A Revolução Ética

Uma das revoluções  que faltaram no século 20 foi a da educação     Nossa realidade  social está mudando  mais rápido  do  que   as  imagens educacionais dessa realidade e toda educação  emana  das  imagens que o estudante tem do  futuro.  O sistema de ensino está ultrapassado, porque é baseado na memorização de dados e o que precisamos é aprender a aprender. A educação para o futuro é indispensável porque é lá que vamos passar o resto das nossas vidas.

Em épocas de crise, quando a condição social é insustentável e a situação econômica é incerta ou difícil, as questões de sobrevivência imediata e o clima de salve-se quem puder prevalecem sobre a moral social; e o instinto de sobrevivência a qualquer preço modifica tanto o comportamento aceitável que fica evidente o comprometimento ético da sociedade.            Curiosamente, é nessa situação que se manifesta uma sensibilidade maior para a ética, que passa a ser a questão central, uma vez que a moral social já não é mais suficiente para controlar o comportamento de setores importantes e decisivos da sociedade como o Legislativo, o Judiciário e o Executivo.            Quando nem as leis são um freio suficiente para a imoralidade geral, resta tentar revitalizar os valores éticos. Entenda-se a ética como o conjunto de princípios que orientam as relações humanas no bom sentido.            Em O Mal-estar da Civilização, Freud já observava que o aparelho social tem tentado conter o excesso emocional “que emerge, como ondas, de dentro de cada um de nós”.             Em uma sociedade que não respeita as leis e os direitos, o que legitima a ética é a sua racionalidade, é a força e a transparência de princípios e valores justos em si mesmos, evidentes, criados exatamente para servir à sociedade da maioria. Por isso mesmo, de tempos em tempos, alguém propõe o debate da questão ética.            No código de ética judaico-cristão, por exemplo, os Dez Mandamentos são regras de senso comum que têm o objetivo de tornar possível e civilizada a convivência. “Não matarás” é, ao mesmo tempo, um valor ético e um princípio que procura evitar o assassinato, a guerra, a violência que torna a sociedade inviável.            Sem o respeito a certos princípios a convivência é impossível e é por isso que as sociedades que mantêm atitudes e procedimentos aéticos assistem a um aumento da possibilidade de crise institucional, que desestrutura e leva ao colapso. A ética é que mantém a estrutura da sociedade, e quanto mais profundo o sentimento ético e a sua prática, mais assentada e organizada é a sociedade.            Por exemplo: quando a vida era um valor absoluto e não tinha preço, não havia a violência de hoje. À medida que a vida humana foi perdendo o seu valor, a violência foi aumentando. Se a vida vale tão pouco que uma pessoa pode ser excluída da sociedade pela má distribuição de renda, pelo baixo salário mínimo ou pelo desemprego, pela falta de acesso a educação de qualidade, pela falta de água corrente tratada e esgoto, pela falta de segurança e pelo desrespeito constante e continuado aos seus direitos de cidadão, acabar com uma vida dessa pessoa passa a significar muito pouco.             O consumismo desvairado e o neoliberalismo levaram a humanidade a acreditar que felicidade é ter, de preferência ter um novo, e que só pode ser feliz quem tem o poder de consumir. Esse novo valor para medir a capacidade, a realização e o sucesso, tem justificado a mentira, o engodo, os artifícios, a propaganda enganosa capaz de dar a algumas pessoas (mas não a todas) as condições ideais de consumo.            Isso contaminou políticos e política. A política sem ética é intolerável, tornou-se pragmática, sem programa, cínica a tal ponto que conseguiu conspurcar a prédica de São Francisco de Assis. E é dando que se recebe passou a ser sinônimo de voto comprado, de barganha, de mensalão, do mais imoral toma-lá-dá-cá.             