Maestro Anacleto

MAESTRO ANACLETO    

            Anacleto de Medeiros , filho de uma escrava liberta, nasceu, cresceu, viveu, morreu e está enterrado na Ilha de Paquetá e foi uma das figuras mais significativas da música brasileira, porque ele, Chiquinha Gonzaga, Antônio Callado e Ernesto Nazaré é que estabeleceram as bases definitivas do choro, um ritmo urbano tipicamente carioca.

            Começou na música tocando flauta e flautim na Companhia de Menores da Banda do Arsenal de Guerra do Rio de Janeiro. Aos 18 anos entrou para o Imperial Conservatório de Música, onde chamou a atenção por dominar todos os instrumentos de sopro.

            Tinha preferência pelo saxofone e fundou, entre os operários da Imprensa, o Clube Musical Gutemberg, primeiro conjunto musical que organizou.

Formou-se no Conservatório em 1886, diplomado em professor de clarineta. No mesmo ano organizou a Sociedade Recreio Musical Paquetaense e começou a compor músicas sacras, executadas na igreja de São Roque, em Paquetá.

Em seguida sua banda dava concertos no coreto da Praça de São Roque, executando principalmente música ligeira..

            Estudioso, devotado, com apurado talento, ele montou várias bandas, como a Sociedade Recreio Musical Paquetaense, inclusive a Banda da Fábrica de Tecidos Bangu e a Banda do Corpo de Bombeiros. Foi ele quem transformou a rispidez sonora das bandas com a beleza de suas harmonias e o talento de incrível arranjador. Em lugar de só tocar dobrados e marchas militares, fixou o gosto pelas valsas, polcas, schotttisch e quadrilhas, transmitindo-as na linguagem das rodas de choro.

            É ele que cria uma forma particular de interpretar e escrever para seus companheiros chorões do Cavaquinho de Ouro, na Rua da Carioca 4, onde conheceu Villa-Lobos.

            Como compositor foi um dos mais expressivos da música brasileira, mas só criou cerca de cem músicas. A qualidade do seu trabalho de compositor fez com que o maestro e compositor Villa-Lobos utilizasse o seu choro Yara (que depois fez sucesso com letra de Catulo da Paixão Cearense com o nome de Rasga Coração) como base para compor o seu Choros nº. 10.

Foi em 1896 que Anacleto recebeu o convite do tenente-coronel Eugênio para montar a Banda do Corpo de Bombeiros Jardim. Montou, ensaiou mas não regeu na inauguração: estava em Paquetá para a festa do padroeiro, São Roque, de quem era devoto.

Mas a banda fez tal sucesso que foi convidada para gravar os primeiros discos produzidos no Brasil, “especialmente para a Casa Edson” (Rua do Ouvidor 107, do tcheco Fred Figner).

Segundo o pesquisador Humberto Franceschi, haveria no Rio, naquela época, menos de 250 fonógrafos e gramofones. Diz ele que a relação das primeiras gravações do catálogo da Casa Édson datado de 1902, é toda de discos gravados pela Banda do Corpo de Bombeiros, com o maestro Anacleto de Medeiros à frente.

Para Henrique Cazes, a diferença de som entre as bandas montadas por Anacleto e as outras é “absolutamente evidente”.  As outras “não passam de bandas militares”, não têm a maciez de interpretação e o mesmo rendimento técnico. Uma das razões: Anacleto não dispensava a colaboração musical de chorões de boa técnica, principalmente trompetistas como Casemiro Rocha e Luiz de Souza. Os chorões é que davam melhor afinação,  leveza e permitiam arranjos bem acabados.

Anacleto adaptava também trechos de peças sinfônicas e outras peças eruditas que, no entanto, caiam no gosto popular, segundo o pesquisador José Ramos Tinhorão, porque vinham junto com músicas de gosto popular e do agrado público.

Seus músicos eram convidados para animar bailes de máscaras e as grandes festas de salão. E ele é apontado como o criador da escola brasileira de sopros.

Aos poucos, foi criando fama como compositor e suas peças passaram a ser executadas em bandas de todo o país. Exímio melodista, excelente harmonizador, sabia orquestrar de formas muito evoluída, dando às suas bandas afinação, leveza, dinâmica e alegria contagiante.

Foi o sistematizador do xote.

 

O xote vem das dança de salão schottisch, geralmente em compasso binário, como a polca,  mas um pouco mais lenta. O nome original é alemão mas chegou ao Brasil via Inglaterra, onde foi introduzida por volta de 1848.

No Brasil chega em 1851, introduzida pelo professor de dança José Maria Toussaint.

O xote não alcançou o mesmo sucesso da polca, segundo o pesquisador Baptista Siqueira, porque a polca era sempre composta em tom  maior e quase todos os xotes em tom menor.

 

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