A Crise do Pânico

Estão manipulando a nossa percepção do medo, com o objetivo de ganhar dinheiro. Mas a cultura do medo esconde problemas fáceis de resolver,  se houver vontade política. Grande parte da mídia ainda parece acreditar que não são as armas que matam, mas as pessoas. O que há a temer é o temore a paranóia da violência, que nos faz covardes.   

                   
         O medo do crime é um sentimento que está colado em nós desde a infância”, escreveu Paulo Sérgio Pinheiro, o professor que criou o Núcleo de Estudos da Violência da Universidade de São Paulo. No mundo ocidental nascemos mesmo e crescemos numa cultura do medo. Mas em nenhum momento da história, na maioria das sociedades contemporâneas, tantas pessoas tiveram tanto medo justificado e tanta paranóia.            Há uma extraordinária manipulação de nossas atitudes na base da disseminação do medo coletivo e, pior ainda, um fantástico aumento de nossa percepção do medo, influenciando o comportamento de quase todos, ditando políticas de segurança, vendendo grades, portões de ferro, alarmes, câmaras de segurança. A tal ponto que hoje no Rio, para dar um exemplo, há mais pessoas envolvidas com esquemas privados de segurança (nem sempre legais ou legítimos) do que todos os policiais somados. É o falso medo, o medo implantado, baseado em números irreais e estimativas irrealistas, como fonte de sofrimento, determinando políticas equivocadas que só contribuem para aumentar o pânico e para dar dinheiro a policiais que vendem segurança.            Temos, no Brasil, as mais altas taxas de homicídio? Temos. São 25 por ano para cada grupo de 100 mil habitantes. Nos Estados Unidos a taxa é de 8,22; na Alemanha 4,86; na França 4,11; na Itália 4,9; no Reino Unido, Espanha e Canadá 2,43. E logo os especialistas não se põem de acordo, porque cada um tem sua teoria particular: é o resultado do consumismo e do desejo de ter; é o resultado da pobreza e da exclusão; é por conta das drogas que estão fora de controle, é culpa da mídia, especialmente da televisão, que dá cobertura ao crime, mas não divulga as condenações.            A causa da violência nunca é uma. A miséria tem estreita correlação com a violência, o crime, o uso de drogas, mas quanto maior a diferença entre ricos e pobres numa sociedade, mais altas são as taxas de mortalidade por doenças cardíacas e câncer, não só por homicídios.            A percepção de que o crime está aumentando e de que a maioria dos homicídios no Brasil são cometidos com armas de fogo, não impediu a população de votar na consulta popular contra a proibição de fabricar e vender armas de fogo. Uma bem ordenada campanha mercadológica fugiu da questão central e tornou o plebiscito uma votação contra o governo que, em tese, estava querendo influir na vida e contra a liberdade do cidadão com uma proibição.            Como informava o mestre do suspense e do medo no cinema, Alfred Hitchcock, “não existe terror no estrondo, apenas na antecipação dele”.            Não devemos nem podemos deixar de nos ocuparmos com a prevenção contra o crime, o tráfico de drogas, a violência contra crianças, mas não podemos continuar iludidos quanto à verdadeira natureza e extensão desses problemas. É preciso promover a Revolução do Pânico, a partir de informações corretas e de análises bem feitas.            O sociólogo Barry Glassner, professor da Universidade da Califórnia do Sul, é autor de sete livros, um estudioso do medo e da violência, e escreveu The Culture of Fear a partir de uma pesquisa monumental com o objetivo de desvendar a enganosa teia de perigos e pavores que assombram a moderna sociedade ocidental, capaz de engolir rumores como se fossem fatos, boatos em lugar da verdade, encantada com a manipulação de dados que levam à cultura do medo para esconder problemas bem mais simples de resolver, se houvesse vontade política.            Assustados com a própria sombra, não há mais condomínios livre das grades. E, no entanto, somos levados a mudar de calçada e a atravessar a rua diante de um negro, sem perceber que o percentual de negros vítimas é muito maior que o de negros criminosos.            O sucesso da difusão do medo não depende só da forma como ele é expresso, mas também da eficácia de exprimir ansiedades culturais profundas, preconceitos, estereótipos.            A criança pobre, desvalida, que comete um ato anti-social é “o menor”. O pobre que a polícia pega e declara suspeito para dar uma satisfação à sociedade é “o elemento”. O jornalista que mata a ex-namorada a tiros responde processo em liberdade, mesmo depois de condenado a mais de 19 anos de prisão.  O faxineiro que bate na mulher passa nove meses preso sem processo. O deputado que admite ter recebido “dinheiro não contabilizado” é inocentado por seus pares. A mãe que furta uma lata de manteiga de menos de quatro reais fica presa e tem cinco vezes o pedido de relaxamento da prisão negado.            