A Revolução da Educação

 

Uma das revoluções  que faltaram no século 20 foi a da educação     Nossa realidade  social está mudando  mais rápido  do  que   as  imagens educacionais dessa realidade e toda educação  emana  das  imagens que o estudante tem do  futuro.  O sistema de ensino está ultrapassado, porque é baseado na memorização de dados e o que precisamos é aprender a aprender. A educação para o futuro é indispensável porque é lá que vamos passar o resto das nossas vidas.

           Não se fez, no século 20, a Revolução da Educação. Nossos filhos continuam estudando do mesmo modo que nós e nossos pais, usando mais a memória do que o raciocínio, mais a razão do que a emoção. E, cada vez mais, os estudantes estão saindo das universidades completamente ultrapassados, defasados em conhecimentos disponíveis e sem aprender o fundamental: a estudar. A escola deve mudar não só o como, onde e quando se aprende, mas principalmente o por que, e para que se aprende.

            Toda educação emana de imagens do futuro, assim como toda educação cria imagens do futuro. Reunir informações os computadores podem fazer melhor e mais rápido. Guardar datas e fatos os bancos de dados fazem à perfeição. O que os estudantes precisam é aprender a aprender, entender os porquês, saber a razão das coisas e ter elementos para projetar as conseqüências e o futuro.

            A velocidade da comunicação e das mudanças tecnológicas está transformando a realidade social mais rapidamente do que as nossas imagens educacionais dessa realidade. O resultado é uma educação defasada, ultrapassada e o futuro pode ser um poderoso conceito para organizar essa mudança.

            A forma como as crianças e os jovens vêem o futuro relaciona-se diretamente com o seu desempenho acadêmico e, mais importante, com o seu chamado desempenho existencial, sua capacidade de viver, competir, crescer, numa sociedade em alta mutação. Uma educação consciente do futuro é a chave capaz de permitir a pessoa sua melhor adaptação às mudanças, ou ela ficará privada de futuro.

            O enfoque do futuro é importante para todos os que aprendem, independente de idade, e é uma questão que deve preocupar a todas as escolas, em qualquer nível.

           

            Toda educação emana de alguma imagem do futuro. Se a imagem é falsa, inexata, o sistema educacional está traindo os jovens.

            Alvin Toffler (em Aprendendo para o Futuro) dá o exemplo da tribo indígena que durante séculos viveu à beira do rio e caça peixes como principal forma de sobrevivência alimentar. O arco e a flecha fazem parte da sua cultura e ensinar a usá-los para pegar o peixe é uma das bases da educação das crianças.  Quer dizer que a economia e a cultura da tribo são dependentes do rio. Enquanto a taxa de mudança tecnológica nessa comunidade permanecer lenta, se nada perturbar o ritmo regular da vida, será simples formular uma imagem do futuro porque o amanhã repetira o hoje, que repetiu o ontem. Dessa imagem flui a educação: desenvolver conhecimentos, habilidades, valores e rituais que permitam continuar vivendo à beira do rio e caçando peixes.

Suponhamos, no entanto, que o presente ameace modificar o futuro e que, rio acima, esteja sendo construída uma barragem que deterá os peixes na barragem e influirá no volume de água corrente. A imagem do futuro aceita pela tribo e o conjunto de pressupostos sobre as quais se baseia a educação de suas crianças é ilusório e um perigo para a sobrevivência de todos. O amanhã não será como o hoje e essa ameaça é real, imediata.

 

Essa é a nossa situação hoje. Nossa cultura está submetida, há tempos, a intensas e prolongadas mudanças tecnológicas, sociais, psicológicas, de estrutura e de informação. E essa mudança é acelerada e está se acelerando ainda mais. No entanto, há um mito de que as velhas estruturas são suficientemente boas para resistir ao tempo. E a maioria dos educadores (inclusive alguns que se imaginam como agentes de mudança) não percebe o perigo a que estamos expostos. Eles não reconhecem que as mudanças na tecnologia, na estrutura da família, nos valores, na moral e na ética, na urbanização, na ocupação do solo, nas relações internacionais, no ambiente, significam que o futuro já chegou e é radicalmente diferente do presente.

