O Ser Humano É Um Erro da Evolução

O ser humano tem três cérebros e não tem como determinar qual deles está com o comando da situação no momento. E tem dois tipos de inteligência: o racional e o emocional. Engana-se que defende que a razão deve superar a emoção. O ideal é a harmonia entre o sentimento e o pensamento, no controle que permite ação com sentimento.

Antigamente, a amígdala ficava na garganta.  Hoje fica no cérebro e é um feixe em forma de amêndoa (amigdala, em grego) situado acima do tronco cerebral, perto da parte de baixo do anel límbico.            Há duas amígdalas, uma de cada lado do cérebro, localizadas nas laterais da cabeça.

            A amígdala cortical funciona como um depósito de memória emocional e a vida emotiva, sem ela, é totalmente impossível.  Relativamente grande, em comparação com a de qualquer primata, a amígdala e o hipocampo eram duas partes importantes do primitivo “nariz cerebral” que deu origem ao córtex e depois ao neocórtex. Até hoje essas estruturas límbicas são responsáveis por grande parte da aprendizagem e da memória do cérebro. A amígdala é especialista em questões emocionais, e se ela for retirada o resultado é que a pessoa passa a ter uma impressionante incapacidade de avaliar o significado emocional dos fatos, um mal chamado de “cegueira afetiva”. E fica incapaz de chorar, já que as lágrimas são provocadas pela amígdala cortical (e uma estrutura próxima, a circunvolução cingulada).  Sem amígdala não há lágrimas para aliviar o sofrimento e por mais que você seja abraçado, afagado ou reconfortado, não tem como receber consolo e acalmar-se.

            Quando alguém é submetido a uma violenta emoção, fica furioso e pode cometer atos irracionais.  Depois, dirá que “perdeu a cabeça” e que sentiu como se ela estivesse explodindo.

            Essas explosões emocionais são conhecidas pelos especialistas como “seqüestros neurais” ou “seqüestros emocionais” e também chamados de “seqüestros da amígdala”.  Um centro no cérebro límbico proclama uma emergência e recruta o resto do cérebro para o seu plano de emergência. O seqüestro ocorre momentos antes do neocórtex ter a oportunidade de perceber o que está acontecendo e de poder decidir sobre a melhor reação.  Uma característica desse seqüestro é que, assim que ele passa, o cérebro dominado não tem a menor noção do que deu nele: é o que um advogado criminal chamaria de “privação dos sentidos”.

            Esses seqüestros não são raros nem levam necessariamente a crimes brutais. Na verdade, a tomada do poder neural ocorre com freqüência com todos nós e nem sempre é aflitivo.  Quando ouvimos uma anedota muito engraçada e nossa risada explode, essa também é uma resposta límbica, um seqüestro neural.

            Na arquitetura do cérebro a amígdala é,principalmente, o alarme.  Quando há algum perigo, o alarme dispara mensagens urgentes às principais partes do cérebro e lança no organismo todos os hormônios necessários para lutar ou fugir, mobiliza  os centros  de  movimento, ativa o sistema cardiovascular, os músculos e os intestinos.  Ao mesmo tempo, para aumentar a capacidade de reação das principais áreas do cérebro e tornar os sentidos mais alertas, manda sinais para a produção imediata de gotas de noradrenalina.  Faz mais ainda, determina ao tronco cerebral que acelere o coração, que aumente a pressão sangüínea e que reduza o ritmo da respiração, enquanto vasculha a memória cortical procurando dados importantes sobre a emergência e sobre o melhor procedimento para a situação: a luta ou a fuga.

            Isto é apenas parte de uma série de medidas que a amígdala determina ao cérebro e ao resto do corpo, com uma velocidade assombrosa, através de sua extensa rede de ligações neurais que permite, em qualquer emergência emocional, que ela assuma o comando completo do cérebro, inclusive da sua parte racional.

            A velocidade de resposta da amígdala se deve ao fato de que os sinais sensoriais captados pela visão, pela audição, pelo olfato, pelo tato ou pelo paladar viajam no cérebro pelo tálamo e, por uma única sinapse, direto para a amígdala. Um segundo sinal sai do tálamo para o neocórtex (o cérebro pensante, racional).  Quando a amígdala já está decidindo, é que o cérebro pensante começa a preparar uma resposta cuidadosa para a situação.  A amígdala é capaz de nos lançar em uma ação automática, enquanto o cérebro racional, um pouco mais lento, traça um plano de ação mais refinado.  Em resumo: algumas das nossas reações são o resultado de lembranças emocionais que não têm qualquer participação consciente ou baseada no conhecimento, porque a ligação direta do tálamo com ela contorna o neocórtex. (Por isso mesmo, diante de uma reação emocional brusca e abusiva, nós perguntamos a quem age assim: “Você não pensa antes de agir?”).

