A Globalização e a Exclusão Social

Os neoliberais afirmavam que mercados livres e abertos produziriam ganhos de produtividade que fariam com que a competitividade criasse um novo mundo, onde o próprio mercado seria um agente social e instrumento de desenvolvimento social. Não foi assim: os ganhos de produtividade foram, de fato, enormes, mas a realidade é a exclusão social.

A utopia social terminou com o fim da Guerra Fria entre Estados Unidos e União Soviética, e a derrubada do Muro de Berlim. Cuba ficou como um bom exemplo de socialização da pobreza.  A arrogância, prepotência e hegemonia capitalista anunciaram que haveria uma prosperidade econômica geral, impulsionada pelos mercados abertos, livres e pelos ganhos de produtividade.  A lógica estimulante da competitividade seria capaz de criar um novo mundo onde mercadorias e pessoas circulariam livremente e o próprio mercado funcionaria como o instrumento e a garantia da paz e da harmonia.

            Não era verdade e a desilusão veio rapidamente. Primeiro para a Rússia e os países do Leste europeu, incapazes de assimilar com rapidez as novas regras do mercado.  Mas, logo em seguida, para todos os países na periferia do capitalismo, inclusive aqueles chamados “países em desenvolvimento”, com a percepção de que a dinâmica capitalista que move a economia estava agravando a exclusão social, fazendo crescer o desemprego, exigindo a flexibilização das regras de proteção social ao trabalhador, aumentando a pobreza, a marginalidade, a insegurança social, a fome, a violência e até o terror.

            O modelo aparentemente vitorioso do capitalismo global e das transnacionais continha, em si mesmo, os elementos estruturais que agravaram e continuam a agravar a exclusão social.

            Os chamados tigres asiáticos sucumbiram à crise (1997-1998) que se espalhou por todo o mundo, provocando um rebaixamento das perspectivas de crescimento econômico das nações em desenvolvimento, que animavam o fim do século.  A virada do século e do milênio viu um número crescente de indivíduos postos à margem das apregoadas vantagens da globalização, nome que se deu à internacionalização progressiva das economias capitalistas a partir da década de 80..

            Foi a revolução da informática que tornou possível a globalização e acarretou dois tipos de mudança com vinculação direta com a exclusão social: o surgimento de um novo paradigma de emprego, mais flexível, precário, sem garantias sociais, e a minimização da importância do Estado como guardião das garantias sociais. Os mercados ficaram on line, em tempo real, e o capital ganhou uma extraordinária mobilidade e velocidade.

A integração dos mercados financeiros e dos processos produtivos em nível planetário, com o crescimento do comércio internacional que se seguiu à queda generalizada de barreiras protecionistas nos países da periferia do capitalismo (tentando atrair capital e negócios) favoreceram a transformação das multinacionais em transnacionais.

A internacionalização das decisões e a incrível mobilidade das grandes massas de capital deixaram evidente a principal diferença entre as multi e as transnacionais: a lógica autônoma em relação às decisões e necessidades dos Estados nacionais.  O espaço para a operação de políticas públicas foi muito diminuído, em prejuízo da população mais pobre, criando mais exclusão.

            Sem pátria e bandeira, as transnacionais objetivam o mercado global e o fazem utilizando, com o máximo de eficácia, tecnologia, mão-de-obra e matérias-primas onde quer que elas possam ser encontradas com menor custo.  O produto final, global, é composto por várias partes, explorando ao máximo as vantagens competitivas de diversos países.  O resultado foi uma fragmentação da produção que reduziu o enorme custo do desenvolvimento de novas tecnologias dos produtos em escala mundial, viabilizando o processo à custa da exploração da miséria.

            Resultado: a exclusão social está aumentando com o capitalismo contemporâneo (merecidamente chamado de ganancioso por Allan Greenspan, quando ainda dirigia o Federal Reserve) não só nos países da periferia do capital como nos países centrais.