O pânico não move o cidadão que não tem atendimento adequado no sistema de saúde; que não tem escola de qualidade para os filhos; que paga juros exorbitantes no cartão de crédito; que não tem seguridade social adequada. Paranóicos e acossados pela cultura do medo, nossa incapacidade de enfrentar os problemas que são escondidos por ela é a mesma que paralisa outros povos, outras populações.            Só mais um exemplo: a maioria dos adultos considera o uso de drogas como o maior perigo a que a juventude se expõe. Mas o que é que a maioria considera droga? Drogas pesadas: cocaína, heroína, crack, podemos incluir a maconha. E qual é o percentual de jovens que consome essas drogas? O que vale, o que assusta, é a informação de que dois terços dos alunos do primeiro grau já experimentaram droga pelo menos uma vez. Não interessa se gostaram, se consomem droga habitualmente, se ficaram viciados. Muito menos estão preocupados com o uso abusivo do álcool, porque o álcool é a droga mais prejudicial à saúde da maioria, mas é uma droga legal. É uma questão de como a coisa é vendida e chega ao público.             É como Glassner pergunta: Por que tememos cada vez mais o que deveríamos temer cada vez menos? E por que não nos mobilizamos definitivamente para enfrentarmos os grandes problemas que realmente nos colocam em perigo, como por exemplo a emissão de gases que pode tornar o planeta inabitável por conta do efeito estufa? Diante de apenas 0,7% de água doce disponível para toda a humanidade (uma fonte não-renovável) por que não enfrentamos a ameaça de faltar água no futuro, que já nos condena a gastar, em 2020, apenas um terço do que gastamos hoje?            Pânico é uma palavra que vem do grego (panikón, o medo provocado pelo deus Pan). Como adjetivo, é o que assusta sem motivo;que suscita medo, por vezes infundado, e foge do controle racional. Como substantivo é o susto ou pavor repentino, às vezes sem fundamento, que provoca uma reação desordenada, individual ou coletiva, que se propaga rapidamente.            Medo vem do latim (metu), e é o sentimento de grande inquietação ante a noção de um perigo, real ou imaginário, de uma ameaça.            Nas duas definições verificamos que tanto o pânico quanto o medo podem ser sem motivo, sem fundamento.            Nossas preocupações estão indo muito além do razoável. Nos Estados Unidos foram construídos mais de 2 milhões de abrigos subterrâneos durante a  Guerra Fria. E aquilo que foi chamado de Grande Medo, o provável bombardeio nuclear pelos soviéticos, nunca esteve nem perto de acontecer, mesmo com toda a desvairada corrida armamentista que, ao terminar, permitia que o que estava armazenado para a guerra nuclear fosse suficiente para arrasar a Terra mais de 40 vezes.            A expectativa de vida vem aumentando sem parar, em quase todo o mundo e no Brasil também. Ela quase dobrou durante o século 20, graças aos avanços da medicina e da farmacologia. Tornamo-nos mais capacitados para controlar e curar doenças do que em qualquer outra época da História. No entanto, a mídia não cessa de publicar reportagens sobre doenças graves e a própria Organização de Saúde libera estatísticas que não são baseadas em pesquisa direta, mas sim em palpites e achismos. Se nos dermos ao trabalho de somar todos os doentes graves que figuram nos números da Organização Mundial de Saúde, há 18 bilhões deles. Como a população da Terra ainda não chegou aos 7 bilhões, podemos ter como certo que toda a população do planeta está doente, que a doença é grave e que, na verdade, estamos todos morrendo de mais de uma doença grave.            Em outras palavras: toda a sociedade está condenada, ou alguém está exagerando muito, provavelmente em busca de recursos.            Jim Windolf, um dos editores do New York Observer, examinou estimativas oficiais de doenças mentais que iam de disfunção da personalidade limítrofe a compulsão sexual, passando pela síndrome das pernas inquietas e outras menos votadas. Somou 152 milhões e divertiu-se no texto: “Dê um pouco mais de tempo aos especialistas. Com mais uma ou duas doenças quantificáveis, toda a população do país será considerada oficialmente maluca”.            A saúde pública é um problema em todo o mundo e o Brasil não é exceção. O Estado imaginou que podia oferecer atendimento médico para todos, mas descobriu que não basta reconhecer o direito à saúde, é preciso ter dinheiro para pagar por ele. Há quem sustente que a má qualidade do serviço público foi provocada artificialmente, para permitir a entrada no mercado dos planos de saúde e seguros de saúde. Mas mesmo esses, depois de algum tempo, estão-se tornando tão caros que vão ficando insustentáveis, principalmente para os clientes que mais precisam: os idosos,os aposentados, os pobres.             Técnicas atuariais mal aplicadas e cálculos mal feitos (ou feitos para atrair o maior número possível de clientes) permitem que os jovens paguem pouco e que os velhos tenham que pagar cada vez mais, exatamente quando estão aposentados e sem dinheiro..

