A Revolução da Biociência

O Projeto Genoma Humano é o mais ambicioso da história da ciência. Ele vai transformar nossas vidas no século21. Todos os genes do ser humano já foram localizados e quando aprendermos a ler o código da vida, vamos decifrar seus segredos e fazer avançar muito a medicina, inclusive com a possibilidade de cura da maioria dos mais de 200 tipos de cânceres. Mas há problemas éticos a resolver, inclusive sobre os limites para a criação denovas formas de vida.

A Revolução da Biociência ou Revolução Biomolecular começou em um humilde Laboratório de Higiene, instalado em uma única sala em 1887, com o modesto orçamento de 300 dólares.  Hoje, os Institutos Nacionais de Saúde (NIH) são o mais importante complexo médico do mundo, espalhado por 70 prédios no arborizado subúrbio de Bethesda, Maryland, perto da cidade de Washington, nos Estados Unidos da América.  Lá começou uma pesquisa nova e revolucionária que transformará radicalmente nossas vidas no século 21:o Projeto Genoma Humano, um dos mais ambiciosos na história da medicina, um programa intensivo que já gastou mais de 15 bilhões de dólares com um objetivo: localizar todos os genes do corpo humano, mapeá-los e aprender o suficiente sobre eles para decifrar os segredos da vida.

            O enorme sucesso do projeto deu razão a Winston Churchill, para quem “sucesso nada mais é que ir de fracasso em fracasso com inquebrantável entusiasmo”.  O mais importante projeto científico que a humanidade já inventou, essa investigação sobre nós mesmos, sofreu muita oposição e poucas propostas foram tão combatidas e ridicularizadas, inclusive por nomes importantes da Ciência.

            Imaginava-se que o ser humano tivesse 100 mil genes e a conclusão do Projeto Genoma Humano irritou muita gente, inclusive alguns laboratórios que tinham até a patente requerida sobre 53 mil dos genes humanos para explora-los comercialmente…

            Além disso, os meios de comunicação trataram muito mal o assunto, com a colaboração de cientistas pouco escrupulosos e venderam ao grande público que os genes eram tudo e determinavam a cor dos olhos, o tipo de cabelo, a forma do nariz, a química das células, até o comportamento.  A publicidade chegou a sugerir que só pessoas especiais tinham o gene que fazia com que ganhassem dinheiro.  E a revista Time leu errado a conclusão de uma pesquisa e informou que a infidelidade era genética (e até hereditária)!

            Padrões de comportamento, embora possam ser geneticamente influenciados de maneira modesta, jamais estarão inscritos no seqüenciamento do genoma humano. Segundo Francis Collins, o principal responsável pelo Projeto, “não vamos compreender coisas importantes como o amor conhecendo a seqüência do DNA do Homo sapiens”. E mais: “Se a humanidade começar a ver a si mesma como uma máquina programada por essa seqüência de DNA, teremos perdido alguma coisa realmente importante.”

            O Projeto Genoma Humano foi bem sucedido porque em dez anos a caça ao gene acelerou-se por um fator de vários milhares com a introdução de computadores, laboratórios robotizados, redes neurais. Ele é um dos mais espetaculares exemplos do que pode acontecer com o cruzamento da Revolução da Informática, com a Revolução Quântica e a Revolução Biomolecular.

            Quando concluído, os cientistas imaginam que o Projeto Genoma Humano poderá ter uma importância maior para a humanidade que a descoberta da Tabela Periódica dos Elementos (Mendeleiev, no século 19), que introduziu ordem no caos da matéria e deu origem à química contemporânea. Sem o mapa genético a biologia e a medicina do século 21 são impensáveis.

 

            Uma nova ciência está nascendo: a biologia computacional. Os cientistas de computador envolvidos no sequenciamento do DNA estão transformando a biologia em uma ciência informatizada.

            A ciência da computação começou a invadir o mundo da biologia em 1983, quando Russell Doolittle sacudiu o mundo fechado da biologia molecular com uma notável descoberta.  Sem realizar uma única experiência em laboratório e baseado apenas na leitura de dados impressos pelo computador, ele encontrou uma semelhança entre duas proteínas diferentes: o gene do câncer sis e um fator de crescimento celular.  Ele e seus colegas de computação perceberam que a seqüência de DNA encontrada nesse tipo específico de câncer era a mesma seqüência de DNA envolvida no crescimento celular.  Era a prova de que genes de câncer produzem crescimento anormal das células.

            Os biólogos de laboratório protestaram e disseram que biologia não é feita dessa forma.  Afirmaram até que “isso não é biologia” e até a Academia Nacional de Ciências demorou a reconhecer a descoberta (que depois classificou como “sensacional”), porque não estava confirmada pelos biólogos.

            Agora, o uso de computador para detectar padrões em seqüências de DNA mostra que os pesquisadores não precisam mais sujar as mãos com proteínas em tubos de ensaio e uma nova raça de cientistas começa a se destacar: os especialistas em biologia molecular com aptidões matemáticas e experiência em computação.

            No passado, os biólogos aprendiam analisando o interior de espécimes vivos (isto é, in vivo); no século passado estudavam a vida nas plaquetas do microscópio (ou seja, in vitro); e agora anuncia o futuro estudando a vida nos computadores (quer dizer, in silico).

 

            Assim como o futuro da tecnologia computacional está na miniaturização, através do microchip, muitos cientistas acreditam que o futuro do seqüenciamento do DNA será o chip de DNA (bio chip), numa grande fusão da revolução dos computadores e da revolução biomolecular.

            O bio chip é um microchip projetado especificamente para executar a busca de identidade entre genes humanos e animais (homologia).  É um chip imensamente útil para os biólogos porque quando já se sabe que uma certa seqüência genética controla uma proteína em um animal, a busca de sua correspondente (ou homóloga) no ser humano envolve menos adivinhação, menos pesquisa, menos trabalho, menos gastos.

            O chip de DNA torna possível o sonho do DNA personalizado, contendo todos os nossos genes.  Várias empresas de biotecnologia já apostam corrida para se prepararem para a leitura do DNA das pessoas, permitindo uma triagem genética rápida e barata.

            A olho nu, o chip de DNA é do tamanho de uma unha e lembra muito o microchip usado na maioria dos computadores.  Ao microscópio, no entanto, o que se vê é um padrão diferente.  Com as mesmas técnicas da fotolitografia utilizadas para entalhar ranhuras microscópicas em transistores minúsculos, os cientistas usam um molde para entalhar o esboço de fios de DNA correspondentes a determinado conjunto de pares de bases.  Banhando esses moldes com uma solução de DNA, as seqüências que permanecem são as que se encaixam precisamente em cada sonda.

            Os únicos fios de DNA que aderem ao microchip são os que correspondem precisamente ao molde entalhado no chip.  Todos os outros fios são removidos. Depois, um laser torna as seqüências fluorescentes e um computador faz a identificação final.