A manipulação das políticas monetárias também foi afetada pela imensa massa de recursos que circulam com rapidez no mercado financeiro internacional, e que podem invadir um país de uma hora para outra, retirando-se depois com a mesma velocidade, criando problemas graves.  As políticas fiscais e os gastos governamentais (inclusive o investimento na área social) encontraram novos limites, por seus efeitos inflacionários que podem minar a competitividade dos produtos nacionais.

            Essa mobilidade do capital e sua falta de compromisso com os países, aumentou seu poder de barganha diante dos Estados, constrangendo-os, restringindo suas capacidades de operar os principais instrumentos discricionários e até o poder de decidir.

As transnacionais não têm preocupação moral ou social e além de conquistarem o mercado consumidor global, globalizaram a produção e usam a melhor tecnologia disponível em um país, a matéria-prima mais barata de outro e a mão-de-obra daquele mais disposto ao sacrifício dos direitos de seus trabalhadores.  Até o uso de mão-de-obra escrava e infantil, para eles, é valido, e cada transnacional age conforme lhe for mais conveniente: em tempo parcial, pagando por peça, com contratos precários, transferindo para terceiros a responsabilidade das contratações, das relações de trabalho e dos problemas sociais..

A pobreza, em si mesma, não tem a capacidade de gerar violência, porque os pobres não sabem os seus direitos de cidadão e a força que têm..  Mas a exclusão social tem essa capacidade, por transmitir ao excluído a noção clara de injustiça e de desrespeito aos seus direitos.

A expressão entrou em moda na mídia, nos documentos de economistas, cientistas políticos e pesquisadores sociais.  Mas é usada em mais de um sentido. O que é, afinal, exclusão social?

É a soma de vários fatores:

  • § da pobreza, com a impossibilidade de garantir a sobrevivência e o atendimento das necessidades básicas;
  • § da insegurança física em relação à vida, pelo risco de não poder garanti-la;
  • § da insegurança psicológica, pelo medo do futuro, por não poder proteger-se nem dar proteção à família;
  • § do desrespeito aos direitos humanos;
  • § da falta de serviços públicos garantidos por lei;
  • § da injustiça e da certeza de estar sendo furtado dos seus direitos de cidadão.

Quer dizer que excluído é aquele que tem direitos garantidos por lei, mas a quem eles não atingem, ficando só com os deveres, entre eles os tributos.

As grandes alterações na lógica da produção tiveram impacto no nível macroeconômico, mas afetaram também as pessoas, modificando (por supressão) valores e padrões há muito sedimentados. Quem perde o emprego imagina que a situação é temporária e injusta.  E precisa de um longo período para perceber que não vai conseguir outro no mesmo nível para restabelecer a “vida normal”.

            A exclusão não ocorre só entre os analfabetos e os menos preparados profissionalmente, ou com a mão-de-obra da periferia.  Ela está ocorrendo em todas as classes. 

            O que muita gente não percebeu (ou se recusa a perceber) é que há um novo paradigma de emprego, mais flexível, precário, desprovido das garantias de estabilidade, sem benefícios sociais e, geralmente, pior remunerado. Há trabalho, mas não há emprego como antigamente e a maioria absoluta ainda se pauta pelo velho paradigma de emprego.

Em sociedades (como a nossa) em que o emprego sempre teve um papel central para criar renda, para integrar socialmente o indivíduo e até para a formação de sua identidade como pessoa, é difícil aceitar e entender a nova situação.  Todos os que tinham emprego, ganhavam dinheiro, tinham acesso a benefícios garantidos pelo Estado e eram alguém, estão perplexos, assustados, com medo e sem entender a mudança do padrão.  Sentem-se injustiçados.  E o sentimento é agravado pelo desamparo criado com o fato do Estado (há muito tempo identificado como o guardião das garantias sociais) estar promovendo sua reestruturação e o debate sobre a redefinição dessa função.

