Vida Seca e Severina

SOLUÇÕES

As Universidades Federais do Nordeste concluíram que “a estrutura agrária do semi-árido é moralmente injusta, economicamente improdutiva e socialmente geradora de miséria”. 

Afirmar que o Nordeste é inviável é esquecer que a civilização humana nasceu em região muito semelhante e que as terras áridas e semi-áridas cobrem a maior parte de 170 países. Mas, para que ele seja viável, desencravaram um velho projeto do coronel Mário Andreaza no governo José Sarney, a transposição do Rio São Francisco. (Como foi dele também a idéia da Transamazônica, anunciada como a “redenção do Nordeste e da Amazônia” e foi a redenção apenas para as grandes empreiteiras.) A promessa é de “resolver, definitivamente, o problema de água para consumo humano no Nordeste”. A mesma velha promessa dos açudões que, como se sabe, não matam a sede nordestina.

Andreaza propunha transpor 300 metros cúbicos por segundo, para fazer irrigação e matar a sede do povo”. Até hoje o projeto é apenas de transposição. Não há planejamento para o aproveitamento da água, a não ser para as grandes indústrias e os grandes complexos agroindustriais.

Nos anos 80 o Instituto Joaquim Nabuco já denunciava a “Transamazônica de água”, chamando-o de “megaloprojeto sem preocupação social”. No entanto, num bom retrato das elites nordestinas, são raríssimos os deputados federais do Nordeste que estão contra o projeto de transposição de águas.

  

De 1500 até hoje o Nordeste registrou 25% de anos mito secos. Mas a cada século está ficando pior. No século 20 tivemos mais de 30% de anos secos.

 A primeira providência concreta para solucionar os problemas do Nordeste é o que os professores universitários chamaram de “remoção das barreiras mentais” que “têm sido um entrave maior do que as secas”. Só isso permitirá ver que “o desenvolvimento do setor agrícola é que traz solicitações para todos os outros segmentos, porque as economias se desenvolvem normalmente e não de forma artificial”. Depois é preciso deixar de confundir desenvolvimento com progresso. O progresso tem preocupação social e o câncer é um desenvolvimento. 

A seguir é necessário deixar de combater a seca, que não pode ser vencida, e aprender a conviver com ela, de modo inteligente, de modo a tirar proveito, acabando com o desperdício de 90% da água que cai sobre o solo nordestino e aprendendo a usar melhor os recursos hídricos (como fizeram, por exemplo, os israelenses).

Deixar de concentrar água na superfície, dando preferência às barragens subterrâneas, que lidarão com os rios que correm por baixo e que, devidamente contidos, podem criar novas áreas agriculturáveis.

Então, mudar a estrutura econômica, o sistema produtivo, criar uma economia capaz de empregar, de criar renda. Fazer uma reforma agrária que não seja a simples distribuição de terras, assentando a população e criando uma infra-estrutura para escoar a produção, porque o minifúndio improdutivo já é um dos problemas do Nordeste.

Aqui estão as soluções apontadas pelos técnicos e professores das Universidades Federais do Nordeste, recolhidas em um Seminário (promovido pela Rede Globo) , que não foram implementadas e que têm tecnologias disponíveis:

·        Criação apenas de animais resistentes (caprinos, ovinos, asininos, muares, eqüinos, bovinos apenas da raça zebu, galinhas de capoeira, guiné, perus, patos, marrecos, preás e emas).

·        Criação de abelhas junto a bosques naturais ou plantações de algaroba, cajueiros ou xerófilas.

·        Criação de peixes e camarões de água doce em açudes, lagoas e viveiros.

·        Criação de camarões marinhos em fazendas marinhas, nos estuários dos rios ou em salinas desativadas.

·        Criação de moluscos, marinhos e terrestres

·        Fazendas marinhas de algas

·        Cultivo de forrageiras resistentes, como a algaroba e a palma, leuceria, sorgo, milhete, capim buffel e cunhã.

·        Construção de barragens sucessivas nos rios subterrâneos.

·        Construções de barreiros, implúvios e cisternas acessíveis à população.

·        Perfuração de poços tubulares e amazonas nos solos sedimentares e nos aluviões à margem dos rios.

·        Instalação de biodigestores.

·        Instalação de cata-ventos e quebra-ventos.

·        Uso extensivo de cobertura morta, silagem e fenação.

·        Exploração das vazantes dos rios para plantio e exploração comunitária.

·        Aplicação de técnicas de lavouras seca.

·        Uso de forrageiras nativas.

·        Irrigação controlada.

·        Dessalinização da água.

·        Uso extensivo de técnicas de agriculturas defensivas naturais (sem agrotóxicos).

·        Começar o novo Nordeste pelas chamadas frentes de emergência, só alistando quem precisa, sem intervenção de compadresco, pagando pontualmente um salário justo e permitindo que a comunidade participe do debate, oriente as prioridades de obras, decida e fiscalize os trabalhos.

·        Desvincular os programas sociais de interesses político-partidários.

·        Estabelecer como prioridades nas obras públicas o interesse público.

·        Desapropriar as áreas beneficiadas pelas obras públicas quando elas foram construída no interesse dos latifundiários.

No final do século 16 e durante todo o século 17, O Nordeste liderava a vida econômica do Brasil Colônia, em função do açúcar e do gado. O que deslocou o pólo dinâmico da economia brasileira para o Sul foi a descoberta do ouro, em Minas Gerais, em fins do século 17 e começo do 18. Com o café, primeiro no Rio de Janeiro e depois em São Paulo, já no século 19, é que se consolidou o predomínio do Sul-Sudeste.

E sempre houve seca no Nordeste.

Mesmo depois do ouro, do café e com toda a seca, as disparidades regionais não eram tão grandes, antes do processo de industrialização. Não havia, no nordeste,miséria nem abandono. E produzia-se, a tal ponto que até 1940 a receita do Estado de Pernambuco era maior que a do Estado de São Paulo.

Foi a industrialização, feita em torno dos grandes centros do Sul-Sudeste que atraiu os nordestinos para as maravilhas do consumo e a facilidade dos serviços públicos. As cidades incharam, por não haver planejamento para o crescimento urbano. Só nos últimos 60 anos é que a miséria e a fome se instalaram e afastaram cada vez mais o Nordeste da qualidade de vida do Sul Maravilha (como chamava o Henfil).

Não haverá solução para o Brasil, enquanto não solucionarmos os problemas do Nordeste. Recursos humanos não faltam. Inteligência e conhecimento também não. A taxa liquida de atividade, que retrata a participação da população economicamente ativa, é maior  no Nordeste do que no resto do país. O que quer dizer que não é por falta de trabalhar que o Nordeste não vê chegar novamente sua hora e sua vez.

Certamente, é preciso conscientizar mais os eleitores, porque a representação política, no geral, deixa a desejar e trabalha pouco para o Nordeste e para resolver seus problemas.

São Saruê é um país mítico, onde tudo é riqueza.  Mitologicamente ele fica no Nordeste brasileiro, mas só existe mesmo na imaginação criativa do povo nordestino. É uma utopia, um sonho,  mas o sonho é possível se não se quiser, como sempre, aproveitar a seca para tornar os ricos mais ricos, com o dinheiro devido aos pobres, tornando suas vidas cada vez mais severinas.

  

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