Sem Porcelanas em Dresden II

 

Em junho de 1944 os alemães começaram a  atacar Londres com as bombas-voadoras.foguetes não-tripulados.  O efeito foi devastador e os locais de lançamento das V1 passaram a ser objetivos de alta prioridade.

Cerca de 40% da produção de bombas de 500 quilos era completada em fábricas na área de Londres e os ataques  deixaram essa produção seriamente afetada, prejudicando o programa de bombardeio das ferrovias francesa, de fundamental importância para o transporte de tropas alemãs e para o projeto de invasão aliado.

Na noite de 30 para 31 de março, 95 bombardeiros de uma força de 795 deixaram de voltar a um ataque a Nuremberg.  O marcante sucesso dos caças interceptores noturnos deveu-se ao fato de que os alemães sabiam do ataque e se prepararam, sabendo até da incompetente rota direta de retorno.

O General Eisenhower assumiu o Comando Supremo em abril e revelou sua insatisfação com o Comando de Bombardeiros britânico, que passou o verão sem condições de atacar como nas grandes ofensivas de 43.

Em setembro, uma força de somente 217 Lancasters, em vôos rasantes, fez um ataque tão concentrado que em 30 minutos o coração da cidade de Stuttgart estava arrasado.  O Grupo de Bombardeiros nº 5 fazia história , inovando o modo de atacar.

A 11 de setembro o mesmo grupo ataca Darmstadt, estendendo duas largas linhas através da cidade, formando um V. Feixes de bombas foram calculados para saturar toda a parte administrativa da cidade e suas áreas residenciais.. Dos 240 Lancasters enviados, 234 atacaram despejando 872 toneladas de bombas, inclusive 286 mil incendiárias e 2 mil arrasa-quarteirão de 2 mil quilos.

A tempestade de fogo que surgiu cerca de uma hora depois do ataque começar abrasou todo o interior da cidade, queimando até os edifícios não danificados pelas explosões.  O insuportável calor matou a todos e impediu a entrada de bombeiros durante  muito tempo. O revestimento químico de proteção contra o fogo do madeiramento dos telhados, útil em Kassel, foi inútil em Darmstadt.  O ar deslocado pelo calor  e as ondas de descompressão fizeram voar portas e janelas.  Às duas da madrugada a tempestade de fogo nas ruas excedia de 10 a 12 vezes a força dos furacões.  O tufão só abrandou depois das 4 hortas.  A devastação atingiu 78% da cidade, 21.478 residências foram destruídas e 70 mil ficaram desabrigados.  Na Cidade Velha só cinco edifícios escaparam. Foram 12.300 mortos, 1.800 dos quais irreconhecíveis e 4.500 pessoas dadas como desaparecidas. Causa predominante das mortes: asfixia e queimaduras.

 

Em fins de 1944  um ataque da aviação americana ao vizinho complexo de gasolina sintética  de Ruhland, fez cair algumas bombas nos subúrbios de Dresden. O ataque foi uma sensação local  e os escolares reuniram fragmentos de bomba para vender como lembrança, enquanto donos de carruagens organizavam excursões turísticas às ruas atingidas.  Nunca  alguma coisa semelhante havia acontecido à cidade. O povo, quase que unanimemente,  acreditava que o bombardeio havia sido um acidente, um infeliz engano de um navegador.  Havia a certeza de que Dresden não seria atacada: a cidade era um centro cultural com teatros, museus, salas de concerto e instituições de ensino, universidade,  não tinha qualquer indústria vital e estava cheia de prisioneiros de guerra franceses, belgas e ingleses que tinham até uma certa liberdade, além de sediar hospitais militares.

Além disso, sabia-se de uma sobrinha alemã de Churchill, que estudava em Dresden. (Na verdade, essa pessoa nunca existiu.) A guerra parecia muito distante e a população imaginava estar vivendo em uma cidade aberta, embora ela jamais houvesse sido declarada como tal.

Dresden só era importante como ponto-chave do sistema postal e telegráfico alemão e nem mesmo tinha artilharia antiaérea.

A decisão de atacar Dresden foi responsabilidade do militar britânico Marechal-do-Ar Sir Arthur Harris e do militar americano Tenente-General James H. Doolitle, como parte da ofensiva contra os centros populosos de leste “para provocar a revolta do povo alemão contra seus dirigentes”…  Uma das mais belas e ricas cidades alemãs, com uma população de mais de um milhão, mais os refugiados e 26.620 prisioneiros de guerra trabalhadores,  foi atacada durante as 14 horas e 30 minutos que se seguiram às 22 e 15  da noite de 13 de fevereiro de 1945. Era parte do plano de destruir pelo menos a metade das 60 principais cidades alemãs que fora aprovado pessoalmente pelo Primeiro-Ministro Winston Churchill para “acabar com o moral alemão”.

Harris planejou um ataque duplo da RAF a Dresden, imaginando uma vantagem: os esquadrões de combate, com o primeiro bombardeio terminado, estariam em terra para reabastecer.  Ele e seus táticos calcularam que o ideal seria um intervalo de três horas entre os ataques do duplo golpe, porque os bombeiros e a defesa civil estariam ocupados e seriam eliminados pela segunda leva de bombardeiros. Além disso, em três horas os incêndios teriam atingido grande desenvolvimento, alimentados pelo vento forte.

Tudo aconteceu como previsto: as brigadas de incêndio das grandes cidades da Alemanha Central correram para socorrer Dresden.  Os incêndios em uma grande área não foram extintos pelos habitantes que preferiram ficar em seus abrigos, assustados pelas explosões das bombas de tempo (outra novidade do ataque).

