Celacanto Provoca Maremoto

 Foi em 1977 que começou a aparecer, nas paredes de Ipanema, um grafite misterioso: Celacanto Provoca Maremoto. Logo espalhou-se pelo Leblon, Copacabana, Leme, atravessou o túnel, inundou Botafogo, foi pro Centro, Maracanã, Tijuca, Grajaú, Lins de Vasconcelos, Boca do Mato, subiu a linha do trem da Central, atacou os subúrbios. Virou interestadual, eu mesmo fui testemunha do celacanto em Natal, no Rio Grande do Norte.

Depois soube que estava internacional: Argentina, Chile, toda a América Latina, Estados Unidos, Europa, França e Bahia.

Sugeri matéria ao jornalismo da Globo: o que era aquilo, quem espalhava o grafite, por quê. Não sed apurou.

Um dia, uma  pista japonesa: National Kid, o seriado exibido na televisão, nos anos 60. Um sobrinho lembrou que num dos episódios o herói lutava contra os peixes abissais, entre eles o celacanto.

Fui escarafunchar arquivos e descobri o episódio: o Dr. Sanada, um dos vilões, afirmava categoricamente que o celacanto provocava maremoto. Mas não era verdade; quem provocava era um submarino a serviço do mal, o Guilton.

Foi um carioca (só podia ser), quem um dia, depois da aula, encheu o quadro com a frase que logo se tornaria célebre.

Depois, grafitou a sala, o colégio, a visinhança e, diante do sucesso, passou a atacar todo tapume  de obra com gis colorido. Logo mudou para caneta hidrocolor, uma novidade conhecida na época como pincel atômico.

Outros grafiteiros adotaram o mesmo tema e, com spray chegaram até Washington e Paris, virando notícia. A equipe de Carlos Alberto Teixeira chegou a ter doze pichadores que agiam nas madrugadas, disputando  presença com outro grafite célebre, Lerfá Mu, dos fumadores de maconha.

O celacanto, segundo boas fontes, chegou a ser investigado pela Polícia Política e pela Inteligência Naval porque o CEnimar acreditava que aquilo era um c´´odigo da subversão.

O prefeioto do Rio, Marcos Tamoio, instituiu uma multa enorme para os que fossem apanhados fazendo propaganda do celacanto. Mas só quem foi apanhado foi um  outro grafiteiro, o autor dos lindos grafites Megalodon.

Foi preso, torturado, apanhou muito, não sabia de coisa alguma, foi solto nu e com o corpo todo coberto de tinta.

O pai do Carlos  Alberto trabalhava no Jornal do Brasil  e sugeriu que o filho desse uma entrevista ao Caderno B se confessando o autor do celacanto provoca maremoto. A matéria saiu e acabou-se o mistério.

Ainda em 1977 alguém não identificado invadiu o sistema operacional do IBM 1103 da Pontifícia Universidade Católica. Toda vez que o computador era chamado para fazer uma operação de raiz quadrada, a impressora emitgia  a mensagem Celacanto provoca maremoto.

Anos depois, na Internet, um cidadão chamado Carlos Lopes (lopes@intersystems.com) confessou ser o autor da brincadeira.

Dez anos depois, segundo Carlos Alberto, ele foi chamado para grafitar um cenário do programa da Angélica na TV Manchete. Cobrou caro, aceitaram, ele foi num sábado para Niterói e pichou uma estação de trem.

Nos anos 80, Celacanto Provoca Maremoto virou um grupo vocal.

E acabou-se a história.

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