A qualidade de vida piorou.  Pioraram as expectativas e o sentimento de injustiça cresceu pela perda de acesso a bens públicos e benefícios sociais que já estavam incorporados ao dia-a-dia de cada um como um direito adquirido.

            Pior: isto aconteceu (e continua a acontecer) no momento em que as aspirações de consumo haviam-se elevado a níveis nunca antes alcançados.  As artimanhas do marketing fizeram acreditar que consumir era ser feliz e transformaram o desejo de consumir em necessidade de consumo.  Ter, passou a ser um padrão de vida e ter um novo um modo de vida desejável, embora claramente não fosse acessível a todos. (Observem o anúncio do carro que é considerado perfeito, mas tem que mudar alguma coisa.  Por que?   Porque quem quer ter um novo precisa ter a certeza de que seu carro será reconhecido como novo, “do ano”…)

Resultado: hoje, quem não tem como comprar a felicidade expressa por produtos da moda, é capaz de usar de violência para obter o quinhão de felicidade a que se julga com direito.  Marketing e mídia desrespeitaram as pessoas e criaram um dragão da maldade, ao insistirem na idéia de que ter é mais importante do que ser, e de que não basta ter, mas é preciso ter um novo.

            As teorias de felicidade do consumo dividiram as pessoas em três grupos: o dos que têm cartão de crédito; o dos que não têm, mas querem ter, porque ele é visto como um passaporte para o paraíso do consumo; e o dos que nem sabem o que é cartão de crédito,

A sociedade contemporânea tem esse problema: ao centrar no consumo a maior parte da realização pessoal ou social e ao adotar o consumo como principal sinal exterior de sucesso, provocou a crise para quem deixa de consumir e fica impossibilitado de comprar, o que é uma condenação que diminui o indivíduo.  É exatamente nesse grupo que o sentimento de ser excluído é mais intenso, porque suas aspirações e expectativas de consumo foram frustradas.

Cada sociedade tem um conceito sobre o que seja integração social, mas a exclusão é a quebra do vínculo social entre o indivíduo e a sociedade.  Teoricamente, caberia ao Estado a obrigação de inserir os excluídos. 

Se, antes, a grande preocupação era com as condições de exploração que excluía e dificultava a inserção, agora o problema é  encontrar uma forma de inserção (qualquer forma de inserção) para recuperar os excluídos.  Já vai longe o tempo em que o pesadelo da modernidade, retratado por Chaplin, era um operário apertando parafuso indefinidamente. Hoje, esse posto de trabalho é cobiçado, desejável, um sonho distante de segurança e estabilidade.

            Pobreza é a falta de dinheiro para atender às necessidades básicas da pessoa e é o principal foco da definição de exclusão social, que é onde e quando o Estado não consegue garantir, minimamente, a sobrevivência dos seus cidadãos e os seus direitos. A linha de pobreza aponta para a renda mínima de que o indivíduo necessita para ter acesso a uma cesta de bens e serviços essenciais à satisfação de suas necessidades básicas. Quem está abaixo dela, é um excluído.

            Mas, quais são as necessidades básicas?  Do ponto de vista fisiológico é o necessário e suficiente para garantir a sobrevivência física.  No entanto, afirma Amartya Sem (economista e sociólogo, criador do índice de desenvolvimento humano, IDH), o critério é ambíguo, porque há sobreviventes com dietas mínimas (como na Somália, por exemplo) mas a vida deles não é digna e a expectativa de vida é muito baixa.  Uma coisa é não morrer de fome, outra é ter uma sobrevida digna.

            Dignidade é a palavra-chave na medida da exclusão.  Para que alguém possa viver e usufruir a vida com dignidade deve ter o direito de comer, de morar, de ter saneamento básico, de ter acesso à educação e de ter à disposição serviços de saúde.  Pode parecer muito, mas menos do que isto vai resultar em um pobre desassistido, sem direitos sociais, um excluído.