Estava montado o cenário para a tragédia final, a tempestade de fogo.

A ordem executiva para bombardear Dresden não passou sem  problemas: logo que foi recebida o Comandante do Grupo Esclarecedor telefonou para certificar-se de que o Estado-Maior havia entendido mal a ordem.  Muitos oficiais mais graduados ficaram surpresos com a confirmação do Vice-Marechal-do-Ar Bennett.  Quando os 6 mil aviadores do Comando d Bombardeiros acabaram de receber suas instruções, o descontentamento da maioria era evidente. O Marechal-do-Ar Sir Robert Sandbury, no Quartel-General do Comando de Bombardeiros não podia ver motivos para bombardear Dresden, cidade que nunca estivera em qualquer lista de objetivos militares.  As instruções falavam em  atacar o Quartel-General do Exército Alemão em Dresden, o Quartel-General da Gestapo, os “depósitos de gás venenoso” e os “armazéns de abastecimento da Alemanha”.  Eram mentiras.  Normalmente, quando um esquadrão era instruído para o que era considerado um objetivo importante, os aviadores davam um hurra quando o Comandante subia à tribuna.  Mesmo quando era uma missão difícil. Para a missão de Dresden não houve o hurra.

Mas o ataque ocorreu com terrível precisão militar: primeiro as janelas e telhados foram despedaçados por bombas altamente explosivas; então começaram a cair as incendiárias, pondo fogo nas casas e levantando chamas e fagulhas que iam atingir outras casas, pelos telhados e janelas, ateando fogo às cortinas, tapetes, móveis e madeiramento dos telhados

A ordem de decolar chegou tarde demais para o esquadrão noturno que poderia defender Dresden. Os Messerscmitt bimotores precisavam de mais de meia hora para atingirem altitude de ataque

Os poucos canhões que defendiam Dresden também ficaram silenciosos.  Não houve esboço de defesa.  Os pesados Lancasters puderem bombardear de baixa altura, assegurando a perfeita distribuição de bombas sobre o setor marcado para ataque pelos sinalizadores.

Os Lancasters do primeiro ataque estavam de volta à Inglaterra às 22 e 30.  E os 529 bombardeiros da segunda onda chegaram a por volta de 1 hora e 30 minutos da madrugada de 14.  Todo o centro da cidade já estava em chamas e os bombardeiros, sem encontrar resistência, baixaram de 6 mil para 2 mil metros.  O segundo ataque foi uma surpresa ainda maior para os habitantes de Dresden.

Nas suas memórias, o piloto E.H.Emmott escreveu que “pela primeira vez em muitas operações  tive pena da população em terra”.  O último avião sobre o objetivo passou sobre Dresden atrasado, dez minutos. “Havia um mar de fogo cobrindo, ao que eu pude avaliar, uns 80 quilômetros quadrados. O calor que subia   da fornalha embaixo podia ser sentido da minha cabina.  O céu estava brilhantemente colorido de vermelho e branco, e a luz no interior do avião era a de um suave pôr-do-sol de outono.  Estávamos tão aterrorizados com as assustadoras chamas que, embora sozinhos sobre a cidade, sobrevoamos por muitos minutos, antes de começar a viagem de volta, completamente subjugados pelo que imaginávamos  quanto ao horror que devia estar acontecendo embaixo.  Trinta minutos depois de partir, a mais de 200 quilômetros de Dresden, ainda podíamos ver as chamas do fogaréu.”

Aproximadamente 650 mil incendiárias foram lançadas sobre a cidade.  Centenas de arrasa-quarteirão de 2 mil e de 4 mil quilos. Foram envolvidos 1.400 aviões do Comando de Bombardeiros. Dos quais se perderam apenas seis, um atingido por bombas que caíam de um avião acima e três abatidos no retorno. O Comando comemorou  “o mais frutuoso reide noturno na história desse Comando de Bombardeiros, cobrindo a mais profunda penetração na Alemanha, com perdas de menos de meio por cento”.

Para Dresden, no entanto, ainda não era o fim:uma nova força de bombardeiros, americana, já estava a caminho com 1.350 Fortalezas Voadoras e Liberators.  Como o General Carl F. Spaatz, Comandante-em-Chefe da 8ª Força Aérea resistia firmemente a todas as propostas  de tentar aterrorizar o povo alemão para que se voltassem contra as autoridades e capitulassem, e se recusava a enviar  bombardeiros pesados para o ataque a cidades desarmadas e que poderiam ter fortes baixas civis “porque isto, ao contrário, pode convencê-los de que somos bárbaros, como acusa a propaganda nazista”, ele foi convencido que o bombardeio era a “importantíssimos entroncamentos ferroviários que podem decidir o futuro da guerra.”

Ele ainda insistiu, em um memorando, que “nunca permitiremos  que a história desta guerra nos convença a lançar bombas estratégicas no homem na rua”.  Mas ordenou o ataque.

Londres, terminada a guerra, contabilizou 600 acres destruídos pelos bombardeios alemães; Dresden  teve 1.600 acres devastados em dois dias e três noites.  Pela primeira vez na história da guerra  um ataque aéreo  atingiu um objetivo de tal modo que não havia sobreviventes em número suficiente para enterrar  todos os mortos. Em Hiroshima e Nagasaki, que vieram depois, as bombas atômicas provocaram  menos mortes do que o bombardeio de Dresden.

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