A imoralidade pública chegou a um ponto que o recurso ilegal do caixa dois tornou-se aceito e aceitável pelos políticos de todos os partidos. Como disse o próprio Presidente da República, com naturalidade, “todo mundo faz”, sem perceber que aí é que está o problema.            O maior teste para a ética contemporânea parece ser a relação com o poder. Se ela tem menos força que o poder, se os princípios éticos e as regras podem e são atropeladas pelas manifestações da maioria ou de quem tem o poder eventual, a felicidade humana é impossível. Porque a felicidade se produz pela ética, pelo bem, e não pela política ou pelo poder.            Quando quem pode manda, subordina, subjuga e exclui, o pior é o poderoso contar com a colaboração das vítimas. Ele pode mais exatamente porque quem pode menos se submete, coloca-se sob o seu domínio e proteção, perpetuando a dominação. O problema é que a imensa maioria dos excluídos não tem informação bastante, não tem consciência da situação, não exerce sua cidadania, não reclama, não reage. Ainda vivemos a herança de domínio do conquistador, do explorador, da casa grande e senzala.            O problema não é só do Estado ou no Estado. Começa na família, onde a relação de poder geralmente não é justa, onde falta respeito às pessoas (principalmente às crianças e aos velhos), onde o macho se sente o chefe, mesmo que não seja mais o grande provedor e sua atuação como marido, pai e educador não justifiquem de forma alguma o seu mando.            Há, evidentemente, famílias democráticas, como há as autoritárias. Mas a sociedade, como um todo, quase sempre segue o modelo familiar, empresarial e da escola, três modelos que hoje dificilmente podem ser chamados de democráticos e éticos.            A crise é ética, sem dúvida, mas no caso brasileiro começa por uma crise de cidadania, de respeito à coisa pública e ao direito dos outros. Cidadão é o indivíduo que tem consciência dos seus direitos e deveres e que não abre mão deles, exercendo-os ativamente, participando dos debates, das decisões, cumprindo rigorosamente com as suas obrigações.            Desde 1988, com a nova Constituição, que o Brasil é um país federativo, representativo e participativo. É dever do cidadão participar, ajudar a decidir, acompanhar, cobrar. Mas quem se dispõe, quem realmente cobra, quem quer ter trabalho e se arriscar e expor-se contra o poder, qualquer poder?            Quando alguém pergunta “e eu com isso?” certamente está rompendo o pacto social, porque todos os cidadãos têm a ver com tudo e a alienação só favorece os que estão em erro.            Estamo-nos tornando em uma sociedade de vítimas queixosas, porque poucos exercem a cidadania e a maioria confunde desigualdade com diferença ou com diversidade. A igualdade é um princípio ético e por isso mesmo deve ser respeitada, enquanto as diferenças e a diversidade são normais, naturais.            Outra confusão evidente é entre aquilo que é público e o que é estatal. Público é tudo o que se faz em sociedade e que interfere nos interesses, nas atividades e no destino das pessoas que vivem nessa sociedade. Nem tudo o que é púbico é estatal ou responsabilidade do Estado. Distinguimos bem o que é estatal e o que é privado, mas não o que é público ou estatal.            Por isso mesmo não fica muito claro para a maioria o que se pode e o que não se pode fazer na área pública. Como na televisão, por exemplo.            Quando o general que naquele momento estava na Secretaria de Segurança do Estado do Rio disse, em público, que a segurança é um assunto exclusivo do Estado, não percebeu o seu erro: a segurança é dever do Estado, mas é assunto público, como a saúde, a educação, a cultura, o esporte, a liberdade e a miséria.             A miséria é o resultado de uma fantástica concentração de renda. Projetos econômicos sem preocupação humana resultaram em enormes contingentes de excluídos do processo econômico e até do social, em todos os países da periferia do capitalismo. E até mesmo dentro das fronteiras de alguns dos países mais ricos.            