Sem Porcelanas em Dresden I

            Hoje não  há porcelanas em Dresden!”  Foi com essas palavras, em tom jocoso, que um locutor da BBC anunciou para o mundo a destruição da cidade alemã de Dresden, no mais devastador ataque aéreo da história da Segunda Grande Guerra, pior do que Hiroshima e Nagasaki.  Nos dias 13 a 14 de fevereiro de 1945 quase dois mil bombardeiros aliados lançaram 3 mil toneladas de bombas sobre a cidade indefesa, sendo 650 mil incendiárias.

            A idéia do bombardeio tático era criar uma tempestade de fogo e ela atingiu mais de mil graus centígrados.  Morreram 135 mil pessoas, mais do que todas as vítimas dos ataques aéreos contra a Inglaterra.. Foram destruídas 24.866 casas de uma cidade que se acreditava uma cidade aberta (como Oxford) por sua riqueza cultural, seus museus, sua universidade, suas porcelanas.

            Foi um crime de guerra. Só que, na vitória, não há crimes de guerra.

            Os historiadores da guerra aérea informam que o primeiro ataque contra o território alemão ocorreu no dia 10 de maio de 1940.  Nessa tarde começava a invasão da França e dos chamados Países Baixos (Holanda, Bélgica e Luxemburgo). Nesse mesmo dia o primeiro-ministro britânico Neville Chamberlain (que era contra o bombardeio da população civil) foi substituído por Winston Churchill.  A ordem para deixar de lançar folhetos de propaganda e passar a lançar bombas veio diretamente de Churchill.

            Três bimotores, voando a 1600 metros de altura, bombardearam Freiburg-im-Breisgau.  As pequenas mas poderosas bombas de 50 quilos explodiram muito longe do alvo, o aeródromo militar.  Duas das bombas atingiram um play-ground infantil na Kolmar-Strasse.  A polícia anunciou 57 vítimas: 11 soldados, 11 homens civis, 13 mulheres civis, 22 crianças.

            O Ministério da Propaganda alemão denunciou o bombardeamento da cidade aberta, “completamente afastada da zona germânica de operações e desprovida de objetivos militares”.

            O Ministério do Ar britânico classificou a nota alemã como inverídica, “outro exemplo da falsidade germânica” e relembrou o compromisso da Real Força Aérea de não permitir o bombardeamento de populações civis.  Fez mais: acusou a aviação alemã de bombardear a cidade “como parte de uma bem organizada trama para justificar bombardeios alemães à população civil”. Alguns dias depois do ataque a Freiburg a Luftwaffe desencadeou o seu mais tristemente famoso ataque de toda a guerra, durante a batalha de Rotterdam, no qual milhares de holandeses foram chacinados.

            A cidade holandesa vinha resistindo, corajosa e bravamente, às tropas alemãs, quando o general Von Küchler, Comandante do 18º Exército, determinou: “A resistência em Rotterdam deve ser esmagada por todos os meios.  Se necessária, a destruição da cidade deve ser considerada e realizada”.

            Foi considerada e realizada, mesmo depois que a capitulação do exército holandês ter sido entregue ao Alto Comando Alemão.

            O primeiro ataque da RAF (Royal Air Force) a Berlin foi na noite de 25 para 26 de agosto de 1940, como revide ao ataque da Luftwaffe na noite anterior, quando pela primeira vez foram jogadas bombas no centro de Londres.  (Em 52 dias. morreram 1.333 civis nos ataques à Inglaterra.)

            Depois de tentar, sem sucesso, aliar-se aos “primos ingleses”, Hitler determinou que Londres fosse arrasada.  Na tarde de 7 de setembro a Luftwaffe atacou de surpresa, à luz do dia: 247 bombardeiros, escoltados por centenas de caças, destruíram depósitos de gasolina e instalações portuárias ao longo do Tamisa, com um total de 355 toneladas de altos explosivos e 440 de incendiárias, marcando o fim da chamada Batalha da Inglaterra. Entre 7 de setembro de 1940 e 16 de maio de 1941 a Luftwaffe lançou 18.921 toneladas de bombas em 71 ataques maciços, deixando ao desabrigo em Londres, Birmingham e Liverpool 375 mil pessoas.