            O potencial do chip de DNA, que comprime um laboratório inteiro de DNA num único chip, é imenso e promete muito para o futuro do ser humano e para a pesquisa biomolecular.

            Decifrado o genoma humano e lidas as seqüências da vida, é provável que depois de 2020 o progresso se torne mais lento, à medida que os difíceis problemas da função de cada gene, das doenças poligênicas e da dobradura de proteínas passem a dominar a pesquisa.  É um processo que requer muita mão-de-obra.  Mas o dividendo será enorme, decifrando o enigma de grande parte das doenças genéticas e fornecendo as ferramentas moleculares necessárias para deter o câncer.

 

            A vitória sobre o câncer é uma das previsões para o século 21.  Se não a definitiva (porque há um tipo de câncer para cada um dos 200 tipos de tecido do corpo humano) pelo menos para os mais assassinos.  O modo como o câncer se desenvolve não é mais um mistério.

            Rebecca Lilly entrou para a história da medicina com um câncer no cérebro, não só incurável como impossível de tratar, a não ser por cirurgia.  Desde os 10 anos de idade ela sofria com um glioma extremamente maligno que ao crescer espremia seu cérebro.  Ela passou por várias cirurgias de cérebro aberto, para remoção do tumor, e a cada vez ele voltou a crescer. Até que, em novembro de 1995 ela foi a primeira pessoa a se submeter a uma terapia gênica para um câncer cerebral.

            Depois de nove horas para extrair o tumor os médicos injetaram um vírus no seu cérebro,  com o código genético alterado de modo a torná-lo inócuo, e inseriram nele um gene destinado a infectar as células cancerosas, induzindo-as ao suicídio.

            O novo tratamento funcionou por seis meses, ela recuperou a memória e o humor, mas em maio de 96 voltou a crescer. Lilly está morta, mas no mesmo ano abriu-se uma nova esperança para a terapia gênica: substituindo o gene p 53 (encontrado em mais da metade dos cânceres) os médicos conseguiram resultados notáveis com cânceres dos chamados “órgãos ocos”, fazendo desaparecer tumores cancerosos de pulmão, impedindo que outros continuassem a crescer e, na pior das hipóteses, reduzindo muito a velocidade do crescimento.

            A terapia gênica é uma aposta no tratamento de muitos tipos de câncer, para ajudar no combate ao HIV e até para doenças crônicas como Alzheimer, doenças mentais, artrite e até envelhecimento.

            É possível e provável que em 2020 os médicos encarem a quimioterapia, a radiação e as cirurgias de extirpação com a mesma atitude que hoje nós temos para os tratamentos com arsênico, sanguessugas e sangrias.

            O chamado “pai da terapia gênica”, W. French Anderson afirma que “estamos no início do que promete ser a era mais empolgante da história da medicina”. Ele prevê que em 2020 não só teremos o seqüenciamento personalizado do DNA como quase todas as doenças serão tratadas por terapia gênica. Diz ele que “nos próximos 20 a 40 anos, no máximo, teremos o potencial necessário para erradicar as principais doenças que afligem o ser humano”.É que quanto mais estudamos as doenças, mais compreendemos e melhor avaliamos sua origem genética e até molecular.  Segundo Paul Berg, ganhador de um Nobel, todas as doenças, em última análise, são de natureza genética.

            Em 1990 a equipe de Anderson foi a primeira do mundo a realizar uma experiência capaz de revolucionar a medicina do século 21: consertar os genes defeituosos de um ser humano.  Hoje, um exército de médicos já faz o mesmo, tentando a terapia gênica para uma grande variedade de doenças.

 

            Como resultado da revolução da biologia molecular a medicina está no seu terceiro estágio.

            Primeiro foi a medicina dos xamãs, dos pajés, dos místicos, que procuraram usar a força dos espíritos e dos deuses e vasculharam o reino vegetal preparando chás e poções, algumas delas usados até hoje.  E muitas drogas modernas tiveram origem nesse estágio primitivo da medicina que também se baseava no instinto animal.  O cachorro com desinteria come capim para curar-se e não é vegetariano: seu instinto leva-o a comer celulose.  Nós mesmos, enquanto animais, tínhamos nossa medicina baseada no instinto e os russos levaram anos investigando: a cada vez que seus computadores indicavam uma mesma prática de medicina popular em cantos diferentes da terra, uma equipe multidisciplinar procurava a explicação científica para a prática. Foi o que sobrou dessa medicina e a farmacologia russa desenvolveu 50 anos em 5 com esse tipo de pesquisa. Infelizmente, perdemos a capacidade de usar os sentidos e o instinto para fazer medicina.

            A Segunda Grande Guerra deu início ao segundo estágio da medicina, com a distribuição em massa de vacinas e a descoberta dos antibióticos. A penicilina, por exemplo, teve uma contribuição histórica para a elevação do status dos médicos porque permitiu que eles curassem doenças para as quais no passado só davam tratamento paliativo e, em grande parte, ineficaz.

            Agora estamos no terceiro estágio, o da medicina molecular, o mais empolgante, abrangente e promissor porque, pela primeira vez na história, cada nível de patogênese, proteína por proteína, molécula por molécula, átomo por átomo, gene por gene, está sendo pesquisado, estudado, revelado.  Os cientistas de hoje já têm a possibilidade de ler o genoma completo de um germe e identificar os pontos fracos moleculares de sua armadura.

 

A doença que frustrou o mais intenso, concentrado e custoso programa de pesquisa e investigação, o câncer, já teve seus segredos revelados à medicina molecular. Não é a doença que mais mata no mundo, mas é a mais temida e a segunda maior causa de morte.

Na verdade muitos especialistas debatem se as 200 formas de câncer, que atacam todos os tipos de célula do corpo humano, são uma única doença. Em teoria, sim, porque o que caracteriza o câncer é que as células atacadas, diferentemente das sadias, perdem a capacidade de parar de se dividir, são imortais e proliferam sem limite até que sufocam e impedem as funções orgânicas.

Isto não significa que a célula cancerosa seja imortal: ela pode morrer, mas como prolifera intensa e rapidamente, sua linhagem é imortal e mortal.

Nos seus aspectos básicos o mistério do câncer foi resolvido.  Sabe-se agora que é uma doença genética e quais são as quatro ou seis mutações necessárias na célula sadia para a geração de uma célula cancerosa (pelo menos da maior parte dos tipos de câncer).

Não só os principais genes envolvidos foram identificados como os cientistas conhecem também os passos moleculares básicos que provocam o câncer.  Milhares de cientistas estão trabalhando para os detalhes finos do modo como os cânceres se formam e crescem.

Mas, com todo o avanço da medicina molecular, ainda é desnorteante a variedade de causas simples ou combinadas que provocam o câncer, inclusive vírus, toxinas, dietas, radiação, tabaco, gordura animal, hormônios sexuais (como o estrogênio).

Cerca de 30% de todos os casos de câncer têm sua origem atribuída exclusivamente ao vício de fumar tabaco.  Se incluirmos a alimentação desbalanceada e gordurosa, chegamos a 60%.  Somando o meio ambiente e o estilo de vida. Chegamos a 90.

