Kirov, o Assassino.

Quem vê o balé Kirov, de Leningrado, se apresentando, não sabe que ele não existe mais. Nem imagina quem fosse esse Kirov. Não era maitre de baile, nem bailarino, coreógrafo ou empresário, apenas um admirador do antigo balé Mariinsi.

            Serguei Mironovitch Kirov foi um assassino de Stalin , responsável pela morte de milhares de pessoas durante um dos ataques do terror stalinista.

            Amigo íntimo de Ióssif issariónovitc Djugachvili, depois chamado Stálin,, sua intimidade era tanta que diante dele o Supremo não tinha vergonha do próprio corpo, atacado pela psoríase e com um defeito no braço esquerdo. Entre todos os líderes soviéticos, em todos os tempos, só Kirov freqüentava os banhos com Stálin.

            Quando o Politburo debateu sobre a demolição do Templo do Salvador, um dos atos de vandalismo contra os judeus moscovitas, Kirov foi um dos mais entusiasmado no apoio à proposta. E explicava que tudo era política: Os judeus eram um obstáculo à aproximação com Hitler. Foi ele também o autor da sugestão de que os judeus bolcheviques usassem pseudônimos russos e, melhor ainda, tratassem de mudar seus nomes para nomes “verdadeiramente russos”.

            Primeiro-Secretário do Partido em Leningrado, membro do Politburo, ele falava com Stálin chamando-o de você. Gostava de cantar árias de ópera e era conhecido por sua transbordante alegria e entusiasmo juvenil. Baixo, bonito, com olhos levemente tártaros, marcado pela varíola, cabelos castanhos e maçãs do rosto saltadas, era apreciado por mulheres e homens. Fazia amigos com extrema facilidade. Casado, sem filhos, mulherengo, com queda por bailarinas do Balé Mariinski (que ele controlava), Kirov era viciado em trabalho, gostava de vida ao ar livre, de acampar e caçar. Montanhista ávido, vivia de bem consigo mesmo.

            Stalin o admirava por sua alegria de viver e sinceridade.

Seu nome verdadeiro era Serguei Kóstrikov, filho de um funcionário público de saúde débil. Nasceu em 1886, em Urzhum, a 800 quilômetros a  nordeste de Moscou. Ficou órfão ainda criança e, por caridade, foi recolhido e freqüentou a Escola Industrial de Kazan, onde se destacou.

A revolução de 1905 interferiu em seus planos universitários e ele entrou para o Partido Social-Democrata. Tornou-se um revolucionário profissional Entre um exílio e outro casou-se com a filha de um relojoeiro judeu. Mais tarde revelou-se um anti-semita.

Trabalhou como jornalista na imprensa burguesa (o que era rigorosamente proibido pelo Partido) e isso ficou como mancha no seu pedigree bolchevique.

Mandado para o Astracã, impôs o poder bolchevique em março de 1919 com um derramamento de sangue: respondeu pessoalmente por mais de 4 mil mortos. Quando um burguês foi apanhado escondendo mobília, matou-o pessoalmente.

Bolchevique brutal da geração da guerra civil,ele ajudou a promover a tomada da Geórgia em 1921.

Em 26 Stálin promoveu Kirov ao comando do Partido em Leningrado e em 30 fez que entrasse para o Politburo E gostava tanto dele que ia apanhá-lo pessoalmente da estação de trem quando o convidava para passarem as férias juntos em Sotchi.

Após a morte de sua mulher, Nádia (que se matou) a amizade de Stálin por “meu Kiritch” (como ele chamava Kirov) tornou-se ainda maior. Com freqüência sua presença era requisitada e passavam dias e noites  bebendo e contando piadas sujas, caçoando um do outro, rindo.

Kirov admirava Stálin, mas fazia críticas a ele e não tinha medo de falar o que pensava. Por exemplo, manifestou-se contra o racionamento do pão e foi um dos poucos a falar sobre a grande fome do povo. Freqüentemente dormia num sofá no apartamento dele. Svetlana, filha de Stálin, gostava muito do “tio Kirov”, que a chamava de Setanka.

Russo, popular, vigoroso, trabalhador, Stálin viu nele, por um bom tempo, seu melhor candidato a sucedê-lo.