            No entanto, se compararmos os recursos da medicina de hoje, mesmo no serviço público, somos obrigados a reconhecer que melhorou muito em comparação com, por exemplo, 50 anos atrás. Enquanto a extensão de nossos medos em relação à saúde parece ilimitada e nos preocupamos desproporcionalmente com doenças que existem, mas são raras e com pseudodoenças, não nos damos conta dos danos terríveis à saúde que provocamos, por exemplo, com a automedicação.

            Jornais populares, que vivem da venda de escândalos, anunciaram em todo o mundo, em 1994, que o ebola (“a bactéria comedora de carne”), estava em expansão, a partir da manchete de um tablóide inglês. A bactéria foi descrita como “a coisa mais cruel jamais vista nos tempos modernos” e a notícia afirmava que ela estava se alastrando rapidamente por toda a África. Quando as agências de notícia assumiram o assunto, não houve desmentido nem se diminuiu o terror. Ao contrário, o que diziam era que a humanidade estava “tremendamente vulnerável” e que os cientistas consideravam o ebola “o pior pesadelo da medicina”.

            O estreptobacilo do grupo A, uma variedade cíclica que existe há séculos, esteve adormecido por meio século. A pseudo epidemia que começou com um cidadão britânico infectado na África, fez 12 vítimas.

            Especialistas, médicos e cientistas bem informados, refutaram com veemência o alarmismo, observando que de 300 milhões de infecções por bactéria que são registradas por ano no mundo, menos de uma em mil envolvem complicação séria de estreptobacilo do tipo A e apenas entre 5 mil a 15 mil pessoas sofrem da síndrome da bactéria comedora de carne (cujo nome correto é fasceíte necrotizante). E apenas 10 a 15% dos casos são graves e resultam em vítimas fatais.

            Nunca houve notícia de mil mortes em um ano, mas o medo persistiu porque anos depois da pretensa epidemia desaparecer ainda eram publicadas reportagens ilustradas com fotos horripilantes e grotescas das vítimas. Um jornalista de agência de notícias UPI foi chamado ao Tribunal para que afirmasse de onde tirou a informação de que a epidemia “poderia se alastrar a uma taxa de até 2,5 mortos por hora”. Desmentiu-se.

            Campanhas públicas de saúde são cada vez mais freqüentes, mas nem sempre são criadas e executadas por profissionais de marketing. O problema é que os donos da área de saúde imaginam que sabem tudo sobre comunicação, como comunicar da melhor maneira e se arvoram em decidir o que é melhor para o público-alvo. Então, constantemente, estão dando tiros na água. Ou, pior ainda, fazem campanhas tão alarmantes que conseguem o efeito oposto: as pessoas bloqueiam a mensagem, não a aceitam, tratam de ignorá-la.

            Uma campanha internacional sobre o câncer de mama que trazia imagens aterrorizantes de mulheres masteoctomizadas ou sustentadas vivas por aparelhos, terminou tendo efeito contrário. Depois, as pesquisas revelaram que a maioria absoluta das mulheres ficaram tão chocadas, com tanto medo, que evitavam a prevenção, os exames, até o tratamento. Preferiam ignorar o perigo. E ficou provado que quanto maior o medo do câncer de mama, maior o afastamento da pessoa de qualquer médico ou exame. Pacientes com sintomas claros de câncer não queriam saber de serem examinadas, temendo o diagnóstico. E quando perguntadas por que, relataram seu medo da dor, da deformação, da ruína física e financeira que o câncer pode causar e que vinha sendo mostrado na televisão, por acreditarem que os casos terminais demonstravam a pouca possibilidade de cura.

            Ironicamente, o que podia salvá-las era exatamente o diagnóstico e o conseqüente tratamento precoce, que elas procuravam evitar. Quem lida com os grandes números na área da saúde pública sabe que há campanhas contraproducentes pelo pânico que provocam e o determinante afastamento das pessoas que deveriam ser as maiores interessadas.

 

            Outro exemplo, já clássico, de pânico em larga escala que veio em prejuízo dos já prejudicados: o excesso de publicidade em torno dos padres pedófilos e dos professores que abusavam sexualmente de crianças fez com que muitos padres e professores ficassem excessivamente afastados das crianças com que deviam conviver, exatamente para evitar qualquer possível suspeita ou embaraço. Sociólogos e psicólogos infantis que estudaram o problema notaram a quebra afetiva que resultou do distanciamento físico auto-imposto.

