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Vida Seca Severina I

outubro 24, 2007

“É inacreditável e inceitável que o governo se deixe surpreender mais uma vez pela seca no Nordeste. O fenômeno já está suficientemente estudado e é perfeitamente previsível, mas a cada seca ele se deixa surpeender. Imagino que a causa seja uma só: os ricos ganham dinheiro explorando a indústria da seca, que interessa a eles. Só os pobres sofrem. Filho de rico nunca morre na seca e nunca ouvi dizer de um rico imigrando por falta de chuva.”

A frase-desabafo é de um nordestino, que imigrou, e que hoje é Presidente da República. E, na Presidência, deixou-se surpreender por mais uma seca no Nordeste, que está castiogando 12 milhões de pessoas. Pior: se as ´[aguas do São Francisco, que ele aponta como solução, fossem suficientes para acabar com a miséria, não seria interessante primeiro fazer programas para o uso da água acabar com a miséria ribeirinha? Só que isso, certamente, não daria a ganhar tanto as grandes empreiteiras e aos grandes empresários, que vão ganhar milhões com a Transamazônica de água. Uma água que não vai matar a sede do nordestino nem resolver os problemas do Nordeste, mas servirá para tornar mais ricos os já muito ricos.

É como diz o poeta Leandro:

É grande a calamidade / é triste a situação / cada dia que se passa / aumentando a aflição/ sofre todo sertanejo / quando há seca no sertão.

A literatura de cordel, no Brasil, é um fenômeno tipicamente nordestino. A origem evidente está

nas folhas volantes  lusitanas, também chamadas de folhas soltas. Antes da imprensa o povo registrava sua poesia cantando, de memória. E quem sabia escrever enchia os cadernos manuscritos copiados a mão. Depois, com a prensa tipográfica, o registro era feito nas folhas  vendidas nas feiras, nas romarias, nas ruas e praças, no mercado, registrando fatos históricos, romances tradicionais, lendas, fantasias, notícias, versos de maldizer e de bem querer.

Geralmente eram vendidas barato, por cegos, um privilégio concedido por Provisão Régia. E ficavam expostos penduradas em cordéis, daí o nome.

A tradição veio para o Nordeste co os cantadores portugueses e aqui fixou-se. De início cantando os mesmos temas tradicionais portugueses, com a mesma métrica e as mesmas rimas. Mas aqui o romanceiro peninsular encontrou ambiente ideal, criativo, cresceu forte, encorpou, ganhou seu temas e assuntos, novas rimas, tornou-se atraente para o povo, ganhou a fisionomia da  própria gente da terra.

Em terra muito musical, de pouca leitura e muito analfabeto, os cantadores eram quase que a única fonte de notícia, de informação, de conmhecimento e de maravilha. Alguns dos maiores autores nunca escreveram um verso, por serem analfabetos.

Logo a cantoria passou a ser o maior canal de comunicação para qualquer acontecido, e para maravilha, o sonhado, o impossível desejado, para a beleza, e para a astúcia, para a crítica e a poesia, para a seca, a miséria e a vida severina.

Sobre a vida severina é bom lembrar os versos do Poeta Salomão, por nome Hégira Salomão, um islamita pernambucano de Olinda.

“Quando é severa a seca / Nossa vida é severina Se for pobre ‘tá lascado / Velho, homem ou menino / Sofrendo por todo lado / Seja um forte ou um mofino./

Malaquias José de Mello, cearense do Crato, já versejava em 1933 dizendo que o problema do Nordeste não era a seca, era a cerca:

“Filho de rico não sofre/ Seca não é seu destino Para o pobre falta tudo / Quem é rico vive o fino Quem sofre só é o pobre / Sua vida é um desatino./

Francisco Fernandes da Motta, do Catolé do Rocha, na Paraíba, escreveu A Seca no Nordeste

Quem não conhece o Nordeste / Não sabe e nem imagina / A angústia de seu povo / Quando a seca predomina / A miséria que acarreta na região nordestina. /

Quem não tem conhecimento / De uma seca no sertão/ Não vê o sol causticante / Fazdndo incêndios no chão / Milhões de bocas famintas / Clamando por água e pão./

Se o plantio estáperdido / As chuvas são inconstantes / O sertão se torna um palco / Dre cenas horripilantes / As feiras são invadidas / Por levas de retirantes. /

O governo, segundo os poetas, finge que socorre, cria frentes de trabalho, dá trabalho a quem em compadre, e explora ainda mais o pobre na emergência, oferecendo mão de obra subsidiada, gratuitamente, para o trabalho dos donos da terra, como conta Leandro Simões da Costa, de Caicó, Rio Grande do Norte:

Eu nunca fui jornalista / Nem sou poeta repóter / Escrevo aqui o passado / Pois \aqui é meu esporte / Falando do sofrinmento / Do Rio Grande do Norte.

Vou contar esse problema / De tudo o que aconteceu / A emergência chegou / Quase nada resolveu/ Só é pra proprietário / Pro pobre nada valeu./

Antes de tudo um forte, ignorante, pobre, analfabeto, mal alimentado, o lavrador é literalmente um coitado, conformado, temente a Deus, crente, fatalista, crescido e educado no sofrimento, na necessidade, na tristeza da seca. A sonhar com a água de São José, com o verde, com a fartura, acreditando em lilagre e em São Saruê, uma terra mítica que ica no meio do sertão e onde falta nada, tudo e belo e farto.

São Saruê é criação da cabeça de Manoel Camilo dos Santos, de Guarabira, na Paraíba, mas que viveu em Fortaleza. Ceará, e em Natal, Rio Grande do Norte, em Campina Grande, na Paraíba. Poeta popular e editor, escrveu muito e foi o primeiro a registrar seus versos e a defender o direito autoral dos poetas de cordel. E dele o sempre citado, o clássico Viagem a São Saruê, que é de 1942.

“Doutor mestre pensamento / Me disse um dia você/ Camilo, vá visitar / O país São Saruê / Pois é o lugar melhor / Que nesse mundo se vê./

Eu que desde pequenininho / Sempre ouvi falar Nesse tal São Saruê / Destinei-me a viajar / Com ordem do pensamento / Fui conhecer o lugar. /

Iniciei a viagem / às duas da madrugada / Tomei o carro da Brisa / Passei pela Alvorada / Junto ao quebrar da barra / Eu vi a Aurora abismada. /

Pela aragem matutina / Eu avistei bem defronte / A irmã da linda Aurora / Que se banhava na fonte / Já o sol vinha aspergindo / Ao além do horizonte./

Surgiu o dia risonho / Na Primvera imponente / As horas passavam lentas / O espaço incandescente / Tornava a Brisa mansa / Em um Mormaço dolente. /

Depois de uma viagem fantástica no carro da Brisa, e depois no crro do Mormço e no carro da Neve Fria, o poeta chega ao mar  (no sertão!) e mais adiante vê a Cidade, “como nunca vi igual”:

Uma barra de ouro puro / Servino de placa eu vi / Com as letras de brilhantes / Chegando mais perto eu li / Dizendo São Saruê / É esse lugar aqui./

Quando eu avistei o povo / Fiquei de tudo abismado / Uma gente alegre e forte / um povo civilizado / Bem tratável e benfazejo / Por todos fui abraçado. /

O povo em São Saruê / Todo tem felicidade / Passa bem, anda decente, / Não há contrariedade, / Não precisa trabalhar /  E tem dinheiro à vontade. /

A cidade é um deslumbramento, com rios de leite, barreiras de carne assada, lagoa de mel de abelhas, atoleiros de coalhada. As pedras do calçamnto são de queijo e rapadura. Feijão lá nasce no mato, já maduro e cozinhado, e arroz nasce nas vázeas já prontinho e despopado. Lá não se vê mulher feia e as mitas de prata e ouro são mesmo que algodão. O poeta não diz por que não ficou no paraíso, e termina avisando que pode ensinar o caminho:

Porém só ensino a quem / Me comprar um folhetinho. /

Do sonho da vida boa de São Sruê para a reqlidade da seca vida severina, vi distância.

Mais uma ves a caatinga está seca, esturticada, e é rqro o verde enganoso das folhagens mais resistentes: algaroba, joazeiro, umbuzeiro, palma, entre os espinhos do xiquexique e do mandacaru. A média pluviométrica está 78% abaixo do normal e no agreste as chuvas registradas são 95% inferiores à média histórica.