Nada é mais profundamente enganador e comprometedor do futuro. Se uma escola não tem um objetivo educacional e não é capaz de submeter sua idéia do amanhã a uma análise crítica, como pode tomar decisões e estabelecer o que fazer, como fazer, qual é o tipo de educação a oferecer?

A imagem do futuro não precisa ser exata, final, não precisam ser proféticas. Mas para projetar sistemas educacionais é preciso ter alguma. E ter a noção de que o futuro não é singular, mas plural, sujeito também às escolhas que fazemos. O que importa é estar preparado para a mudança, para conviver com elas e entendê-las, até para influir na direção que queremos nosso futuro.

O futuro não é algo que aconteça a outras pessoas e todos precisamos estar preparados para as mudanças porque toda mudança é estressante para o bicho homem. Psicólogos pesquisadores afirmam isso e dão até uma lista das mudanças mais estressantes, pela ordem de grandeza:

 

·        Mudança de cidade.

·        Na família (por morte ou por separação).

·        De emprego (principalmente não sendo por vontade própria).

·        De casa, de vizinhança e de vizinhos.

·        De situação financeira.

·        De ritmo de vida.

As escolas, colégios e universidades, com sua ênfase no passado e na memorização, não só transmitem uma imagem falsa do futuro (a idéia de que será parecido com o presente), como criam milhares de candidatos ao choque do futuro por não resistirem às mudanças em um período curto de tempo.

Na verdade, a educação atual estimula o estudante a imaginar-se como não sujeito a mudança, necessidade de crescimento e de adaptação, como algo estático.

O ensino, de um modo geral, está retirando das pessoas a capacidade de visualizar o futuro, de criar e descartar milhares de suposições a respeito de acontecimentos que ainda não se tornaram realidade (e que talvez não se tornem)). E é exatamente essa qualidade que fez do homem o mais adaptável dos animais (e, por isso mesmo, o mais bem sucedido).

A principal tarefa da educação é promover essa capacidade, tornar o indivíduo mais sensível e capaz de responder a qualquer mudança. Para isto é preciso redefinir o próprio aprendizado para que a educação seja um processo pelo qual ampliamos, enriquecemos e melhoramos a imagem que o indivíduo faz do futuro, preparando-o para ele.

Para funcionar bem num ambiente que muda rapidamente, quem aprende deve ter a oportunidade de fazer mais do que receber e armazenar dados. Deve ter a oportunidade de prever mudanças, de entendê-las, de fazer mudanças ou falhar na tentativa. O que, evidentemente, envolve a modificação fundamental da relação entre a teoria e a prática educacionais de hoje.

 

A mudança em alta velocidade significa que a realidade está mudando, se transformando no momento em que estudamos e o não reconhecimento disso é que está fazendo entrar em colapso a autoridade do professor.

No passado, os mais velhos sabiam. Mas como a realidade está se transformando, pode ser que não saibam com exatidão e eles também precisam de atualização, precisam aprender. (Paulo Freire já dizia que o professor aprende tanto com o aluno quanto o aluno com o professor.)

Outra mudança necessária é a que permite ao estudante participar do estudo, do trabalho de pesquisar e estudar e formular as decisões sobre a aprendizagem.

No discurso, o futuro pertence aos moços, mas na prática os adultos impedem que eles assumam responsabilidades, mesmo para errar. Nós temos necessidade da energia, da imaginação, do talento, da capacidade de improvisar, da coragem de tentar que os jovens podem trazer, mas não estamos fazendo isso e tentamos, desesperadamente, resolver problemas ignorando a participação dos mais moços.

Mantendo a falsa distinção entre trabalho e estudo, entre a escola e a comunidade, não só distanciamos a teoria da prática como nos privados da enorme energia que pode ser canalizada para uma ação socialmente proveitosa. Continuamos infantilizando os moços e roubando-lhes a melhor motivação para aprender.

É hora de entender que o motivo para aprender não é mais o medo do poder do mestre de não dar nota para passar de ano, mas o desejo de fazer algo útil, produtivo, respeitado, capaz de aumentar sua possibilidade de sucesso, sua auto-estima, sua probabilidade de sobreviver com dignidade.

Ligando o estudo à ação, estamos mudando a fonte da motivação. Todo jovem tem o desejo de deixar a sua marca, de causar impacto, e devemos dar a ele essa oportunidade.

