Archive for março \04\UTC 2008

O Corrupto-Mór

março 4, 2008

                        “Quem furta pouco é ladrão,   

                        Quem furta muito é barão;

                       Quem mais furta e esconde

                       Passa de barão a visconde.” 

                      Os versos de mal-dizer, anônimos, referem-se ao Visconde do Rio Seco, o maior corrupto que veio de Portugal com a Corte de D. Maria I e seu filho D. João.Joaquim José de Azevedo foi o encarregado de organizar a fuga, oficialmente chamada de translado da Corte portuguesa para o Brasil. Depois de exercer vários cargos importantes no reinado de D. Maria I, na madrugada de 25 de novembro de 1807 deram-lhe dois dias para cuidar de toda a logística do embarque. Tinha carta branca até para decidir quem viria e quem não deveria vir. O plano de fuga era antigo e estava acertado como os ingleses, que dariam cobertura armada à frota. Mas como o Príncipe D. João tinha dúvidas e tentou enganar os franceses até i último minuto, ninguém tinha coragem de se mexer para os preparativos da viagem.

          A notícia, publicada em Paris, de que Napoleão havia dito que a Casa de Bragança já não reinava, disparou a decisão. À meia-noite acordaram o Oficial da Corte Joaquim José para uma reunião com o Conselho de Estado, no Palácio Real. E lhe deram ordem para organizar o embarque imediato.Ele tratou de assegurar lugar para a própria família e para seus bens, e dirigiu-se ao porto. O mau tempo adiou a viagem para o dia 29 e ainda assim a pressa e o improviso deixaram a organização a desejar.O Tesouro Real não veio todo. Como não vieram os livros da Biblioteca Real e muitos documentos importantes de governo. Não vieram todos os arquivos necessários e ficou muita louça, roupa e carruagens. As ucharias reais deixaram para trás muita comida que faria falta nos dois meses da viagem. E muitos nobres viajaram apenas com a roupa do corpo, na pressa de embarcar.O próprio Azevedo embarcou a família com calma,  mas resolvendo os últimos problemas burocráticos não conseguiu embarcar, impedido pela multidão em fúria. Chegou ao navio já no dia 29, num barquinho a remo que lhe custou uma pequena fortuna. E foi obrigado a deixar no cais documentos e seu próprio dinheiro…

          Chegado ao Rio ele tratou logo de recuperar suas perdas financeiras, ocupando o cargo de encarregado das  compras e do abastecimento da despensa real.Enriqueceu tanto e tão rapidamente que sua imagem ficou ligada á roubalheira e a corrupção, expressada em muitos versos populares. A tal ponto que, na volta de D. João a Portugal, as Cortes proibiram a sua volta.

          Até no teatro ele era personagem ridicularizado.Ficou no Brasil, gozando de grande conforto, num palacete do Rossio (atual Praça Tiradentes) que está sendo restaurado mas que por um tempo abrigou o Detran, palco de muita transação corrupta. Locupletou-se no poder e ganhou o título de Barão do Rio Seco a 13 de agosto de 1812. Depois, em 16, foi elevado a Visconde. E a 1º de dezembro de 1822, D. Pedro I deu-lhe o título de “visconde com grandeza”, o primeiro no país.A 12 de outubro de 1826, D.Pedro deu-lhe um título brasileiro, o de Marquês de Jundiaí.

          No Museu Imperial, em Petrópolis, há um manuscrito seu de cem páginas, destinado a D. Pedro. E em que ele nega, em detalhe, todas as acusações de corrupção e malversação de dinheiros públicos.  Só que o povo, insistia no mal-dizer: 

“Rico ladrão, foi a Conde

E mais ainda a Visconde.

Não parou de roubar, e aí,

Virou Marquês, de Jundiaí.”         

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Maestro Anacleto

março 4, 2008

            Anacleto de Medeiros , filho de uma escrava liberta, nasceu, num dia 13 de julho e recebeu o nome do santo do dia.  Cresceu, viveu, morreu e está enterrado na Ilha de Paquetá.Ffoi uma das figuras mais significativas da música brasileira, porque ele, Chiquinha Gonzaga, Antônio Callado e Ernesto Nazaré é que estabeleceram as bases definitivas do choro, um ritmo urbano tipicamente carioca.

            Começou na música tocando flauta e flautim na Companhia de Menores da Banda do Arsenal de Guerra do Rio de Janeiro. Aos 18 anos entrou para a Tipograia Nacional  como aprendiz e para o Imperial Conservatório de Música, onde chamou a atenção por dominar todos os instrumentos de sopro.

            Tinha preferência pelo saxofone e fundou, entre os operários da Imprensa, o Clube Musical Gutemberg, primeiro conjunto musical que organizou.