            Nas creches, que começavam a receber cada vez mais mão-de-obra masculina e onde as crianças pequenas tinham a possibilidade de conviver com figuras femininas e masculinas, o que se viu foi uma retração dos homens e do seu campo de trabalho, segundo as administrações “para evitar especulações maldosas”, como se as crianças não pudessem ser sexualmente molestadas por mulheres…

            Freqüentemente tememos as coisas erradas e, na verdade, o que devíamos temer é o próprio temor, porque um dos paradoxos da cultura do medo é que os problemas sérios continuam amplamente ignorados, ainda que causem os piores perigos para a população.

            Exemplo: aposentadoria e desemprego. As repetidas crises econômicas, as reestruturações, as medidas de economia, a inflação, tudo deveria ter-nos advertido e ensinado para olharmos o futuro e cuidarmos da Previdência Social. Hoje, o que estamos vendo, é que sofremos anos e anos de imprevidência social. Funcionários públicos, por exemplo, aposentaram-se e passaram a receber pensão sem nunca terem contribuído para a Previdência. Como imaginar que isso seja possível, indefinidamente?

            Quem se preocupou, a longo prazo, com a desigualdade de renda que faz do Brasil um país rico com população pobre? Ou com o agravamento da pobreza e a introdução da exclusão social?

            Quem viu o problema da falta de habitação conjugada com o problema da falta de transportes coletivos baratos, obrigando o pobre a favelizar-se nas encostas para ficar mais perto do emprego? Criou-se o medo ao favelado, mas não o medo da favelização, o medo do crime que dominou as favelas, mas não o medo à ausência de uma política de ocupação do solo ou da ausência do poder público nessas comunidades carentes.

           

            Até fenômenos naturais como um eclipse total do sol ainda podem funcionar para criar pânico. Em pleno século 21, um eclipse anunciado para o fim do mês de março (e que foi melhor visto na cidade de Natal) provocou reações coletivas de superstição: em várias cidades da Índia e do Paquistão foi declarado feriado, para que as pessoas não tivessem que andar nas ruas, expostas aos perigos da conjunção. Na China, havia a recomendação de não levar as crianças à rua.

            Assim como a tsuname que fez tantas vítimas foi apresentada, a sério, por um pesquisador que ganhou crédito na mídia, como uma “doença da natureza”, e “um castigo de Deus aos que desrespeitam a sua criação”.

            A ignorância alimenta o medo muito fortemente. A Constituição brasileira de 1988 é mais avançada do que Convenção das Nações Unidas para a proteção de crianças e adolescentes. Assim como a lei que regulamentou os direitos criados pelos constituintes, o Estatuto da Criança e do Adolescente. No entanto, para ocultar a ineficiência policial (que resolve menos de 1% dos homicídios e permite condenar apenas 0,1% dos culpados) é comum ouvir de autoridades da Segurança que o ECA “criou bandidos de menor idade que podem fazer o que quiserem, inclusive matar, sem serem punidos”. É a rede da mentira a serviço, mais uma vez, do acobertamento do verdadeiro problema.

            Um ex-Secretário de Segurança do Rio de Janeiro, general, chegou a dizer de público que os menores de 18 anos cometiam a metade de todos os crimes violentos. Não era exato: eles respondiam por apenas 12%. Mas a mentira esconde que as crianças e adolescentes que cometem um ato social não têm o amparo que a lei dá a eles, não recebem proteção, educação e treinamento que lhes dê uma oportunidade justa na vida. Os que são de famílias com posses, os juízes permitem que continuem em suas casas “sob a responsabilidade dos pais”; porque são crianças. Mas os pobres vão para verdadeiros depósitos de presos, desumanos, para comer mal, morar mal, e serem espancados pela menor falta (e às vezes sem culpa), porque são menores. Em uma dessas universidades do crime, a Comissão de Direitos Humanos encontrou, no armário de um inspetor de disciplina, um longo e pesado porrete de madeira onde estava gravada a canivete a inscrição DIREITOS HUMANOS.

            Parece que quanto mais as coisas melhoram, mais pessimistas nos tornamos. As mortes de adolescentes, dentro das escolas, vitimados por outros adolescentes, vinham caindo sistematicamente em São Paulo, ano a ano. Mas bastou uma reportagem de capa, escandalosa, para que se criasse a figura dos superpredadores, jovens ultra violentos e moralmente vazios que ameaçavam as outras crianças nas escolas.

            Crianças que entram com armas nas escolas e que as exibem, mesmo não fazendo ameaças, são notícia de primeira pagina nos jornais, e o tom faz crer que isso é um fenômeno que está ocorrendo com freqüência cada vez maior. Enquanto isto as escolas não têm proteção policial e os assaltantes já se dão ao luxo de agir com a luz do dia.