No Brasil também. País rico, com todos os recursos naturais fundamentais para ser auto-suficiente, grande, mas com gente bastante para trabalhar e produzir, uma das dez potências industriais do mundo, o Brasil consegue estar em último lugar em distribuição de renda; e em penúltimo no valor do seu salário mínimo. Estamos vivendo momentos difíceis, de desemprego e crise, como resultado da globalização do mercado e de políticas sociais simplistas, assistencialistas, e que não resolvem.            Mas há uma falta de coragem e uma negação dos valores éticos que se coadunam com a política do jeitinho.            A questão ética é quase tão antiga quanto o homem e cada período histórico teve os seus problemas éticos. Há algumas características que tornam o problema atual aparentemente mais grave (pelo menos para nós, que estamos vivendo agora).·        Como disse o papa João XXIII, a religião já não está sendo usada como referência para estabelecer, avaliar e julgar comportamentos. Nenhuma religião. Elas já serviram, mas foram deslocadas pela ciência e pela razão.·        A ciência e até a razão entraram por caminhos pouco éticos, perderam-se como padrão, assim como perderam a hegemonia. A tecnologia e a economia neoliberal são hoje as forças dominantes, mas o excesso de poder e o crescimento da vontade de ganhar a qualquer preço e acumular riqueza chegaram ao ponto de colocar em risco a própria sobrevivência do ser humano na Terra.·        A liberdade pessoal expandiu-se de tal modo que acabou por diluir a maior parte dos limites internos e externos do homem que se tornou egoísta e pouco solidário. ·        A descoberta do superego levou à permissividade individual e social.Como resultado, escreve o filósofo Luciano Zajdsznajder, “vivemos em um mundo em que andam ombro a ombro a maravilha e quase o êxtase e o terror”. O interesse atual pela ética não é um movimento intelectual, mas um impulso natural e instintivo de autodefesa e sobrevivência. As novas realidades e o comportamento irresponsável da maioria estão exigindo um novo comportamento ético até para o dia-a-dia, porque decisões éticas estão prejudicando a qualidade de vida, desrespeitando os direitos das gerações futuras e até comprometendo a sobrevivência do ser humano na Terra.No Brasil, por exemplo, “o país vai bem e o povo vai mal”, como reconheceu o presidente Lula. Estamos entre as maiores potências econômicas mundiais da produção, mas o país é rico é injusto, porque menos de 10% da população detém 50% da riqueza, enquanto mais de 50% dividem apenas 10% de tudo o que produzimos. A maioria sofre com a falência das instituições de educação, saúde, justiça, previdência, segurança, está mal nutrida ou com fome, doente e na extrema pobreza, socialmente excluída.O pior é a clara identificação de que nossos problemas não correm por falta absoluta de recursos, mas por falta de ética e vontade política. Nem tudo é desonestidade e corrupção, mas o chamado aparelhamento político do Estado e a falta de políticas  claras e projetos determinados em áreas fundamentais como educação e saúde revelam problemas de fundo ético. Assim como o esvaziamento das instituições e o cultivo permanente do desânimo, a político do “não vai dar”,  a idéia de que “tudo vai acabar em pizza” , o desânimo, quando sabemos que anima é alma e o desânimo, portanto é falta de alma. Um povo sem alma não consegue levantar-se.A diferença fundamental entre a Constituição de 88 e todas as outras, é que agora somos, no papel, um país federalista e representativo como sempre, desde a República; mas também participante, como nunca.Federalista, verdade se diga, já somos pouco, por conta do poder quase imperial do Executivo e de suas medidas provisórias (uma forma de legislar indevidamente). Representativo somos até as eleições parlamentares, porque depois dela a maioria absoluta dos nossos representantes deixa de olhar para os representados, embora justifiquem suas ausências indecentes do Congresso com a desculpa de que estão “consultando as bases”. Brasília já existe há tanto tempo e deputados e senadores ainda recebem benefícios imaginados para atrair para a Capital Federal os forasteiros. Mas, cumprindo o preceito constitucional, o povo deveria estar participando, principalmente na área da saúde, da educação, da criança, no controle social da televisão, porque assim está determinado na lei maior. Participamos? Alguns são chamados para ajudar a fingir que sim.Por quê? Porque não interessa ao poder e aos poderosos de plantão qualquer participação, qualquer controle social, a não ser que possam, eles mesmos, controlá-la. O que é um comportamento aético.