Archive for fevereiro \29\UTC 2008

O Corrupto-Mór

fevereiro 29, 2008

                        “Quem furta pouco é ladrão,                                   

                         Quem furta muito é barão;

                        Quem mais furta e esconde                        

                        Passa de barão a visconde.”      

      Os versos de mal-dizer, anônimos, referem-se ao Visconde do Rio Seco, o maior corrupto que veio de Portugal com a Corte de D. Maria I e seu filho D. João. Joaquim José de Azevedo foi o encarregado de organizar a fuga, oficialmente chamada de Translado da Corte portuguesa para o Brasil. Depois de exercer vários cargos importantes no reinado de D. Maria I, na madrugada de 25 de novembro de 1807 deram-lhe dois dias para cuidar de toda a logística do embarque. Tinha carta branca até para decidir quem viria e quem não deveria vir. O plano de fuga era antigo e estava acertado como os ingleses, que dariam cobertura armada à frota. Mas como o Príncipe D. João tinha dúvidas e tentou enganar os franceses até o último minuto, ninguém tinha coragem de se mexer para os preparativos da viagem.     

      A notícia, publicada em Paris, de que Napoleão havia dito que a Casa de Bragança já não reinava, disparou a decisão. À meia-noite acordaram o Oficial da Corte Joaquim José para uma reunião com o Conselho de Estado, no Palácio Real. E lhe deram ordem para organizar o embarque imediato.Ele tratou de assegurar lugar para a própria família e para seus bens, e dirigiu-se ao porto. O mau tempo adiou a viagem para o dia 29 e ainda assim a pressa e o improviso deixaram a organização a desejar.      

      O Tesouro Real não veio todo. Como não vieram os livros da Biblioteca Real e muitos documentos importantes de governo. Não vieram todos os arquivos necessários e ficou muita louça, roupa e carruagens. As ucharias reais deixaram para trás muita comida que faria falta nos dois meses da viagem. E muitos nobres viajaram apenas com a roupa do corpo, na pressa de embarcar. O próprio Azevedo embarcou a família com calma,  mas resolvendo os últimos problemas burocráticos não conseguiu embarcar, impedido pela multidão em fúria. Chegou ao navio já no dia 29, num barquinho a remo que lhe custou uma pequena fortuna. E foi obrigado a deixar no cais documentos e seu próprio dinheiro…       

      Chegado ao Rio ele tratou logo de recuperar suas perdas financeiras, ocupando o cargo de encarregado das  compras e do abastecimento da despensa real. Enriqueceu tanto e tão rapidamente que sua imagem ficou ligada á roubalheira e a corrupção, expressada em muitos versos populares. A tal ponto que, na volta de D. João a Portugal, as Cortes proibiram que ele fosse junto..      

      Até no teatro ele era personagem ridicularizado. Ficou no Brasil, gozando de grande conforto, num palacete do Rocio Grande (atual Praça Tiradentes) que está sendo restaurado mas que por um tempo abrigou o Detran, palco de muita transação corrupta.        Locupletou-se no poder e ganhou o título de Barão do Rio Seco a 13 de agosto de 1812. Depois, em 16, foi elevado a Visconde. E a 1º de dezembro de 1822, D. Pedro I deu-lhe o título de “visconde com grandeza”, o primeiro no país.A 12 de outubro de 1826, D.Pedro deu-lhe um título brasileiro, o de Marquês de Jundiaí.     

      No Museu Imperial, em Petrópolis, há um manuscrito seu de cem páginas, destinado a D. Pedro. E em que ele nega, em detalhe, todas as acusações de corrupção e malversação de dinheiros públicos.       

      Só que o povo, insistia no mal-dizer:      

      “Rico ladrão, foi a Conde      

       E mais ainda a Visconde.      

       Não parou de roubar, e aí,     

       Virou Marquês, de Jundiaí.”         