È  pior seca do nvo século que começa e já atinge 1300 dos quse 1800 municíoios nordestinos. Muita gente só tem a amaga palma para comer, cactácea que o gado só aceita quando não há mais o menor sinal de pasto, “comida que entope mas não alimenta”. Falta água, falta comida, falta dinheiro, falta amparo e providência, até carro pipa para de servir porque acabou a verba. Como dizia o Lula, é inacreditável e inaceitável.

Como s’e a seca no semi-árido fosse novidade, mais uma vez ela surpeende os overnantes federais, estaduais e municipais.

Em 1967, durante o IV Congresso ltaiio-Americano de Astronomia, na cidadd do Natal, que Rõmulo Argentière, delegado de São Paulo, apresentou um trabalho: O Ciclo Solar e as Secas do Nordeste foi apaludido e aprovado. Pouco divulgado, sem espaço na mídia, logo ficou esquecido. Até que os pesquisadores do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (o INPE) o retomaram. E confirmaram: há dois ciclos diferentes que comandam as secas. Quando os dois coincidem, há um grande período de estiagem, a Grande Seca. O modelo é matemático, não falha.

Naqyuele Congresso foi sugerida e aprovada a riação de um Instituto das Secas, para estudar também a atividade solar e sua influência na microfísica das nuvens. Seria um organismo capaz de coordenar e organizar os estudos e as pesquisas, inclusive do passado, e fazer um diagnóstico, apontando as soluç~ioes. Nunac saiu do papel.

Mas entre as conclusões e certezas do Cogresso, ficou claro que:

  • Água não falta. O semi-árido Nordestino é uma das regiões áridas do mundo com maior precipitação de chuva (500 a 600 milímetros por ano, segundo técnicos israelenses).
  • O garnde problema é aprender a administrar a água.
  • E aprender a comviver com a seca e o clima da região, evitando atividades que sejam incompativeis com a realidade.
  • Evitar a enorme quantidade de água represada e exposta à insolação (de 2.800 a 3 mil horas de sol por ano), porque isso esquenta a atmosfera e impede a fixação das nuvens e sua precipitação. (O CEará tem mais água representa que o Paraná, com Itaipu e tudo. Orós é um mar interior e o Castanhão tem mais água que a baía da Guanabara.)
  • A dessalinização das águas de poço é possível e, à época, o Banco Mundial ofereceu recursos a jyros zero para a compra de equipamenrtos, o que foi recusado.
  • A cosntrução de pequenos reservatórios para recolher as águas da chuva seria suficiente para garantir toda a água suficiente para o consumo familiar por um ano.
  • E o Institutio de Estudos de Gestão das Águas afirmava, pelos seus técnios, que é mais fácil lidar com a seca do que com as cheias.
  • A Associação Brasileira de Águas Subterrâneas já havia concluído, há tempos, que é posívl retirar 19,5 bilhões de metros cúbicos de água dos lençóis subtyerrâneos nordestinos, sem esgotá-los. (Na Holanda, na Alemanha e na Bélgica, 90% da água distribuída nas cidades é captada no subsolo.)  

Anos depois, segundo as Universidades Federais do Nordeste, o maior obstáculo para resolver o probela da seca é a falta de interesse político. 

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Vida Seca e Severina

outubro 24, 2007

SOLUÇÕES

As Universidades Federais do Nordeste concluíram que “a estrutura agrária do semi-árido é moralmente injusta, economicamente improdutiva e socialmente geradora de miséria”. 

Afirmar que o Nordeste é inviável é esquecer que a civilização humana nasceu em região muito semelhante e que as terras áridas e semi-áridas cobrem a maior parte de 170 países. Mas, para que ele seja viável, desencravaram um velho projeto do coronel Mário Andreaza no governo José Sarney, a transposição do Rio São Francisco. (Como foi dele também a idéia da Transamazônica, anunciada como a “redenção do Nordeste e da Amazônia” e foi a redenção apenas para as grandes empreiteiras.) A promessa é de “resolver, definitivamente, o problema de água para consumo humano no Nordeste”. A mesma velha promessa dos açudões que, como se sabe, não matam a sede nordestina.

Andreaza propunha transpor 300 metros cúbicos por segundo, para fazer irrigação e matar a sede do povo”. Até hoje o projeto é apenas de transposição. Não há planejamento para o aproveitamento da água, a não ser para as grandes indústrias e os grandes complexos agroindustriais.

Nos anos 80 o Instituto Joaquim Nabuco já denunciava a “Transamazônica de água”, chamando-o de “megaloprojeto sem preocupação social”. No entanto, num bom retrato das elites nordestinas, são raríssimos os deputados federais do Nordeste que estão contra o projeto de transposição de águas.

  

De 1500 até hoje o Nordeste registrou 25% de anos mito secos. Mas a cada século está ficando pior. No século 20 tivemos mais de 30% de anos secos.

 A primeira providência concreta para solucionar os problemas do Nordeste é o que os professores universitários chamaram de “remoção das barreiras mentais” que “têm sido um entrave maior do que as secas”. Só isso permitirá ver que “o desenvolvimento do setor agrícola é que traz solicitações para todos os outros segmentos, porque as economias se desenvolvem normalmente e não de forma artificial”. Depois é preciso deixar de confundir desenvolvimento com progresso. O progresso tem preocupação social e o câncer é um desenvolvimento. 

A seguir é necessário deixar de combater a seca, que não pode ser vencida, e aprender a conviver com ela, de modo inteligente, de modo a tirar proveito, acabando com o desperdício de 90% da água que cai sobre o solo nordestino e aprendendo a usar melhor os recursos hídricos (como fizeram, por exemplo, os israelenses).

Deixar de concentrar água na superfície, dando preferência às barragens subterrâneas, que lidarão com os rios que correm por baixo e que, devidamente contidos, podem criar novas áreas agriculturáveis.

Então, mudar a estrutura econômica, o sistema produtivo, criar uma economia capaz de empregar, de criar renda. Fazer uma reforma agrária que não seja a simples distribuição de terras, assentando a população e criando uma infra-estrutura para escoar a produção, porque o minifúndio improdutivo já é um dos problemas do Nordeste.

Aqui estão as soluções apontadas pelos técnicos e professores das Universidades Federais do Nordeste, recolhidas em um Seminário (promovido pela Rede Globo) , que não foram implementadas e que têm tecnologias disponíveis:

·        Criação apenas de animais resistentes (caprinos, ovinos, asininos, muares, eqüinos, bovinos apenas da raça zebu, galinhas de capoeira, guiné, perus, patos, marrecos, preás e emas).

·        Criação de abelhas junto a bosques naturais ou plantações de algaroba, cajueiros ou xerófilas.

·        Criação de peixes e camarões de água doce em açudes, lagoas e viveiros.

·        Criação de camarões marinhos em fazendas marinhas, nos estuários dos rios ou em salinas desativadas.

·        Criação de moluscos, marinhos e terrestres

·        Fazendas marinhas de algas

·        Cultivo de forrageiras resistentes, como a algaroba e a palma, leuceria, sorgo, milhete, capim buffel e cunhã.

·        Construção de barragens sucessivas nos rios subterrâneos.

·        Construções de barreiros, implúvios e cisternas acessíveis à população.

·        Perfuração de poços tubulares e amazonas nos solos sedimentares e nos aluviões à margem dos rios.

·        Instalação de biodigestores.

·        Instalação de cata-ventos e quebra-ventos.

·        Uso extensivo de cobertura morta, silagem e fenação.

·        Exploração das vazantes dos rios para plantio e exploração comunitária.

·        Aplicação de técnicas de lavouras seca.

·        Uso de forrageiras nativas.

·        Irrigação controlada.

·        Dessalinização da água.

·        Uso extensivo de técnicas de agriculturas defensivas naturais (sem agrotóxicos).

·        Começar o novo Nordeste pelas chamadas frentes de emergência, só alistando quem precisa, sem intervenção de compadresco, pagando pontualmente um salário justo e permitindo que a comunidade participe do debate, oriente as prioridades de obras, decida e fiscalize os trabalhos.

·        Desvincular os programas sociais de interesses político-partidários.

·        Estabelecer como prioridades nas obras públicas o interesse público.

·        Desapropriar as áreas beneficiadas pelas obras públicas quando elas foram construída no interesse dos latifundiários.