A discussão da linha de pobreza e de exclusão envolve conceitos, culturas, políticas e terá sempre  certo ar de arbitrariedade. Meghnad Desai (o sociólogo indiano) chama atenção para a situação do Brasil, que tem limites sérios com as transferências de recursos para os programas sociais e, no entanto, tem uma lei de incentivo à cultura com dinheiros públicos que não causa escândalo à maioria, nem mesmo entre os intelectuais bem informados.

            Em uma sociedade de mercado é preciso ter habilitações (entitlements):

  • § a capacidade de trocar (bens ou competências);
  • § de produzir (com recursos próprios ou contratados);
  • § de trabalhar (isto é, de explorar o próprio trabalho);
  • § de herdar (receber uma herança ou ganhar na loteria, por exemplo).

Quem tem uma dessas habilitações tem acesso a cestas alternativas de bens, em maior ou menor grau.  A pobreza e a fome aparecem quando o indivíduo não tem ou perde suas habilitações, ou elas não são suficientemente boas para o mercado.  Duas pessoas com rendas semelhantes podem ter situações diferentes de pobreza segundo suas habilitações, capacidade de adaptação à realidade e modo de encarar o futuro.  Grupos que partilham a mesma pobreza podem ter chegado lá de diversas maneiras e têm diferentes probabilidades de saírem dela, segundo suas habilitações.  Também é preciso levar em conta que capacitações iguais podem não render do mesmo modo, assim como se deve verificar que pessoas com a mesma renda podem ser pobres diferentes: basta, por exemplo, que uma delas tenha um problema grave ou crônico de saúde.

Os chamados fatores agravantes da pobreza são de responsabilidade do Estado e combater a pobreza deve ser uma política pública.  Mas o que importa mais, verdadeiramente, não é acabar com a fome e a pobreza, mas conquistar para aquele indivíduo a dignidade.  Para que alguém seja feliz é preciso ser respeitado, ter recursos materiais para atender às suas necessidades básicas, ter segurança e amor próprio.  Não é um problema de renda, porque quem ganha 50 vezes mais não é, necessariamente, 50 vezes mais feliz.

Numa sociedade em que a sede por diferenciação é tão grande que alguns bens são consumidos justamente por serem caros (o que impede o acesso às massas e realimenta a diferenciação), devemos reconhecer que esses bens são produzidos com fundamento na idéia da exclusão.

Nesse mundo competitivo, a insatisfação de um indivíduo que está retido no congestionamento não é o engarrafamento, em si, mas a velocidade com que se move a fila do lado.  Infringir a lei e ultrapassar pelo acostamento não é apenas um ato pouco civilizado, mas a demonstração prática de que na sociedade não-solidária sempre haverá quem se sinta realizado por superar o outro, mesmo que seja de modo ilegal. (Sabendo que quem é capaz de uma falcatrua social é capaz de falcatruas maiores, porque o que falta a ele é, exatamente, atitude ética.)

A propósito, a exclusão social ocorre por falta de ética social.

            A regra geral do capitalismo ganancioso é a de poucos e grandes grupos por setor, todos operando a nível global e buscando a diminuição de custos de seus fatores de produção.  Pior: participando da dança especulativa.

Por exemplo, a General Electric oferece aos seus clientes mais serviços financeiros do que a American Express, que é um grupo financeiro típico.  E não é de estranhar que a GE gere mais lucros na área financeira do que na industrial.

A enorme escala de investimentos necessários para alcançar a liderança tecnológica de produtos e processos de produção, aliada à necessidade de redes mundiais e de mídia de massa, concentrou e continuará concentrando recursos de capital, num processo que só permite chegar à liderança das principais cadeias de produção um pequeno número de empresas, gigantes mundiais.  São uma centena, fazendo alianças, fundindo-se, absorvendo, comprando, crescendo para não desaparecer.  Essas transnacionais é que decidem tudo: o que produzir, como, onde, com quem, quanto e a que preço.  Assim como há as que decidem os serviços.