A relação entre o tempo (de um lado) e a motivação e o aprendizado (de outro) tem sido mal explorada, não só por educadores, mas pelos psicólogos. O sociólogo Benjamin Singier propõe que o desenvolvimento educacional e social de uma pessoa seja apoiada “em sua imagem-papel focalizada no futuro”. Turve-se essa imagem, diz ele, e a criança ou o adolescente fica privado de motivação e de estrutura da personalidade.

Uma das coisas mais importantes a respeito de qualquer grupo ou sociedade é a sua atitude para com o tempo. Culturas inteiras podem ser caracterizadas por sua orientação para com o tempo. Sabendo onde uma sociedade faz recair essa ênfase (diz a antropóloga social Florence Kluckhohn) pode-se dizer muito sobre ela e a respeito do rumo da mudança em seu meio.

Com demasiada freqüência entupimos a cabeça dos jovens com os produtos de inovações passadas, ao invés de ensinar-lhes a inovar. Tratamos suas inteligências como depósitos a serem preenchidos e não como instrumentos a serem usados.

Pouco depois dos dois anos a criança começa a entender o sentido de tempo e a usar palavras indicativas de futuro. Antes que o processo de assumir o papel comece com intensidade, as palavras que tratam do futuro ligam-se a atividades e acontecimentos concretos. No final do terceiro ano é que a criança começa a entender os papéís futuros, porque está madura para isso. Há fortes indícios de que as imagens futuras que os pais fazem dos filhos podem ser o fator mais importante em seu desenvolvimento intelectual do que o tempo que passam ensinando alguma coisa.

Pelo menos foi essa a conclusão das pesquisadoras Norma Radin e Hanne Sonquist quando investigavam os melhores fatores para aumentar o desempenho de crianças. O mecanismo não ficou claro e ainda é incerto, mas existe e foi comprovado em outras pesquisas.

A criança de periferia, em um ambiente pobre e homogêneo, desenvolverá menos imagens, menos diversificadas sobre as possibilidades de papéis futuros, o que limitará suas aspirações e desempenho. Daí a importância de programas sociais que provocam essas crianças a praticar esportes, a jogar capoeira, a dançar, a pintar, costurar, dançar, a fazer qualquer atividade que ofereça a possibilidade dela criar mais imagens de possibilidades de papéis futuros.

A criança que vive horas e horas diante da televisão criará imagens estreitas e estereotipadas dos potenciais papéis ocupacionais e a estreiteza dessas imagens reduz a capacidade infantil de imaginar-se assumindo esses papéis, A televisão proporciona, de fato, muita informação, mas ela é superficial e enganosa a respeito da força de trabalho na sociedade.

 

É durante os primeiros seis anos de vida e no começo da escola que as imagens futuras e os meios para alcançá-la se formam na criança e ficam interligados com a sua perspectiva de tempo. A criança orientada para o tempo presente e não para o futuro, não aprende a agir em termos de recompensa futura e até pode aprender em sentido contrário, já que o futuro é uma região imprevisível que não faz sentido para ela.

O desenvolvimento (quanto mais cedo melhor) de uma perspectiva de futuro proporciona o motivo e o meio de realização do futuro. É, por assim dizer, uma profecia auto-realizável. Quanto mais remoto o foco do tempo e a perspectiva de alguém, mais o seu comportamento final usará o presente apenas como um meio para o futuro; e quanto mais imediato esse foco, mais ele reagirá ingenuamente, desprezando as conseqüências.

O psicólogo Kurt Levin verificou em pesquisa que os estudantes cujos testes indicaram que sentiam o tempo passar mais depressa foram aqueles cujo comportamento melhorava quando eram retirados os incentivos que visavam a manter o bom comportamento. Os não-delinquentes, comprovadamente, têm uma perspectiva de tempo mais dilatada que os delinqüentes. Diz ele que “uma pessoa provavelmente se voltará para o futuro se sentir que lhe é acessível alguma meta a que dê elevado valor. Por outro lado, a crença de que essa meta está além do seu alcance faz com que sua orientação se restrinja ao presente”..