            Na Grã-Bretanha, na Austrália, no Japão, onde a propriedade de uma arma de fogo é severamente restrita, poucas pessoas são mortas por ano por armas de fogo. Aqui, uma criança tem 15 vezes mais possibilidades de morrer por ferimento de bala do que naqueles países. Mas a maioria da população ainda acredita que é melhor conservar o direito de ter uma arma, “porque ninguém está desarmando os bandidos”. Isto é, mais uma vez, fogem do verdadeiro problema que é “ninguém está desarmando os bandidos”. Só que, para isso, nunca haverá uma campanha publicitária rica, paga pelos armeiros e com o apoio de forte lobby político, porque isso não rende dinheiro.

            Repito: grande parte da imprensa ainda acredita que não são as armas que matam e sim as pessoas.

 

            Um estudo com mulheres indicou, muito claramente, que o medo delas em relação ao crime está ligado “ao noticiário”: 76% citavam a mídia como fonte do medo e apenas 22% uma experiência pessoal. Curiosamente, entre as que tinham experiência direta com a criminalidade, a maioria não passara a tomar medidas extraordinárias de proteção com medo do futuro.

            A mesma pesquisa revelou que oito em cada dez adultos afirmavam que o consumo de drogas jamais causou problema em suas famílias e sete em dez afirmaram não ter experiência direta com problemas relacionados ao consumo de drogas, mas que nove em cada dez tinham “muito medo” de viciados em consumo de drogas, “por sua violência e criminalidade”. Fonte do medo: mais uma vez a mídia e o alarmismo.

            O que lembra a anedota, verídica, do jornalista que fazia a chamada corrida telefônica dos Distritos Policiais à cata de notícias e ouviu mal: “Crime estúpido? Ah, estupro? Comentando: “Melhorou muito…”

            Os programas ditos policiais estão preocupados com o impacto, com o sangue derramado, com o crime. E seus apresentadores têm uma tese em comum nenhum perigo é pequeno o suficiente que não possa ser transformado em um pesadelo para a maioria. A tese que sustenta a audiência é: ouça com atenção, ou a próxima vítima pode ser você. Por isso mesmo os relatos emotivos passam à frente dos relatos objetivos.

            Só para dar um dado curioso: a principal causa de mortes entre adultos, é o coração, as doenças cardíacas. No entanto, a televisão dá a elas e à sua prevenção menos de 10% do espaço que dedica aos homicídios. Assim como o menor fator de risco de morte, o consumo de drogas, recebe muito mais espaço do que aquele dedicado ao principal fator de risco, a falta de exercícios físicos e a má dieta alimentar.

            Em um estudo clássico da psicologia (que já tem mais de 30 anos), Alan Kerckhoff e Kurt Back já observavam que a crença em uma ameaça tangível torna possível explicar e justificar o sentimento de desconforto das pessoas”. 

            Toda a análise da cultura do medo que ignore a ação da imprensa corre o risco de ser incompleta. Entre as diversas instituições com mais culpa por criar e sustentar o pânico, a imprensa e as autoridades de segurança ocupam os primeiros lugares. Mas há uma ampla variedade de grupos, incluindo empresas e organizações de defesa de uma causa, seitas religiosas e até partidos políticos que promovem e lucram com o pânico.

            Assustar com números é uma técnica que chega a ser estudada nas escolas de comunicação, por sua eficácia e eficiência. Quando um médico vem à televisão e declara que um homem em cinco terá câncer de próstata, isso é muito assustador, mas é meia verdade, porque esse risco é o resultado de um risco acumulado em 80 anos de vida. A possibilidade de um homem de 40 anos ter câncer de próstata nos próximos 10 anos (sem morrer por causa disto) é de uma em mil. Nos anos seguintes sobre para uma em cem. Aos 70 anos, terá uma em mil de ter qualquer tipo de câncer, inclusive de próstata. Então, para vender livro, o bom é ter um número assustador.

            É, também, o caso dos livros de dieta, para quem o número de obesos é enorme, quando grande é o número de pessoas acima do peso ideal, mas não de obesos (um termo que, por sua vez, não é objetivo, uma vez que pode abrigar pessoas com variação de 20 a 40% acima do peso ideal como determinado por padrões não inteiramente científicos porque não levam em conta a estrutura óssea das pessoas.

            Por que determinadas ansiedades pegam e afligem as pessoas mais que outras? Por que os jornalistas e a imprensa são atraídos por um risco e não por outro?

            Antropólogos, que se dedicaram a estudar como as pessoas interpretam os riscos, informam que todas as sociedades têm uma quantidade quase infinita de possíveis perigos para escolher. E as sociedade diferem tanto no tipo de perigo escolhido quanto na quantidade deles. Os perigos são selecionados por sua importância específica, porque ofendem os princípios morais básicos da sociedade; ou porque possibilitam críticas a grupos e instituições vistas com maus olhos; ou ainda porque tornou-se moda; ou porque são salientados por tabus, preconceitos ou estereótipos sociais.