No final do século 16 e durante todo o século 17, O Nordeste liderava a vida econômica do Brasil Colônia, em função do açúcar e do gado. O que deslocou o pólo dinâmico da economia brasileira para o Sul foi a descoberta do ouro, em Minas Gerais, em fins do século 17 e começo do 18. Com o café, primeiro no Rio de Janeiro e depois em São Paulo, já no século 19, é que se consolidou o predomínio do Sul-Sudeste.

E sempre houve seca no Nordeste.

Mesmo depois do ouro, do café e com toda a seca, as disparidades regionais não eram tão grandes, antes do processo de industrialização. Não havia, no nordeste,miséria nem abandono. E produzia-se, a tal ponto que até 1940 a receita do Estado de Pernambuco era maior que a do Estado de São Paulo.

Foi a industrialização, feita em torno dos grandes centros do Sul-Sudeste que atraiu os nordestinos para as maravilhas do consumo e a facilidade dos serviços públicos. As cidades incharam, por não haver planejamento para o crescimento urbano. Só nos últimos 60 anos é que a miséria e a fome se instalaram e afastaram cada vez mais o Nordeste da qualidade de vida do Sul Maravilha (como chamava o Henfil).

Não haverá solução para o Brasil, enquanto não solucionarmos os problemas do Nordeste. Recursos humanos não faltam. Inteligência e conhecimento também não. A taxa liquida de atividade, que retrata a participação da população economicamente ativa, é maior  no Nordeste do que no resto do país. O que quer dizer que não é por falta de trabalhar que o Nordeste não vê chegar novamente sua hora e sua vez.

Certamente, é preciso conscientizar mais os eleitores, porque a representação política, no geral, deixa a desejar e trabalha pouco para o Nordeste e para resolver seus problemas.

São Saruê é um país mítico, onde tudo é riqueza.  Mitologicamente ele fica no Nordeste brasileiro, mas só existe mesmo na imaginação criativa do povo nordestino. É uma utopia, um sonho,  mas o sonho é possível se não se quiser, como sempre, aproveitar a seca para tornar os ricos mais ricos, com o dinheiro devido aos pobres, tornando suas vidas cada vez mais severinas.

  

Sem Porcelanas em Dresden I

outubro 20, 2007

            Hoje não  há porcelanas em Dresden!”  Foi com essas palavras, em tom jocoso, que um locutor da BBC anunciou para o mundo a destruição da cidade alemã de Dresden, no mais devastador ataque aéreo da história da Segunda Grande Guerra, pior do que Hiroshima e Nagasaki.  Nos dias 13 a 14 de fevereiro de 1945 quase dois mil bombardeiros aliados lançaram 3 mil toneladas de bombas sobre a cidade indefesa, sendo 650 mil incendiárias.

            A idéia do bombardeio tático era criar uma tempestade de fogo e ela atingiu mais de mil graus centígrados.  Morreram 135 mil pessoas, mais do que todas as vítimas dos ataques aéreos contra a Inglaterra.. Foram destruídas 24.866 casas de uma cidade que se acreditava uma cidade aberta (como Oxford) por sua riqueza cultural, seus museus, sua universidade, suas porcelanas.

            Foi um crime de guerra. Só que, na vitória, não há crimes de guerra.

            Os historiadores da guerra aérea informam que o primeiro ataque contra o território alemão ocorreu no dia 10 de maio de 1940.  Nessa tarde começava a invasão da França e dos chamados Países Baixos (Holanda, Bélgica e Luxemburgo). Nesse mesmo dia o primeiro-ministro britânico Neville Chamberlain (que era contra o bombardeio da população civil) foi substituído por Winston Churchill.  A ordem para deixar de lançar folhetos de propaganda e passar a lançar bombas veio diretamente de Churchill.

            Três bimotores, voando a 1600 metros de altura, bombardearam Freiburg-im-Breisgau.  As pequenas mas poderosas bombas de 50 quilos explodiram muito longe do alvo, o aeródromo militar.  Duas das bombas atingiram um play-ground infantil na Kolmar-Strasse.  A polícia anunciou 57 vítimas: 11 soldados, 11 homens civis, 13 mulheres civis, 22 crianças.

            O Ministério da Propaganda alemão denunciou o bombardeamento da cidade aberta, “completamente afastada da zona germânica de operações e desprovida de objetivos militares”.

            O Ministério do Ar britânico classificou a nota alemã como inverídica, “outro exemplo da falsidade germânica” e relembrou o compromisso da Real Força Aérea de não permitir o bombardeamento de populações civis.  Fez mais: acusou a aviação alemã de bombardear a cidade “como parte de uma bem organizada trama para justificar bombardeios alemães à população civil”. Alguns dias depois do ataque a Freiburg a Luftwaffe desencadeou o seu mais tristemente famoso ataque de toda a guerra, durante a batalha de Rotterdam, no qual milhares de holandeses foram chacinados.

            A cidade holandesa vinha resistindo, corajosa e bravamente, às tropas alemãs, quando o general Von Küchler, Comandante do 18º Exército, determinou: “A resistência em Rotterdam deve ser esmagada por todos os meios.  Se necessária, a destruição da cidade deve ser considerada e realizada”.

            Foi considerada e realizada, mesmo depois que a capitulação do exército holandês ter sido entregue ao Alto Comando Alemão.

            O primeiro ataque da RAF (Royal Air Force) a Berlin foi na noite de 25 para 26 de agosto de 1940, como revide ao ataque da Luftwaffe na noite anterior, quando pela primeira vez foram jogadas bombas no centro de Londres.  (Em 52 dias. morreram 1.333 civis nos ataques à Inglaterra.)

            Depois de tentar, sem sucesso, aliar-se aos “primos ingleses”, Hitler determinou que Londres fosse arrasada.  Na tarde de 7 de setembro a Luftwaffe atacou de surpresa, à luz do dia: 247 bombardeiros, escoltados por centenas de caças, destruíram depósitos de gasolina e instalações portuárias ao longo do Tamisa, com um total de 355 toneladas de altos explosivos e 440 de incendiárias, marcando o fim da chamada Batalha da Inglaterra. Entre 7 de setembro de 1940 e 16 de maio de 1941 a Luftwaffe lançou 18.921 toneladas de bombas em 71 ataques maciços, deixando ao desabrigo em Londres, Birmingham e Liverpool 375 mil pessoas.

            A eficiência e eficácia dos bombardeios aéreos sobre o esforço de produção era um debate constante, tanto entre os alemães quanto entre os britânicos.  O Vice-Marechal-do-Ar Harris afirmava que o esforço do Comando de Bombardeiros havia diminuído a produção alemã em 25% mas não se sabe a origem desse dado.

            A ineficiência dos Bombardeiros e a má pontaria só se revelaram  depois de um relatório de Bensusan-Butt, depois de cuidadosa análise das fotografias aéreas feitas pelo próprio Comando de Bombardeiros e pela Unidade de Reconhecimento Fotográfico..  Esse relatório, entregue em 1941 tinha detalhes inacreditáveis: de todos os aviões que afirmavam haver acertado os alvos, apenas um terço o fizera co m um aproximação de sete quilômetros… E nos objetivos bem defendidos por artilharia aérea, como o complexo industrial do Ruhr, os acertos caíam para um décimo.  Decidiu-se que era inútil continuar esperando precisão nos ataques noturnos, até que pelo menos uma parte dos aviões do Comando fosse provida de equipamentos eletrônicos semelhantes aos dos alemães.

            Em 9 de julho de 1941, o Vice-Marechal-do-Ar N.H. Bottomley, Chefe Adjunto do Estado Maior, emitiu uma diretiva ao Comandante-em-Chefe do Comando de Bombardeiros:

“Desejo informá-lo de que uma minuciosa revisão da atual situação política, econômica e militar do inimigo revela que o ponto mais fraco de sua armadura está no moral de população civil e no seu sistema interno de comunicações.”

“O esforço principal da força de bombardeiros, até novas instruções, deve consistir em procurar desarticular o sistema alemão de transportes e destruir o moral da população civil em conjunto.”

“Precisamos primeiro destruir os alicerces, sobre os quais assenta a máquina de guerra alemã, a economia que a alimenta, os suprimentos que a nutrem e as esperanças de vitória que a inspiram.”