            Nos primeiros milésimos de segundo depois de percebermos alguma coisa, compreendemos inconscientemente (isto é, sem consciência) o que é, decidimos se gostamos ou não e reagimos de acordo.  Nossas emoções têm uma mente própria que pode ter opiniões muito diferentes das que tem a nossa mente racional.

            Na amígdala ficam guardadas as opiniões inconscientes, as memórias emocionais.  Na estrutura do sistema límbico, o hipocampo é que faz o registro e atribui sentido, dá a memória precisa dos fatos e permite lembrá-los com exatidão.  Mas é a amígdala que retém o significado emocional que acompanha aqueles fatos.  O hipocampo reconhece o cachorro que avança, mas a amígdala é que sabe que ele é uma ameaça, um perigo.

            Os mesmos sistemas de alarme neuroquímicos que preparam o corpo para reagir a qualquer emergência ou perigo, também gravam esse momento na memória emocional.  Sob tensão, ansiedade, excitação ou intensa alegria, um nervo que liga o cérebro às glândulas supra-renais (que ficam acima dos rins) provoca a produção de dois hormônios: a epinefrina e a norepinefrina.  Esses hormônios invadem o corpo, preparando-o para a emergência, ativam receptores no nervo vago, transmitem mensagens para regular o coração e ainda retransmitem mensagens para o cérebro.

            A amígdala é o primeiro e o principal ponto do cérebro para onde vão esses sinais, e ali ativam neurônios, que por sua vez emitem sinais a outras partes do cérebro, dando reforço à memória sobre o que está acontecendo. Esse estímulo da amígdala, ao que se sabe, é o principal responsável pela gravação, na memória, dos estímulos emocionais mais intensos.  Quanto mais intenso o estímulo da amígdala, mais forte o registro.  Todas as experiências mais emocionantes, boas ou más, ficam gravadas para sempre.

            Isto quer dizer que o cérebro humano tem dois sistemas de memória: um para os fatos e datas comuns e outro para tudo o que sentimos e que está carregado de emoção.  Na luta pela sobrevivência animal, a memória emocional era fundamental para sobreviver aos perigos imediatos, mas hoje as memórias emocionais podem ser um mau conselheiro.

            Enquanto a amígdala prepara uma reação ansiosa e impulsiva, outra parte do cérebro emocional possibilita respostas mais cuidadosas: na outra ponta de um circuito principal do neocórtex, nos lobos pré-frontais, logo atrás da testa, fica a região que permite sufocar ou controlar a emoção, ganhando tempo para tratar da situação depois de avaliá-la melhor.  Essa região neocortical do cérebro dá respostas mais analíticas e mais adequadas a nossos impulsos emocionais, submetendo a amígdala a outras áreas límbicas.

As áreas pré-frontais geralmente governam nossas reações emocionais porque a maior parte das informações sensoriais do tálamo vão para o neocórtex e seus muitos centros e não para a amígdala.  Mais informado, o neocórtex, coordenado pelos lobos pré-frontais, pode planejar e organizar as ações de resposta, depois de uma série de análises da informação através de vários circuitos. Se for identificada a necessidade de uma resposta emocional, os lobos pré-frontais são capazes de determiná-la, trabalhando com outros circuitos do cérebro emocional, inclusive a amígdala.

Quando uma emoção dispara, quase imediatamente os lobos pré-frontais fazem uma avaliação do tipo custo/benefício e decidem qual a melhor reação: atacar, fugir, tentar apaziguar, procurar persuadir, atrair simpatia, provocar culpa, fazer uma bravata, mostrar desprezo e mais um sem-número de ardis emocionais de um vastíssimo repertório.

A resposta do neocórtex é, evidentemente, mais lenta do que o mecanismo do seqüestro, porque precisa transitar por mais circuitos.  Mas também é mais ponderada e certamente mais criteriosa, porque mais pensamentos trabalharam a emoção.

Como acontece com quem perde a amígdala, quem perde o funcionamento dos lobos pré-frontais perde uma grande parte da vida emocional, porque sem compreender que alguma coisa merece uma resposta emocional, não existe resposta.