Ao mesmo tempo elas competem por custos e preços, e qualquer diferença, por menor que seja, mínima mesmo, pode ser a diferença entre o sucesso e o fracasso.

            Na corrida por qualidade e preço, deu-se a fragmentação, aconteceram as franquias, a terceirização, a flexibilização, a informalização, abriu-se espaço para uma grande quantidade de empresas locais que alimentam a cadeia produtiva central oferecendo custos mais baixos para a matéria prima ou mão-de-obra mais barata. É uma das grandes contradições do processo: concentração versus fragmentação. (A taxa de aumento da concentração é maior do que a de crescimento da economia mundial.)

A Nyke, uma das maiores fabricantes de sapatos de tênis do mundo, não produz um único cadarço.  Seus 15 mil funcionários diretos trabalham na estrutura da estratégia mercadológica, criando e desenvolvendo produtos, subcontratando fornecedores e produção. A terceirização gerou 90 mil empregos e denúncias do UNICEF e da OIT sobre trabalho escravo de crianças na Tailândia, nas Filipinas e em Taiwan,. A resposta da Nyke: são empresas que produzem para nós sob contrato, mas nós não temos responsabilidade sobre a produção…

            Não é a única contradição: a outra é inclusão versus exclusão. Por um lado, a incapacidade progressiva de gerar empregos formais em quantidade e qualidade suficientes, provoca exclusão; mas por outro, a ganância capitalista garante sua dinâmica fazendo baixar os preços para ganhar a competição, o que incorpora novos mercados.  Se compararmos os bens de consumo que os pobres de hoje possuem, com o que possuíam os pobres de 50 anos atrás, vamos ficar surpresos com o aparente “enriquecimento” dos pobres.  Sobrevoar qualquer favela permite fotografar uma floresta de antenas de televisão, inclusive parabólicas.  E é sabido que, no Brasil, há mais casas com televisão do que com geladeira (o que é explicado por uma consumidora pobre: “Geladeira, a gente abre e às vezes não tem nada; na televisão tem sempre alguma coisa e é de graça“).

            Na virada do milênio, as cem maiores corporações mundiais detinham um terço de todo o investimento direto e respondiam por cerca de 80% do fluxo de pagamentos.

As nações, sem proteção, buscaram unir-se, formando grupos regionais que pudessem resistir às transnacionais, mas o mercado financeiro gira 24 horas por dia e tem uma mobilidade que não respeita fronteiras nacionais ou regionais, e por isso não se deixou abalar.

            O que é uma transnacional?  É uma corporação global que tem:

  • § a competência de controlar suas atividades, simultaneamente, em vários locais do planeta;
  • § a capacidade de tirar vantagem dos diferentes fatores de produção entre países (inclusive as políticas governamentais);
  • § a flexibilidade geográfica suficiente para deslocar seus recursos e operações em escala global e com rapidez.

            Os espaços que não são funcionais à nova lógica do sistema não conseguem se inserir na economia global.  Então, além de pessoas excluídas temos países excluídos.

Os segmentos dos processos produtivos que utilizam trabalho intensivo não-qualificado foram deslocados para países nos quais esse fator é abundante e barato, os países da periferia do capitalismo.  Quando os produtos estão amadurecidos e há pouca possibilidade de inovação, há uma rotina na produção e a mão de obra com pouca qualificação pode ser usada intensamente. Mas, para minimizar os riscos da possibilidade de interrupção da produção, as transnacionais costumam ter uma ou duas empresas, em locais diferentes, que podem, numa emergência, iniciar imediatamente a produção.  Quer dizer: com elas, greve não adianta.  Foi exatamente o aumento da pressão sindical por melhores condições de trabalho e remuneração (principalmente na Alemanha e na França) que levou as transnacionais a deslocar indústrias para a periferia do capitalismo, o que introduziu a exclusão nos países centrais.