Não foi deixada qualquer dúvida quanto à maneira de realizar isso, o que incluía o crime de bombardear população civil indefesa.  Ate os alvos preferenciais foram indicados, escolhidos porque, uma vez atingidos, “os efeitos psicológicos serão os maiores”.

Um ataque ao moral inimigo exigia novas técnicas e partia da observação fo Estado-Maior do Ar: “o maior dano ocasionado pelo inimigo era causado pelos incêndios”.  Bombas alemãs, em igualdade de peso, eram duas vezes mais eficientes do que as inglesas.

O plano era bombardear a Alemanha entre março de 42 e junho de 43 para deixar ao desabrigo um terço da população.

Wuppertal foi um exemplo do que se imaginou e da efetividade da nova técnica. Havia pouca defesa antiaérea, os marcadores luminosos foram lançados numa extremidade do alvo para que qualquer bomba lançada, mesmo precipitadamente, atingisse o alvo. ( O que se dizia é que os coelhos lançavam as suas bombas logo que possível e abandonavam rapidamente a área do objetivo, sem se importarem com o destino das bombas.)

A forma de 719 bombardeiros foi instruída a atravessar a cidade ao longo do seu comprimento e 475 lançaram sua carga de bombas no coração de Wuppertal-Barmen. Foram 1895 toneladas de incendiárias e explosivas.

A produção industrial parou por 52 dias, foram mortas 2.450 pessoas e o número de vítimas civis em tão grande escala despertou a atenção dos líderes alemães da guerra.  Até mesmo em Londres houve murmúrios horrorizados quando as fotos com o resultado do ataque foram publicadas..  The Times de 31 de maio lembrou Rotterdam.

Antes que passassem seis anos de guerra, 635 mil civis alemães morreriam nas ofensivas aéreas que antes eram orgulho da Luftwaffe.

A Batalha de Hamburgo (que começou no dia 24 de julho de 1943), foi importante porque demonstrou claramente que mesmo uma cidade bem defendida não estava imune se não pudesse deter os bombardeiros incendiários.  E por registrar a primeira grande tempestade de fogo na História.

O aviões ingleses jogaram tirinhas de metal de 25 centímetros de comprimento que bloqueara, com grande sucesso, o equipamento de radar que orientava os canhões das baterias antiaéreas.

Nos quatro principais ataques foram despejadas 7.931 toneladas de bombas sobre a cidade, metade delas incendiárias.  A catástrofe não podia ser evitada, embora a cidade houvesse passado por um custoso programa de construção de reforços e abrigos, inclusive túneis que permitiam ficar debaixo da cidade e circular por ela longe das bombas.  Foram, inclusive, executados todos os processos  capazes de permitir, em caso de grandes incêndios, um fornecimento d’água de emergência. O próprio contorno do lago Alster foi mudado, para confundir os navegadores.

O problema é que a população , previdente, havia acumulado nos porões grandes quantidades de combustível e de carvão, à espera do inverno. No fim de três ataques a Hamburgo os mortos chegavam a 50 mil.  Os feridos graves somavam  37 mil  e os desabrigados mais de  427 mil. Militares mortos: menos de mil. (Nos bombardeios às Inglaterra morreram 51.509 civis.)

O povo alemão, desinformado ou contra-informado, não teve idéia do que significava o bombardeio de Hamburgo e a batalha da comunicação, por parte dos britânicos, não teve efeito sobre o moral germânico.  Sir Arthur Harris lamentou que o Comando de Bombardeiros não pudesse ter repetido, em rápida sucessão, a catástrofe de Hamburgo “em mais quatro ou cinco cidades alemãs”.

O segundo grande sucesso em provocar uma tempestade de fogo ocorreu na noite de 22 para 23 de outubro de 1943 e o objetivo foi Kessel, centro da produção alemã de tanques e de locomotivas.  Pessoal bem treinado em falar alemão, transmitindo pelo rádio de Kingsdown, em Kent, irradiou instruções falsas aos caças noturnos da Luftwaffe, para retardá-los e para levá-los a crer que ataques diversionistas eram o ataque principal.  Além disso, falsas informações meteorológicas levaram um grande número de pilotos alemães a aterrar e dispersar.

O ataque diversionista foi em direção a Frankfurt-am-Main às 20 horas e 40 minutos. Cinco minutos depois começou o ataque a Kassel, muito concentrado, porque a cidade estava sem a proteção dos caças.  Quando eles chegaram, vindos de Frankfurt, a cidade já estava incendiada pelas primeiras vagas de atacantes, porque ao receber a notícia de que Frankfurt estava sendo atacada a defesa antiaérea de Kassel abandonou a vigilância.

Naquela noite lançaram sobre Kassel mais de 1.823 toneladas de bombas e dos 444 bombardeiros, 380 informaram terem atingido o objetivo.  Trinta minutos depois da zero hora a tempestade de fogo comia a cidade: 26.782 casas totalmente destruídas, mais de 120 mil desabrigados, 65% das casas sem condição de moradia, a rede de telefonia e a rede de energia destruídas, toda a indústria parada, por destruição, ou por falta de energia elétrica ou gás.

Ao aproximar-se o inverno de 1943, o Comando de Bombardeiros não estava no fogo somente dos caças alemãs ou das baterias antiaéreas: havia séria controvérsia, dentro e fora do Governo, sobre a morte de civis e a destruição de casas de moradia.  O Partido Trabalhista interpelou o Secretário de Estado para o Ar, querendo saber se a RAF havia recebido ordens para “impedir e desorganizar o esforço alemão mediante a destruição de habitações proletárias”,  Sir Archibald Sinclair mentiu: disse que “nenhuma instrução havia sido dada no sentido de destruir bairros residenciais de preferência a fábricas de armamentos”.

No dia 31 de março, no auge da Batalha do Ruhr, disse, enfaticamente, que “os objetivos do Comando de Bombardeiros são sempre militares”. E ainda pediu ao Arcebispo de Canterbury (que sabia a verdade) não condenasse a ofensiva aérea porque os pilotos ingleses poderiam ter “reservas de consciência” e o moral afetado , o que “certamente irá comprometer a sua eficiência”.

Sir Arthur Harris era contra a hipocrisia, defendia o Comando de Bombardeiros e sua missão e afirmava que a atitude envergonhada do Ministério do Ar “poderia exercer efeito desfavorável nas tripulações, permitindo-lhes imaginar que estavam sendo solicitados a cumprir tarefas imorais”.

A imprensa britânica foi bem trabalhada e quando, em fevereiro de 1944, Dr. Bell, Bispo de Chichester, protestou vigorosamente contra os bombardeios de civis na Alemanha (por informações que recolhera pessoalmente na Suécia), a opinião pública recusou-se a acreditar e a levá-lo a sério.

Sem Porcelanas em Dresden II

outubro 20, 2007

 

Em junho de 1944 os alemães começaram a  atacar Londres com as bombas-voadoras.foguetes não-tripulados.  O efeito foi devastador e os locais de lançamento das V1 passaram a ser objetivos de alta prioridade.

Cerca de 40% da produção de bombas de 500 quilos era completada em fábricas na área de Londres e os ataques  deixaram essa produção seriamente afetada, prejudicando o programa de bombardeio das ferrovias francesa, de fundamental importância para o transporte de tropas alemãs e para o projeto de invasão aliado.

Na noite de 30 para 31 de março, 95 bombardeiros de uma força de 795 deixaram de voltar a um ataque a Nuremberg.  O marcante sucesso dos caças interceptores noturnos deveu-se ao fato de que os alemães sabiam do ataque e se prepararam, sabendo até da incompetente rota direta de retorno.

O General Eisenhower assumiu o Comando Supremo em abril e revelou sua insatisfação com o Comando de Bombardeiros britânico, que passou o verão sem condições de atacar como nas grandes ofensivas de 43.

Em setembro, uma força de somente 217 Lancasters, em vôos rasantes, fez um ataque tão concentrado que em 30 minutos o coração da cidade de Stuttgart estava arrasado.  O Grupo de Bombardeiros nº 5 fazia história , inovando o modo de atacar.

A 11 de setembro o mesmo grupo ataca Darmstadt, estendendo duas largas linhas através da cidade, formando um V. Feixes de bombas foram calculados para saturar toda a parte administrativa da cidade e suas áreas residenciais.. Dos 240 Lancasters enviados, 234 atacaram despejando 872 toneladas de bombas, inclusive 286 mil incendiárias e 2 mil arrasa-quarteirão de 2 mil quilos.