Não é incomum encontrar crianças e adolescentes com QI acima da média, mas com fraco desempenho escolar: eles sofrem de deficiência no funcionamento do córtex frontal. Essas pessoas, impulsivas, ansiosas e, muitas vezes, perturbadas têm problemas de disciplina e são as mais propensas a ter problemas de relacionamento, mais sujeitas ao envolvimento com álcool e outras drogas, e com a criminalidade.  Elas não têm qualquer deficiência intelectual, mas têm deficiência de controle emocional.

O circuito pré-frontal / amígdala é uma entrada de fundamental importância para o repertório de preferências e aversões que montamos ao longo da vida e muitas vezes tomamos decisões erradas por termos perdido contato com aquilo que foi aprendido através da emoção. Os sentimentos são indispensáveis nas decisões racionais, embora às vezes nos levem a ações irracionais.

O certo é que temos praticamente três cérebros e duas mentes, dois tipos diferentes de inteligência: a emocional e a racional. Nosso desempenho na vida é determinado pelas duas e é preciso haver um equilíbrio inteligente entre as duas para sermos bem sucedidos.  Engana-se quem defende que a razão deve superar a emoção; assim como está enganado quem imagina que a emoção é que deve prevalecer sobre a razão.  A verdade, como sempre, está no meio, no equilíbrio, na razão com emoção, na harmonia do sentimento com o pensamento, no controle que permite a ação, mas leve em conta os sentimentos.

Inteligência emocional, segundo o psicólogo Daniel Goleman, autor do livro Emotional Intelligence, traduzido no Brasil como Inteligência Emocional, é:

  • a capacidade de criar motivações para si próprio e de persistir em um objetivo, apesar das dificuldades;
  • a capacidade de controlar impulsos e de saber esperar pela satisfação de seus desejos;
  • a capacidade de manter-se em bom estado de espírito e de impedir que a ansiedade interfira na capacidade de raciocinar;
  • a capacidade de ser empático e autoconfiante.

E diz mais: que as aptidões emocionais necessárias para se ter uma inteligência emocional podem ser aprendidas e aprimoradas por crianças pequenas, se nos dermos ao trabalho de ensiná-las.

Há muitas evidências de que as pessoas emocionalmente competentes, as que conhecem bem e sabem lidar com os próprios sentimentos, as que entendem e respeitam os sentimentos dos outros, dão-se bem e levam vantagem nas suas relações de parentesco, nas relações amorosas e nas relações de negócio.  Ao contrário, as emocionalmente menos inteligentes não conseguem pensar com clareza e geralmente se dão mal, como pais, como maridos e como empregados ou patrões.

Também há muitas evidências de que nem sempre os mais inteligentes ou mais preparados têm mais sucesso: muitas pessoas de QI baixo e teoricamente mal preparadas se dão melhor porque são autoconfiantes, têm empatia, mantêm-se em bom estado de espírito, são menos ansiosas, controlam seus impulsos e são mais fiéis aos seus objetivos.  Em resumo: são emocionalmente inteligentes.

Outro psicólogo, Howard Gardner, da Escola de Educação de Harvard, diz que “devíamos gastar menos tempo avaliando as crianças e mais tempo ajudando-as a identificar suas aptidões e dons naturais e a cultivá-los. Há centenas e centenas de maneiras de ser bem-sucedido e muitas, muitas aptidões diferentes que as ajudarão a chegar lá”. 

Para Gardner (autor do livro Frames of Mind) o âmago da inteligência emocional está na capacidade de discernir e responder adequadamente ao humor, temperamento, motivação e desejo de outras pessoas, assim como na capacidade de reconhecer nossos próprios sentimentos, classificá-los e usá-los para orientar nosso comportamento.

Na verdade, as emoções enriquecem a inteligência, mas se não tivermos controle sobre elas o modelo mental fica empobrecido.

Para ter uma inteligência emocional é preciso:

1.   conhecer as próprias emoções;

2.   saber lidar com elas;

3.   aprender a motivar-se;

4.   reconhecer as emoções dos outros;

5.   saber lidar com os relacionamentos.

Conhecer suas emoções é ter autoconsciência, é reconhecer um sentimento rapidamente, quando ele ocorre, e ter a capacidade de controlar sentimentos a cada momento, ter discernimento emocional.  A incapacidade de observar, reconhecer e controlar nossas emoções nos deixa à mercê delas.

Quanto mais segura é uma pessoa, a respeito de suas próprias emoções e sentimentos, mais capacidade tem de orientar sua vida, de tomar decisões, porque tem uma consciência maior. Saber lidar com as próprias emoções e as emoções alheias dá à pessoa uma enorme vantagem no relacionamento social.