Formou-se no Conservatório em 1886, diplomado em professor de clarineta. No mesmo ano organizou a Sociedade Recreio Musical Paquetaense e começou a compor músicas sacras, executadas na igreja de São Roque, em Paquetá.

Em seguida sua banda dava concertos no coreto da Praça de São Roque, executando principalmente música ligeira..

            Estudioso, devotado, com apurado talento, ele montou várias bandas, como a Sociedade Recreio Musical Paquetaense, inclusive a Banda da Fábrica de Tecidos Bangu, a da Fábrica de Tecidos dos Macacos, a da Piedade, em Magé, e a Banda do Corpo de Bombeiros. Foi ele quem transformou a rispidez sonora das bandas com a beleza de suas harmonias e o talento de incrível arranjador. Em lugar de só tocar dobrados e marchas militares, fixou o gosto pelas valsas, polcas, schotttisch e quadrilhas, transmitindo-as na linguagem das rodas de choro.

            É ele que cria uma forma particular de interpretar e escrever para seus companheiros chorões do Cavaquinho de Ouro, na Rua da Carioca 4, onde conheceu Villa-Lobos.

            Como compositor foi um dos mais expressivos da música brasileira, mas só criou cerca de cem músicas. A qualidade do seu trabalho de compositor fez com que o maestro e compositor Villa-Lobos utilizasse o seu choro Yara (que depois fez sucesso com letra de Catulo da Paixão Cearense com o nome de Rasga Coração) como base para compor o seu Choros nº. 10.

Foi em 1896 que Anacleto recebeu o convite do tenente-coronel Eugênio Jardim para montar a Banda do Corpo de Bombeiros. Montou, ensaiou mas não regeu na inauguração: estava em Paquetá para a festa do padroeiro, São Roque, de quem era devoto.

Mas a banda fez tal sucesso que foi convidada para gravar os primeiros discos produzidos no Brasil, “especialmente para a Casa Edson” (Rua do Ouvidor 107, do tcheco Fred Figner).

Segundo o pesquisador Humberto Franceschi, haveria no Rio, naquela época, menos de 250 fonógrafos e gramofones. Diz ele que a relação das primeiras gravações do catálogo da Casa Édson, datado de 1902, é toda de discos gravados pela Banda do Corpo de Bombeiros, com o maestro Anacleto de Medeiros à frente.

Para Henrique Cazes, a diferença de som entre as bandas montadas por Anacleto e as outras é “absolutamente evidente”.  As outras “não passam de bandas militares”, não têm a maciez de interpretação e o mesmo rendimento técnico. Uma das razões: Anacleto não dispensava a colaboração musical de chorões de boa técnica, principalmente trompetistas como Casemiro Rocha e Luiz de Souza. Os chorões é que davam melhor afinação,  leveza e permitiam arranjos bem acabados.

Anacleto adaptava também trechos de peças sinfônicas e outras peças clássicas que, no entanto, caiam no gosto popular, segundo o pesquisador José Ramos Tinhorão, porque vinham junto com músicas de gosto popular e do agrado público.

Seus músicos eram convidados para animar bailes de máscaras e as grandes festas de salão. E ele é apontado como o criador da escola brasileira de sopros.

Aos poucos, foi criando fama como compositor e suas peças passaram a ser executadas em bandas de todo o país. Exímio melodista, excelente harmonizador, sabia orquestrar de formas muito evoluída, dando às suas bandas afinação, leveza, dinâmica e alegria contagiante.

Foi o criador da “banda de câmara, um quinteto de metais, e o sistematizador do xote.

O xote vem das dança de salão schottisch, geralmente em compasso binário, como a polca,  mas um pouco mais lenta. O nome original é alemão mas o ritmo chegou ao Brasil via Inglaterra, onde foi introduzido por volta de 1848.

No Brasil chega em 1851, introduzido pelo professor de dança José Maria Toussaint.

O xote não alcançou o mesmo sucesso da polca, segundo o pesquisador Baptista Siqueira, porque a polca era sempre composta em tom  maior e quase todos os xotes em tom menor.

Em 1935, por iniciativa do pintor e escultor Pedro Bruno, a rua onde Anacleto nasceu (Ria do Muro) recebeu o nome de Anacleto de Medeiros.

Mestro caprichoso, ríspido e até violento, mandou jogar fora instrumentos de sopro vindos da Alemanha, porque estariam todos com defeito, semitonando. Mas sem a batuta na mão era manso, sincero e fiel amigo, delicado e cortejador.

Certa tarde, notando a presença de Carlos Gomes na platéia, Anacleto dirigiu-se a ele e ofereceu a batuta que o compositor recusou, dizendo:

_ NInguém, à frente desta banda, estará melhor que você,  maestro Anacleto.