 

Há dois tipos principais de genes envolvidos no câncer: os oncogenes e os supressores. Os oncogenes aceleram as mutações na célula e os supressores freiam essas mutações.  O organismo fica descontrolado de duas maneiras: pela aceleração desmedida ou porque os freios falham.  De um ou de outro modo as células passam a se dividir incontrolavelmente ou perdem a capacidade de parar de se dividirem, o que dá na mesma.

Os cientistas já encontraram mais de 50 tipos de oncogenes para vários tipos de câncer: pulmão, mama, cólon e bexiga, por exemplo.  E a busca continua.  Entre esses oncogenes está o famoso gene que codifica a proteína p 21 (e que pesa tanto quanto 21 mil átomos de hidrogênio).            A segunda classe de genes que podem causar câncer, os supressores são os encarregados de suprimir tumores e o mais famoso e presente deles nos cânceres comuns é o p 51.

            Os cancerologistas esperam ter, em 2020, uma enciclopédia quase completa de centenas de oncogenes e genes supressores, fornecendo uma compreensão da base molecular do câncer e abrindo um grande número de novas maneiras de atacá-lo.

            Uma razão para a confiança com que os cientistas prevêem que classes inteiras de câncer serão curáveis em 2020 é que a maior parte dos cânceres é causada por mutações em apenas um grupo de genes, sendo o p 53  o mais significativo deles.  Ele parece ser a chave para a cura da maioria de casos de câncer através da terapia gênica ou moléculas inteligentes.

            O p 53 foi encontrado na raiz de 52 tipos de câncer e o percentual de casos de câncer a partir do p 53 defeituoso é assombrosa: 90% dos cânceres cervicais, 80% dos cânceres de cólon, 60% dos cânceres ovarianos, 50% dos cânceres de bexiga e até 50% dos cânceres no cérebro.  É, sem dúvida o gene alvo de mutações mais encontrado até agora nos seres humanos.  (Não é sem razão que, em 1994, a revista Science tenha declarado o p 53 como Molécula do Ano.)

            Normalmente o p 53 evita a reprodução numa célula danificada ou alvo de mutação, promovendo o suicídio da célula. Por isso mesmo já foi chamada de “guardiã do genoma”. Quando ela falha, ocorre o câncer e ela falha por conta da sua estrutura molecular, extremamente longa e delicada (2.362 pares de bases).  Mutações em p 53, que está localizado no braço curto do cromossomo 17,  podem ocorrer e ocorrem em mais de cem locais ao longo do gene quando a maioria dos genes sujeitos a mutação têm apenas seis locais, em média, onde elas acontecem.

            Por ser uma molécula tão desajeitada é que ela é tão freqüente em casos de câncer.  Mas sua descoberta solucionou um dos enigmas centrais do câncer, explicando porque um câncer pode levar 20 e até 40 anos para se desenvolver e outro se desenvolve muito rapidamente, em três, quatro meses. É que uma série de mutações precisa ocorrer na célula antes que o mecanismo  da célula seja finalmente perturbado; e o sucessivo desmantelamento do mecanismo reprodutivo de uma célula depende do número de pontos fracos dessa célula.

            Isso tem imensas aplicações práticas.  A começar pelos exames de sangue para detectar se a pessoa tem uma versão de p 53 sujeita a mutação, alvo de mudança. Embora sejam necessárias várias mutações para desencadear um câncer, se detectarmos uma será o suficiente para tomarmos cuidados com aquele paciente e para prevenir a doença,. Até 2020 esses exames podem ser rotina.

            Poderemos até mesmo, no futuro, ver se é possível substituir o p 53 defeituoso, com uma intervenção genética.

            Observando as mutações e suas causas poderemos ainda compreender como é que o meio ambiente, produtos químicos e outros fatores externos atuam para mudar o p 53 e provocar um câncer. 

            No futuro, um dia, é possível que ninguém mais vá fumar, porque será muito caro para a indústria tabaqueira pagar as indenizações a que serão condenadas por fumantes cancerosos.  Desde 1996 os cientistas provaram que a substância química epóxido de benzopireno diol, comumente encontrada na fumaça do cigarro, causa um conjunto característico de mutações em p 53, em três locais específicos.  São as três mutações envolvidas com o câncer de pulmão e, em tese,  basta provar que elas ocorreram para conseguir a condenação.

            Milhares de causas já estão sendo ganhas em vários países e logo esse tipo de processo será tão comum, em todo o mundo, que as tabaqueiras terão que procurar um negócio que não dê prejuízo, assim que uma jurisprudência ficar firmada.

            Do mesmo modo, em 2020, os cientistas terão descoberto as impressões digitais de centenas de diferentes tipos de poluentes químicos no nosso ambiente.  Ao identificar o câncer de uma pessoa com a impressão digital genética deixada por um carcinógeno, os cientistas ou legistas vão poder dizer com precisão o que causou aquele câncer.  Isso terá grandes efeitos sobre a regulamentação de licenciamento de fabricação e a comercialização de milhares de produtos. E certamente renderá processos judiciais e indenizações que acabarão por afastar do mercado os produtos indesejáveis.

            No entanto, a última grande descoberta do século 20 talvez renda os melhores frutos no nosso século: o relógio biológico, os telômeros, conhecidos como o estopim do câncer.

            Desde a década de 60 que os cientistas sabem que células de recém-nascidos em um campo de cultura se dividem de 80 a 90 vezes, porque são células ligadas ao crescimento; e que células de pessoas de 70 anos se dividem somente de 20 a 30 vezes.

            Na década de 70 aprenderam que as pontas de nossos cromossomos têm um arremate, o telômero, que pode ser comparado à ponta do cadarço de amarrar sapato para impedir que fiquem puídos.  Quando esse telômeros acabam ou se perdem, os cromossomos grudam e a célula acaba morrendo. É um processo natural, isto é, da natureza.

            Na célula normal, o telômero vai ficando cada vez mais curto até que chega ao fim e determina o suicídio da célula. Mas agora sabemos também que certas células, anormais, têm a notável capacidade de manter o telômero perpetuamente longo, de tal modo que elas se tornam praticamente imortais. Essas são as células cancerosas.

            Então, o telômero é o relógio biológico que regula a duração das células e um exame atento mostrou que ele consiste na seqüência genética TTAGGG repetida duas mil vezes e que quanto mais curto o telômero, mais curta a vida da célula, sem dúvida.

            A célula perde de 10 a 20 segmentos a cada vez que se divide, diminuindo o tamanho do telômero e reduzindo a sobrevida da célula, até que ela se mata, na inexistência da sua proteção e quando o relógio marca o seu fim.

            Em 1984 foi descoberta a enzima telomerase, capaz de fazer parar e até de inverter o processo, alongando os telômeros e evitando o suicídio da célula. Só que a telomerase está ausente da maioria das células do corpo.