Em outras palavras, quem é incapaz de projetar-se no futuro vive para hoje, por ser incapaz de visualizar as recompensas futuras. Crianças e adolescentes envolvidas com o crime, por exemplo, vivem só o presente porque não vêem futuro e se sentem já com  o destino traçado, submetendo-se a esse destino previsível.

Os sociólogos chamam essa capacidade de sonhar e de esperar pelo melhor de padrão de gratificação adiada, atribuindo-lhe um papel importante no desenvolvimento da personalidade e das possibilidades da pessoa.

A regra é: quanto maior a expectativa de sucesso em um empreendimento, melhor o desempenho. E isso foi comprovado em laboratório e no campo. Assim como os jovens orientados para o futuro tendem a ser mais otimistas.

Maria Inês Belizário pesquisou na periferia de Porto Alegre e descobriu que mais da metade dos jovens não tinham qualquer imagem cristalizada de si com papel futuro. E não eram capazes de imaginá-lo, contra somente 3% de jovens da classe sócio-econômica mais elevada com o mesmo problema. Identificado o fenômeno do obscurecimento da imagem-papel focalizada no futuro à medida que se desce na escala de classe social, ela criou intervenções psico-pedagógicas e verificou que quando os indivíduos passam a ser capazes de criar um quadro de papéis futuros para si, as atitudes, os valores e o comportamento que compõem essa imagem retroalimentam o presente, tornando seus personagens mais capazes para enfrentar o futuro.

 

Alice Rossi, professora de sociologia, escreveu o livro Desenvolvimento da Família num Mundo em Mutação e não acredita em grandes mudanças na família porque diz que elas já ocorreram. E calcula: para uma mulher que se case aos 22 anos, que trabalhe fora de casa durante 3 anos depois de casada e então tenha dois filhos com um intervalo de dois anos e morra aos 74 anos, ela terá passado 23% de sua vida adulta sem marido; 41% com marido mas sem filhos menores de 18 anos; 36% de sua maturidade terá passado com o companheiro e pelo menos um filho com menos de 18 anos. Portanto, somente 12% de sua vida serão passados cuidando plenamente de crianças em idade pré-escolar (de 0 a 6 anos).

Se ela não se dispõe a dedicar 12% da sua vida a educar um filho, a criar capital social e um futuro para ele, que tipo de mãe é esse? No entanto, a maioria absoluta das crianças não está recebendo educação familiar, transmissão de valores, limites, informação correta sobre sexo e sexualidade, visão de futuro. Com isso, têm baixa auto-estima e auto-imagem.

Por isso mesmo crescem as atitudes mais permissivas para com a sexualidade, tanto em sua forma heterossexuais como homossexual ou bissexual.

Uma parada do orgulho gay, em Chicago, tinha um lema: “O problema não é que algumas pessoas façam amor de modo diferente; é que a maioria das pessoas não faz amor de jeito algum”.

Pode ser que haja mudanças na família nuclear (diante da queixa de que ela é muito restritiva para muita gente).  E que ocorram mudanças nos papéis da família, diante da série de casamentos monogâmicos na vida de grande parte da população.

De qualquer modo, a educação deve mudar em relação ao sexo. Crianças pequenas têm o direito de saber sobre reprodução humana, querem saber de onde vieram (uma das primeiras indagações do gênero humano). Depois, na adolescência, merecem estar informadas sobre sexo.

O problema é que a educação restringe o comportamento com base em velhas noções, Assim como restringe o comportamento com base nas noções tradicionais de propriedade. Não pode haver mais essa divisão entre meninas e meninos e “menina não faz isso” ou “menino não pode fazer aquilo”. Ambos devem ser educados para serem mais autônomos e mais capazes de fazer de tudo, seja o que for necessário.

Todo bom educador sabe que quanto mais baixo é o nível de amor próprio, mais baixo é o nível do desempenho escolar.

 

Seria interessante que o futuro fosse matéria curricular perpassando todas as matérias e que os estudantes fossem chamados a debater os futuros possíveis, os futuros prováveis e os futuros preferíveis.