Maestro Anacleto

março 4, 2008

MAESTRO ANACLETO    

            Anacleto de Medeiros , filho de uma escrava liberta, nasceu, cresceu, viveu, morreu e está enterrado na Ilha de Paquetá e foi uma das figuras mais significativas da música brasileira, porque ele, Chiquinha Gonzaga, Antônio Callado e Ernesto Nazaré é que estabeleceram as bases definitivas do choro, um ritmo urbano tipicamente carioca.

            Começou na música tocando flauta e flautim na Companhia de Menores da Banda do Arsenal de Guerra do Rio de Janeiro. Aos 18 anos entrou para o Imperial Conservatório de Música, onde chamou a atenção por dominar todos os instrumentos de sopro.

            Tinha preferência pelo saxofone e fundou, entre os operários da Imprensa, o Clube Musical Gutemberg, primeiro conjunto musical que organizou.

Formou-se no Conservatório em 1886, diplomado em professor de clarineta. No mesmo ano organizou a Sociedade Recreio Musical Paquetaense e começou a compor músicas sacras, executadas na igreja de São Roque, em Paquetá.

Em seguida sua banda dava concertos no coreto da Praça de São Roque, executando principalmente música ligeira..

            Estudioso, devotado, com apurado talento, ele montou várias bandas, como a Sociedade Recreio Musical Paquetaense, inclusive a Banda da Fábrica de Tecidos Bangu e a Banda do Corpo de Bombeiros. Foi ele quem transformou a rispidez sonora das bandas com a beleza de suas harmonias e o talento de incrível arranjador. Em lugar de só tocar dobrados e marchas militares, fixou o gosto pelas valsas, polcas, schotttisch e quadrilhas, transmitindo-as na linguagem das rodas de choro.

            É ele que cria uma forma particular de interpretar e escrever para seus companheiros chorões do Cavaquinho de Ouro, na Rua da Carioca 4, onde conheceu Villa-Lobos.

            Como compositor foi um dos mais expressivos da música brasileira, mas só criou cerca de cem músicas. A qualidade do seu trabalho de compositor fez com que o maestro e compositor Villa-Lobos utilizasse o seu choro Yara (que depois fez sucesso com letra de Catulo da Paixão Cearense com o nome de Rasga Coração) como base para compor o seu Choros nº. 10.

Foi em 1896 que Anacleto recebeu o convite do tenente-coronel Eugênio para montar a Banda do Corpo de Bombeiros Jardim. Montou, ensaiou mas não regeu na inauguração: estava em Paquetá para a festa do padroeiro, São Roque, de quem era devoto.

Mas a banda fez tal sucesso que foi convidada para gravar os primeiros discos produzidos no Brasil, “especialmente para a Casa Edson” (Rua do Ouvidor 107, do tcheco Fred Figner).

Segundo o pesquisador Humberto Franceschi, haveria no Rio, naquela época, menos de 250 fonógrafos e gramofones. Diz ele que a relação das primeiras gravações do catálogo da Casa Édson datado de 1902, é toda de discos gravados pela Banda do Corpo de Bombeiros, com o maestro Anacleto de Medeiros à frente.

Para Henrique Cazes, a diferença de som entre as bandas montadas por Anacleto e as outras é “absolutamente evidente”.  As outras “não passam de bandas militares”, não têm a maciez de interpretação e o mesmo rendimento técnico. Uma das razões: Anacleto não dispensava a colaboração musical de chorões de boa técnica, principalmente trompetistas como Casemiro Rocha e Luiz de Souza. Os chorões é que davam melhor afinação,  leveza e permitiam arranjos bem acabados.

Anacleto adaptava também trechos de peças sinfônicas e outras peças eruditas que, no entanto, caiam no gosto popular, segundo o pesquisador José Ramos Tinhorão, porque vinham junto com músicas de gosto popular e do agrado público.

Seus músicos eram convidados para animar bailes de máscaras e as grandes festas de salão. E ele é apontado como o criador da escola brasileira de sopros.

Aos poucos, foi criando fama como compositor e suas peças passaram a ser executadas em bandas de todo o país. Exímio melodista, excelente harmonizador, sabia orquestrar de formas muito evoluída, dando às suas bandas afinação, leveza, dinâmica e alegria contagiante.

Foi o sistematizador do xote.

 

O xote vem das dança de salão schottisch, geralmente em compasso binário, como a polca,  mas um pouco mais lenta. O nome original é alemão mas chegou ao Brasil via Inglaterra, onde foi introduzida por volta de 1848.

No Brasil chega em 1851, introduzida pelo professor de dança José Maria Toussaint.

O xote não alcançou o mesmo sucesso da polca, segundo o pesquisador Baptista Siqueira, porque a polca era sempre composta em tom  maior e quase todos os xotes em tom menor.