            Em 1994 cientistas da McMaster University, com Christofer M.Counter à frente, demonstraram a presença da telomerase nas células de muitos tipos de câncer.  Uma mutação genética na célula doente permite que ela produza essa enzima que impede o desaparecimento dos telômeros dessas células, tornando-as imortais e favorecendo o desenvolvimento do câncer, porque elas esquecem como se morre.

            Essas descobertas abriram novos caminhos de investigação que estão sendo trabalhados.  Detectar a telomerase pode indicar a presença de células anormais em desenvolvimento.  Neutralizar a telomerose pode levar as células cancerosas ao envelhecimento e ao suicídio.

 

            Jamais haverá um tratamento único para o câncer e pode ser até que o câncer em todos os seus 200 tipos diferentes não seja inteiramente curável em 2020.  Mas os cientistas já terão, muito provavelmente, o catálogo quase completo das mutações envolvidas em todos esses tipos e assistiremos a um desenvolvimento explosivo de terapias, formas de detecção radicalmente novas, tratamento com novas estratégias de ataque aos pontos fracos e às vulnerabilidades moleculares do câncer.

            E, melhor notícia para os pacientes, estarão definitivamente ultrapassadas a atual quimioterapia e a terapia de radiação, que atacam tanto as células doentes quanto as sadias.

            O que se espera para 2020:

            1. A conclusão do desenvolvimento de testes simples, de urina e de sangue que podem ser feitos em casa, rapidamente, e que permitem detectar a maioria dos casos de formação de minúsculas colônias de células cancerosas, dez anos antes que um tumor visível se forme.

            2. A ciência já está começando a compreender, no nível molecular, como e por que certos produtos e vitaminas naturais ajudam a proteger contra o câncer.  Muitas pesquisas estão em andamento para desenvolver o combate natural ao câncer e já deverão estar concluídas.  Exemplos: a genisteína da soja e do repolho (presente em alta concentração na dieta japonesa) é capaz de impedir a formação de capilares sangüíneos que alimentam os tumores cancerosos.  Outro exemplo: os antioxidantes presentes nos alimentos, nas vitaminas C e E, o licopeno dos tomates, o pirocatenol das bagas e os carotenóides das cenouras reduzem a taxa de mutação das células ao inibir os radicais livres. Assim como outros vegetais contêm produtos químicos que criam enzimas protetoras contra o câncer, como os indóis do repolho, os limonóides das frutas cítricas e o isotiocinato da mostarda.  Muitas dessas pesquisas devem ter chegado a um resultado.

            3. Normalmente, os anticorpos criados pelo sistema imune do organismo humano não são poderosos o bastante para atacar uma célula cancerosa.  Mas os cientistas estão estudando para melhorar o sistema imune e o alvo é criar  anticorpos monoclonais, produtos químicos que atacam especificamente as proteínas presentes na superfície da célula cancerosa.  O progresso nesse sentido tem sido lento, mas constante e a terapia por anticorpos pode ser uma nova arma contra o câncer antes do quarto do século ter transcorrido.

            4. A quarta abordagem consiste em atacar os genes do câncer: a terapia gênica injeta o gene correto para substituir o defeituoso que causou o câncer.  Cientistas já injetaram com sucesso o gene p 53 correto em uma cultura de células cancerosas, detendo a sua reprodução e começam a aplicar a terapia em seres humanos vivos.  Outro grupo de especialistas tenta desenvolver uma alternativa: inibidores para bloquear a proteína defeituosa criada pelo gene do câncer, como a que o oncogene ras produz, estão experimentando com sucesso a farnesil transferase

5. Outra possibilidade está nas vacinas. Foi o primeiro método tentado e depois abandonado, mas a revolução biomolecular fez com que muitos cientistas voltassem a pensar na possibilidade.  Não em uma só vacina, mas em vacinas para tipos específicos de câncer.  As técnicas modernas permitem monitorar precisamente a eficácia da vacina, o que antes era impossível.

6. Há muita esperança no desenvolvimento de processos para sustar o fornecimento de sangue para o câncer.  Para crescer, o câncer estimula o crescimento de vasos e capilares que vão alimentar o tumor diretamente.  É a chamada angiogênese. A estratégia imaginada para deter o crescimento desses vasos é o desenvolvimento de bloqueadores como o TNP-470. Alguns já estão sendo clinicamente testados.

7. Os cientistas também esperam muito dos seus colegas que se dedicam a estudar a telomerase para neutralizá-la, o que tornará as células cancerosas novamente mortais, como as demais.

Não é possível prever, hoje, que terapia será mais eficaz, mas o importante é que a revolução biomolecular desvendou o mistério do câncer e abriu várias perspectivas novas e extremamente promissoras para evitar e combater o câncer em várias frentes.

 

Até 2020 é possível que a revolução biomolecular tenha controle sobre as doenças hereditárias, mas é provável que a cura continue distante, principalmente para as chamadas doenças poligênicas, as que envolvem mais de um gene com mutações.

Só nos últimos dez anos, com a biotecnologia, as doenças hereditárias conseguiram a ser compreendidas no nível molecular. Stephen Hawking, um dos maiores cosmólogos do mundo, sofre de esclerose lateral amiotrófica. Seu raciocínio permanece brilhante e preciso, mas ele perdeu o controle dos músculos, não consegue ficar de pé, não domina as pernas, os braços, as mãos, a língua, as cordas vocais.  Comunica-se através de um sintetizador de voz que opera com movimentos da cabeça.  Incapaz de outros movimentos, vive atado a uma cadeira de rodas.

É longa a lista de doentes célebres de defeitos genéticos, de Nero a Chopin, de Toulouse-Lautrec a Van Gogh, do rei Jorge III a Paganini. E há cerca de 5 mil doenças genéticas humanas conhecidas, entre elas a distrofia muscular, a hemofilia, a fibrose cística, a anemia falciforme, a doença de Tay Sachs.  Todas castigam pesadamente os jovens: um quinto de toda a mortalidade infantil é devida a doenças hereditárias, assim como a metade dos abortos espontâneos e 80% de todos os casos de retardo mental.

As doenças genéticas, segundo a Organização Mundial de Saúde, atacam cerca de 15% da população mundial, e se considerarmos as poligênicas ou com forte componente genético elas responderão por 75% dos óbitos.

A medicina foi impotente contra essas doenças por milhares de anos. Agora, a medicina molecular traz uma esperança, prometendo novas terapias e novas estratégias para enfrentá-las e até para obter algumas curas.

Mas vai ser uma luta interminável entre a evolução (que elimina, gradualmente, os genes danosos, por seleção natural) e as mutações nas células.  Em cada geração, algumas centenas de mutações ocorrem no DNA de cada um de nós.  Supondo que uma percentagem delas é danosa é provável que de dois a três genes danosos se introduzam em nossos corpos, por mutação. Assim, talvez 10 milhões de novos genes danosos penetrem no fundo comum de genes do ser humano, a cada geração.  Se não ocorrer algum milagre ou intervenção extraordinária para mudar os números, a luta será mesmo interminável.