Abalados com as matanças e a brutal administração de Stálin, alguns líderes procuravam uma figura para colocar no lugar de Stálin. Chegaram  a Kirov. Ele, imediatamente, reportou-se a Stálin, dando nome aos bois.

Stálin reagiu com hostilidade aos conspiradores. mas, curiosamente, começou a perder a confiança em Kirov por ter sido escolhido como candidato a substituí-lo…

No 17º Congresso do Partido Comunista Kirov foi ovacionado de pé. Uma das tarefas do Congresso era eleger o Comitê Central. Stálin recebeu 1056 votos e Kirov 1055, de um total de 1059 votantes.

Ele insistiu que o povo estava faminto e morrendo, contra todos os relatórios dos grandes nomes que cercavam Stálin.  Aceitando a verdade desses relatórios, Stálin teve um acesso de raiva e disse que o povo escondia alimentos e não queria pagar os impostos. Para ele, a colheita estava sendo pequena por sabotagem de conspiradores, inimigos do povo.

            Após a plenária que discutiu o assunto das colheitas e que desmentiu, oficialmente, a fome do povo, Stálin acompanhou Kirov até o trem Flecha Vermelha, para Leningrado. E disse: “Viu, como você estava enganado?” Mas Kirov insistiu: “Você é que está sendo enganado.” Stálin abraçou-o.

No dia seguinte Kirov estava de volta ao trabalho em Leningrado.

A 1º de dezembro começou a preparar um discurso em casa. De capa de chuva e gorro de operário foi do seu apartamento para o escritório. Entrou no prédio neoclássico e grandioso do Instituto Smolny pelo acesso principal. Subiu as escadas para seu escritório, no terceiro andar, seguido por seu guarda-costas, Borissov que, no meio da escada foi detido por um oficial que queria uma resposta.

Kirov saiu da escada, virou à direita e cruzou com um jovem de cabelos pretos, Leonid Nikoláiev, que se encostou á parede para deixá-lo passar. Então, puxou um revólver Nagan e atirou na nuca de Kirov a curta distância.

Borrissov chegou correndo, de revólver  na mão, mas era tarde.

Nicoláiev virou o revólver para si mesmo e apertou o gatilho, mas um eletricista que trabalhava no corredor conseguiu derrubá-lo. Ele foi preso. Estava inconsciente. Torturado, morreu sem confessar, do coração, como milhares de torturados pelo regime soviético..

Kirov ficou exposto em câmara ardente. Vestia uma túnica azul. O corpo estava cercado por bandeiras vermelhas, palmas tropicais e coroas de flores, no Palácio Taurida (cenário do baile que o Príncipe Potemkin ofereceu a Catarina, a Grande, em 1791).

Às nove e meia da noite de 3 de dezembro, Stálin e o Politburo formaram a guarda de honra. Às dez da noite carregaram o esquife até uma carreta de canhão que transportou os restos mortais de Kirov, lentamente, até o trem que o transportou para Moscou.

O trem partiu depois da meia-noite, deixando para trás o cérebro de Kirov, para ser examinado no Instituto Leningrado em busca de “sinais da inteligência revolucionária”.

Kirov ficou em exposição no Salão das Colunas.

Às dez da manhã do dia 5, com a rua Gorki fechada e rígida segurança  a orquestra do Bolshói tocou marchas fúnebres. Stálin disse que ele era “seu camarada martirizado”. Em sua homenagem mudou o nome da sua cidade natal, Viatka, para Kiróv. Que também nomeou centenas de ruas e praças e até o balé Mariianski, de Leningrado.

Na hora em que os líderes se despediam de Kirov, cujo corpo ia ser cremado, Stálin disse: “Adeus, querido amigo, nós o vingaremos!”

Na manhã seguinte a urna com as cinzas foi depositada em um minitemplo clássico ornamentado, do tamanho de um esquife, coberto de flores, saudado por clarins. Kaganóvitch discursou chamando-o de “bolchevique perfeito”.

Depois das denúncias de Kruschev o balé Kirov voltou a ser chamado Balé Mariianski. Mas, como no exterior havia sido Kirov e assim fizera o seu prestígio, na Rússia é Mariianski, mas para o resto do mundo ainda é o Kirov.                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                

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