A tempestade de fogo que surgiu cerca de uma hora depois do ataque começar abrasou todo o interior da cidade, queimando até os edifícios não danificados pelas explosões.  O insuportável calor matou a todos e impediu a entrada de bombeiros durante  muito tempo. O revestimento químico de proteção contra o fogo do madeiramento dos telhados, útil em Kassel, foi inútil em Darmstadt.  O ar deslocado pelo calor  e as ondas de descompressão fizeram voar portas e janelas.  Às duas da madrugada a tempestade de fogo nas ruas excedia de 10 a 12 vezes a força dos furacões.  O tufão só abrandou depois das 4 hortas.  A devastação atingiu 78% da cidade, 21.478 residências foram destruídas e 70 mil ficaram desabrigados.  Na Cidade Velha só cinco edifícios escaparam. Foram 12.300 mortos, 1.800 dos quais irreconhecíveis e 4.500 pessoas dadas como desaparecidas. Causa predominante das mortes: asfixia e queimaduras.

 

Em fins de 1944  um ataque da aviação americana ao vizinho complexo de gasolina sintética  de Ruhland, fez cair algumas bombas nos subúrbios de Dresden. O ataque foi uma sensação local  e os escolares reuniram fragmentos de bomba para vender como lembrança, enquanto donos de carruagens organizavam excursões turísticas às ruas atingidas.  Nunca  alguma coisa semelhante havia acontecido à cidade. O povo, quase que unanimemente,  acreditava que o bombardeio havia sido um acidente, um infeliz engano de um navegador.  Havia a certeza de que Dresden não seria atacada: a cidade era um centro cultural com teatros, museus, salas de concerto e instituições de ensino, universidade,  não tinha qualquer indústria vital e estava cheia de prisioneiros de guerra franceses, belgas e ingleses que tinham até uma certa liberdade, além de sediar hospitais militares.

Além disso, sabia-se de uma sobrinha alemã de Churchill, que estudava em Dresden. (Na verdade, essa pessoa nunca existiu.) A guerra parecia muito distante e a população imaginava estar vivendo em uma cidade aberta, embora ela jamais houvesse sido declarada como tal.

Dresden só era importante como ponto-chave do sistema postal e telegráfico alemão e nem mesmo tinha artilharia antiaérea.

A decisão de atacar Dresden foi responsabilidade do militar britânico Marechal-do-Ar Sir Arthur Harris e do militar americano Tenente-General James H. Doolitle, como parte da ofensiva contra os centros populosos de leste “para provocar a revolta do povo alemão contra seus dirigentes”…  Uma das mais belas e ricas cidades alemãs, com uma população de mais de um milhão, mais os refugiados e 26.620 prisioneiros de guerra trabalhadores,  foi atacada durante as 14 horas e 30 minutos que se seguiram às 22 e 15  da noite de 13 de fevereiro de 1945. Era parte do plano de destruir pelo menos a metade das 60 principais cidades alemãs que fora aprovado pessoalmente pelo Primeiro-Ministro Winston Churchill para “acabar com o moral alemão”.

Harris planejou um ataque duplo da RAF a Dresden, imaginando uma vantagem: os esquadrões de combate, com o primeiro bombardeio terminado, estariam em terra para reabastecer.  Ele e seus táticos calcularam que o ideal seria um intervalo de três horas entre os ataques do duplo golpe, porque os bombeiros e a defesa civil estariam ocupados e seriam eliminados pela segunda leva de bombardeiros. Além disso, em três horas os incêndios teriam atingido grande desenvolvimento, alimentados pelo vento forte.

Tudo aconteceu como previsto: as brigadas de incêndio das grandes cidades da Alemanha Central correram para socorrer Dresden.  Os incêndios em uma grande área não foram extintos pelos habitantes que preferiram ficar em seus abrigos, assustados pelas explosões das bombas de tempo (outra novidade do ataque).

Estava montado o cenário para a tragédia final, a tempestade de fogo.

A ordem executiva para bombardear Dresden não passou sem  problemas: logo que foi recebida o Comandante do Grupo Esclarecedor telefonou para certificar-se de que o Estado-Maior havia entendido mal a ordem.  Muitos oficiais mais graduados ficaram surpresos com a confirmação do Vice-Marechal-do-Ar Bennett.  Quando os 6 mil aviadores do Comando d Bombardeiros acabaram de receber suas instruções, o descontentamento da maioria era evidente. O Marechal-do-Ar Sir Robert Sandbury, no Quartel-General do Comando de Bombardeiros não podia ver motivos para bombardear Dresden, cidade que nunca estivera em qualquer lista de objetivos militares.  As instruções falavam em  atacar o Quartel-General do Exército Alemão em Dresden, o Quartel-General da Gestapo, os “depósitos de gás venenoso” e os “armazéns de abastecimento da Alemanha”.  Eram mentiras.  Normalmente, quando um esquadrão era instruído para o que era considerado um objetivo importante, os aviadores davam um hurra quando o Comandante subia à tribuna.  Mesmo quando era uma missão difícil. Para a missão de Dresden não houve o hurra.

Mas o ataque ocorreu com terrível precisão militar: primeiro as janelas e telhados foram despedaçados por bombas altamente explosivas; então começaram a cair as incendiárias, pondo fogo nas casas e levantando chamas e fagulhas que iam atingir outras casas, pelos telhados e janelas, ateando fogo às cortinas, tapetes, móveis e madeiramento dos telhados

A ordem de decolar chegou tarde demais para o esquadrão noturno que poderia defender Dresden. Os Messerscmitt bimotores precisavam de mais de meia hora para atingirem altitude de ataque

Os poucos canhões que defendiam Dresden também ficaram silenciosos.  Não houve esboço de defesa.  Os pesados Lancasters puderem bombardear de baixa altura, assegurando a perfeita distribuição de bombas sobre o setor marcado para ataque pelos sinalizadores.

Os Lancasters do primeiro ataque estavam de volta à Inglaterra às 22 e 30.  E os 529 bombardeiros da segunda onda chegaram a por volta de 1 hora e 30 minutos da madrugada de 14.  Todo o centro da cidade já estava em chamas e os bombardeiros, sem encontrar resistência, baixaram de 6 mil para 2 mil metros.  O segundo ataque foi uma surpresa ainda maior para os habitantes de Dresden.

Nas suas memórias, o piloto E.H.Emmott escreveu que “pela primeira vez em muitas operações  tive pena da população em terra”.  O último avião sobre o objetivo passou sobre Dresden atrasado, dez minutos. “Havia um mar de fogo cobrindo, ao que eu pude avaliar, uns 80 quilômetros quadrados. O calor que subia   da fornalha embaixo podia ser sentido da minha cabina.  O céu estava brilhantemente colorido de vermelho e branco, e a luz no interior do avião era a de um suave pôr-do-sol de outono.  Estávamos tão aterrorizados com as assustadoras chamas que, embora sozinhos sobre a cidade, sobrevoamos por muitos minutos, antes de começar a viagem de volta, completamente subjugados pelo que imaginávamos  quanto ao horror que devia estar acontecendo embaixo.  Trinta minutos depois de partir, a mais de 200 quilômetros de Dresden, ainda podíamos ver as chamas do fogaréu.”

Aproximadamente 650 mil incendiárias foram lançadas sobre a cidade.  Centenas de arrasa-quarteirão de 2 mil e de 4 mil quilos. Foram envolvidos 1.400 aviões do Comando de Bombardeiros. Dos quais se perderam apenas seis, um atingido por bombas que caíam de um avião acima e três abatidos no retorno. O Comando comemorou  “o mais frutuoso reide noturno na história desse Comando de Bombardeiros, cobrindo a mais profunda penetração na Alemanha, com perdas de menos de meio por cento”.

Para Dresden, no entanto, ainda não era o fim:uma nova força de bombardeiros, americana, já estava a caminho com 1.350 Fortalezas Voadoras e Liberators.  Como o General Carl F. Spaatz, Comandante-em-Chefe da 8ª Força Aérea resistia firmemente a todas as propostas  de tentar aterrorizar o povo alemão para que se voltassem contra as autoridades e capitulassem, e se recusava a enviar  bombardeiros pesados para o ataque a cidades desarmadas e que poderiam ter fortes baixas civis “porque isto, ao contrário, pode convencê-los de que somos bárbaros, como acusa a propaganda nazista”, ele foi convencido que o bombardeio era a “importantíssimos entroncamentos ferroviários que podem decidir o futuro da guerra.”