 

Algumas dessas doenças são conhecidas há milênios, como a hemofilia, uma doença do sangue que impede a coagulação normal e que já é mencionada no Velho Testamento.  O Talmude isenta o bebê do sexo masculino da circuncisão se ele tem irmãos que sangram de maneira incontrolável.  E já se sabia que a doença era hereditária, transmitida pela mãe ao filho.

Essas doenças chegaram a alterar o destino das nações.  No século 18, medidas administrativas tomadas durante um acesso de loucura do rei Jorge III da Inglaterra (provocado por porfiria intermitente aguda), provocou a reação das colônias americanas e o nascimento dos Estados Unidos da América. Assim como a intensa endogamia praticada pelos reis e rainhas da Europa deve ter sido causa do gene da hemofilia da rainha Vitória, da Inglaterra, que o transmitiu para três filhas e um filho.  Seu gene também foi transmitido à neta Alexandra, que se casou com czar Nicolau II da Rússia.  O filho deles, Aléxis, sofria de hemofilia e o monge Rasputin, carismático e inescrupuloso, ganhou prestígio e poder na corte controlando o sangramento através da hipnose.  A corte russa ficou de tal modo paralisada pela ação de Rasputin que nenhuma das reformas urgentes caminhou, o que preparou o palco para a Revolução Bolchevista de 1917.

Muitas dessas doenças têm sintomas dolorosos, que levam à morte lenta e penosa. E algumas são bizarras, como a Síndrome de Lesch-Nyhan, que faz os jovens mastigarem os próprios dedos durante os surtos incontroláveis de automutilação.  Outras são terrivelmente desfiguradoras, como a neurofibromatose, que faz a pele do doente ficar coberta por uma infinidade de tumores castanhos, como no caso do famoso Homem Montanha, John Merrick.

Historicamente, a mais temida é a coréia de Huntington, que por muito tempo esteve associada à bruxaria e ao culto do demônio.  As famílias dos doentes eram molestadas, confinadas, e os pacientes, à medida que perdiam o controle sobre os músculos e a mente, ficando sujeitos a contorções do corpo que sugeriam dança, respirando com dificuldade e barulho, eram mortos, na fogueira, por estarem possuídos pelo demônio.

Por volta de 2015 deveremos ter uma listagem de quase todas as 5 mil doenças genéticas e seus respectivos genes defeituosos. O que não é tarefa das mais fáceis, como explica Francis Collins: localizar um gene específico, a partir do zero, sem marcos sinalizadores, é como encontrar um lâmpada queimada numa casa, em algum lugar do país, sem saber qual é a cidade ou a rua.  Estamos procurando uma letra errada em meio a 3 bilhões de letras. E ter todas as letras não vai ajudar muito.

Até agora, a decodificação do mistério das doenças hereditárias pela revolução molecular revelou algumas surpresas. Os genes defeituosos encontrados geralmente são extraordinariamente longos, o que aumenta muito a possibilidade de erro.  Em muitos casos, a doença é causada por um único erro, uma única letra trocada dentro do genoma humano.  Em outras vezes, por estranhas repetições de certos fragmentos genéticos.

Por isso mesmo a defasagem entre a capacidade de diagnosticar e a de tratar doenças genéticas pode ser de 20 anos ou mais.

Tudo indica que a estratégia mais promissora para combater as doenças genéticas é a intervenção direta pela terapia genética e os engenheiros genéticos já estão estudando o problema e como resolvê-lo.

A terapia genética é a solução proposta por W. French Anderson, o mais destacado pioneiro do campo e o irônico é que ele mesmo sofra de uma doença hereditária rara, a imunodeficiência combinada grave. Lembram, há alguns anos, de um menino que vivia permanentemente dentro de uma bolha plástica esterilizada e que só podia ser abraçado pela mãe se ela usasse luvas especiais?  Seu nome era David e ele passou seus poucos anos de vida confinado àquela bola, até morrer em 1984, porque não tinha glóbulos brancos saudáveis para evitar doenças, qualquer doença.

Curar genes defeituosos não é uma tarefa das mais fáceis, porque temos 100 trilhões de células no corpo.  No entanto, milhões de anos de evolução criaram o mais eficiente vetor, até agora, para a alteração dessas células: o vírus. Neutralizando-o antes, de modo a não fazer o paciente adoecer, os cientistas tratam de inserir no vírus um gene perfeito. Depois, é só colocar o vírus para circular no organismo do paciente.

Foi assim que Anderson fez: colheu sangue de seus jovens pacientes, depois infectou esse sangue com o vírus modificado e transfundiu-o novamente  nos pacientes.  A primeira paciente foi uma menina de quatro anos, Ashanti DeSilva.  Em 1995 pelo menos a metade dos leucócitos da criança tinham seus mecanismos genéticos corrigidos.

Mas depois de anos de experiências com a terapia genética, os resultados são desapontadores, porque o sistema imune do corpo às vezes ataca o vírus e as células modificadas, impedindo que os genes corrigidos proliferem no corpo.  Mas os cientistas continuam trabalhando e ninguém pode querer que um bebê ponha-se de pé e recite Shakespeare de cor.

Pior é que, de qualquer modo, ainda faltaria enfrentar as doenças ditas poligenênicas, provocadas por mais de um gene defeituoso, mutante. Nesse caso é difícil criar um programa de computador, até porque muitas mutações são provocadas pelo meio ambiente.

Uma doença símbolo desse tipo é a esquizofrenia, que destrói lentamente o espírito de um ser humano, deixando-o à mercê de vozes.  Para muitos cientistas (e não cientistas) é, indiscutivelmente, a pior doença que afeta um ser humano.  E ela atinge cerca de 1% da humanidade, mas ocupa perto de 30% dos leitos permanentes dos hospitais, sem esperança para o paciente.

Há uma clara relação entre a genética e a esquizofrenia Mas a relação é fraca, como prova o caso de gêmeos. Há 50% de probabilidades que um vá ser esquizofrênico se o outro o for, o que quer dizer que a genética não é determinante.  No entanto, há indícios esmagadores de que um dos genes da esquizofrenia reside no cromossomo 5.  E em 1998 cientistas canadenses descobriram que numa família de 104 pessoas, 39 eram esquizofrênicos, 15 tinham outros distúrbios mentais e todos os doentes tinham problema no cromossomo 5. (As probabilidades de que isto seja uma coincidência são de uma em 50 milhões.)

Outros estudos, no entanto, chegaram a esquizofrênicos que não tinham problema no cromossomo 5 e sim no 6, na área entre 6p 21 e 6p 24.

No momento não há esperança para as doenças hereditárias poligênicas, embora a terapia gênica seja uma possibilidade.

 

Há muito entusiasmo com o concerto de nossos genes de células somáticas, principalmente com a terapia gênica.  São células não relacionadas com a reprodução. Quando o indivíduo que for tratado e curado, morrer, morrem com ele os genes corrigidos.