É evidente falta de ética no comportamento brasileiro: o mau costume de desvaslorizar o que é nosso e supervalorizar tudo o que é importado do estrangeiro (inclusive expressões do dia a dia); explorar nossa descrença em um futuro melhor e não cultivar a verdadeira esperança; afirmar que nossos problemas são financeiros (ou orçamentários); criar dificuldades no reconhecimento de direitos, incentivar o silêncio e o acarneiramento do cidadão, criticar aquele que tem coragem de reclamar; gerar injustiça e não respeitar a dignidade do cidadão; explorar a violência, o medo e a paranóia, criando uma sociedade de poltrões e de acovardados. Os mais bem informados sabem que, na verdade, não há crise ética no Brasil, porque aqui é difícil reconhecer, em qualquer época, um comportamento ético majoritário, especialmente nas elites e no poder.Nosso primeiro documento escrito, a carta de Pero Vaz Caminha, deve ser tomada como o registro civil do país. Nela ele dá notícia detalhada do achamento e é uma lição de jornalismo, porque só afirma o que viu, do que não viu dá notícia citando a fonte.  Mas não termina sem pedir a El-Rei uma mercê, um favorzinho para um parente necessitado, dando início à prática do compadrio e do nepotismo.No Brasil Colônia certamente não houve ética na relação dos colonizadores com os habitantes originais da terra. Pior: os que aqui vieram, com raríssimas exceções, não estavam para ficar e colonizar, mas apenas para impedir que outros o fizessem. Depois, estavam para tirar daqui tudo o que fosse possível, explorando ao máximo, para depois voltar à santa terrinha com os lucros fabulosos. Quase acabaram com o pau brasil. E ensinaram que gente de bem não trabalha, não pega no pesado, para isso existindo os índios subjugados ou os escravos trazidos à força da África. É a origem da nossa elite.No Império, predominou a escravidão. Fomos os últimos a aboli-la, assim mesmo por pressão estrangeira. Recusou-se a modernidade industrial que o Paraguai buscou e, por isso mesmo, foi vítima da guerra onde cometemos genocídio e acabamos com todo o gado daquele lado da fronteira, atendendo a interesses industriais e comerciais estrangeiros. Os Voluntários da Pátria lutaram a guerra acorrentados, eram escravos mandados em lugar dos filhos de rico que não queriam os riscos do combate. Um general foi acusado por outro de ser ladrão de gado e de marcar as batalhas para o dia do pagamento, de modo a ficar com o soldo dos mortos.  Ficamos devendo milhões para custear a guerra que não era nossa, e caíamos na dependência externa por falta de um projeto de futuro.Na República Velha o primeiro grito ético veio do movimento de tenentes. As eleições eram fraudadas a bico de pena e quando não era possível resolver a situação, matava-se. Foram sufocados e continuaram tentando, de tempos em tempos, sem sucesso.No governo Bernardes havia campos de concentração no país. Na ditadura Vargas mais de um torturador e assassino político foi eleito para o Congresso, até para o Senado. E a política de força e circunstância não permitiu a educação política do povo. Vargas, eleito, matou-se com um tiro no peito no Palácio do Catete, de cujos porões escorria o mar de lama da crise moral.Depois do discurso ético mas abstrato dos positivistas, foi a União Democrática Nacional, a UDN, a primeira a falar em ética. No entanto, os udenistas eram moralistas e não éticos, o que os levou a fomentar