Aprender a lidar com os sentimentos é uma aptidão que se desenvolve com a autoconsciência.  Tornar as emoções apropriadas, através de nossos mecanismos de controle, é ficar apto para usá-las do melhor modo possível em nosso benefício. Para isto é necessário motivar-se e descobrir quais são as motivações que mais e melhor funcionam.

Reconhecer as emoções dos outros, e respeitá-las, cria empatia, outra capacidade que se desenvolve na autoconsciência emocional e que é fundamental para que a pessoa entre em sintonia com as outras e seja bem recebida por elas. Saber escutar, entender o que os outros precisam, o que os outros querem, o que os outros esperam, é meio caminho para conseguirmos deles aquilo que queremos, porque empatia gera simpatia e boa vontade.

A arte do relacionamento é, na sua maior parte, a arte de escutar, de entender, de lidar com as emoções e os sentimentos dos outros.  Saber lidar com as pessoas por entendê-las é um pré-requisito da empatia, da popularidade, da liderança e da eficiência no trabalho em grupo, da comunicação entre pais e filhos. Interagir com tranqüilidade, controle e compreensão é uma forma de ser feliz e ter o respeito dos outros.

A base da aptidão emocional, do controle das emoções, é a afetividade. Se não houver muito carinho, muita atenção e uma afetividade muito rica, não se pode ensinar a criança a ser emocionalmente inteligente.  Nem se pode educar o adulto, embora ele possa melhorar seu comportamento, combater sua inaptidão e desenvolver algum controle emocional.

Pessoas com QI elevado são, naturalmente, ambiciosas e produtivas, previsíveis e obstinadas, mas também podem ser emocionalmente frias.  Pessoas com um alto grau de controle das emoções geralmente são equilibradas, comunicativas, animadas, têm grande capacidade de engajamento, são solidárias, atenciosas, éticas e têm vida emocional rica. É raro, mas é possível, encontrar pessoas que têm QI alto e bom controle emocional: são as pessoas de mais sucesso, à vontade consigo mesmas e com os outros, em tudo o que fazem, inclusive nos seus relacionamentos.

Mas uma coisa é certa: se formos ao passado das pessoas dos dois últimos grupos, todos tiveram um bom desenvolvimento afetivo.  O desamor, certamente, contribui muito para diminuir o controle dos sentimentos e a inteligência emocional.

Não há desaforo ou preconceito na afirmação, mas é mais fácil encontrar um homem do que uma mulher sem sentimentos.  O homem emocionalmente plano ou vazio não tem emoções, não demonstra seus sentimentos, é incapaz de uma reação. Impassível, indiferente, frio, e é assim porque não se emociona, não tem sentimentos fortes.  Sem raiva, tristezas ou alegrias, não compreende os outros.

Os especialistas chamam isso de alexitimia, palavra composta que vem do grego: a (ausência), léxis (palavra) e thimós (emoção).  Faltam a eles palavras para descrever os sentimentos, porque na verdade eles não têm sentimentos nem capacidade de manifestar emoção. Os alexíticos, por exemplo, raramente são capazes de chorar. Embora haja casos de incapacidade biológica, eles são raros e geralmente a doença foi provocada por acidentes que afetaram o cérebro dessas pessoas.  No entanto, a aleximia e a incapacidade de emocionar-se geralmente são provocadas por pais violentos, castradores e que não admitiam que os filhos ficassem emocionados ou demonstrassem sentimentos, castigando-os com violência quando isso ocorria. 

Ensinar a criança e o adolescente a manifestar suas emoções, a falar delas, a reconhecê-las é um meio de evitar a aleximia e de educar  para a sensibilidade e para a vida emocional. Quando você consegue colocar em palavras o que está sentindo, o sentimento fica sob o seu controle. Ao contrário, sem saber ou sem poder exprimir os sentimentos, você não toma posse do que está sentindo.

Crianças, adolescentes e mesmo adultos impedidos de expressar seus sentimentos, geralmente somatizam: isto é, exprimem a dor emocional através de uma dor física, quase sempre muito intensa (é bom não confundir a somatização com a doença psicossomática, quando problemas emocionais causam doenças físicas autênticas e que exigem tratamento médico).

Resumindo: o desenvolvimento intelectual, isto é, o desenvolvimento da inteligência racional, depende muito das nossas emoções, da nossa capacidade de reconhecê-las, de falar a respeito delas e de controlá-las.  Em outras palavras, depende da inteligência emocional.