E as células germinais, que envolvem a manipulação do DNA de nossas células sexuais?  As células corridas não vão morrer quando o paciente morre porque ele, ao deixar descendência, não deixará como herança aquela doença. Assim, em princípio, a terapia das células germinais pode, depois de algumas gerações, eliminar doenças genéticas para os descendentes da pessoa tratada.

No entanto, preparem-se para os grandes debates de graves questões morais e éticas,  como já está ocorrendo  com o uso ou não  das células-tronco

 de embriões, principalmente por motivos religiosos.

Os cientistas já conseguem realizar manipulações simples das células germinais em animais e não há barreiras previsíveis, do ponto de vista tecnológico, para fazer o mesmo com células germinais humanas.  Esta é uma tecnologia que se vencer preconceitos, restrições religiosas e éticas, tem potencial para ser usada de maneira benéfica, mas também de modo perturbador.

O admirável mundo novo da genética cria também o maior desafio moral que a humanidade deve enfrentar: temos que decidir em que medida queremos projetar nossos descendentes.  Devemos afirmar que há algumas coisas que nós simplesmente não faremos, por motivos éticos, mas quem pode segurar o avanço tecnológico da ciência?

A revolução do DNA abre duas visões diferentes do futuro.  Uma, promovida pela indústria biotecnológica, promete riqueza, prosperidade, mais saúde, o fim das doenças hereditárias através da engenharia genética, até a cura do câncer, assim como a bioengenharia promete novas drogas para as doenças infecciosas e a clonagem de genes promete dar muito mais alimentos para o mundo, vegetais e animais.

Mas quem ficou inquieto com o profético romance Admirável Mundo Novo, de Aldous Huxley (escrito em 1932) sabe que embora tenha projetado a ação do seu livro para 600 anos adiante, no futuro, muitas de suas previsões tecnológicas já estão ao nosso alcance. Assim como sabe que o horror, afinal, está dentro de nós mesmos.

Em 1980 assistimos ao nascimento de Louise Brown, o primeiro bebê de proveta e os pais já tinham uma ampla seleção de opções disponíveis para a procriação: embriões que podiam ser congelados e degelados anos mais tarde, barrigas de aluguel (houve até uma avó que pariu o próprio neto), congelamento de esperma que podia gerar filhos após a morte do doador…

E estamos às vésperas da realização de outras previsões de Huxley, como a clonagem humana e a procriação seletiva.

Que futuro vamos escolher?

A maioria dos cientistas biomoleculares parece decidida a evitar os erros dos cientistas envolvidos no século 20 com a pesquisa da energia atômica.  O problema é que a pesquisa com o átomo foi conduzida originalmente em segredo de Estado, sob o manto da “segurança nacional”.  Houve pouco debate democrático sobre as implicações da revolução atômica e um dos resultados é que os Estados Unidos da América enfrentam agora um problema com 17 depósitos de armas nucleares com vazamento, cuja limpeza pode custar mais de 500 bilhões de dólares.  E o preço humano é incalculável, porque muitos documentos ainda estão protegidos pelo segredo inviolável, embora aí também haja vazamentos. O que se sabe é que os experimentos antiéticos com radiação foram realizados com 20 mil indivíduos, americanos, que não só não estavam informados sobre o que acontecia na década de 40, como morreram sem saber direito.  Inclusive os que receberam injeções de plutônio nas veias, os que sofreram com a liberação de materiais radioativos sobre áreas habitadas e as mulheres grávidas expostas à radiação propositadamente, para ver como seriam seus filhos.

Os criadores do Projeto Genoma Humano tiveram o cuidado de reservar 3% do orçamento para montar um laboratório de pesquisa e debate das questões éticas, legais e sociais, uma preocupação inédita na história das pesquisas científicas.

O problema é que há uma diferença importante entre a revolução atômica e a biomolecular: até certo ponto é possível controlar a proliferação de armas nucleares, porque são necessários dezenas de bilhões de dólares para o desenvolvimento de uma grande infra-estrutura nuclear e ninguém pode iniciar um programa nuclear no porão de casa; ao contrário, a natureza da bioengenharia é totalmente diferente.  Com um modesto investimento de 10 mil dólares qualquer pessoa bem informada pode realizar experimentos de biotecnologia no porão e manipular o genoma de plantas e animais.  Com alguns milhões pode criar uma indústria de biotecnologia, de alto retorno, o que significa que não se pode conter a biotecnologia ou restringir o fluxo do DNA. A não ser que todos concordem em estabelecer valores éticos e morais, com proibições que inibissem os abusos.

Mesmo assim, não há garantia suficiente de que não ocorressem muitos experimentos e um mercado paralelo biotecnológico.

 

Os riscos são muitos e Jane Rissler, da União dos Cientistas Preocupados, teme que a falta de vigilância apropriada possa introduzir em um alimento, por exemplo, um gene aparentemente inofensivo mas que seja mortalmente perigoso para um consumidor incauto.  Por exemplo: inseriram genes de banana nos tomates de salada, para aumentar a rigidez e a durabilidade.  De repente, comendo tomate, uma pessoa pode ter um ataque alérgico e até morrer, porque ela tem alergia grave a banana.  Ela assegura que só em seu país há 5 milhões de pessoas alérgicas, com alergias alimentares que vão de moderadas a fatais.

Já houve pelo menos um caso público, com o feijão soja geneticamente modificado para conter um gene de castanha-do-pará e aumentar sua resistência às pragas.  Os testes provaram que a soja tornava-se altamente alergênica e podia causar choques fatais.

O problema é que não tem havido tempo e dinheiro para fazer todos os testes necessários e as autoridades sanitárias americanas há tempos permitem testes conduzidos pelas próprias empresas produtoras de alimentos geneticamente modificados.  Como a fiscalização americana é tida como ótima (o que não é, absolutamente verdade), outros países acompanham a decisão de liberar aquele alimento.  É preciso notar a capacidade de pressão e o dinheiro que cerca os poderosos interesses da agroindústria americana.  Em menos de dez anos, no final do século 20, foram aprovadas 40 novas espécies, produto de manipulação genética, com vigilância mínima.  E apenas 5 anos depois verificou-se que pelo menos 12 eram potencialmente perigosas ao ser humano.

Está havendo uma verdadeira corrida armamentista entre insetos e produtos manipulados geneticamente para evitarem a ação desses insetos.  E o resultado é o aparecimento de superinsetos, super-resistentes, que exigem mais pesticidas que acabam nos nossos alimentos.  Ou encarecendo de modo absurdo os produtos ditos orgânicos.

A colheita da bioengenharia não pode ser anulada e muitos cientistas temem, sinceramente, pelas conseqüências imprevisíveis da introdução, deliberada ou acidental, de espécies estranhas no meio ambiente.  Porque já há exemplos dramáticos, como o dos mexilhões zebrados, da doença do olmo holandês, do antílope africano kadzu, da praga do castanheiro.