O Massacre dos Sabinos

fevereiro 29, 2008

            Sabino foi o médico, jornalista e líder político que deu nome à sabinada, o mais bem sucedido movimento armado urbano no Brasil, que chegou a conquistar a cidade de Salvador, a segunda maior cidade do país,  e a declarar a Bahia uma república independente,na madrugada de 6 ara 7 de novembro de 1837. Por nome todo ele era Francisco Sabino Álvares da Rocha Vieira.          

      Quatro meses depois, nos dias 13, 14  e 15 de março de 1838, a cidade sofreu os mais sangrentos combates da sua história. Mais de 60 prédios foram bombardeados pelas tropas imperiais; e soldados e oficiais rebelados abandonaram os postos e eram massacrados, impiedosamente, mesmo depois de entregarem suas armas. Foram 1.089 mortos entre os rebeldes e 40 entre os legalistas.           

      Na verdade, o movimento republicano não era uma unanimidade entre os rebeldes. Todos estavam contra o governo central e o gatilho da revolta foi a saída do regente eleito Diogo Antônio Feijó, em setembro. Dizia-se que, com sua queda. O novo governo imperial iria diminuir a autonomia da Província. Todos protestavam também contra os impostos, que só beneficiavam a Corte. E contra o reconhecimento do valor da luta contra os portugueses que dominavam o mercado varejista de Salvador.           

      O presidente eleito, Inocêncio da Rocha Galvão  e seu vice, João Carneiro da Silva Rego, quatro dias depois da declaração de independência modificaram a posição dos revoltosos para limitar a república e a independência, que só teria validade até a maioridade do Imperador Pedro II (a 2 de dezembro de 1843)           

      Quer dizer que os sabinos não eram separatistas, apenas queixavam-se do governo da Regência.As queixas eram muitas entre os rebeldes, cuja maioria era da classe urbana pobre. A redução do efetivo militar, de 1831, deixaram muitos oficiais desempregados. E a Guarda Nacional, com seus oficiais eleitos (criada naquele mesmo ano), substituía o Exército por uma força civil que só interessava às elites brancas. Na Guarda o racismo exigia batalhões segregados, de brancos, mulatos e negros e muitos dos negros eram oficiais muito populares. Daí o apoio, na sabinada, da maior parte da população, que era negra. Curiosamente, a nova República manteve a escravidão, “por ser um direito de propriedade”, num esforço de conquistar a classe senhorial baiana que, aos primeiros movimentos retirou-se para o Recôncavo.

      Os senhores de engenho é que armaram o Exército para enfrentar os revoltosos. A cidade foi bloqueada, primeiro por mar e depois por terra. A notícia de que os escravos estavam fugindo para alistarem-se nos batalhões deSabinos criou um problema: os soldados só admitiam pretos crioulos, isto é, nascidos no Brasil. Os escravos que haviam vindo da África eram considerados estrangeiros e não podiam servir na tropa…           

      Os portugueses da cidade começaram a ser atacados e os ataques foram ficando cada vez mais violentos. Todos os estrangeiros começaram a ser aterrorizados.Os radicais, com José de Santa Eufrásia, major da milícia negra à frente, exigiam que o poder fosse entregue aos negros.As divisões enfraqueceram o movimento.

      Quando os legalistas tomaram posse de Salvador, a 13 de março, mataram todos os líderes negros. Os líderes brancos foram condenados à morte, “por incitarem escravos à rebelião e por homicídio”. Escaparam da forca porque, em 1840, D. Pedro II anistiou a todos, desde que fossem morar longe de Salvador. Sabino foi viver em Goiás

      O Hino 7 de Novembro, de Domingos da Rocha Mussurunga, cantava: 

“Já que bravos Artilheiros

Com denodo e heroicidade

Ergueram na pátria opressora

O pendão da Liberdade,

Eia, baianos!

 Neste almo dia

Morram tiranos,V

Viva a Bahia!”

Kirov, o Assassino.

fevereiro 21, 2008

Quem vê o balé Kirov, de Leningrado, se apresentando, não sabe que ele não existe mais. Nem imagina quem fosse esse Kirov. Não era maitre de baile, nem bailarino, coreógrafo ou empresário, apenas um admirador do antigo balé Mariinsi.