o golpe e a criar grupos fascistas como o Clube da Lanterna, açulando os militares contra as instituições democráticas, tentando impedir a posse e o governo de Juscelino, apoiando o irresponsável Jânio Quadros, lutando contra a posse de Jango Goulart e provocando a ditadura militar.A ditadura dos militares mentiu, torturou, assassinou, jogou pessoas vivas de dentro de aviões em pleno vôo, desapareceu com pessoas tidas como suspeitas, participou da montagem de uma operação internacional, inspirada pelo Departamento de Estado americano e que somou as forças das ditaduras da América Latina para a repressão. Foi o psicanalista Jurandir Freire Costa quem primeiro identificou a “razão cínica” como um traço do caráter do brasileiro, esse pessimismo do “é assim mesmo e não tem jeito”, essa idéia de que façam o que fizer “vai acabar tudo em pizza”. Essa falta de caráter espalhou-se, espraiou pelo setor público, engoliu políticos, contaminou quase toda a sociedade. A corrupção e o suborno passaram a fazer parte da aparentemente inocente cultura do jeitinho. E os que se aproveitaram, os que enriqueceram facilmente graças aos recursos públicos desviados os grandes contraventores, os barões do roubo, foram olhados com complacência e até alguma admiração. Por isso mesmo o presidente francês de Gaulle teria dito que o Brasil não é um país sério. E se não disse, poderia ter dito.A generalização do antiético chegou ao cúmulo com o confisco das contas bancárias e da poupança pela ministra (de má lembrança) Zélia Cardoso. Notem que o presidente Collor, em campanha para eleger-se Presidente, dissera que o outro candidato, Lula, é que faria isso. O Supremo Tribunal Federal eximiu-se de nos socorrer, embora a maioria dos seus ministros considerasse inconstitucional a medida.Católicos, mas não praticantes, honestos, mas não fanáticos, extremamente críticos, mas passivos, só nos restou a esperança de ganhar sozinho na mega sena, ou que a seleção brasileira de futebol continuasse a colecionar estrelas para o peito da camisa amarelinha.Entrou para a história nosso comportamento torto: colocávamos impureza nas bolas de borracha que exportávamos, para ganhar no peso e perdemos o mercado reclamando que alguém furtou mudas da seringueira para plantar na Indonésia. Colocávamos sujeira no café que dizíamos ser tipo exportação. Perdemos o mercado e acusamos o café da Colômbia de competição desleal.Nossos fundos públicos, todos, foram sistematicamente desviados, assim como os fundos sociais e o povo inteiro foi chamado a pagar o prejuízo da ineficiência, da ineficácia, da desonestidade dos grandes financistas.Mentimos (“mas quem não mente?”), furtamos, desvalorizamos a vida, tentamos trocar as etiquetas de preço, furar fila, estacionar nas calçadas, enganar o Imposto de Renda, passar cheque sabendo que não tem fundo (nem vai ter). Reescrevemos (quando nos damos ao trabalho) a monografia do outro e assinamos nosso nome, para sermos declarados mestres e até doutores, sem merecimento e esforço. (E há muito público para essa compra, basta ver o número de pessoas que anunciam na Internet trabalhos acadêmicos, dissertações e teses.)Aceitamos os desvios de conduta como naturais e a maioria voltou a viver como crianças imaturas, pelo princípio do prazer irresponsável e não sob o princípio da realidade responsável.Resistir à tentação e não se aproveitar, não saquear a coisa pública, não abusar das circunstâncias, manter-se digno e combater a indiferença generalizada, não perder a alma (e desanimar), manter a esperança, é cada vez mais difícil porque não reconhecemos instituições sólidas e duradouras capazes de introduzir leis justas e fazê-las cumprir. Porque até nisso o país é incrível e todos nós bem sabemos que aqui há leis que pegam e leis que não pegam. As situações eticamente positivas não nascem espontaneamente” escreve Luciano Zajdsznajder (Ser Ético, de 1994), “são objeto de uma conquista, como a democracia.” É um processo e a possibilidade de mudança existe, por mais difícil