Ele ainda insistiu, em um memorando, que “nunca permitiremos  que a história desta guerra nos convença a lançar bombas estratégicas no homem na rua”.  Mas ordenou o ataque.

Londres, terminada a guerra, contabilizou 600 acres destruídos pelos bombardeios alemães; Dresden  teve 1.600 acres devastados em dois dias e três noites.  Pela primeira vez na história da guerra  um ataque aéreo  atingiu um objetivo de tal modo que não havia sobreviventes em número suficiente para enterrar  todos os mortos. Em Hiroshima e Nagasaki, que vieram depois, as bombas atômicas provocaram  menos mortes do que o bombardeio de Dresden.

Sem Porcelanas em Dresden III

outubro 20, 2007

Ninguém viu o sol nascer na aurora da Quarta-feira de Cinzas, 14 de fevereiro, em Dresden. A cidade ainda estava coberta pela nuvem de fumaça amarelo-parda que chegava a 4.500  metros de altura e por uma outra fumaça onde flutuavam destroços fragmentados de escombros da cidade.  Essas nuvens chegaram até a então Tchecoslováquia.  Quando a fumaça saiu, depois de três dias, o ar esfriou e choveu, muito, uma chuva suja, carregada de fuligem.   Papéis e documentos queimados, documentos do Escritório de Registro de Dresden, foram cair na aldeia de Lohmen, 25 quilômetros adiante e os camponeses levaram uma semana para limpar os campos das cinzas e detritos da queimada.

A tempestade de fogo foi a maior e mais devastadora jamais vista na Alemanha ou em outro lugar qualquer do mundo. Multidões que corriam para sair do centro das cidade foram colhidas pelo vendaval e atiradas contra as paredes, de volta ao centro do incêndio.  O fogo atingiu seu máximo nas três horas de intervalo entre os ataques, exatamente quando as pessoas começavam a deixar os abrigos para fugir.  E uma vez começada a tempestade nada havia que as forças de combate ao fogo pudessem fazer para contê-lo ou controlá-lo. Logo depois das primeiras bombas faltou telefone e energia, faltou água para os que combatiam o fogo.  Depois, quem estava no serviço de salvamento também foi esmagado pelo vendaval.  Ninguém das brigadas de incêndio ou da defesa civil sobreviveu para contar alguma coisa sobre o maior fogaréu da história, todos mortos no segundo ataque.  Quem viu e viveu falou de línguas de fogo que subiam a  100 e 150 metros de altura, de um vendaval capaz de atirar as pessoas a 100 metros de distância e de um calor que sufocava e matava nas adegas e porões onde muita gente procurou abrigo.

O Circo Sarrasani, de visita à cidade, desapareceu, com todos os seus animais. Um extenso conjunto de túneis sob a Post-platz ligava os principais edifícios administrativos da cidade mas todas as saídas ficaram bloqueadas e quem estava lá dentro morreu sem oxigênio. Dois trens cheios de crianças de 12 a 14 anos, evacuadas por causa do avanço do Exército Vermelho, foram destruídos. Ninguém sobre viveu. Milhares de refugiados que corriam para Dresden seguindo a notícia de que a cidade seria poupada para ser a capital alemã do pós-guerra, tiveram seus corpos empilhados, uns por cima dos outros e não houve tempo nem espaço para sepultá-los dignamente: foram para uma enorme vala comum, para evitar mau-cheiro e doenças.

Só três horas e meia depois do fim do ataque americano foram iniciadas as primeiras grandes operações de salvamento, quando chegaram a Dresden soldados da Defesa Civil com máscaras contra gás, ferramentas para cavar, água e alimento para um dia.  Atravessaram as pontes sobre o rio Elba sem marchar, porque elas haviam sido minadas quatro dias antes e temia-se que a vibração da marcha  provocasse explosões.  Viram logo que os principais pontos de referência da cidade estavam destruídos.  Milagrosamente, o mais famoso deles estava incólume, o zimbório de cem metros da Frauenkirche Georg Bähr.  A Frauenkirche sobreviveu a muitas guerras e foi do seu zimbório que o jovem Goethe contemplou, em 1768, a devastação causada pelo bombardeio da artilharia de Frederico II da Prússia, na Guerra dos Sete Anos.

Dresden já não era mais a cidade de contos de fada, de torres e ruas antiqüíssimas e bem conservadas que, à noite, ficam cheias de gente que saiam dos teatros, dos cinemas, das casas de concerto, do circo ou da Ópera.  Agora cidade estava quieta, vazia.

Abrigados no subterrâno da catedral havia uma enorme filmoteca, os arquivos do Ministério do Ar.  Exatamente quando os bombeiros imaginavam ter controlado o fogo, o calor provocou a combustão do celulóide  e uma explosão violenta que fez desabar o zimbório, às 10 e 15 da manhã do dia 15, completando a destruição de Dresden.

Alguns locais da cidade estavam tão quentes, principalmente as adegas e porões, que não foi possível entrar e recolher as vítimas durante semanas.  Quem trabalhava no recolhimento dos mortos recebia conhaque de hora em hora, para ajudar a suportar a situação.  Os prisioneiros aliados foram chamados a participar da missão de retirar as vítimas das ruas, mas a eles não se oferecia conhaque.  A maioria das vítimas estava de rosto para o chão, literalmente incrustados no asfalto, irreconhecíveis.

“Nunca poderia pensar que a morte pudesse atingir tanta gente de tantas maneiras diferentes”, disse Hanns Voigt, professor de uma das escolas da cidade (completamente destruída) e que escapou porque a escola havia sido transformada em um hospital da Luftwaffe e ele fora removido para uma creche de refugiados a uns 10 quilômetros ao sul.  Ele foi incumbido de tentar identificar vítimas e fazer o levantamento dos mortos.

Em Dresden, durante 90 dias, o cheiro predominante era de queimado e de corpos em decomposição.

No Altmarkt-Square, sob o Monumento da Vitória (erguido depois da guerra Franco-Prussiana) haviam sido construídos grandes tanques de água, de cerca de 30 metros quadrados.  Centenas de pessoas, com as roupas em fogo, mergulharam nos tanques para não serem queimadas.  As paredes dos taques estavam cerca de um metro acima do terreno, mas a água estava a três metros de profundidade.  Quer dizer que, uma vez dentro dos tanques, não havia como sair sem ajuda externa.  Os que não sabiam nadar agarravam-se aos que sabiam e ambos afundavam.  Além disso, a água esquentava cada vez mais, até quase ferver.  Quando as turmas de salvamento abriram caminho até Altmarkt-Square, na tarde seguinte, todas as pessoas estavam mortas e a água dos tanques estava pela metade, por evaporação.

Na Seidnitzerr-platz também havia um tanque de água, de uns 20 metros quadrados.  Não era profundo.  Os bombeiros, quando chegaram, encontraram uma visão grotesca: cerca de 200 pessoas estavam ali, sentadas na borda do tanque, como deveriam estar na hora do ataque.  Todas mortas, e algumas caídas dentro d’água.

Dez dias depois do ataque, a temperatura começou a baixar no interior de algumas adegas e Voigt, para cumprir sua missão, foi assistir a abertura delas.  A primeira ficava em uma casa perto da Pirnaischer-platz.  Um grupo de soldados romenos recusava-se a obedecer as ordens para entrar.  Voigt, para dar o exemplo, resolveu ir na frente, com uma lâmpada de acetileno na mão.  Não sentiu o cheiro característico de corpos em decomposição e respirou, aliviado.  Mas os degraus de descidas estavam escorregadios e o piso da adega estava coberto por uma espessa pasta que ele custou a identificar como uma mistura de carne, ossos, sangue, de pessoas que haviam, literalmente, derretido e cujos restos formavam uma camada de 12 polegadas.

Voigt mandou derramar cal clorado sobre aquela massa e a deixasse secar. Depois soube que ali deviam estar de 200 a 300 pessoas.

Prisioneiros de guerra trabalhando na tarefa de remoção não suportavam a emoção, o mau cheiro, a visão de corpos queimados, esquartejados, contorcidos. Alguns recusaram-se a continuar o trabalho e foram fuzilados no local.