            A eficiência e eficácia dos bombardeios aéreos sobre o esforço de produção era um debate constante, tanto entre os alemães quanto entre os britânicos.  O Vice-Marechal-do-Ar Harris afirmava que o esforço do Comando de Bombardeiros havia diminuído a produção alemã em 25% mas não se sabe a origem desse dado.

            A ineficiência dos Bombardeiros e a má pontaria só se revelaram  depois de um relatório de Bensusan-Butt, depois de cuidadosa análise das fotografias aéreas feitas pelo próprio Comando de Bombardeiros e pela Unidade de Reconhecimento Fotográfico..  Esse relatório, entregue em 1941 tinha detalhes inacreditáveis: de todos os aviões que afirmavam haver acertado os alvos, apenas um terço o fizera co m um aproximação de sete quilômetros… E nos objetivos bem defendidos por artilharia aérea, como o complexo industrial do Ruhr, os acertos caíam para um décimo.  Decidiu-se que era inútil continuar esperando precisão nos ataques noturnos, até que pelo menos uma parte dos aviões do Comando fosse provida de equipamentos eletrônicos semelhantes aos dos alemães.

            Em 9 de julho de 1941, o Vice-Marechal-do-Ar N.H. Bottomley, Chefe Adjunto do Estado Maior, emitiu uma diretiva ao Comandante-em-Chefe do Comando de Bombardeiros:

“Desejo informá-lo de que uma minuciosa revisão da atual situação política, econômica e militar do inimigo revela que o ponto mais fraco de sua armadura está no moral de população civil e no seu sistema interno de comunicações.”

“O esforço principal da força de bombardeiros, até novas instruções, deve consistir em procurar desarticular o sistema alemão de transportes e destruir o moral da população civil em conjunto.”

“Precisamos primeiro destruir os alicerces, sobre os quais assenta a máquina de guerra alemã, a economia que a alimenta, os suprimentos que a nutrem e as esperanças de vitória que a inspiram.”

Não foi deixada qualquer dúvida quanto à maneira de realizar isso, o que incluía o crime de bombardear população civil indefesa.  Ate os alvos preferenciais foram indicados, escolhidos porque, uma vez atingidos, “os efeitos psicológicos serão os maiores”.

Um ataque ao moral inimigo exigia novas técnicas e partia da observação fo Estado-Maior do Ar: “o maior dano ocasionado pelo inimigo era causado pelos incêndios”.  Bombas alemãs, em igualdade de peso, eram duas vezes mais eficientes do que as inglesas.

O plano era bombardear a Alemanha entre março de 42 e junho de 43 para deixar ao desabrigo um terço da população.

Wuppertal foi um exemplo do que se imaginou e da efetividade da nova técnica. Havia pouca defesa antiaérea, os marcadores luminosos foram lançados numa extremidade do alvo para que qualquer bomba lançada, mesmo precipitadamente, atingisse o alvo. ( O que se dizia é que os coelhos lançavam as suas bombas logo que possível e abandonavam rapidamente a área do objetivo, sem se importarem com o destino das bombas.)

A forma de 719 bombardeiros foi instruída a atravessar a cidade ao longo do seu comprimento e 475 lançaram sua carga de bombas no coração de Wuppertal-Barmen. Foram 1895 toneladas de incendiárias e explosivas.

A produção industrial parou por 52 dias, foram mortas 2.450 pessoas e o número de vítimas civis em tão grande escala despertou a atenção dos líderes alemães da guerra.  Até mesmo em Londres houve murmúrios horrorizados quando as fotos com o resultado do ataque foram publicadas..  The Times de 31 de maio lembrou Rotterdam.

Antes que passassem seis anos de guerra, 635 mil civis alemães morreriam nas ofensivas aéreas que antes eram orgulho da Luftwaffe.

A Batalha de Hamburgo (que começou no dia 24 de julho de 1943), foi importante porque demonstrou claramente que mesmo uma cidade bem defendida não estava imune se não pudesse deter os bombardeiros incendiários.  E por registrar a primeira grande tempestade de fogo na História.

O aviões ingleses jogaram tirinhas de metal de 25 centímetros de comprimento que bloqueara, com grande sucesso, o equipamento de radar que orientava os canhões das baterias antiaéreas.