            Em Risk and Culture (Mary Douglas e Aaron Wildavsky) está contada a história: a água era um perigo muito grande na Europa do século 14, por sua péssima qualidade e contaminação. Mas só quando os judeus foram acusados de envenenar os poços é que as pessoas ficaram preocupadas com o assunto.

            Do ponto de vista psicológico, medo extremo e ultraje são freqüentemente projeções. Ao não conseguirmos dar educação familiar, nutrição, casa, serviços médicos e cuidados adequados às crianças, causamos sérios danos à sobrevivência e ao desenvolvimento delas. Por isso mesmo projetamos nossa culpa nos pedófilos, nas babás violentas, em toda e qualquer violência física que atinja uma criança.

            O número real de adolescentes seduzidas e abandonadas grávidas pelos namorados fica em torno de uma em dez. Mas houve interesse em popularizar a estatística assustadora e errada de que duas em cada três mães adolescentes estão nesse caso. Educação sexual nas escolas, nem pensar. Informação suficiente às adolescentes é não só tido como imoral como seria uma forma de levá-las a fazer sexo antes da hora. O discurso político é mais conveniente. Até porque, no discurso público os medos proliferam por meio de um processo de troca: a cultura do medo cresce mais quando há uma corrente de temores e contatemores: conservadores x liberais, machistas x feministas, esquerdistas x fascistas, religiosos x ateus.

            A verdade é que muito poder e dinheiro estão à espera daqueles que penetram em nossas inseguranças emocionais e nos fornecem substitutos simbólicos, como o sabem muito bem alguns líderes de igrejas que fazem do dízimo obrigatório o caminho do perdão. Como dizia um personagem do grande escritor Guimarães Rosa, “quem não tem medo do diabo não vai para o caldeirão”. 

            Algumas anotações sobre a síndrome que nos intimida:

  • É mais fácil reconhecer como somos enganados a respeito de preocupações sérias, depois que vemos as mesmas técnicas funcionarem na promoção de perigos frívolos.
  • Os arautos do medo são hábeis em descrever pseudoperigos como grandes desastres iminentes.
  • Grandes porcentagens não têm, necessariamente, grandes números por trás dela.  (Anunciar, como em Penedo, que o número de crimes de morte havia triplicado em um ano, significava apenas que ocorreram três crimes e não um só.)
  • Dirigir embriagado provoca 85 mais mortes do que as pessoas que entram em fúria no trânsito (geralmente engarrafado) e perdem o controle mental.  Mas a OMS foi chamada para que declarasse a fúria no trânsito uma doença mental, uma desordem de reação de ajuste, perigosa por ser contagiosa.
  • É estatístico: os índices de mortalidade caem duas vezes mais rápido quando a mídia dedica a um determinado assunto atenção continuada, em comparação com assuntos aos quais não dá atenção.
  • O melhor modo de esconder grandes problemas sem solução à vista é engrandecendo problemas sem importância e banalizando as grandes questões legítimas.
  • O comportamento dito “politicamente correto” ajuda muito a montar um discurso bem orquestrado capaz de abafar um coro de preocupações legítimas, genuínas.
  • Um pânico apóia o outro.
  • O uso de expressões como guerra e batalha ajudam a ampliar fortemente situações e acontecimentos. Evidentemente, não há uma guerra civil nas ruas do Rio e a torcida organizada do Corinthians não entrou em uma batalha contra a polícia no Pacaembu. A força de expressão, quando excessiva, geralmente encobre uma comunicação deficiente.
  • Uma pessoa economicamente ativa tem de quatro a cinco vezes mais possibilidade de ser vítima de demissão do que de ser vítimas de um crime de morte. Para muitas pessoas, a perda do emprego é tão assustadora e incapacitante quanto a ameaça de um crime. Mas a imprensa não faz essa relação.
  • Muito mais crianças são mortas por seus próprios pais ou mães do que por violência de estranhos. Mas o assunto é tabu. As vítimas preferenciais são crianças com menos de 5 anos e os motivos mais freqüentes da violência que leva à morte é o choro.
  • O preconceito contra homossexuais ficou muito evidente na recusa de permissão para que um casal homossexual adotasse uma criança em São Paulo. E um juiz da Infância e da Adolescência declarou que o motivo da recusa era “evidente”, o risco que a criança corria. No entanto, segundo a revista médica Pediatrics, “uma criança tem cem vezes mais possibilidade de ser molestada pelo parceiro heterossexual de um parente próximo do que por um homossexual”. Inclusive pelo pai biológico.