que pareça à primeira vista. Mas é preciso mobilizar, assumir riscos, refletir, decidir, ir contra a maré dominante, protestar. Como disse Betinho, “o passado não é destino”. Fazer uma sociedade mais ética, mais digna, melhor, mais responsável, mais respeitada, mais democrática, é uma questão de vontade, de organização, de coragem.Macunaíma e Mitavaí, os heróis brasileiros sem caráter, não são a identidade nacional que se quer. Todas as explicações e desculpas do passado para a falta de caráter e ética não podem valer para o futuro, não são uma justificativa forte o bastante para nos manter imóveis.Vencida a inflação, que é uma forma de apropriação indébita pelo Estado em relação a toda a sociedade (e um privilégio odioso dos que tinham seus valores indexados enquanto a maioria era obrigada a gastar rápido para não perder poder de compra), é que verificamos que o maior preço a pagar por ela foi a generalização do antiético.Não é verdade que Brasília haja inaugurado a inflação e acastelado a falta de ética: ela apenas agravou, na verdade ao máximo, o espírito tecnológico e estratégico da época. No vácuo brasiliense nada ressoa. A cultura tecnológica só tem olhos para a eficácia, assim como à cultura estratégica só importa o sucesso. A busca do poder a qualquer preço e o uso do marketing para garantir competitividade, determinaram que o resultado não estabelecesse relações positivas com a sociedade.Nosso tempo é testemunha de que se colocar na condição de bem absoluto, afasta ou anula as considerações éticas. Foi assim com o comunismo, como é assim com o capitalismo ou a fé muçulmana: quando colocamos o outro como mal absoluto, fica de lado qualquer avaliação dos meios éticos que podemos usar contra ele.Outros grandes erros do nosso tempo:·        A idéia de que o desenvolvimento econômico é um bem em si mesmo.·        A noção de que a tecnologia é intrinsicamente boa e está sempre a serviço do ser humanoSão dois mitos contemporâneos. O câncer também é um desenvolvimento e ninguém dirá que é um bem. E aí está Chernobyl, a destruição da camada de ozônio, o efeito estufa, as chuvas ácidas, as crianças que nascem sem cérebro, para dar apenas alguns exemplos de efeitos negativos da tecnologia do ser humano.A humanidade, durante muitos anos, fechou os olhos e os ouvidos, montou um sistema hipócrita para esconder seus desacertos, abusos, inconseqüências do desenvolvimento econômico e da tecnologia. Agora, está mais crítica e começa a destruir a capa de hipocrisia que permitirá a construção de uma cultura ética.É na crítica aos desvios que se constrói essa cultura ética, de valores, um conjunto de práticas, instituições, sentimentos e atitudes centrados em uma vida humana de boa qualidade com bons princípios morais e valores éticos.Para isso precisamos;·        Mobilizar a coragem ética e provocar repetidos movimentos cívicos de massa que exijam comportamento ético de todos.·        Cobrar a ética na política e dos políticos.·        Exigir ética e transparência na administração pública.·        Criar instituições sólidas, empenhadas em transmitir e reforçar a ética em outras instituições.·        Introduzir padrões éticos nas empresas privadas.·        Recusar e boicotar serviços e produtos aéticos.·        Estudar, debater, dar educação ética em todos os níveis, a começar pela educação familiar.Segundo Zajdsznajder, “a cultura ética encontra-se atualmente em embate com as culturas estratégica e tecnológica. A sua força real está em poder mostrar como o comando da vida humana por essa duas leva necessariamente à destruição da espécie e, antes, ao empobrecimento da vida. A base da cultura ética é uma reação que pode ser considerada até instintiva, porque afirma a sobrevivência e também a expansão da vida. O apelo que o ético está realizando atualmente não resulta, como no passado remoto, do ouvir a transcendência. Nem, como no passado mais recente, do ouvir a razão”. O caminho para uma sociedade mais ética não é linear, ensinava Betinho, é um processo