caboclo das Sete Encruzilhadas.” Sobre a sua missão disse: “Venho trazer a umbanda, uma religião que harmonizará as famílias e que há de perdurar até o final dos séculos”.

 

O mesmo Zélio de Moraes abriu o primeiro terreiro de umbanda, o Centro Espírita Nossa Senhora da Concveição . E foi paradigma para dezenas de terreiros umbandistas.

Os umbandistas pretendiam se diferenciar “das práticas de feitiçaria contidas nos cultos de origem africana”, que consideravam primitivos. E dar espaço de honra para os espíritos de caboclos e escravos africanos que queriam manifestar-se.

Pioneira no estudo da umbanda na década de 60, a antropóloga norte-americana Diana Brown constatou que is fundadores da umbanda eram, majoritariamente, da classe média, insatisfeitos ao mesmo tempo com os centros de macumba (que funcionavam nas favelas) e com os centros kardecistas.

Eles achavam os rituais da macumba “mais estimulantes e dramáticos” do que as sessões de mesa do espiritismo, mas ao mesmo tempo recusavam a matança de animais e a incorporação de espíritos diabólicos como Exu.

Essa umbanda branca, desafricanizada, adotou princípios e ícones do catolicismo, mas acreditava que os espíritos caboclos e entidades africanas eram mais competentes no uso da medicina popular para o tratamento de doenças tropicais ou que afetavam a maioria da população.

 

Mesmo com toda a liberdade religiosa pregada pela República, o Código Penal de 1890 proibia a prática do espiritismo, da magia e de sortilégios. O Código de 1942 ainda reprimia os feiticeiros, mas agora apenas os que fazem trabalhos para o mal, segundo a antropóloga Yvonne Maggie (O que significa que a elite acreditava nos poderes sobrenaturais dos feiticeiros do mal…)

Muito perseguidos no Estado Novo, presos e impedidos nos seus cultos, a Polícia Central do Distrito Federal (quando o Rio era a capital da República) mantinha uma Coleção de Cultos Afros conhecida como Coleção da Magia Negra, com cerca de 200 imagens, vestes, guias e objetos de culto apreendidos.

As primeiras Federações Umbandistas foram criadas exatamente para enfrentar a discriminação social e a repressão policial. As figuras de proa eram presas, sistematicamente, durante a ditadura Vargas e apanhavam muito, principalmente quando eram presos pela chamada Polícia Especial.

Jaú, ex-zagueiro do Corinthians de 32 a 37 e da seleção brasileira que disputou a Copa do Mundo de 38, na França, tornou-se pai-de-santo em São Paulo. Foi preso tantas vezes e apanhou tanto que era considerado o grande mártir da Umbanda.

Foi ele o criador das festas a Iemanjá nas praias do litoral paulista no final dos anos 40, mas isto só serviu para que fosse mais humilhado e torturado. A redemocratização do país, em 1945 melhorou o ambiente de liberdade religiosa mas só em 1963 caiu a exigências de registro obrigatório na Polícia dos terreiros de umbanda, restando apenas o registro civil em cartório público.

Na década de 50 mais terreiros recém-abertos se declararam centros de umbanda do que centros espíritas. Houve apenas um registro de centro de candomblé. Nos anos 70, foram registrados 7.627 terreiros de umbanda, 856 de candomblé e 202 centros espíritas.

Mas a partir dos anos 70 começaram as perseguições pentecostais, até com violência física. Em 2005 a Justiça Federal condenou a Rede Record e a Igreja Universal por intolerância religiosa, num processo ganho pelo Superior Órgão de Umbanda do Estado de São Paulo. O processo está no Supremo Tribunal de Justiça.

Nas favelas, os pentecostais uniram-se aos donos do tráfico de drogas e praticamente acabaram com os centros de umbanda, de candomblé, e até com o espiritismo de mesa.

No Censo de 2000, 432 mil brasileiros se declararam umbandistas, uma queda de 20% em relação ao Censo de 1991. E a tendência de queda persiste, embora uma pesquisa da UFRJ tenha identificado muitos freqüentadores que procuram os centros de umbanda para conselhos ou curas, mas não se consideram umbandistas (principalmente por medo ou vergonha).

 

O compositor, pesquisador e escritor Nei Lopes (autor da Enciclopédia Brasileira da Diáspora Africana) é contra essa umbanda branca, afastada das raízes africanas, que recusa tambores e se pretende esotérica. “Para essa gente essa coisa de tambor e sacrifício de animais é coisa de selvagens. E nessa oposição entre selvagem e civilizado é que está o racismo”, disse ele ao jornalista Marcelo Beraba, da Folha de S.Paulo.

