Jogo pra Homem

Quando eu era criança, há 65 anos atrás, futebol era coisa pra homem. Essa era uma verdade consagrada, definitiva, indiscutível. Mais do que para homem, futebol era jogo pra macho. A tal ponto que não se admitia que alguém fosse chorar em público só porque, numa topada, a unha do dedão ficasse levantada. Em nome do macho suportávamos dores terríveis e o máximo que se admitia era uma careta, uma reclamação, uma jura de forra. Tanto era assim que a Chica, que jogava conosco e estava sempre entre as primeiras escolhidas no par-ou-impar, não era discriminada: era tida como homem e respeitada como macho. Tanto que beijava a Chininha e dizia que ela era a sua namorada. Além disso, chutava de bico, forte, como poucos meninos e em cada torneio ‘tava sempre disputando a artilharia. Lembro bem que algumas meninas, no Liceu Imaculada Conceição, não se conformavam dos  meninos serem dispensados da ginástica para jogarem bola e elas serem obrigadas a fazer o que na época era chamado de ginástica sueca. Elas tmbém queriam jogar bola e chegaram a ensaiar uma pelada, que a pronta intervenção de Dona Marta proibiu, sob a alegação de que futebol era coisa pra homem. E seria mesmo, porque tirante a Chica, as meninas não sabiam jogar bola, não tinham controle, davam de canela, chegavam a ser ridículas. Anos depois, na praia, vi algumas meninas fazendo uma linha-de-passe de responsa e eram, todas elas, excepcionais no controle da bola. Mas linha-de-passe não chegava a ser futebol, né não? Descrente do futebol, afastado dos estádios, triste com a violência dentro e fora do campo e com os técnicos que mandam chegar junto e bater, indignado com o tal do futebol força, mal e mal acompanho. A não ser em Copa do Mundo, nem sei bem a razão. Sendo Copa, dei-me ao trabalho de ver o futebol feminino. E vi futebol, bem jogado, com elegância, com classe, com arte, com troca de passes e lançamentos, com dribles incríveis e não vê pessoa reclamando de que aquilo era um desrespeito. Era não. Era arte. Nunca mais soube da Chica. Ou das meninas que queriam tanto o direito de jogar uma pelada. Mas me penitencio: futebol não é jogo pra homem. Não é mais. E se os homens ainda têm vergonha na cara deveriam aprender a jogar bola como joga a Marta, a Cristiane, Formiga, toda a Seleção Brasileira. Uma seleção que ainda se dá ao luxo de ter a Pretinha no banco. Só não concordo com a bobagem sugerida pelo presidente da CBF, que quer colocar uma estrela rosa no uniforme do Brasil, se as meninas forem campeãs do mundo. Se quer distinguir e separar, melhor que as novas estrelas sejam azuis. Cor de rosa fica para quando tivermos a seleção de gays.

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