·        É tranqüilizante saber que a sociedade tem sobrevivido às histórias, às radionovelas e aos filmes pela televisão. Platão advertia contra os que contavam histórias aos jovens porque “as crianças não conseguem distinguir entre o que é alegórico e o que não é”, ao que Sócrates acrescentava que “opiniões formadas nessa idade são difíceis de modificar”. Em criança, minha mãe dizia que os gibis e as histórias em quadrinhos eram culpados pela violência. Que já foi culpa do rádio, da televisão, dos jogos eletrônicos e da Internet, nunca dos homens e das armas.·        George Gerbner, reitor emérito da Escola de Comunicação Annemberg, da Universidade da Pennsilvania pesquisou durante 30 anos e verificou que as pessoas que assistem muitos filmes de violência na televisão, com freqüência, têm maior tendência a acreditar que sua cidade é insegura e que os índices de criminalidade estão aumentando, a superestimar a probabilidade de ser vítima da violência e a levantar grades e colocar alarmes, além de comprar armas “para se protegerem”.

Elas acolhem com agrado medidas repressivas como a pena de morte. (medidas que nunca reduzem o crime, mas rendem votos a políticos inescrupulosos).

  • A cobertura jornalística do mau atendimento médico e das péssimas condições dos hospitais e asilos focam mais as imagens dramáticas das pessoas desatendidas do que na falência das autoridades e dos serviços.
  • As reportagens alarmantes sobre o suicídio de jovens não informam que os adolescentes têm pouca probabilidade de morrer de câncer, do coração ou de AIDS, doenças que levam tempo para progredir. E que é natural que jovens morram mais de causas imediatas: acidentes, homicídios e suicídio.
  • Há mais suicídios, homicídios e acidentes com armas de fogo entre jovens porque, estatisticanmente, eles andam mais armados do que nunca.
  • Investigando adolescentes grávidas, a socióloga paulista Esther Graff verificou que oito em cada dez tinham pais violentos e problemas de relacionamento familiar.
  • Há realmente um excesso de pornografia no ciberespaço e as crianças, em tese, poderiam acessá-la, se não fosse o fato de que apenas 0,8% ser de acesso gratuito.
  • Mais da metade de todo o noticiário sobre jovens, nos principais jornais do país (pesquisa da ANDI) dizem respeito a violência e crime.
  • O medo contra os jovens (chamados quase sempre de pivetes) é diretamente proporcional ao não cumprimento do Estatuto da Criança e do Adolescente, aos cortes com programas educacionais, de saúde e contra a pobreza, projetando-se a violência contra os próprios jovens.  As repetidas tentativas de diminuir a idade penal não levam em conta a falência do sistema penitenciário que não consegue espaço para todos os condenados e nem 2% de taxa de reabilitação..
  • O custo de uma criança ou adolescente internado, se fosse repassado às famílias, daria para sustentar quatro delas, sem problemas.
  • Jovens encarcerados com adultos correm cinco vezes mais risco de serem sexualmente molestados e 50 vezes mais possibilidade de serem atacados com armas do que os jovens internados em instituições juvenis. Agir como adulto (mesmo criminosamente) não transforma um adolescente em adulto.
  •  Numa pesquisa sobre violência nas escolas públicas, no Rio e em São Paulo, indagados sobre os principais problemas professoras e professores responderam, pela ordem: apatia e desinteresse dos pais, falta de material didático, baixos salários, absenteísmo, falta de disciplina e só então furtos, roubos e violência. A primeira parte das respostas foi ignorada na publicação.
  • Psiquiatras e mesmo clínicos gerais estão receitando drogas para crianças e adolescentes diagnosticadas como tendo distúrbio de déficit de atenção e hiperatividade. As receitas para esse público-alvo são hoje em número seis vezes maior que em 1996.
  • Padrões familiares anormais, salas superlotadas e aulas desinteressantes não são pesquisadas, mas pais e médicos tentam ficar livres de problemas de crescimento ou emocionais com remédios de faixa preta. Há tempos a Sociedade Brasileira de Pediatria denunciou a ansiedade dos pais por soluções médicas para os problemas que enfrentam na educação dos filhos.
  • O anúncio de um antidepressivo saiu com esse título: “Seu filho está sendo reprovado pela vida?”
  • A tradicional rebeldia dos adolescentes, que é perfeitamente saudável, agora é chamada por psicólogos e psiquiatras de “transtorno desafiador opositivo” ou de “transtorno de conduta e reação de ajustamento”, e eles oferecem tratamento medicamentoso para esses eufemismos extravagantes.
  • Assim como identificam nas mocinhas uma “síndrome da promiscuidade sexual” que, segundo alguns desses médicos, chega a exigir internação hospitalar em centros de tratamento psiquiátrico. Inclusive com tratamento contra a vontade.
  • O maior impedimento para o desenvolvimento cognitivo de uma criança é a pobreza, mas a abordagem de matérias sobre gravidez indesejada na adolescência enfoca sempre a incapacidade da mãe para sustentar a criança e não a incapacidade social para lidar com aquela mãe.