            Serguei Mironovitch Kirov foi um assassino de Stalin , responsável pela morte de milhares de pessoas durante um dos ataques do terror stalinista.

            Amigo íntimo de Ióssif issariónovitc Djugachvili, depois chamado Stálin,, sua intimidade era tanta que diante dele o Supremo não tinha vergonha do próprio corpo, atacado pela psoríase e com um defeito no braço esquerdo. Entre todos os líderes soviéticos, em todos os tempos, só Kirov freqüentava os banhos com Stálin.

            Quando o Politburo debateu sobre a demolição do Templo do Salvador, um dos atos de vandalismo contra os judeus moscovitas, Kirov foi um dos mais entusiasmado no apoio à proposta. E explicava que tudo era política: Os judeus eram um obstáculo à aproximação com Hitler. Foi ele também o autor da sugestão de que os judeus bolcheviques usassem pseudônimos russos e, melhor ainda, tratassem de mudar seus nomes para nomes “verdadeiramente russos”.

            Primeiro-Secretário do Partido em Leningrado, membro do Politburo, ele falava com Stálin chamando-o de você. Gostava de cantar árias de ópera e era conhecido por sua transbordante alegria e entusiasmo juvenil. Baixo, bonito, com olhos levemente tártaros, marcado pela varíola, cabelos castanhos e maçãs do rosto saltadas, era apreciado por mulheres e homens. Fazia amigos com extrema facilidade. Casado, sem filhos, mulherengo, com queda por bailarinas do Balé Mariinski (que ele controlava), Kirov era viciado em trabalho, gostava de vida ao ar livre, de acampar e caçar. Montanhista ávido, vivia de bem consigo mesmo.

            Stalin o admirava por sua alegria de viver e sinceridade.

Seu nome verdadeiro era Serguei Kóstrikov, filho de um funcionário público de saúde débil. Nasceu em 1886, em Urzhum, a 800 quilômetros a  nordeste de Moscou. Ficou órfão ainda criança e, por caridade, foi recolhido e freqüentou a Escola Industrial de Kazan, onde se destacou.

A revolução de 1905 interferiu em seus planos universitários e ele entrou para o Partido Social-Democrata. Tornou-se um revolucionário profissional Entre um exílio e outro casou-se com a filha de um relojoeiro judeu. Mais tarde revelou-se um anti-semita.

Trabalhou como jornalista na imprensa burguesa (o que era rigorosamente proibido pelo Partido) e isso ficou como mancha no seu pedigree bolchevique.

Mandado para o Astracã, impôs o poder bolchevique em março de 1919 com um derramamento de sangue: respondeu pessoalmente por mais de 4 mil mortos. Quando um burguês foi apanhado escondendo mobília, matou-o pessoalmente.

Bolchevique brutal da geração da guerra civil,ele ajudou a promover a tomada da Geórgia em 1921.

Em 26 Stálin promoveu Kirov ao comando do Partido em Leningrado e em 30 fez que entrasse para o Politburo E gostava tanto dele que ia apanhá-lo pessoalmente da estação de trem quando o convidava para passarem as férias juntos em Sotchi.

Após a morte de sua mulher, Nádia (que se matou) a amizade de Stálin por “meu Kiritch” (como ele chamava Kirov) tornou-se ainda maior. Com freqüência sua presença era requisitada e passavam dias e noites  bebendo e contando piadas sujas, caçoando um do outro, rindo.

Kirov admirava Stálin, mas fazia críticas a ele e não tinha medo de falar o que pensava. Por exemplo, manifestou-se contra o racionamento do pão e foi um dos poucos a falar sobre a grande fome do povo. Freqüentemente dormia num sofá no apartamento dele. Svetlana, filha de Stálin, gostava muito do “tio Kirov”, que a chamava de Setanka.

Russo, popular, vigoroso, trabalhador, Stálin viu nele, por um bom tempo, seu melhor candidato a sucedê-lo.

Abalados com as matanças e a brutal administração de Stálin, alguns líderes procuravam uma figura para colocar no lugar de Stálin. Chegaram  a Kirov. Ele, imediatamente, reportou-se a Stálin, dando nome aos bois.