Futuros possíveis são os que podem acontecer mas não são necessariamente prováveis. Há mais futuros possíveis do que os que imaginamos e essa é uma boa matéria para ensinar o estudante a imaginar e a criar raciocínios e projeções. Como imaginar é um pré-requisito à exploração dos futuros possíveis, os estudantes devem-se dedicar a extrair respostas imaginosas no contexto do futuro. É preciso não esquecer a famosa Lei de Clarke (Arthur Clarke, autor de ficção científica e cientista) enunciada em Perfis do Futuro: “Quando um cientista notável mas idoso declara que alguma coisa é possível, é quase certo que ele esteja com a razão;mas quando ele declara que alguma coisa é impossível, é muito provável que esteja errado.”

Futuros prováveis são aqueles que, no momento, são tidos por autores sérios como tendo razoável probabilidade de ocorrer. A probabilidade é estabelecida por futuristas, pesquisadores, cientistas sociais, demógrafos e apoiada pelo exame atento dos conflitos em curso na sociedade. É a extrapolação das tendências mais marcantes e significativas a respeito de tecnologia, ecologia, política, vida familiar, educação, desenvolvimento urbano. O que as pessoas que importam estão falando sobre o futuro? De que modo chegaram a essas conclusões?  Suas previsões têm bases sólidas?

A idéia dessa matéria é permitir ao estudante fazer prognósticos e perceber que tipo de informação de qualidade precisa ter para fazer sua previsão.

Futuros preferíveis são aqueles que temos como desejáveis porque atribuímos a eles valores positivos. Aqui são enfatizados valores de várias naturezas, sejam éticos, morais, relativos aos direitos humanos, ao bem-estar, ao desenvolvimento de áreas específicas, à ecologia, à conservação do planeta, etc.

Nessa matéria é preciso haver consciência da diferença entre o pessoal e o público, e a noção de como o sistema democrático pode chegar a esses valores e futuros.

A cidadania será, certamente, o objetivo final do estudo social; e o estudo dos processos decisórios, de forma sistemática, é muito importante.

É importante observar, como escreveu Michael A. McDaniel, um professor há muitos anos trabalhando com livros educativos, que “os indivíduos maturos devem ajudar os indivíduos em maturação a mudar as instituições imaturas”.

           

             Em Angicos, no Rio Grande do Norte, na formatura da primeira turma de adultos alfabetizados pelo método Paulo Freire, um dos formandos, seu José, agradeceu ao presidente Jango Goulart a visita. Ele disse que só o presidente Getúlio Vargas havia estado lá, durante a fome da Grande Seca. E concluiu: “Ele veio por conta da nossa fome da barriga, mas a sua visita é mais importante porque nós estamos matando é a fome da cabeça”.

            Não é por acidente que falamos em fome do conhecimento, em cultivar o gosto pela música, e que os especialistas se refiram a dietas ambientais empobrecidas ou em condições sociais subnutridas, para descrever a praga dos prejudicados educacional e culturalmente. Educar é nutrir para facilitar o desenvolvimento da pessoa e sua importância é cada vez maior.

            É que antes a suposição era de que os exemplos do passado fossem os melhores guias para o futuro. E durante a maior parte da história humana esta suposição foi válida, já que o futuro de um homem, em geral, não era muito diferente do seu passado imediato.

            Hoje não é mais assim e a nova realidade nos força a questionar sua aplicabilidade e desafia o seu poder de educar. Some-se a isto o fato de que muitas das novas descobertas tecnológicas e científicas contêm implicações catastróficas para a vida futura, o que nos deixa diante de decisões que não podemos deixar de tomar se não quisermos perder a oportunidade de afetar o nosso futuro como raça humana. Quer dizer que não basta aprender, é preciso entender e saber o que aquilo significa não só no presente, mas para o futuro.

            É óbvio que a velocidade com que o futuro está chegando não nos oferecerá um meio-ambiente similar ao presente ou com apenas ligeiras modificações. Ele há de ser radicalmente diferente de tudo o que conhecemos. Por isso o papel dos educadores, como zeladores do passado, deve mudar, porque sua orientação passadista é inaplicável a propósitos futuros e exige um reajuste fundamental.