Enormes pilhas de cadáveres foram sendo  formadas rapidamente nas ruas, principalmente as que tinham cinemas, teatros e casas de concerto, lotadas por ocasião do ataque.  Carroças puxadas por cavalos levavam os mortos para a Estação Central ferroviária, onde foram formadas   pilhas de três metros de altura e de vinte metros quadrados, todas as cabeças no mesmo sentido.

Quanto mais avança o trabalho menor a esperança de identificar e até de contar as vítimas de  modo perfeito.  Com famílias inteiras mortos não havia quem reclamasse a falta de um dos seus…  Havia espaço para um funeral decente para todas as vítimas, mas faltava tempo.  O cheiro de corpos em decomposição dominou a cidade por três semanas e o serviço não terminara.  Havia o perigo real de uma epidemia de tifo.

Sobreviventes que reconheciam parentes mortos furtavam os corpos para levá-los, em carrinhos de mão, para um sepultamento cristão. As autoridades acabaram decidindo que ninguém tinha direito pessoal aos corpos de parentes e ofereceram atestados de óbito que não dava a causa mortis, afirmando apenas “morto em Dresden em 13 de fevereiro de 1945”.

Nos termos secos das estatísticas alemãs, para cada cidadão de Munique havia 8,5 metros cúbicos de escombros; em Stuttgart,11,1; em Colônia, 14; em Berlim, 16,5 e em Dresden, para cada um dos habitantes da cidade (incluindo os mortos) 19 metros cúbicos de escombros, quase 12 caminhões carregados por pessoa.

A recuperação da capacidade de produção de Dresden foi rápida, provando que as áreas industriais foram pouco atingidas, mesmo com toda a destruição da cidade. O que aconteceu de pior foi à indústria óptica Zeiss-Ikon e a uma fábrica de soro.

Quanto às vítimas, muitas delas ainda em fantasias carnavalescas, foram empilhadas, junto com fardos de palha nos destroços da loja de departamentos da  Renner.  Eram cerca de 500 e seus corpos  foram queimados e as vítimas magras e mais idosas demoravam mais para pegar fogo, segundo as testemunhas, do que as gordas e as jovens.  Depois que o último corpo foi incinerado, no final da tarde, as cinzas foram reunidas e levadas para uma vala aberta no cemitério. Foram necessários vários carros e várias viagens até o cemitério de Heide-Friedhof.  Nele, as cinzas de um total de 9 mil corpos que foram cremados a céu aberto, foram sepultadas em uma cova de  oito metros por cinco e dois metros de profundidade. “para evitar epidemias e por motivos morais”, segundo as autoridades.

Quantos morreram? O monumento, no local do sepultamento, tem uma inscrição que faz a mesma pergunta: “Quantos morreram?  Quem conhece o total? De suas cicatrizes podem ver o sofrimento da multidão incontável que aqui ardeu até a morte, num inferno de fogo, ateado por mãos mortais”. 

Foram, no mínimo, 100 mil, mais provavelmente 250 mil, porque na noite do ataque a população da cidade era a maior que jamais tivera ou jamais viria a ter.  Foram três vezes mais vítimas do que em Hiroshima, como resultado do bombardeio do terror.

Em 28 de março Churchill assina uma minuta sobre a ofensiva aérea contra cidades alemãs, encaminhando-a aos chefes do Estado Maior:

“Parece-me que chegou o momento em que a questão do bombardeio de cidades alemãs com o fim de aumentar o terror, embora sob outros pretextos, deva ser revisto.  De outro modo, assumiríamos o controle de um país totalmente destruído.  Não devemos, por exemplo, retirar materiais da Alemanha para as nossas próprias necessidades, porque deve ser feita uma certa reserva para os próprios alemães.  A destruição de Dresden permanece uma séria questão contra a conduta dos bombardeiros aliados.  Sou de opinião que os objetivos militares devem ser no futuro mais cuidadosamente estudados, antes no nosso próprio interesse do que no do inimigo.”

“O Secretário do Exterior falou-me a este respeito, e sinto a necessidade de concentração mais precisa sobre objetivos militares, tais como petróleo e comunicações, por trás da imediata zona de batalha, antes do que simples atos de terror e selvagem destruição, embora impressionantes.”

Na relação de agraciados do final do ano, na Lista de Honra do Ano Novo, não constaca o nome  do principal artífice do Comando de Bombardeiros e da tática da tempestade de fofo, Sir Arthur Harris.  Ele deixou a Royal Air Force sem receber qualquer expressão pública de gratidão pelo seu trabalho e foi viver na África do Sul como representante comercial. Embarcou no dia 13 de fevereiro de 1946, data do primeiro aniversário do maior massacre da história da Europa, realizado para fazer ajoelhar um povo que, corrompido pelo nazismo, havia cometido os maiores crimes de que se tem memória contra a humanidade.

Em 1953 ele voltou a Londres porque foi feito Baronete.

Poema de Sol nas Entranhas

outubro 20, 2007

VISÃO DO ÉDEN NA MIRA DO TREISOITÃO 

Reynaldo Valinho Alvarez 

procuro um retalho do que vi ser em lojas empoeiradas
há um resto de sangue ainda quente  na sobrevivência desses velhos balcões envidraçados
no rosto sulcado nos cabelos ralos no crânio amarelo
na face de sombras lívidas fatigadas
nas paredes abaladas por pintar
nas teias de aranha e gatos sonolentos

república do Líbano Luis de Camões regente Feijó
ali a cedofeita a menor sapataria do rio e a que mais caro  vende
ali na Buenos Aires Garcia Coutinho ltda. trocou os coros pelos plásticos
e acabou morrendo sem plástica nem nada

o bar éden tinha um proprietário oliveira que vinha cumprimentar meu avô pressurosamente
as missas rezavam-se no santíssimo sacramento
os sinos reboando sobre a avenida Passos e a praça Tiradentes

na igreja da lampadosa Machado foi sacristão que coisa interessante
imaginem que morava no morro da providência ou era do livramento
vejam quanta história e ainda tem colombo
só não existem mais os sebos da são José
e veja só o Lima Barreto na briguet
e a Eneida com o Carlos Ribeiro na livraria são José
e olha só que pena acabaram com todo o lado da quaresma

meu Deus que cidade alencarina machadiana barretiana
tão marquesrabelo e rodrigueseana

vá passando o dinheiro que isto aqui é um treisoitão

Dois Poemas da Vitória

outubro 20, 2007

O VENCEDOR

Eu sempre lutei do lado certo,
mas perdi todas.
Até quando pensei estar ganhando,
ao fim e ao cabo,
estava era perdendo.
E perdendo feio, compadre.
Não me sinto, no entanto, um perdedor,
mesmo tendo perdido todas,
porque estava sempre do lado certo.
E porque venci a mim mesmo,
venci a facilidade da desonestidade,
a enganação, a corrupção,
venci o conformismo
e me mantive maria de ir sozinho
e não com as outras.
Perdi todas;
de cabeça erguida,
mas perdi.
E digam o que disserem
palavras não consolam:
perder dói.
Dói mais ainda
quando você se olha no espelho
e vê um vencedor.

outubro 19, 2007

   O VENCEDOR 

Eu sempre lutei do lado certo

mas perdi todas,

até quando pensei estar ganhando.

Ao fim e ao cabo,

estava perdendo.

E perdendo feio,compadre.

 

Não me sinto,no entanto,

um perdedor,

mesmo perdendo todas,

porque estava do lado certo.

E porque venci a mim mesmo;

venci a facilidade,

a desonestidade,

a enganação,

a corrupção,

venci o conformismo

e mantive maria de ir sozinho

e não com as outras.

 

Perdi todas;

de cabeça erguida, mas perdi.

Digam o que disserem,

palavras não consolam:

perder dói.

 

Dói mais ainda

quando você se olha no espelho

v vê a cara de um vencedor.

outubro 19, 2007

O CAMPEÃO

Aos 72 anos constato,
perplexo,
que nunca fiz um gol.
Nada de sentido figurado:
Nunca, nunca mesmo,
meti a bola nas redes,
jamais balancei o véu da noiva,
sou virgem
de botar a nega lá dentro
ou de empurrar a perseguida
pros barbantes.
Passei toda a vida
nessa inutilidade,
anti-artilheiro,
sem fazer a galera vibrar.
Nada.
Nem um golzinho no treino,
na linha-de-passe,
a vera,
mesmo na pelada.
E não que eu fosse goleiro,
nunca fui,
não posso alegar isso
em minha defesa.
Enquanto tive meniscos
só joguei lá na frente,
de cara pro gol.
Chutar, chutei,
mas nunca marquei,
nem em impedimento
ou com a mão de Deus.
E agora,
na hora da minha morte,
nem com sorte
vou poder fazer
meu gol de honra.
No entanto,
não sou um perdedor;
não, não e não:
já fui até um campeão.