Stálin reagiu com hostilidade aos conspiradores. mas, curiosamente, começou a perder a confiança em Kirov por ter sido escolhido como candidato a substituí-lo…

No 17º Congresso do Partido Comunista Kirov foi ovacionado de pé. Uma das tarefas do Congresso era eleger o Comitê Central. Stálin recebeu 1056 votos e Kirov 1055, de um total de 1059 votantes.

Ele insistiu que o povo estava faminto e morrendo, contra todos os relatórios dos grandes nomes que cercavam Stálin.  Aceitando a verdade desses relatórios, Stálin teve um acesso de raiva e disse que o povo escondia alimentos e não queria pagar os impostos. Para ele, a colheita estava sendo pequena por sabotagem de conspiradores, inimigos do povo.

            Após a plenária que discutiu o assunto das colheitas e que desmentiu, oficialmente, a fome do povo, Stálin acompanhou Kirov até o trem Flecha Vermelha, para Leningrado. E disse: “Viu, como você estava enganado?” Mas Kirov insistiu: “Você é que está sendo enganado.” Stálin abraçou-o.

No dia seguinte Kirov estava de volta ao trabalho em Leningrado.

A 1º de dezembro começou a preparar um discurso em casa. De capa de chuva e gorro de operário foi do seu apartamento para o escritório. Entrou no prédio neoclássico e grandioso do Instituto Smolny pelo acesso principal. Subiu as escadas para seu escritório, no terceiro andar, seguido por seu guarda-costas, Borissov que, no meio da escada foi detido por um oficial que queria uma resposta.

Kirov saiu da escada, virou à direita e cruzou com um jovem de cabelos pretos, Leonid Nikoláiev, que se encostou á parede para deixá-lo passar. Então, puxou um revólver Nagan e atirou na nuca de Kirov a curta distância.

Borrissov chegou correndo, de revólver  na mão, mas era tarde.

Nicoláiev virou o revólver para si mesmo e apertou o gatilho, mas um eletricista que trabalhava no corredor conseguiu derrubá-lo. Ele foi preso. Estava inconsciente. Torturado, morreu sem confessar, do coração, como milhares de torturados pelo regime soviético..

Kirov ficou exposto em câmara ardente. Vestia uma túnica azul. O corpo estava cercado por bandeiras vermelhas, palmas tropicais e coroas de flores, no Palácio Taurida (cenário do baile que o Príncipe Potemkin ofereceu a Catarina, a Grande, em 1791).

Às nove e meia da noite de 3 de dezembro, Stálin e o Politburo formaram a guarda de honra. Às dez da noite carregaram o esquife até uma carreta de canhão que transportou os restos mortais de Kirov, lentamente, até o trem que o transportou para Moscou.

O trem partiu depois da meia-noite, deixando para trás o cérebro de Kirov, para ser examinado no Instituto Leningrado em busca de “sinais da inteligência revolucionária”.

Kirov ficou em exposição no Salão das Colunas.

Às dez da manhã do dia 5, com a rua Gorki fechada e rígida segurança  a orquestra do Bolshói tocou marchas fúnebres. Stálin disse que ele era “seu camarada martirizado”. Em sua homenagem mudou o nome da sua cidade natal, Viatka, para Kiróv. Que também nomeou centenas de ruas e praças e até o balé Mariianski, de Leningrado.

Na hora em que os líderes se despediam de Kirov, cujo corpo ia ser cremado, Stálin disse: “Adeus, querido amigo, nós o vingaremos!”

Na manhã seguinte a urna com as cinzas foi depositada em um minitemplo clássico ornamentado, do tamanho de um esquife, coberto de flores, saudado por clarins. Kaganóvitch discursou chamando-o de “bolchevique perfeito”.

Depois das denúncias de Kruschev o balé Kirov voltou a ser chamado Balé Mariianski. Mas, como no exterior havia sido Kirov e assim fizera o seu prestígio, na Rússia é Mariianski, mas para o resto do mundo ainda é o Kirov.