Aqui mesmo no Brasil nós temos um exemplo: o da abelha africana (Apis mellifera adansonii scrutellata), deliberadamente importada em 1957 para substituir a abelha européia, que não se ajustava bem ao ciclo de luz natural do nosso clima.  A fuga de abelhas rainhas africanas fez com que a espécie, extremamente agressiva, se espalhasse de modo incontrolável, ocupando todo o continente americano, menos o Alasca.  Apelidada pela imprensa de abelha-assassina, ela enxameia aos milhares, ataca o gado e já matou milhares de pessoas, causando prejuízos incalculáveis.  Hoje, é a espécie dominante do hemisfério Sul.  Em nome de mais mel, perturbamos o ecossistema e estamos pagando o preço pela introdução sem cuidado dessas assassinas em nosso meio.

 

A quem pertence o genoma?  As tentativas de pesquisar e os requerimentos de patente de genes sem indicação de para que se pedia seu patenteamento mostrou que o biobussiness sofria de desregramento moral grave.  Além disso, as pesquisas com o DNA abriram nova controvérsia legal: é admissível a divulgação do resultado de um exame feito nos fios de cabelo de um candidato à Presidência da República para revelar que ele tem um gene defeituoso que pode resultar numa mutação cancerosa?

E é possível submeter um preso ou um acusado a fazer exame de DNA para comprovar sua culpa?

Embriões podem ser submetidos a testes genéticos e, conforme o resultado, serem abortados?  Será uma irresponsabilidade dos pais, no futuro, ter filhos sem testes genéticos?  As seguradoras poderão exigir testes genéticos e recusar seguro por conta de um gene problemático que talvez nunca sofra mutações que provoquem uma doença?  Indivíduos podem deixar de ser empregados por conta de genes problemáticos?  Haverá a chamada discriminação genética como já existe nos planos de saúde para a chamada “doença pré-existente”?

Ultimamente surgiram teorias sobre a violência genética e sobre a inteligência genética que permitem conclusões racistas e embora não sejam cientificamente comprovadas têm base em pesquisa genética.  É uma ameaça, principalmente nas mãos de pessoas com tendências preconceituosas.

A comunidade científica é majoritariamente contra a manipulação das células germinativas.  Mas há discordância e pode ser que no futuro os pais que quiserem tenham como determinar a altura, a cor dos olhos e do cabelo, o peso dos futuros filhos.  Os pais já tentam moldar os filhos com aulas de línguas e de piano, talvez queiram ir mais longe e moldar seus genes.

Basta ver o que aconteceu com um simples teste que pode determinar o sexo do feto: um terremoto demográfico.  Em grande parte do mundo na periferia do capitalismo, atribui-se exagerada importância a filhos do sexo masculino.  Segundo Monica Das Gupta, de Harvard, entre 1981 e 1991, um milhão de meninas foram abortadas na Índia.  E outros quatro milhões de meninas com menos de 5 anos desapareceram sem deixar vestígio, embora fossem 3,6% da população feminina naquela faixa etária.

A política de um filho por família, na China controlou a explosão demográfica à custa da morte de 10 milhões de meninas.

Se a introdução da ultra-sonografia desencadeou essa catástrofe demográfica, o que será que vai resultar da nossa capacidade de controlar geneticamente nossos filhos?

È certo que serão necessárias leis para proibir a interferência indevida, desenfreada no genoma humano e, certamente, nas células germinais.  Em primeiro lugar proibindo a manipulação por razões estéticas, uma aplicação frívola.  Mas talvez seja difícil estabelecer os limites definitivos, já que a percepção do público e os avanços científicos mudem com o tempo.

 

A clonagem de seres humanos está claramente possível para um futuro próximo e haverá novas questões éticas e legais, quando a clonagem for mais segura. (Hoje, os clones nascem com a idade biológica do animal clonado.)

Huxley previu a clonagem de pessoas para executarem as tarefas subalternas necessárias em qualquer sociedade.  Uma sociedade que importa mão-de-obra imigrante barata para fazer isso e paga salários miseráveis seria ética bastante para recusar os clones?

Os teólogos já discutem se os clones têm alma.  Os juristas se perguntam quais os direitos legais dos clones. Os cientistas querem saber se é possível clonar para fazer a colheita de órgãos para transplante. Vamos ver o dia em que surgirá a genetocracia, entregando o poder a uma nova aristocracia genética?  Ou assistiremos a guerras biológicas?

No ano 600 antes de Cristo, Sólon, de Atenas, contaminou a água que abastecia a cidade de Kirrah, com uma planta venenosa, o heléboro. Ganhou a guerra, a primeira guerra biológica de que se tem notícia.  Daí para cá os exemplos são muitos: os tártaros catapultando cadáveres para espalhar a peste sobre os inimigos; os britânicos dando cobertores infectados com varíola aos índios americanos para exterminá-los; o gás de mostarda que matou 100 mil soldados na Primeira Grande Guerra e incapacitou 1,3 milhão de pessoas; o gás que os nazistas usaram na Segunda Grande Guerra para eliminar judeus, ciganos, homossexuais e outros indesejáveis;o gás sarin usado por budistas fanáticos no metrô de Tóquio: a febre de San Joaquin, uma doença fúngica desenvolvida nos Estados Unidos como arma biológica para atacar um grupo étnico específico.

O conhecimento não é bom nem mau, mas é poder, e poder é uma questão política e social.  Não há maneira viável de deter o progresso da ciência, mas devemos encontrar um meio de controlar cuidadosamente os exercícios da tecnologia biológica, principalmente da pesquisa genética. Por exemplo, proibindo, em nome da humanidade, todas as armas e guerras biológicas.

 

A busca da eterna juventude é uma constante na história da humanidade e, hoje em dia, a indústria das dietas, dos exercícios físicos e da estética para parecer jovem consome mais de 100 bilhões de dólares.

Enfrentar o envelhecimento é enfrentar a realidade da própria mortalidade, mas viver para sempre não viola qualquer lei conhecida da biologia celular. No entanto, não podemos permanecer eternamente jovens.

Os cientistas mais cautelosos com as previsões para o futuro foram os biogerontólogos.  Eles apostam em tratamentos hormonais cuidadosamente monitorados combinados com antioxidantes para evitar alguns estragos provocados pelo envelhecimento, mas não asseguram o prolongamento indefinido da vida humana.

A propósito, é curioso que os velhos digam que estão enferrujando, com a velhice.  E que a ciência constate que estão mesmo, por conta da oxidação das células.  A mesma oxidação que provoca a ferrugem.

Mas depois de 2020, se tivermos o seqüenciamento personalizado do DNA, uma perspectiva inteiramente nova vai ser aberta: a identificação dos legendários genes da idade, se é que de fato existem, o que nem todos cientistas acreditam.  Pesquisar milhares de genes para localizar os da idade será um enorme trabalho, mas alguns biogerontólogos afirmam que a pesquisa já começou e que eles identificaram genes de idade em animais. E têm esperança de que existam homólogos no ser humano. Isto é, que os mesmos genes, com as mesmas funções, possam ser identificados no genoma humano, uma perspectiva promissora.