O historiador inglês Eric Hobsbawn (autor de A Era dos Extremos) escreveu que o período de 1950 a 1975 “assistiu à mudança social mais espetacular, rápida, abrangente, profunda e global já registrada na história mundial”.  Pela primeira vez na história do homem o campesinato tornou-se minoria em todo o mundo.

A industrialização da periferia acarretou tensões e contradições, e o aumento do poder de barganha dos trabalhadores, assim como a sua capacidade de mobilização, sacudiram as estruturas dos países em desenvolvimento.  A capacidade de negociar como classe teve efeitos que chegaram ao centro do capital.

            Mas a incorporação maciça de novidades tecnológicas aos processos produtivos mudaram a correlação de forças entre as classes sociais.  No início dos anos 80 o conflito entre capital e trabalho já apresentava nova estrutura, segundo Gilberto Dupas (o economista brasileiro autor do livro Economia Global e Exclusão Social). A nova estrutura significava:

  • § emergência de um novo padrão de acumulação pelo uso de capital intensivo, em substituição ao trabalho intensivo (e em desfavor dos trabalhadores, porque o desemprego estrutural funciona como um disciplinador da força de trabalho e os sindicatos perdem força);
  • § flexibilização dos direitos trabalhistas, mesmo os históricos (porque para não ficar desempregado o trabalhador passa a aceitar corte nos seus direitos, sabendo que o capital vai colocar-se onde há as melhores condições de mercado, isto é, as piores condições de trabalho);
  • § rearticulação das transnacionais (e das outras empresas, por gravidade, levando à inadequação das estruturas trabalhistas. A rearticulação dos sindicatos em centrais sindicais, para aumentar a força de negociação, não tem o efeito imaginado. Hoje, a força de trabalho privada filiada aos sindicatos é de apenas 10%.)

A dificuldade de ter um emprego formal (e até informal), principalmente para os jovens que entram no mercado de trabalho sem experiência, reforça o senso individualista e até egoísta nas relações de trabalho e nas relações sociais como um todo.

            O pior é que a ameaça de deslocar a produção é sempre cumprida pelas transnacionais, o que faz com que a desregulação e a flexibilização sugeridas pelos neoliberais como necessários em tempo de capitalismo global, sejam aceitas até por trabalhadores, sem que o Estado tenha força para sustentar as políticas de proteção e bem-estar social.

Isto leva a uma diminuição dos trabalhadores empregados em tempo integral e com perspectiva de carreira, e à expansão do número de trabalhadores temporários, flexibilizados, sem direitos.  Não é sem razão que Leôncio Martins Rodrigues (no livro Perspectivas para o Sindicalismo no Século XXI) pergunta: “Estariam os sindicatos, como certos espécimes animais, condenados a desaparecer pela destruição do seu habitat?”

            O movimento sindical é mesmo um animal ferido.  Os sindicatos europeus priorizaram salários e provocaram o desemprego; e os sindicatos americanos priorizaram o emprego e fizeram cair não só os salários como os direitos do trabalhador.

Na América Latina o chamado setor informal já atinge cerca de 70% do mercado de trabalho e cresce a 4%, enquanto o formal cresce a menos de 1%. Para um jovem, qualificado ou não, a probabilidade do primeiro emprego está no setor informal, sem direitos trabalhistas.  Muitos dos desempregados nem conseguem espaço no mercado informal, a não ser com criatividade e inventando seu próprio nicho. (É o exemplo de um velho, numa feira-livre do Rio, que vende legumes cortados em formas criadas por ele e que explica: “As madames compram porque é novidade e com os restos do corte a gente faz uma boa sopa lá em casa.“)

O sindicalismo, para não desaparecer, precisa adaptar-se e aprender a lidar com o trabalho temporário e flexível.  Se não se adaptar à realidade da exclusão social estará definitivamente condenado à extinção.

Há, de um modo geral, pouco otimismo dos analistas em relação também ao futuro da política de blocos, a última trincheira de resistência dos Estados nacionais, com o objetivo de estabelecer políticas protecionistas (pelo menos temporárias).  Os acordos globais de livre comércio tendem a minar sua lógica em um prazo que não chega a ser longo. Basta estar atento às intermináveis rodadas de Doha.