Sentimentos fortes podem devastar e até impedir o raciocínio.  Mas a falta de consciência dos sentimentos é ainda mais destrutiva, principalmente na hora de avaliar e de tomar decisões importantes para a nossa vida, para o nosso futuro, decisões duradouras.  Essas decisões não podem ser tomadas apenas com a razão, exigem uma boa dose de intuição, da sabedoria emocional que acumulamos com experiências anteriores.

Houve uma enorme mudança na natureza da infância e da adolescência nos últimos 20 anos.  As habilidades emocionais e sociais básicas de crianças e adolescentes vêm decaindo. 

A crise está instalada e grande parte da literatura e das teorias educativas não dá importância a emoções e sentimentos.  A maioria nem toca no assunto e o resultado é que pais e mesmo educadores não sabem como controlar emoções (há alguma coisa mais antipedagógica do que um professor expulsar um aluno da sala por não saber lidar com ele?).

Não há educação para os sentimentos e as emoções parecem cada vez mais fora de controle e agora temos notícias inéditas até 20 anos atrás: crianças assassinas, não só de outras crianças como de adultos. E crianças cada vez mais jovens. E adolescentes envolvidos em gangues brutais, violentas, capazes de incendiar um índio “por diversão” ou de matar pelo prazer de provocar sofrimento e “ter o que fazer”

É claro que amor e atenção são a base da educação familiar, mas o que temos observado é que, às vezes, todo o carinho e cuidado não são suficientes, quando os pais ou mesmo um deles é emocionalmente descontrolado.  Ou quando o pai ou a mãe é emocionalmente incapaz, tem medo dos seus sentimentos, não consegue expressar suas emoções e nem conversar com os filhos a respeito.  Pais que não sabem lidar com os filhos quando eles estão irritados, ou tristes, ou sob estresse emocional não estão preparando os filhos para um desenvolvimento normal.  E, certamente, vão ter problema com eles.

Pessoas emocionalmente inteligentes são as que estão preparadas para lidar com os sentimentos e as emoções e as que sabem preparar seus filhos para lidar com elas. Esse preparo inclui a capacidade de regular os próprios estados emocionais, para dar o exemplo.

A comunicação emocional é possível e desejável e o treinamento da emoção faz com que pais e filhos compreendam-se e lidem juntos com sentimentos tidos como negativos, a raiva, o medo, a tristeza.  Isso aumenta a afeição e a lealdade dentro do grupo, aumenta a confiança e o diálogo.

Na verdade, não há sentimentos negativos o que há é a conseqüência negativa de alguns sentimentos não controlados emocionalmente.

É interessante verificar que pais emocionalmente atentos desde muito cedo e que cuidam de preparar os filhos ainda bebês, têm mais facilidade para colocar limites quando chega a hora.  É que a aceitação, a obediência e a responsabilidade vêm do afeto, da atenção e da ligação emocional da criança com os pais.  Isto quer dizer que quanto maior for a interação emocional de pai e mãe com a criança, melhor é a base de transmissão de valores e da formação ética e moral.  Mais tarde, é altamente provável que haja melhor diálogo entre os pais e essas crianças quando elas entrarem na adolescência, porque é verificável que famílias emocionalmente integradas têm mais intimidade entre seus membros, maior capacidade e facilidade para o diálogo.

O aumento das separações, da violência, das dificuldades do dia-a-dia tornam imprescindível criar filhos emocionalmente estáveis e bem resolvidos.

Como lidar com os filhos quando os ânimos esquentam? Tanto a criança quanto o adolescente precisam ser tratados com respeito e paciência, qualidades  indispensáveis para educar. Mas há momentos em que a provocação é tão intensa que é difícil ser paciente e manter o respeito, uma vez que nos sentimos desrespeitados e desacatados.  O problema é que o racional não funciona na crise e é preciso saber lidar com as emoções para evitar a crise e/ou para sair dela.

A ciência, nos últimos anos, descobriu muito sobre a importância das emoções e pode-se dizer hoje que sem saber lidar com os sentimentos é impossível ter sucesso e ser feliz.  Perceber os sentimentos próprios e os sentimentos dos filhos, ser capaz de compreendê-los, de controlar os impulsos e de ensinar a fazer esse controle, é o que exige a educação contemporânea.

É na família e com ela que a criança aprende, em primeiro lugar, a relacionar-se (bem ou mal) com os sentimentos, as emoções, os impulsos.  E essa formação não se faz apenas através do que dizemos aos nossos filhos, ou de como agimos com eles, mas do modo como lidamos com nossos próprios sentimentos, emoções e impulsos e do nosso relacionamento dentro da família.  Para o adolescente, isto é fundamental.