  • Há cada vez mais informação sobre crianças grávidas, mas pouco se comenta que no começo do século passado a idade média para o início da menstruação era 16 anos e que as meninas de hoje têm seu primeiro ciclo menstrual aos 13 anos e até aos 9, pela dieta excessivamente rica em calorias.
  • A gravidez adolescente, em grande parte, é uma resposta ao declínio econômico do país, à falta de uma oportunidade justa e à maturidade sexual precoce. Ninguém diz que mães adolescentes têm, estatisticamente, menos probabilidade de se envolverem com drogas, participarem da bandidagem e apresentar comportamento autodestrutivo. Os testemunhos sobre a competência e dedicação das mães adolescentes surgem em diversos estudos, mas não são valorizados e difundidos.
  • As campanhas de medo tendem a se autocumprir, induzindo aos resultados negativos sugeridos pelos alarmistas.
  • O preconceito impede que lésbicas adotem crianças e, no entanto, não há qualquer comprovação científica de que crianças criadas por lésbicas tenham mais problemas que as outras, dificuldades emocionais, comportamentais ou acadêmicas.
  • A literatura comprova que os filhos e filhas do divórcio têm problemas originados pelo comportamento dos pais (especialmente brigas) antes do divórcio, e pela perda do pai, depois da separação.
  • A cobertura jornalística de 40 casos de infanticídio no Brasil, em 100% dos casos não investigou as circunstâncias sócio-econômicas da mãe e a falha das políticas sociais, mas deixou claro o número excessivo de mães capazes de matar os filhos. É um verdadeiro truque de prestidigitação transformar uma minoria de tal modo que ela pareça massiva.
  • As matérias sobre a violência e o abuso contra as mulheres fazem vista grossa e desprezam as estatísticas de 50 mil homens vítimas de agressão por parte das mulheres. É verdade que uma em cada seis vítimas de assassinato é morta pelo marido, companheiro ou namorado, mas isto não deveria esconder que quase 3% dos homens assassinados foram mortos pela mulher, pela companheira, pela amante ou pela namorada.
  • Os negros são muito mais vítimas do que autores de crimes. Mas, enquanto vítimas, não atraem os mesmos holofotes da mídia que atraem quando são autores.
  • Turistas holandeses, alemães, franceses, italianos e britânicos que vão para o Ceará fugindo do frio, têm 70 vezes mais possibilidade de serem vítimas da criminalidade em seus países. Mas, quando dois são atacados e mortos em Fortaleza, a cobertura internacional dá a impressão de que fazer turismo no Brasil é um comportamento de alto risco.
  • O Núcleo de Estudos da Violência comprova: a quantidade e a qualidade da cobertura jornalística para um determinado crime afeta a quantidade e a qualidade da atenção que a polícia dedica ao caso e a disposição da Promotoria Pública para atuar nele.
  • Os que pregam o medo projetam sobre os negros exatamente aquilo que a escravidão, a pobreza, a exclusão educacional, a discriminação e o preconceito garantiram que eles não tivessem: influência e poder. E insistem em que a música negra da periferia é perniciosa, alimenta a violência e o crime. A liberdade de expressão não existe para quem quer cantar as mazelas de quem é excluído. Funk foi uma palavra propositadamente associada às drogas e ao crime.
  • No livro A Doença Como Uma Metáfora, Susan Sontag afirma que “pensar e falar sobre certas doenças com metáforas é uma violência que causa males consideráveis” porque afasta o medo do câncer ou da AIDS e inibe as pessoas de buscar tratamento a tempo ou de se empenhar em maior esforço num tratamento qualificado. É exatamente o medo exagerado da doença que leva pessoas, até bem informadas, a abandonar a quimioterapia pelo tratamento de um charlatão.
  • O que quer que um grupo em favor de uma causa consiga alcançar por meio de uma campanha alarmista sobre doença metafórica, raramente será em benefício do avanço da ciência médica. Um alarmismo pode continuar vivo na memória da população muito depois de ter expirado sua data de validade, desde que esteja ligado a uma ansiedade cultural e tenha patronos na mídia.
  • “Os medos alimentam-se uns aos outros.” (Barry Glassner.)

 Zuenir Ventura, em uma crônica no Globo (O medo que dá medo) conta que os paulistas sentiram mais medo não foi no sábado ou no domingo, os dias mais terríveis do terror, quando aconteceram os ataques mais intensos. Mas na segunda-feira, quando caiu a ficha. Foi na segunda-feira que, levado pelos boatos, o medo chegou às ruas elegantes dos Jardins, aos shopping centers (20 dos 50 foram fechados), aos escritórios e às salas de aula.”“Pelos relatos, fica-se sabendo que aquilo já não era mais o medo puro, e sim o pânico, a paranóia, ou seja, o medo no seu grau máximo de irracionalidade, o medo do medo…”

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