contínuo de idas e vindas. Mas a busca de um alinhamento ético, de maior participação ética nas decisões, tem sido crescente. Ou pelo menos, o sentimento, a grita, a exigência, principalmente na política (e dos políticos), na administração pública, nos negócios, na medicina (incluída aí a biologia  e a farmacologia), nos esportes e na mídia.A ética da mídia contemporânea é apenas mercadológica e atende os interesses do faturamento e dos anunciantes. É um dos tipos de moralidade produzidos pela segmentação da ética, parcialização que atende os interesses privados e classistas, mas não passa de um ética pequena, uma etiqueta. É uma deontologia, consciência prática no sentido de uma ética de deveres e não de virtudes e valores.Nem mesmo a Igreja Católica mantém a ética e a mística. Ela defende a vida e condena, por isso mesmo, o aborto e a camisinha, mas é branda com os padres pedófilos que abusam de crianças (e até eleva à púrpura cardinalícia um notório defensor daqueles padres nos Estados Unidos), assim como não se posiciona fortemente contra a fabricação e o uso de armas.Explodem os escândalos que as visões estratégica e tecnologia já não sustentam no confronto com a ética. E, para muitas pessoas, basta que voltemos a ter ética que estará tudo resolvido. Não é assim, até porque há muitas visões do que seja ético, várias interpretações, e não existe ainda um código aceito, um corpo de conhecimentos completos, acabados, aceitos universalmente (o que seria, talvez, uma missão para as Nações Unidas).Por isso mesmo temos códigos separados, etiquetas para esta ou aquela profissão ou negócio.Velhos códigos, mesmo os melhores, merecem ser revistos e ajustados, atualizados à época, à realidade.Historicamente, a filosofia e a ética não foram obrigadas a confrontar-se com questões concretas de tanta repercussão e com o tamanho, impacto e conseqüências das que enfrentamos hoje.Não vai ser fácil montar um código simples, eficaz e eficiente e o melhor, provavelmente, será começarmos por ditar atitudes éticas e não palavras escritas. Mas atitudes terão força para controlar abusos, resolver disputas e gerar jurisprudência?E como estabelecer uma atitude ética que seja válida e reconhecida por tantas pessoas de origens diferentes, educação diferente, objetivos e visão da vida tão diferentes, interesses tão variados?Como lembra Zajdsznajder, “o ético precede o legal e tanto o conteúdo justo ou injusto das leis, como o seu respeito e acatamento, são de natureza ética”. O fracasso das promessas da Modernidade estratégica e tecnológica trouxe-nos à situação atual, em que convivemos com muita liberdade e a falta de direção essencial, responsável, ética.Como manter a liberdade e estabelecer limites e parâmetros? Como evitar a guerra ente as tribos, a luta étnica, a ação criminosa e a maldade dos quadrilheiros? Como evitar a exclusão e recuperar os excluídos? Como acabar com a Lei de Gérson, com a corrupção, o suborno, a esperteza, a mentira, o jeitinho?Para uma mudança ética há alguns pressupostos e é preciso fazer com que eles sejam aceitos e defendidos, criança condições para a mudança. Em princípio é preciso:·        Acreditar na possibilidade de uma mudança ética.·        Aceitar que o Brasil pode ter um futuro ético.·        Respeitar a vida huimana, a dignidade, os direitos de todos os seres humanos, a começar pelas crianças.·        Dar as condições para que aumente a auto-estima e a confiança das pessoas do povo.·        Respeitar as leis, principalmente no seu espírito, fazer leis que sejam respeitáveis e cumpridas e entender que a Justiça é sempre mais importante que a Lei.·        Ter cuidado autêntico com a coisa pública.·        Ser sério, empresarialmente, respeitando os direitos do consumidor e do trabalhador.·        Melhorar a saúde pública; dar prioridade à medicina preventiva e à recuperação da dignidade dos médicos e do pessoal da saúde.·        Melhorar a qualidade da educação pública, aumentando a capacidade de raciocínio abstrato dos alunos e a sua manipulação simbólica, restabelecendo a dignidade dos professores.