Há bons pais e maus pais, do ponto de vista emocional: os que têm controle emocional e orientam os filhos e aqueles que não se controlam e não conseguem dar orientação emocional a eles.

Os pais emocionalmente corretos envolvem-se com as emoções dos filhos, com a raiva, com o medo, com a tristeza. (Por falar nisso, qual é a diferença entre a tristeza e a melancolia?) Não as ignoram nem se opõem à manifestação de sentimentos da criança ou do adolescente.  Ao contrário, aceitam, como parte natural da vida, mas aproveitam os momentos de exaltação emocional da criança ou do adolescente para ensinar importantes lições de vida e construir um relacionamento emocional mais íntimo.

Pais que não dão importância àquilo que a criança está sentindo, que banaliza ou ignora as emoções da criança, os que criticam essas emoções e tentam evitá-las, os que castigam os filhos por demonstrarem suas emoções e os que simplesmente assistem, indiferentes, sem dar apoio, conselho ou limites, são todos maus pais, incapazes de ensinar inteligência emocional aos filhos.  Pais que desrespeitam o adolescente e são incompetentes para compreendê-lo, amá-lo e controlar as crises, são emocionalmente incompetentes.

Preparar emocionalmente uma criança ou um adolescente é um processo que exige que:

1.   os pais sejam capazes de reconhecer e lidar com os próprios sentimentos e emoções, controlando seus impulsos;

2.   percebam os sentimentos e as emoções da filha ou do filho;

3.   façam com que a criança ou o adolescente  reconheça seu sentimento ou a sua emoção; ajudando-o a encontrar palavras para expressar o que está sentindo;

4.   saibam ouvir com empatia, apoiando e legitimando os sentimentos e as emoções da criança ou do adolescente;

  • 5. aproveitem a oportunidade para ensinar, desenvolver os controles e aumentar a intimidade com a criança ou com o adolescente;
  • 6. coloquem limites e saibam explorar as estratégias para evitar as crises e/ou solucioná-las.

Quais são as vantagens do preparo emocional?

Em primeiro lugar, desenvolver os controles e a inteligência da criança ou do adolescente. Crianças e adolescentes com preparo emocional também são mais saudáveis, do ponto de vista físico, porque raramente somatizam.  Geralmente têm melhor desempenho na escola, fazem mais amizades e se dão melhor com colegas e amigos da mesma idade, têm menos problemas de comportamento e são menos propensas à violência.  Assim como, geralmente, têm menos atitudes negativas e mais atitudes positivas, e portanto também são mais saudáveis do ponto de vista emocional, o que não é de estranhar.

Além disso, são mais maleáveis.  Ficam com raiva, irritados, assustados ou tristes, mas acalmam-se com mais rapidez, saem da angústia com mais facilidade e procuram alguma atividade para distraí-los do problema.

Com a família em mudança e a estabilidade dos casamentos muito reduzida, é importante que os filhos tenham a capacidade de sobreviver saudavelmente, porque o aumento da violência entre crianças e adolescentes, assim como o aumento dos desvios de comportamento estão muito ligados à falta de controle emocional, de limites, e a casamentos doentes, mal resolvidos ou dissolvidos.

Pais e filhos emocionalmente bem preparados têm mais possibilidade de sobreviver com menos traumas, até porque esses pais costumam separar-se (sendo inevitável) mantendo a amizade.  E isto é fundamental para evitar o choque da separação, o sentimento de rejeição e de culpa, o baixo rendimento escolar, a agressividade, os desvios de comportamento e outras conseqüências comuns nesses casos. (Na separação, é comum que a criança e mesmo o adolescente, desenvolva um raciocínio primário: papai e mamãe casaram porque gostavam um do outro; agora não se gostam mais e estão separados. Quem garante que ainda vão continuar gostando de mim?)

Na verdade, o preparo emocional é a melhor proteção que a criança e o adolescente têm contra o trauma da separação, porque quanto mais conscientes estivermos acerca de nossas próprias emoções, mais facilmente podemos entender o sentimento alheio.  O autoconhecimento alimenta a empatia, que é indispensável para a sintonia emocional, para estabelecer o relacionamento que é a raiz do envolvimento (a falta de empatia também é reveladora e ela é claramente notada em criminosos psicopatas, estupradores e molestadores de crianças).

            As vantagens de poder interpretar sentimentos e emoções, inclusive a partir de gestos, atitudes e outras indicações não-verbais, incluem um melhor ajustamento emocional, mais abertura e uma sensibilidade maior.