Ele recusa, inclusive, o que chama de mito da origem da umbanda, porque antes de Zélio receber o caboclo e o preto-velho, já havia, além dos calundus coloniais (que não tinham organização social, comunitária) os candomblés, desde 1850. Na virada do século 19 a ialorixá baiana Mãe Aninha vinha ao Rio onde fundou, por volta de 1906, uma filial da sua roça, o Opô Afonjá, que funciona até hoje em Coelho da Rocha, São João de Meriti, na Baixada Fluminense.

Para Nei, a umbanda é herdeira direta de cultos bantos como o da cabula e cresceu sob influência do candomblé baiano, incorporando as figuras dos orixás jeje-nagôs e outros elementos.

Diz ele que, fundamentalmente, o que distingue a umbanda é o culto ais pretos-velhos, que não existem no candomblé. E esses pretos-velhos são representações de espíritos familiares bantos, da área de Angola, Congo e Moçambique, daí os seus nomes: Vovó Conga, Pai Joaquim de Angola, Tia Maria Rebolo, Pai Joaquim de Aruanda.  O candomblé, segundo Nei, vem da Nigéria.

Nei cultua os orixás. Mas não é do candomblé; já foi. Diz ele que se dedica á forma de culto que em Cuba se conhece como santeria. E propõe ao IBGE que inclua umbanda, candomblé e santeria  numa rubrica só: religião de matriz africana.

 

A umbanda já foi citada, na metade do século passado, como um símbolo do subdesenvolvimento brasileiro, A antropóloga Diana Brown discorda. Pioneira no estuda da umbanda (é autora do livro Umbanda – Politics of an Urban Religious Movement) e morou numa favela durante quase seis meses para estudar esse movimento religioso que supunha ser de negros pobres. Descobriu que era um movimento de classe média, infiltrado de brancos.

Por essa época ela fazia o doutorado na Columbia e o Departamento de Antropologia (como a maior parte das universidades americanas) acreditava que as religiões de matriz africana estavam em declínio e deveriam desaparecer, com o desenvolvimento do país. Supostamente, elas faziam parte do setor tradicional ou atrasado da sociedade. Por isso mesmo ela foi orientada a pesquisar na favela, os viviam os setores mais pobres, menos escolarizados,

Menos atingidos pela modernidade.

            Sua pesquisa desmontou a tese antecipada. No Jacarezinho, no primeiro fim-de-semana, encontrou-se com o líder de uma das federações umbandistas: era um General do Exército.

            Logo ela resolveu fazer a pesquisa na classe média. E explica: “Naquele momento, todo mundo se interessava pelo candomblé e desprezava a umbanda que havia se misturado com outra religiões. Só o puro é que era considerado bom e autêntico.”

            Segundo Diana, “o candomblé era tido como cultura popular autêntica e a umbanda era kitsch” e ela não concorda com isso porque “a imagem de autenticidade é uma construção social”

            Criada protestante, afastada da Igreja, para ela a umbanda tem a mesma validade de outras religiões, “talvez um pouquinho mais”. Por que? “Porque não posso dizer que acredito nos espíritos, mas também não posso negar tudo o que eu vi acontecer nos terceiros. Seja qual for a causa, funciona muito bem: ela cuida, trata e cura”.

 

Na concepção umbandista, o termo exu serve para nomear uma porção de espíritos de homens e mulheres que, em vida, tiveram uma biografia socialmente marginal. O culto dessas entidades é reunido na quimbanda, uma divisão da umbanda que hoje me dia é encontrada também em terreiros de candomblé. A quimbanda cuida de situações de vida que a moralidade dos caboclos e pretos-velhos que compõem a maioria na umbanda rejeita e reprime.

         O exu mais importante é a Pombagira, que tem muitas identidades: Maria Padilha, Sete Facadas, Maria Molambo, Pombagira das Almas, Dama da Noite, Maria Bonita. Apela-se a elas para a solução de problemas, desejos e fracassos da vida amorosa e da sexualidade. Ela junta e separa casais, protege as mulheres agredidas pelos maridos, propicia as uniões amorosas mais difíceis, favorece os instintos, as pulsões sexuais, as aspirações, os desejos inconfessos, qualquer tipo de união erótica, hétero ou homossexual.

         Para elas, qualquer pedido feito com fé e ardor pode ser atingido, não há desejo ilegítimo nem fantasia reprovável.

         Daí a força da quimbanda e da própria umbanda para um grande número de pessoas, não necessariamente umbandistas.

 

 

 

 

 

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