Giovani Arrighi (no livro O Longo Século XX) conta: “No final da década de 80, aqueles que haviam recebido em seu território a primeira rodada da expansão industrial externa japonesa – os “quatro tigres” – já haviam se transformado, considerados enquanto grupo, nos principais investidores externos diretos nos países da Asean.  Quando a alta dos salários minou as vantagens competitivas dos “quatro tigres” na extremidade inferior do valor agregado da produção industrial, as empresas desses Estados juntaram-se à iniciativa japonesa para explorar os recursos de mão-de-obra ainda abundantes e baratos de um grupo ainda mais pobre e mais populoso de países vizinhos, a maioria da Asean.  O resultado foi uma segunda rodada de expansão industrial externa, através da qual uma massa ainda maior de mão-de-obra barata foi incorporada.  Essa maior incorporação de mão-de-obra barata reforçou a vitalidade do arquipélago capitalista do leste asiático.  Mas também minou a competitividade em que se baseava, em termos de recursos humanos.  Tão logo isso aconteceu (o texto é de 1994) iniciou-se uma terceira rodada.  Às empresas japonesas e aos “quatro tigres” vieram juntar-se empresas dos países que receberam a segunda rodada de expansão industrial regional (sobretudo a Tailândia), transplantando as atividades do extremo inferior da mão-de-obra intensiva para países ainda mais pobres e mais populosos (em especial a China e o Vietnã) que ainda são dotados de reservas grandes e competitivas de mão-de-obra barata.”

            Releiam os jornais do primeiro semestre de 1997.  Todos, em toda parte, davam cobertura aos “tigres asiáticos” e ao maravilhoso desempenho das economias da Coréia do Sul, Cingapura, Taiwan e Hong Kong.  E havia na mídia as entrevistas e os artigos dos economistas e sociólogos de plantão, até de educadores, para explicar que o sucesso se devia à capacidade de estudar e à vontade dos povos asiáticos.  Os editoriais e as agenciais internacionais pediam nossa reflexão para uma economia regional que vinha crescendo a uma taxa média de 6,8% ao ano, nas últimas três décadas.

A Indonésia, Malásia e Tailândia também ganhavam aplausos e a China, crescendo a quase 10%, provocou um célebre historiador inglês que, de tão entusiasmado, previu que a Ásia seria o centro da economia mundial globalizada, no século 21.

O Banco Mundial e o FMI eram só elogios e cuidavam de direcionar para lá uma grande quantidade de recursos em investimento direto e empréstimos.

Não havia uma só referência ao “risco Ásia” e, no entanto, poucos meses depois, as bolsas da Tailândia, Malásia, Indonésia, Coréia e Filipinas haviam perdido mais da metade do seu valor em dólares.  A queda era menor, mas,mesmo assim dramática, em Cingapura, Hong Kong e no Japão.

A enorme redução no valor dos ativos provocou pânico geral e busca de liquidez, ocasionando grandes desvalorizações das moedas locais.  O sistema bancário japonês, um dos grandes financiadores dos tigrões e dos tigres, registrou perdas pesadas, e suicídios, e ameaçou tornar instável a própria economia japonesa.

Paul Krugman (velho jornalista econômico americano) havia sido um dos poucos a alertar para a fragilidade do milagre asiático, escrevendo sobre o crescimento baseado em gastos de investimento sem elevação da produtividade (quer dizer, produtividade marginal do capital em declínio com aumento de estoque).  Causa principal da crise: exatamente o crédito fácil, em excesso, para projetos mal formulados, fatores microeconômicos, alimentados por otimismo exagerado e pela crença de que os governos assumiriam o eventual prejuízo.  O pânico irracional que se seguiu à tentativa dos credores de exigir pagamento imediato dos enormes empréstimos de curto prazo (que tinham elevado artificialmente os preços dos ativos locais), correu o mundo em ondas de choque. (Foi, diga-se entre parêntesis, o mesmo que ocorreu com o chamado Milagre Brasileiro, criado pelo então Ministro da Fazenda Delfim Neto.)