            Os professores de ciências e de ciências sociais estão respondendo melhor, mais rápida e mais efetivamente às mudanças do que os de humanidades. Porque os cientistas não só criaram muitas das mudanças como deram rapidez ao processo e têm a felicidade de participar do desenvolvimento histórico.  A ciência varre, automaticamente, o passado a cada nova descoberta e está sempre aberta a novidades e mudanças. O passo seguinte pode substituir o anterior e ainda construir sobre ele. Por isso também os leigos estão mais interessados no progresso da ciência.

            Os cientistas sociais, por sua vez, também carregam um volume menos onerosos de conhecimentos passados. A sociologia, a psicologia, a antropologia e a economia mal chegam a ter um passado, exceto quando o registram a partir da evidência histórica. A abordagem, em geral, é analítica, a preocupação é com o homem e a sociedade, com temas imediatos e estudos concentrados em problemas. Professores e estudantes precisam, inevitavelmente, ajustar-se às novas realidades e provocações, dirigindo a atenção para a  frente conforme a mudança.

            As humanidades, em lamentável contraste, são os guardas da herança intelectual e cultural da raça e tornam-se vítimas do seu próprio compromisso com o passado. Muitos humanistas são orientados para o ontem, raramente voltando a atenção para o presente e muito menos para o futuro. Como resultado, não refletem suficientemente o esforço do homem moderno e suas conquistas.

            Daí porque as humanidades não desempenham mais o seu papel (que antes era central) na determinação da qualidade das nossas vidas.

            Se não assistirmos uma renascença das humanidades não há como recuperar a antiga posição. E essa renascença dependerá das mudanças no modo como as humanidades são assinadas, assim como uma dramática mudança em sua orientação em relação ao futuro.

            Na verdade, os humanistas deveriam examinar o próprio futuro. Fred Polak (The Image of the Future) fez isso, examinando sistematicamente as visões do futuro alimentadas pelos antigos gregos, romanos, persas, hebreus, pela Igreja da Idade Média e por um grande número de filósofos, escritores, artistas e intelectuais do passado. Ele concluiu que “o que uma cultura pensa que será o seu futuro tem um tremendo impacto sobre o futuro real”.

            Os humanistas costumam alegar que as obras verdadeiramente grandes e importantes falam às gentes por meio de profundas preocupações humanas que pouco mudaram, se é que mudaram. O que ignoram é a maneira como o tratamento desses temas duradouros (a atitude para com esses temas) mudou e mudará. As preocupações continuam: amor, ódio, guerra, ganância, horror, traição, e podem continuar como grandes preocupações da humanidade, mas as atitudes são diferentes de acordo com a sociedade e com as diferentes épocas da história.

            Comparar o conceito de amor dos gregos com o amor do período vitoriano e com os padrões do amor de hoje são uma forma inteligente de abordar o assunto, principalmente se tentarmos imaginar o amor de amanhã.

 

            Os cientistas nos ensinaram que os avanços são feitos, em geral, com a não aceitação passiva de determinadas verdades que parecem sólidas para sempre. Há casos famosos, como o da moderna química dos polímeros, que só nasceu quando Hermann Staudinger desafiou o ridículo. Quase todos os seus contemporâneos riam dele por abandonar o conceito clássico de molécula por ser inadequado à sua experiência.

            A descoberta dos antibióticos foi retardada por quase 20 anos pela incontestada suposição de que as substâncias tóxicas às bactérias deveriam ser necessariamente tóxicas ao ser humano.

            A física da relatividade exigiu repensar, desde baixo, o que realmente se quer dizer com medir o espaço e o tempo.

            A física quântica só avançou quando os cientistas reexaminaram o que as idéias de causalidade (há tanto aceitas) significavam em termos de experiência concreta.

            O mesmo vale para incontáveis pequenos progressos, tanto na ciência como na tecnologia. Como dizia Einstein, “não acredite que é impossível, até provar que não se pode fazer, por enquanto”.

            Quem tem visão estreita só pode ver as soluções mais prosaicas para os problemas em que trabalham: as soluções de abertura exigem saltos criativos, ousadia, mentes capazes de recuar das rotinas de sua disciplina e tentar novas soluções sem medo de errar. “O sucesso pode ser o resultado da soma de pequenos erros e fracassos”, dizia Winston Churchill respondendo aos críticos na Segunda Grande Guerra.