Nos quatro principais ataques foram despejadas 7.931 toneladas de bombas sobre a cidade, metade delas incendiárias.  A catástrofe não podia ser evitada, embora a cidade houvesse passado por um custoso programa de construção de reforços e abrigos, inclusive túneis que permitiam ficar debaixo da cidade e circular por ela longe das bombas.  Foram, inclusive, executados todos os processos  capazes de permitir, em caso de grandes incêndios, um fornecimento d’água de emergência. O próprio contorno do lago Alster foi mudado, para confundir os navegadores.

O problema é que a população , previdente, havia acumulado nos porões grandes quantidades de combustível e de carvão, à espera do inverno. No fim de três ataques a Hamburgo os mortos chegavam a 50 mil.  Os feridos graves somavam  37 mil  e os desabrigados mais de  427 mil. Militares mortos: menos de mil. (Nos bombardeios às Inglaterra morreram 51.509 civis.)

O povo alemão, desinformado ou contra-informado, não teve idéia do que significava o bombardeio de Hamburgo e a batalha da comunicação, por parte dos britânicos, não teve efeito sobre o moral germânico.  Sir Arthur Harris lamentou que o Comando de Bombardeiros não pudesse ter repetido, em rápida sucessão, a catástrofe de Hamburgo “em mais quatro ou cinco cidades alemãs”.

O segundo grande sucesso em provocar uma tempestade de fogo ocorreu na noite de 22 para 23 de outubro de 1943 e o objetivo foi Kessel, centro da produção alemã de tanques e de locomotivas.  Pessoal bem treinado em falar alemão, transmitindo pelo rádio de Kingsdown, em Kent, irradiou instruções falsas aos caças noturnos da Luftwaffe, para retardá-los e para levá-los a crer que ataques diversionistas eram o ataque principal.  Além disso, falsas informações meteorológicas levaram um grande número de pilotos alemães a aterrar e dispersar.

O ataque diversionista foi em direção a Frankfurt-am-Main às 20 horas e 40 minutos. Cinco minutos depois começou o ataque a Kassel, muito concentrado, porque a cidade estava sem a proteção dos caças.  Quando eles chegaram, vindos de Frankfurt, a cidade já estava incendiada pelas primeiras vagas de atacantes, porque ao receber a notícia de que Frankfurt estava sendo atacada a defesa antiaérea de Kassel abandonou a vigilância.

Naquela noite lançaram sobre Kassel mais de 1.823 toneladas de bombas e dos 444 bombardeiros, 380 informaram terem atingido o objetivo.  Trinta minutos depois da zero hora a tempestade de fogo comia a cidade: 26.782 casas totalmente destruídas, mais de 120 mil desabrigados, 65% das casas sem condição de moradia, a rede de telefonia e a rede de energia destruídas, toda a indústria parada, por destruição, ou por falta de energia elétrica ou gás.

Ao aproximar-se o inverno de 1943, o Comando de Bombardeiros não estava no fogo somente dos caças alemãs ou das baterias antiaéreas: havia séria controvérsia, dentro e fora do Governo, sobre a morte de civis e a destruição de casas de moradia.  O Partido Trabalhista interpelou o Secretário de Estado para o Ar, querendo saber se a RAF havia recebido ordens para “impedir e desorganizar o esforço alemão mediante a destruição de habitações proletárias”,  Sir Archibald Sinclair mentiu: disse que “nenhuma instrução havia sido dada no sentido de destruir bairros residenciais de preferência a fábricas de armamentos”.

No dia 31 de março, no auge da Batalha do Ruhr, disse, enfaticamente, que “os objetivos do Comando de Bombardeiros são sempre militares”. E ainda pediu ao Arcebispo de Canterbury (que sabia a verdade) não condenasse a ofensiva aérea porque os pilotos ingleses poderiam ter “reservas de consciência” e o moral afetado , o que “certamente irá comprometer a sua eficiência”.

Sir Arthur Harris era contra a hipocrisia, defendia o Comando de Bombardeiros e sua missão e afirmava que a atitude envergonhada do Ministério do Ar “poderia exercer efeito desfavorável nas tripulações, permitindo-lhes imaginar que estavam sendo solicitados a cumprir tarefas imorais”.

A imprensa britânica foi bem trabalhada e quando, em fevereiro de 1944, Dr. Bell, Bispo de Chichester, protestou vigorosamente contra os bombardeios de civis na Alemanha (por informações que recolhera pessoalmente na Suécia), a opinião pública recusou-se a acreditar e a levá-lo a sério.

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