·        Aproveitar bem a participação popular em todas as possibilidades abertas pela Constituição, para um melhor controle dos serviços públicos essenciais.·        Dar condições de trabalho e renda mínima para todos, lutando por uma distribuição de riqueza mais justa.·        Criar oportunidades justas para os jovens.·        Mudar para melhor o relacionamento com os filhos, tendo melhores atitudes educativas, dando mais educação familiar e colocando limites.·        Ter noção da importância e necessidade de urgência da mudança ética.O discurso ético não basta e deve ser seguido de idéias práticas sobre como mudar a situação indesejável, urgentemente, para o que o tecido social não continue se esgarçando a velocidades cada vez maiores.Só a mobilização e um movimento de tomada de consciência e mudanças de mentalidade e atitudes na classe média podem criar as áreas de pressão necessárias para fazermos a indispensável Revolução Ética. Porque a elite é 1% da população, tem uma renda individual de 100 mil dólares por ano e está convencida de que merece e, por isso mesmo está interessada em manter a situação como está. Porque o chamado povão, mais da metade da população, tem uma renda meia de mil a 500 dólares por ano, luta pela sobrevivência e está interessada apenas nisso. Porque a classe média tem uma renda anual de 10 a 20 mil dólares, está empobrecendo, é a primeira sacrificada nos planos econômicos e com o aumento de impostos, tem condições de educação informação e mobilização para enfrentar o problema. E porque é na classe média que, historicamente, sempre nascem os movimentos mudancistas e o desejo por mudanças éticas, mesmo num meio ambiente consumista, indiferente e egoísta. Ela tem, por natureza, uma disposição maior de participar até as últimas conseqüências, de dar o exemplo, de formar a opinião pública e atrair os veículos de comunicação de massa. De mais a mais, é a sua única saída. Muitos observadores políticos consideram que o século 21 começou no Brasil com o pior Congresso da nossa história. Como perguntou Zuenir Ventura, “como nós, tão éticos, honestos e íntegros, fomos capazes de elegê-los?”Nós nos colocamos muito acima de vereadores, deputados estaduais, deputados federais, senadores, governadores e acreditamos não ter os representantes que merecemos, mas não é bem assim.Uma pesquisa do Ibope procurou saber se a população é vítima ou cúmplice da corrupção política. Resposta: tendo uma oportunidade, a maioria agiria do mesmo modo do que os políticos que critica.Diante da relação de 13 atos ilícitos do dia-a-dia, como corromper o guarda para evitar a multa, sonegar impostos, estacionar com as quatro rodas na calçada,  comprar produtos piratas, apresentar atestados médicos falsos, 69% dos entrevistados admitiram ter praticado pelo menos uma dessa bandalhas.Pior: são tolerantes com o que imaginam ser um comportamento ilegal, mas “sem grandes conseqüências”. No entanto, confessam que, se tivessem oportunidade, praticariam também as irregularidades que condenam nos legisladores, nos governantes e nos que deveriam fazer justiça. Por exemplo, escolher parentes para os cargos em confiança, contratar sem licitação para favorecer amigos, aceitar gratificação por baixo do pano, aproveitar viagem de trabalho para lazer e turismo, usar caixa 2 em campanha eleitoral, superfaturar obras públicas e cobrar comissão, desviar dinheiro pública para o patrimônio pessoal, contratar funcionários fantasmas para ficar com o salário deles, votar a favor do governo em troca de cargos de favores.O relativismo ético se revela mais forte quando envolve parentes e amigos.Os números não importam, já que a maioria se revela antiética e até aética. O que importa é que não é a elite que não presta, não é culpa só das lideranças: todo o tecido social está contaminado, infectado, podre e a revolução ética tem começar pela parte que nos toca.

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