            Já sabemos que a criatividade pode ser ensinada e que ela é indispensável seja qual for a atividade do ser humano. Como dizia com muito humor o escritor Nelson Rodrigues, sem criatividade é difícil até amarrar o laço do sapato”.

            O dogmatismo escolástico é limitador do espírito humano por inibir a indagação científica, a curiosidade, e por impedir as mudanças. A menos que as pessoas sejam educadas para manter a mente aberta às possibilidades de se afastarem do padrão em seus campos de atividade, elas não poderão acompanhar o ritmo da vida contemporânea e, pior, estarão em choque com ela.

 

            O homem inventa futuros como nenhuma outra espécie pode fazer, precisamente porque é um animal criativo, capaz de assumir a responsabilidade de fazer mudanças ou de resistir a elas. A necessidade de um pensamento radical e de uma bem educada visão do futuro é ainda maior nos países em desenvolvimento, porque os países menos desenvolvidos estão diante de um dilema: o meio-ambiente parece incapaz de suportar muito mais crescimento nas mesmas linhas que foram seguidas pelas nações desenvolvidas. É irrealista supor que as nações recém-emergentes se sujeitarão passível e docilmente à limitação do seu crescimento, logo quando começam a sentir o sabor dos níveis mais elevados de qualidade de vida. Essas populações querem padrões de vida que vêem nos países ricos e se imaginam na mesma situação.

            A única esperança de evitar um desastre mundial (principalmente ecológico) nesta situação, é encontrar meios e modos para dar o chamado salto de rã por cima de muitos estágios de desenvolvimento industrial e chegar diretamente ao tipo de sociedade pós-industrial sofisticada que nos causa admiração.

            No Brasil, temos algumas possibilidades, principalmente se nos dedicarmos ao campo da energia alternativa. Mas devemos ter a ousadia de procurar novas tecnologias e a coragem de adotá-las, inclusive no campo da farmacopéia, com base na nossa grande biodiversidade.

            A educação ideal deve combinar a ciência de mapear o provável com a arte de imaginar o possível, com profunda preocupação ética pelo preferível. Aí estaremos criando um amanhã melhor,

 

            O futuro é importante principalmente porque é onde vamos passar o resto de nossas vidas.

            Uma educação voltada para o futuro implica em que o aprendiz comece a sentir e a aceitar tanto os constrangimento e os deveres quanto as vantagens e direitos da liberdade.

            A maior parte do ensino ainda é voltada para o conhecimento do passado e tende a manter o status quo. A educação para o futuro exige uma inversão e mudanças que nos levariam

 

DE

PARA

Ensino em massa

Ensino personalizado

Aprendizado simples

Aprendizados múltiplos

Absorção passiva de respostas

Busca ativa de respostas

Programas rígidos

Programas flexíveis

Treinamento em habilidades

e conhecimentos formais

Formação de atitudes e opiniões desejáveis que estimulem a procura do saber

Conteúdo isolado

Conteúdo correlacionado

Respostas decoradas

Compreensão do problema

Ênfase nos livros

Uso de multimeios

Domínio passivo da informação

Estimulação ativa do intelecto

            Mas, defender ou aceitar a mera reversão das práticas atuais da educação é simplista e pode criar uma falsa noção de sucesso no ensino do e para o futuro. O que se precisa é de uma nova concepção e não de um novo currículo, de um novo clima psicoemocional e social que seja conveniente para o aprendizado. E a primeira grande mudança é valorizar a pessoa, o respeito pelo aprendiz, e estimular a individualidade, encorajar a indagação e a curiosidade, oferecer uma atmosfera de liberdade, dar conteúdo estimulante, trabalhar os sentidos e os sentimentos, favorecer a inteligência cognitiva, isto é a inteligência emocional.

            Também seria necessário acabar com o mito do canudo e com a imposição social para que os jovens façam universidade. Essa é uma das mais indefensáveis e perigosas suposições tácitas de professores, pais e filhos. A academia é apenas um dos caminhos, não é o único nem o melhor (embora possa ser o desejado e o desejável para muitos). Precisamos de mais e melhores escolas técnicas de terceiro grau

            Há muitas possibilidades curriculares, mas um bom curso sobre o futuro deveria incluir:

·        Introdução ao Futuro.

·        Predição do Futuro.

·        Genética e genoma.