Supondo que tais genes existam e sejam encontrados e isolados, por meio da terapia genética talvez seja possível interromper o processo de envelhecimento e estender a duração máxima da vida humana.

Várias experiências de laboratório alteraram geneticamente a vida de um organismo vivo. Moscas drosófilas tornaram-se supermoscas, mais robustas, mais longevas e que produziam maior quantidade do antioxidante superóxido dismutase, que ajuda a combater os radicais livres superóxido. O que se imagina é que resistindo aos efeitos degradantes da oxidação tiveram a vida prolongada.  Abriu-se aí uma linha de pesquisa.

Num nematódeo, um verme minúsculo, localizaram um novo gene (age-I) que, devidamente manipulado, prolongou a vida dele em 110%, um feito sensacional para quem crê na possibilidade de manipular o gene humano da idade.

Manipulando o gene daf-2 de vermes, eles passaram a viver duas vezes mais e ficavam mais saudáveis e ágeis.

Siegfried Hekimi, da Universidade McGill, em Montreal, parece ter descoberto os genes-relógio (como ele chama), quatro genes que isolou e manipulou, desacelerando o envelhecimento de vermes mutantes que viveram cinco vezes mais que o normal.  Diz ele que o que conseguiu foi reduzir a taxa metabólica.  Viver mais devagar é viver mais, como sabem as tartarugas.

A maneira mais simples de determinar se a longevidade dos humanos é genética é descobrir se é hereditária.  Há muitos e exaustivos estudos sobre a hereditariedade da longevidade e os cientistas já constataram que 87% das pessoas entre 90 e 100 anos tinham pai ou mãe que viveram bem além dos 70.

Outra linha de pesquisa é trabalhar sobre a progéria, uma doença hereditária que acelera furiosamente o processo de envelhecimento, transformando lindas crianças em velhos decrépitos que morrem aos 9 ou 10 anos.  As pesquisas indicam nessas crianças-velhas quantidades anormais da enzima helicase, vital para o reparo do DNA.  O que, mais uma vez, parece indicar que o envelhecimento se dá pela falência dos mecanismos de reparo do DNA.  É mais uma linha de investigação.

Outra é procurar os genes do envelhecimento. Michael West, biólogo molecular da Universidade do Texas afirma já estar a caminho de encontrá-los. Prelo menos isolou os genes do envelhecimento das células da pele, do pulmão e dos vasos sangüíneos (M-1 e M-2).  Ele prevê que até 2010 seja possível controlar as doenças relacionadas com a velhice, como aterosclerose, doenças coronárias, envelhecimento do cérebro, osteoartrite e flacidez da pele.

Mas o entusiasmo maior do biogerontólogos é com a possibilidade de cultivar novos órgãos.  Alguns animais, como a lagartixa, são capazes de regenerar uma cauda perdida ou uma pata amputada.  Os mamíferos, infelizmente, não têm essa propriedade, mas as células do nosso corpo contêm, em seu DNA, a informação genética necessária para a regeneração de órgãos inteiros.

No passado, os transplantes em seres humanos enfrentaram uma longa lista de problemas, sendo o mais grave a rejeição do órgão pelo sistema imune.  Usando a bioengenharia, os cientistas agora podem cultivar linhagens de um tipo raro de célula, as chamadas células doadoras universais, que não provocam ataques do nosso sistema imune, o que torna possível uma nova e promissora tecnologia capaz de produzir partes do corpo.  O que já está acontecendo.

Para produzir órgãos os cientistas primeiro constroem uma complexa estrutura plástica que forma os contornos do órgão no tamanho que se deseja. Depois, essas células especialmente transformadas por bioengenharia são introduzidas na armação.  À medida que se transformam em tecido, a estrutura se dissolve, deixando um novo órgão saudável.  O notável é que, sem um capataz para dirigi-las, as células têm a capacidade de assumirem a posição e a função corretas: o programa que lhes permite montar órgãos completos está contido em seus genes.

Essa tecnologia já foi comprovada no cultivo, por exemplo, de válvulas cardíacas artificiais, usando um polímero biodegradável como estrutura.

Prolongar a duração da vida é um velho sonho do ser humano. Outro, ainda mais ambicioso, é criar novos organismos, novos seres vivos que nunca caminharam sobre a Terra e os cientistas parecem acreditar que estão se aproximando rapidamente da capacidade de criar novas formas de vida.

 

Quais os limites de criação de novas formas de vida?

A manipulação do fundo genético de plantas e animais para criar novas formas de vida é coisa antiga.  Os seres humanos manipulam com os genes de outras espécies há mais de 10 mil anos, criando muitas das plantas, frutas e animais que estão à nossa volta.

Cortez chamou o fruto que não conhecia de “maçã dourada” e os italianos ainda chamam o tomate de pomo d’ori porque quando ele foi levado para a Europa era amarelo. Depois é que se tornou vermelho, por manipulação genética.

O lobo cinza, Canis lupus, foi domesticado há cerca de 12 mil anos. Cruzamentos intensivos produziram as três centenas de raças conhecidas de cães para fins específicos: caça, pastoreio, segurança, resgate na neve, companhia. Vivendo com os seres humanos os cães prosperaram.  Para cada lobo há pelo menos um milhão de cães.  Mas os lobos eram saudáveis e os cães, por conta dos cruzamentos endogâmicos, têm muitos genes defeituosos que fazem com que tenham problemas de coagulação, deformidade dos quadris, artrose, reumatismo e outras doenças.

Quer dizer: há um preço a pagar por essas mutações transgênicas. Séculos de cruzamento seletivo do milho o tornou dependente do ser humano, a tal ponto que a planta não sobrevive mais sozinha.  As sementes ficaram tão firmemente incrustadas na espiga que já não se dispersam mais quando estão maduras; e suas sementes precisam ser plantadas pelo ser humano ou o milho se extinguirá.

 

Há muito tempo os cientistas suspeitam que certos tipos de comportamento tenham um componente genético e que nós estaríamos envolvidos numa intrincada rede de genes e de complexos fatores ambientais.  Pela primeira vez na história alguns genes que codificam certos tipos de comportamento estão sendo identificados e isolados.

Há muitas pesquisas nesse campo e há provas de que há mesmo genes que controlam funções cerebrais complexas, inclusive o ritual da corte dos machos e fêmeas e a tendência para a infidelidade.

Foram localizados genes da memória, gene da ansiedade, gene do bem-estar, gene do homossexualismo, nenhum deles suficientemente confirmado ainda.  O tempo dirá, mas pela primeira vez estamos pesquisando genes individuais que concorrem para a complicada mescla que cria a trama de traços poligênicos.  A descoberta desses genes será acelerada no futuro, melhorando nossa compreensão da saúde e do comportamento humano.

   

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