            Testes de laboratório mostram claramente que as crianças aptas a interpretar sentimentos não verbalizados eram as mais queridas na turma e as mais estáveis emocionalmente. Além disso, tinham melhor desempenho acadêmico.  Repetidos com adolescentes, os testes deram os mesmos resultados.

Bebês que ainda não falam já são capazes de empatia e são solidários diante do choro angustiado de outro bebê.  E também reagem ao clima da casa, da família, a qualquer perturbação sentida naqueles que estão no seu meio ambiente, como se eles mesmos estivessem atingidos pela tristeza da mãe ou pelo nervosismo do pai.

            A simpatia é o sentimento que temos de agrado pelo outro e por aquilo que ele está vivenciando, mas sem sentir o que o outro está sentindo. Já a empatia faz com que possamos partilhar do sentimento do outro, sendo muito mais forte do que a simpatia e mais capaz de provocar intimidade, participação e confiança. Empátheia, em grego, quer dizer “entrar no sentimento”.

            É possível desenvolver a empatia em uma criança pequena, se desde cedo a educamos chamando fortemente sua atenção para a aflição que o seu mau comportamento, a dor ou o prejuízo que sua ação causa aos outros.  A empatia das crianças é moldada pelo exemplo de solidariedade dos pais, pela maneira como eles ficam atentos à aflição dos outros ou aos seus problemas.

            No adolescente é a mesma coisa.  Os adolescentes têm muita empatia e são muito emotivos, mas precisam ser levados a desenvolver a capacidade de serem solidários e de se envolverem sentimentalmente, porque também têm vergonha de sentir.

            Pais e filhos têm muitas oportunidades de vivenciar momentos íntimos em que passam por emoções e podem exprimir seus sentimentos.  Quando a criança percebe empatia e entende que os seus sentimentos estão sendo compreendidos, aceitos e retribuídos, entram em sintonia com os pais.  Essa experiência é muito mais marcante para o seu futuro do que outros momentos mais dramáticos ou traumáticos, a tal ponto que adolescentes criados com empatia tornam-se empáticos.

            A sintonia entre a mãe e o bebê, por exemplo, informa a ele que está sendo compreendido.  Nessa interação ganham os dois, porque se o bebê fica satisfeito, confiante e tranqüilo, emocionalmente ligado à sua mãe, ela também fica emocionalmente ligada ao filho e percebe que está interagindo, ficando íntima, criando um laço duradouro.

            Repetidas sintonizações dão à criança a certeza de que está apoiada e de que os seus sentimentos podem ser entendidos e partilhados.  Por volta dos oito meses os bebês já podem beneficiar-se claramente dessa segurança e não é difícil perceber quando eles ficam perturbados em momentos de crise, se não estão em sintonia com a mãe, porque a experiência é evidentemente angustiante para eles.

            Uma prolongada ausência de sintonia entre pais e filhos significa um pesado imposto emocional a ser pago pelas crianças, porque elas começam a tentar evitar a expressão das suas emoções.  Elas procuram esconder o que estão sentindo, seja tristeza ou alegria, desejo de aconchego ou pedido de apoio.  O resultado é que a intimidade torna-se impossível, há uma baixa geral na confiança e o desenvolvimento emocional e afetivo fica comprometido.

            Crianças cujos pais não conseguem sintonizar suas emoções com elas tornam-se menos ativas e até passivas, desistindo de tentar, de explorar, de descobrir, para não se emocionarem e não ficarem decepcionadas.  A não ser que tenha relacionamentos reparadores, com outros parentes ou com amigos capazes de sintonizar e de entrar em sincronia emocional, essas crianças estarão emocionalmente comprometidas.

            Os custos emocionais, para toda a vida, por conta da falta de sintonização, podem ser muito grandes, e não só para a criança.  O abandono emocional está na raiz da criminalidade e do abuso de drogas por parte dos adolescentes.  Os criminosos mais cruéis têm sempre uma história de falta de empatia com os pais, de falta de carinho, de desatenção, de falta de sincronia emocional, de violência.

A incapacidade de sentir qualquer dose de empatia é uma psicopatia que impede o criminoso de ter piedade ou de ter drama de consciência.  A frieza do psicopata está exatamente no seu defeito emocional, na incapacidade de ir além das mais tênues ligações emocionais.  Ao contrário, os grandes psicopatas chegam a sentir prazer com o sofrimento de suas vítimas.  Estupradores, molestadores de crianças, criminosos em série, todos têm um traço em comum: além de serem incapazes de empatia e de sentir a dor das vítimas, acreditam em mentiras que eles mesmos criam para justificar os seus crimes e imaginar que suas vítimas, na verdade, tiveram prazer e queriam passar por aquilo que sofreram.