·        Duração da Vida.

·        O que é o Ser Humano?

·        A Inteligência e a Inteligência Artificial.

·        Educação cognitiva.

·        A Filogênese, a Ontogênese e a Neuropsicologia da cognição.

·        O Homem e a Máquina.

·        Controle dos Sentimentos e Emoções.

·        Capital Social e Educação Familiar.

·        A Política, Amanhã.

·        População.

·        Urbanização e Ocupação do solo.

·        Recursos Naturais e Meio-ambiente.

·        Urbanização.

·        Agressividade e Violência.

·        Criatividade.

·        Empatia.

·        Aprendendo a Aprender.

 “A adaptação à mudança começa na consciência”, escreveu Michael Rossman, Para ele, a ficção científica (que é uma extensão especulativa do ser humano tecnológico) “tem sido crucial na presente ascensão das visões com uma nova força entre os jovens.”

Para ele, os clássicos da ficção científica devem ser recomendados aos jovens, estudados e debatidos, porque os que vivem numa época de mudança social e tecnológica rápida são obrigados a olhar para o futuro. E devem estar preparados para considerar as opções e escolher os caminhos.

A preparação para essa busca do futuro deve ser uma função básica e contínua da educação em todos os níveis. Por isso mesmo ela deve incluir a literatura de ficção científica porque ela foi a primeira a adotar como tema o impacto da mudança sobre a vida do ser humano e sua sociedade, em particular por conta do progresso da ciência e da tecnologia.

No dizer do nosso melhor autor de ficção científica, Fausto Cunha, “a ficção científica é um arquivo de imagens futuristas, um repositório literário das esperanças, temores e conjecturas de homens e mulheres sobre a evolução do ser humano e, portanto, um importante campo de treinamento para quem quer viver no futuro”.

A leitura de ficção científica pode servir como preparação psíquica para um mundo de mudanças aceleradas, uma espécie de aculturação ao choque do futuro. Tanto assim que os russos cuidam de oferecê-la a seus candidatos a astronauta.

 

Todo ser humano tem direito à organização do seu potencial de aprender e a sociedade, como um todo, tem o dever de promovê-la. A inteligência não é uma medida estática, mas a enorme capacidade de adaptação do ser humano.

Precisamos fazer, com urgência, a revolução na educação de modo a que, o mais cedo possível, nossos jovens possam fazer na escola as aquisições críticas indispensáveis para sobreviver no futuro:

·        Comunicação. Compreensão e expressão da língua, capacidade de comunicar e de interar.

·        Cognição; Desenvolvimento do pensamento lógico e crítico para avaliar situações, resolver problemas e tomar decisões. Desenvolvimento da compreensão e resolução de problemas, da aplicação de tecnologias, dos instrumentos e sistemas de informação. Desenvolvimento da capacidade de pesquisar.

·        Aprendizagem. Dos processos e estruturas, princípios e estratégias cognitivas, para aprender de forma contínua e permanente.

·        Atitude. E comportamento positivo, de auto-estima e confiança, ética, moral, iniciativa, energia, motivação, persistência.

·        Responsabilidade. Para estabelecer prioridades e objetivos, planejar e gerir tempo e outros recursos rumo ao objetivo. Saber avaliar, decidir e mudar de rumo, se necessário.

·        Adaptabilidade. Ter atitude positiva face às mudanças, respeito pela diversidade, saber reconhecer as diferenças individuais.

·        Criatividade. Aprender a inovar e a buscar novos caminhos e soluções diferenciadas.

·        Espírito de Equipe. Aprender a trabalhar em grupo, ter compreensão e noção da sua participação e importância. Ter cultura de grupo, solidariedade, aprender a respeitar pensamentos e opiniões.

 

É certo que o primeiro país emergente que fizer sua revolução da educação para o futuro, expandindo o conteúdo para abranger os serviços comunitários, as experiências dos veículos de comunicação de massa, orientando conscienciosamente a aprendizagem em torno do conceito da imagem-papel focalizada no futuro, levará imensa vantagem sobre os outros e poderá dar o tão necessário salto de rã para chegar a ser competitivo. Mas isso exige um sério reexame da maior parte do saber convencional relativamente às crianças e adolescentes que estudam para aprender.

 

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