O equilíbrio mundial ficou dependente da China e da reação dos mercados.  A moratória russa, por sua vez, ensinou ao duramente prejudicado mercado acionário americano que, para construir um mercado na Rússia, era preciso bem mais do que demolir o comunismo e receitar pílulas mágicas.

Outra descoberta importante, para todos: o sistema hegemônico de plantão não tem poder suficiente para fazer abortar as crises, o que aumenta a percepção dos riscos e a preocupação com um crash econômico global, por conta da rapidez de reação em cadeia dos mercados unidos em real time.

Uma fenda profunda abriu-se no arrogante discurso liberal de que as forças de mercado sempre encontram a melhor solução. Não é verdade.

            O aumento do desemprego nos países centrais do capitalismo chegou a dobrar nos anos 70 e 80.  O ambiente recessivo acelerou a necessidade e o desejo de mudança nas transnacionais, obrigadas a racionalizar, a reestruturar, ao downsizing. Quase sempre foi preciso desenvolver novas tecnologias para poupar trabalho, o que prejudicou o emprego dos menos qualificados dos países desenvolvidos.  O outro expediente foi flexibilizar os direitos do trabalhador e correr para produzir em países periféricos.

No relatório do Banco Mundial de 1977 está escrito que os pobres “não podem se dar ao luxo de ficar desempregados; eles são obrigados a aceitar o subemprego”.

            O impacto das novas cadeias de produção sobre os empregos variou por conta de vários fatores:

  • § a acomodação de cada país dentro da cadeia produtiva;
  • § a forma de entrada do investimento direto estrangeiro;
  • § o tipo de cadeia (uso intensivo de capital ou de mão-de-obra);
  • § substituição ou não da produção local;
  • § possibilidade de complementação por investimentos locais;
  • § conhecimento tecnológico adquirido.

           A tendência geral foi gerar menos empregos por dólar investido. Motivos:

  • § introdução de novas tecnologias;
  • § automação e informatização;
  • § novos sistemas de gestão e produção;
  • § processos de reengenharia e downsizing;
  • § concentração na parte superior da cadeia.

            A tendência do mercado de trabalho é de redução, mesmo com as transnacionais investindo cada vez mais.  Motivos principais::

  • § baixo crescimento econômico;
  • § tecnologias modernas de produção;
  • § adoção de tecnologia poupadora de mão-de-obra;
  • § aceleração da integração das cadeias internacionais de produção;
  • § subcontratação (com queda dos empregos diretos e aumento dos indiretos).

Quando os investimentos foram direcionados para o processo de privatização das empresas públicas, a racionalização que se seguiu (e que era indispensável) reduziu significativamente os empregos locais.

            Resumindo: quanto maior a revolução tecnológica aplicada à produção, à distribuição e às vendas, no processamento de dados e na transmissão de informações a longa distância em tempo real, mais se acentua o processo de redução de empregos qualificados e formais, mais aumenta a flexibilização, o uso crescente de trabalho informal, os baixos salários e a exclusão.  E maior é a violência, o crime, a marginalidade viciosa.

No topo, a nova lógica das cadeias reduz, qualifica e exclui; na base flexibiliza, contrata informalmente, não garante direitos sociais nem benefícios, mas inclui.  Por outro lado, na medida em que a qualidade melhora e os custos baixam, os preços permitem incluir novos segmentos de mercado à cadeia.  A renda dos consumidores não melhora, mas melhora sua capacidade aquisitiva de determinados produtos.

O problema e não se saber em que direção a lógica das transnacionais vai fazer caminhar a economia local.  Sabe-se que é em seu favor, mas não se sabe se vai favorecer ou desfavorecer nossa economia, como e quanto.

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