O Genocídio Armênio

outubro 15, 2007

         Genocídio armênio, holocausto armênio ou massacre dos armênios,  o título não importa: o certo é que houve uma matança de mais de um milhão de armênios que eram cidadãos do Império Otomano durante o governo (1915 a 1919) dos chamados Jovens Turcos.            Assim como ficou firmemente estabelecido que havia um plano organizado para eliminar sistematicamente os armênios, sua vida econômica, cultural e social.            Os documentos não faltam porque é o segundo genocídio mais estudado, depois do holocausto dos judeus na Segunda Guerra Mundial pelos nazistas. (A propósito, antes de invadir a Polônia e já pensando no massacre aos judeus, Hitler teria perguntado ao seu Estado Maior em 1939: “Afinal, quem ainda fala hoje do extermínio dos armênios?”)            Os armênios adotaram o 24 de abril de 1915 como a data do início do massacre: foi quando dezenas de líderes armênios foram presos e massacrados em Istambul. Mas a matança vinha de antes.            A Armênia já era um império, com uma cultura rica, antes do século i da era cristã. Surgiu do reino de Urartu, por volta do Lago Van, no século 13 antes de Cristo. Os hayk (armênios) dominaram o reinado no século VII a.C. Em 189 a.C., depois da derrota do rei selêucida Antíoco II pelos romanos, dois dos seus generais, Artáxias e Zariadris, fundaram a Grande Armênia e a Pequena Armênia. Em 165 a.C. Tigranes III conseguiu unir os dois reinos. Em 301 foi o primeiro Estado a adotar formalmente o cristianismo como religião oficial, 12 anos antes de Roma.             Foi ocupada pelos partianos (iranianos), romanos, árabes, mongóis e persas. Em 1454 o Império Otomano (turco) e a Pérsia Safávida dividiram a Armênia entre si.            Em 1813 a Armênia foi temporariamente incorporada pelo Império Russo. Depois em 1820.Nos anos finais do Império Otomano, de 1915 a1917, no chamado governo dos Jovens Turcos havia milhões de armênios vivendo como cidadãos que sonhavam com uma Armênia autônoma, embora dentro do Império. As reformas de 1914 não satisfizeram o povo armênio e os intelectuais organizaram uma série de protestos. No dia 28 de julho começa a Primeira Guerra Mundial. Foi a oportunidade para os Jovens Turcos realizarem um premeditado projeto de aniquilação do povo armênio.Na noite de 24 de abril de 1915 foram aprisionados em Constantinopla Istambul) mais de 600 intelectuais, escritores, políticos, profissionais liberais, que foram levados à força e assassinados.Sem liderança, os armênios que viviam nos territórios asiáticos do Império Otomano foram presa fácil da deportação e do massacre.Mewlazada Rifar, membro do Comitê de União e Progresso, em seu livro Bastidores Obscuros da Revolução Turca, escreveu: “Em princípios de 1915 o Comitê de União e Progresso, em sessão secreta presidida por Talat, decide o extermínio dos armênios. Participaram da reunião Talat, Enver, o Dr. Behaeddin Shakir, Kara Kemal, o Dr. Nazim Shavid, Hassan Fehmi e Agha Oghlu Amed. Designou-se uma comissão executora do programa de extermínio, integrada pelo Dr. Nazim, o Ministro da Educação Shukri e o Dr. Behaedin Shakir. Esta comissão resolveu libertar da prisão os 12.000 criminosos que cumpriam diversas condenações e aos quais se encarregava o massacre dos armênios.”A propósito, o Dr. Nazim Bei escreveu: “Se não existissem os armênios, com uma só indicação do Comitê de União e Progresso poderíamos colocar a Turquia no caminho requerido. O Comitê decidiu liberar a pátria desta raça maldita e assumir ante a história otomana a responsabilidade a que este fato implica. Resolveu exterminar todos os armênios residentes na Turquia, sem deixar vivo um só deles: nesse sentido foram outorgados amplos poderes ao governo.”Quando os ingleses tomaram Alepo, encontraram documentos que confirmavam o extermínio proposital dos armênios pelos turcos. Um desses documentos é um telegrama circular dirigido a todos os Governadores:A Prefeitura de Alepo.. Já foi comunicado que o governo decidiu exterminar totalmente os armênios habitantes da Turquia. Os que se opuserem a esta ordem não poderão pertencer mais à administração. Sem considerações pelas mulheres, as crianças e os enfermos, por mais trágicos que possam ser os meios de extermínio, sem executar os sentimentos da conseqüência, é necessário por fim à sua existência. 13 de setembro de 1915.Os armênios foram, principalmente decapitados a golpes de sabre. Muitos foram fuzilados. Mulheres foram estupradas e eventradas. Crianças empaladas. Quase todos foram torturados antes de morrer. Os assassinos tinham a mais completa liberdade para agirem como quisessem contra as vítimas.Jovens armênios que haviam se apresentado no começo da guerra como voluntários, jamais foram enviados á Frente. Integraram brigadas para a construção de estradas e trincheiras. Terminado o trabalho, foram todos fuzilados.Entre 1915 e 1917 foram exterminados cerca de um milhão e meio de armênios e a Armênia Ocidental foi devastada e despovoada.Muitos foram encaminhados para os pântanos ou para os desertos da Mesopotâmia, onde as mães armênias ensinavam os filhos escrevendo o alfabeto armênio na areia.Depois da guerra tudo foi esquecido e os criminosos turcos nunca foram condenados.Em 1920 os armênios aceitaram a incorporação à URSS como República Socialista Soviética da Armênia, depois de existir brevemente como estado ameaçado: estavam novamente ameaçados pelos turcos.A Armênia só voltou a recuperar sua independência em 1991.Agora o assunto volta porque a República Francesa passou a considerar crime o não reconhecimento do genocídio dos armênios. Na verdade, uma decisão política para tentar impedir a entrada da Turquia na União Européia. Os turcos, por sua vez, nunca admitiu nem admite que tenha havido uma politica oficial de extermínio.Na atual legislatura do Congresso Americano tramita uma resolução que pede ao governo dos Estados Unidos que considere como genocídio o assassinato em massa cometido pelos turcos. Mas a Turquia é um leal aliado do Governo, um sócio confiável numa região normalmente dominada por radicais antiamericanos. Além disso, cedeu espaço para uma base militar estratégica para a campanha americana contra o Iraque.Inacreditável é que o lobby judaico americano está lutando na Câmara dos Representantes para que a resolução sobre o genocídio armênio não seja aprovada. Não interessa a Israel melindrar um aliado tão importante quanto a Turquia.Os assassinatos em massa, no século 20, mataram mais do que todas as guerras juntas: foram 25 milhões de russos, 25 milhões de chineses, 6 milhões de eslavos, 3 milhões de ucranianos, 2 milhões de sudaneses, 2 milhões de norte-coreanos, 1,7 milhões de cambodianos, 1,5 milhões de armênios, 1,5 milhões de bengalis, 1 milhão de ibos, 600 mil ruandenses, 500 mil indonésios, 500 mil ugandenses, 250 mil burundis, 200 mil sudaneses, 200 mil leste-timorenses, 109 mil kossovares. E a resposta a todos esses genocídios tem sido muito pouca (ou nenhuma) e muito tardia, inclusive nas Nações Unidos que passam anos discutindo o número capaz de configurar genocídio. O Conselho de Segurança da ONU retirou suas tropas de paz e deixou de salvar milhares de vidas tutsis em Ruanda porque considerou que o que havia era “um problema de política interna do país”.Como o genocídio é quase sempre obra das forças militares e ou policiais do pais, forças que representam a lei e a ordem, é quase sempre necessária uma intervenção internacional. Mas como a ONU não tem uma força internacional de resposta rápida, as Nações Unidas têm estado inativas ou com problemas políticos para agir, enquanto o genocídio passa a ser o pior problema de direitos humanos na Terra.