O CAMPEÃO

Aos 72 anos constato,
perplexo,
que nunca fiz um gol.
Nada de sentido figurado:
Nunca, nunca mesmo,
meti a bola nas redes,
jamais balancei o véu da noiva,
sou virgem
de botar a nega lá dentro
ou de empurrar a perseguida
pros barbantes.
Passei toda a vida
nessa inutilidade,
anti-artilheiro,
sem fazer a galera vibrar.
Nada.
Nem um golzinho no treino,
na linha-de-passe,
a vera,
mesmo na pelada.
E não que eu fosse goleiro,
nunca fui,
não posso alegar isso
em minha defesa.
Enquanto tive meniscos
só joguei lá na frente,
de cara pro gol.
Chutar, chutei,
mas nunca marquei,
nem em impedimento
ou com a mão de Deus.
E agora,
na hora da minha morte,
nem com sorte
vou poder fazer
meu gol de honra.
No entanto,
não sou um perdedor;
não, não e não:
já fui até um campeão.

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