Por isso mesmo, durante a ditadura, aqui no Brasil, os serviços que precisavam ter torturadores em seus quadros valiam-se de psicólogos e psiquiatras que apontavam o perfil ideal de candidato: os incapazes de empatia.  Psicopatas, todos eles, não tinham medo e, portando, não tinham piedade ou preocupação de punição no futuro.  Denunciados, depois, não se sentem culpados e sim injustiçados e perseguidos. Basta ler as entrevistas de ex-torturadores: todos têm justificativas, nenhum tem remorsos.

Curioso é que o abandono emocional embota a empatia, mas quando o abuso é intenso e constante algumas crianças tornam-se hiperalertas para as emoções dos pais e das pessoas que as cercam.  Elas desenvolvem mesmo uma preocupação obsessiva com os sentimentos dos outros e crescem para serem sujeitas a distúrbios limites de personalidade, como diagnosticam os psiquiatras. No entanto, podem ser extremamente preocupados e carinhosos com o pai, a mãe ou os pais que não tinham empatia com eles. Isto fica mais evidente na adolescência quando há moças e rapazes que tratam os pais relapsos e desatentos como se fossem excelentes pais.

            Hoje em dia, há indícios cada vez mais fortes de que a empatia tem uma grande base biológica e que há pessoas mais predispostas que outras para serem empáticas.  Mas é certo que quando o cérebro emocional dirige o corpo sob forte emoção, há pouca ou nenhuma possibilidade de empatia.  A empatia exige controle emocional, calma, muita receptividade para os sentimentos do outro e para os sinais não-verbais da emoção. É preciso ter bem presente que cerca de 90% de toda comunicação é não-verbal e está contida em um olhar, um gesto, um tom, uma atitude.

            Percebam que o oposto de empatia é o mesmo da simpatia: antipatia. Partilhando a emoção, o sentimento de uma pessoa, é que podemos sentir a sua dor, a sua aflição, e agir para ajudá-la.  Mas se antipatizamos com ela é impossível entrar em sintonia com ela.

            Vários educadores sugerem que a empatia é natural no bebê e na criança pequena, mesmo sendo elas egocentradas.  Só por volta dos dois anos é que a criança percebe que os sentimentos dos outros não são seus também, e aí só desenvolverá sua capacidade de empatia se tiver o exemplo dos pais, se for sintonizada com eles.  Para as crianças, o fim da infância é o período dos mais elevados níveis de empatia: elas já podem ser inteiramente capazes de entender a aflição dos outros e estão sempre prontas a partilhar emoções e sentimentos. Mas os adolescentes sofrem, preocupados com os pobres, os oprimidos, os injustiçados, os marginalizados, e querem participar, querem fazer alguma coisa para ajudar a corrigir o mundo. Jovens, se tivessem a força, poderiam aliviar a dor e o infortúnio de todos os seus semelhantes. É por isso mesmo que há tanto emprendedorismo entre os jovens, o que deve ser alimentado.

            Poder exercer controle sobre as emoções do outro é a base da arte de relacionar-se.  Mas para chegar à interação e à sintonia, a criança pequena tem que alcançar primeiro o autocontrole, o que só pode fazer com ajuda dos adultos, principalmente da mãe e do pai.  Quando ela aprende a controlar a raiva e o desejo de ser satisfeita imediatamente, quando aprende a dominar os seus impulsos, mesmo assim pode não sintonizar bem, se ela e seu parceiro não tiverem calma.  Quando ela suprime os ataques de raiva, os gritos, aprende a esperar sem chorar, a argumentar para conseguir alguma coisa, então falta apenas amadurecer sua empatia e ter calma para poder interagir, sintonizar com o pai, a mãe ou qualquer outra pessoa.

            Criado assim, o adolescente não terá dificuldade com o autocontrole.  Mas se não foi ensinado em criança a controlar-se, dificilmente terá sucesso na adolescência, porque sua tendência é para não aceitar os controles tradicionais.

            Pais e mães devem saber que o emocional contagia.  Se eles forem calmos, há uma enorme possibilidade de que os filhos também sejam.  Ao contrário, se não podem controlar suas emoções, a probabilidade maior é a de que seus filhos também não possam.

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s


%d blogueiros gostam disto: