A Crise do Sexo

As dez funções do sexo.  A cultura do antiprazer e suas conseqüências.  /A cultura do não ainda é prevalente, no entanto as  fronteiras   da   sexualidade  continuam em expansão.  Mas o que é que o futuro e a tecnologia nos reservam em matéria de sexo?  
 

         Nem sempre que o ser humano come é para matar a fome; nem sempre que bebe está com sede ou precisando hidratar-se; nem sempre que aspira pelo nariz está fazendo uso do olfato para perceber um perfume ou um mau cheiro; assim como nem sempre que faz sexo está tentando se reproduzir. O oportunismo do ser humano não conhece limites e ele é o animal com maior capacidade de transformar suas atividades básicas, funcionais, para tirar disso satisfação e prazer.

            Nenhuma, no entanto, dá a ele tanto prazer e traz mais satisfação que a diversificação do sexo. A despeito dos perigos e dos problemas que criou para si mesmo, essa é a atividade mais elaborada, funcionalmente.

            O zoólogo Desmond Morris (autor de O Macaco Nu e de A Fauna Humana), já descrevia, em 1969, dez diferentes funções do comportamento sexual do ser humano, separadas, distintas, algumas vezes conflitantes e nem todas mutuamente exclusivas. Assim, observando o bicho homem, ele distinguiu dez categorias funcionais do sexo:

            1. Reprodutor ou Procriador.

            2. Acasalador.

            3. Conservador do Acasalamento.

            4. Fisiológico.

            5. Exploratório.

            6. Autocompensador.

            7. Ocupacional.

            8. Tranqüilizador.

            9. Comercial.

          10. De Status.

 1.      Sexo Reprodutor 

            Não há dúvida de que o sexo procriador é a função mais importante para a espécie humana. Alguns autores (erradamente) afirmam que é a única função natural e, portanto, apropriada. Mas hoje em dia nem mesmo a mais reacionária das igrejas nega aos casais o direito ao prazer sexual desligado da reprodução. Curioso é que a Igreja Católica, por exemplo, que há tempos admite o que um Papa chamou de “alegrias do casamento”, negue a seus padres, monges e freiras, essa atividade que sustentam ser tão natural.

            Quando uma população se torna seriamente aglomerada, o valor da função procriadora é grandemente reduzido e, por fim, torna-se um inconveniente. Em vez de ser um mecanismo fundamental de sobrevivência da espécie, transforma-se em uma ameaça potencial de destruição. Mais de um autor de ficção científica coloca o ser humano, no futuro, obrigado a obter uma licença de acasalamento e uma permissão especial de procriação, diante da superpopulação da Terra e da dificuldade de supri-la, principalmente de água potável.

            Os debates éticos, religiosos e filosóficos, agora são também biológicos, mas está cada vez mais claro que um casal não é só uma unidade sexual, mas também uma unidade paternal; e quanto mais paternalmente ocupada ela está, mais estável se torna.

            Antes de existir a assistência médica, a higiene, a farmacologia moderna, o número de filhos em uma família era necessariamente grande, porque a maioria morria e só assim haveria sobreviventes. Agora, em tempo de anticoncepção (quando aplicada com moderação) o que se faz é antecipar as perdas para um momento anterior a fertilização do óvulo humano.

O ser humano não é um organismo simples que possa ser esbanjado despreocupadamente. É um produto de alta qualidade que exige anos de cuidado, formação e desenvolvimento, e que requer toda a proteção que possa obter.

 2. Sexo Acasalador 

O ser humano é, básica e biologicamente, uma espécie acasaladora. À medida que as relações emocionais do casal crescem, os companheiros potenciais são naturalmente  levados a partilhar suas atividades sexuais. A função acasaladora do comportamento sexual é tão importante para a espécie que as atividades sexuais raramente atingem a mesma alta intensidade da fase inicial do acasalamento (a chamada lua-de-mel).

É exatamente esta função que provoca tantos problemas quando entra em choque com as várias formas de sexo não-reprodutoras.

Para copular são necessários dois, e se o mecanismo acasalador dele ou dela for muito mais ativo do que o do parceiro ou parceira, uma cópula ocasional pode ser bem sucedida e apreciada, mas começa a se formar um vínculo unilateral que decorre da intensidade emocional do comportamento sexual. A conseqüência inevitável é a insatisfação, a crise, a quebra dos vínculos, o desinteresse ou abandono, a separação.

 3.      Sexo Conservador do Acasalamento 

Formado com sucesso o vínculo acasalador, as atividades sexuais funcionam para manter o vínculo. Elas podem se tornar mais elaboradas e extensas quando a função acasaladora não estiver sendo mais exercida. Se o mecanismo acasalador dos dois parceiros é igualmente ativo, a distinção entre a função acasaladora e a função conservadora fica muito clara quando o casal se separa por algum tempo, por conta de uma exigência externa como o trabalho, por exemplo. Quando os dois se reúnem novamente há uma ressurgência típica de alta intensidade sexual nas primeiras noites que partilham juntos e não é incomum a ocorrência de mais de um episódio sexual no mesmo dia.

Nos antigos casamentos de conveniência a verdadeira capacidade acasaladora só se manifestava, em geral, depois de algum tempo de convivência. Mas sempre havia o perigo de que ele não se formasse, propiciando a formação de vínculo acasalador extraconjugal, tanto do homem quanto da mulher.

Hoje, há um risco para os casais jovens: a extrema propaganda pró-sexual, inclusive nas revistas femininas. Ela pode levá-los a supor que a felicidade é sinônimo de alta intensidade sexual, a mesma da fase acasaladora, que deve persistir mesmo depois do casal estar plenamente formado. È um erro que pode ser muito prejudicial porque não é natural (isto é, não é da natureza) nem normal (isto é, da norma) que os casais vivam em permanente alta intensidade sexual. Quando isso deixa de acontecer, imaginam logo que “há algo errado”, embora tenham chegado simplesmente à fase sexual normal, conservadora do casal. O sexo reprodutor pode ser minimizado ou exagerado e de qualquer maneira vai criar problemas.

A reunião dessas três categorias (sexo reprodutor, acasalador e conservador) compõe as funções reprodutoras primárias do comportamento sexual humano. E está fartamente provado que há um impulso biológico acasalador na espécie humana; e que ele é muito forte. Podem chamá-lo de amor romântico ou não. Os que afirmam que o homem é basicamente promíscuo, como os seus parentes macacos, devem reconhecer que desde tempos imemoriais, jovens amantes, conscientes dos perigos até físicos que corriam suas vidas se fossem apanhados, foram impelidos ao risco para formarem um casal, tal o poder desse mecanismo biológico fundamental.

 4.      Sexo Fisiológico 

Tanto no macho quanto na fêmea humanos, desde que adultos e saudáveis, há uma necessidade fisiológica básica para a consumação sexual repetida. (Freud aconselhou para uma virgem solteirona com problemas, pênis erectus dosis repetatur, sem que se saiba se o farmacêutico atendeu a prescrição). Sem essa consumação, a tensão fisiológica se avoluma e o corpo, em determinado momento, exige alívio. (Qualquer ato sexual que implique em orgasmo é capaz de proporcionar alívio ao indivíduo, o que, por si só, justificaria a masturbação.)

Mesmo que a cópula deixe de preencher qualquer das outras nove funções do comportamento sexual, pelo menos satisfaz essa necessidade biológica básica (o que justificaria a prostituição). Para uma fêmea ou um macho não-acasalado, sexualmente frustrado e sem perspectivas imediatas, o recurso mais comum é a masturbação; o segundo é a procura de prostitutas ou prostitutos.

Há uma velha anedota segundo a qual 98% dos machos admitem que se masturbam com freqüência até atingirem o orgasmo,  e que os outros 2% são mentirosos. Mas Kinsey revelou que as mulheres masturbam-se menos, em número e em freqüência.

Ainda é o resultado de uma deseducação sexual muito intensa, puritana, principalmente de fundo religioso,  que cercou a masturbação de todos os tipos de superstições estranhas, desde o nascimento de pelos na palma da mão, à cegueira e à loucura. Só agora, depois de tantos anos da anunciada Revolução Sexual, estas superstições totalmente infundadas estão perdendo terreno e acabando com a ansiedade desnecessária que ainda reprime e deprimem os adolescentes e muitos adultos.

Quando não há derivativo sexual o próprio corpo tente a resolver o problema provocando sonhos eróticos que terminam com orgasmos espontâneos. (Mesmo nas pessoas mais devotamente religiosas, eles ocorrem, embora sejam comumente descritos em termos diferentes, como o arrebatamento de Santa Teresa e que ela descreveu como a visão de um anjo: “Tinha nas mãos uma longa lança dourada, cuja extremidade de ferro parecia uma ponta de fogo. Com ela pereceu transpassar meu coração várias vezes, de forma a penetrar até minhas entranhas. Quando a retirei, julguei que as estivesse arrancando com ela e fiquei completamente abrasada pelo grande amor de Deus. A dor foi tão penetrante que me fez soltar vários gemidos intensos; e tal foi o êxtase que senti nesta dor acerba que desejei não perdê-la nunca mais.”)

Pessoas presas, que vinham levando vida sexual ativa, são muito sujeitos a orgasmos oníricos.

A masturbação é observada também em outras espécies animais, na natureza e em zoológicos: macacos, leões, elefantes, golfinhos, porcos-espinhos, gatos e cachorros.

 5.      Sexo Exploratório 

Todo animal primata é curioso e imaginativo e isso chega a ser uma característica do grupo. Mas o ser humano tem uma imaginação privilegiada e  sempre procurou variações em todas as áreas de comportamento. Não satisfeito em andar, começou a correr, a pular, a saltar e levou para a água as suas experiências. No campo do sexo não podia ser diferente e os sócios do ato sexual começaram a experimentar novas formas de estímulo mútuo, em busca de mais prazer e de um prazer diferenciado. É só ler antigos escritos chineses, indianos e gregos para perceber a grande diversidade de estranhos movimentos e posições sexuais, pressões, sons, aromas, pancadas e experimentações eróticas.

Ao que parece, metade do prazer estava na experiência, como afirmam velhos textos persas, e a segunda metade do prazer na repetição.

Em várias culturas houve tentativas de repressão a essas experiências, sob a alegação de que elas eram desviantes e não necessárias ao ato procriador. O significado da evolução do comportamento exploratório sexual como auxiliar da vinculação e subseqüente reforço da unidade familiar foram ignorados. O que foi desastroso. Se a unidade familiar tiver sucesso e permanecer a salvo das influências externas, tudo deve correr bem. Ela é um sistema adaptável porque se a intensidade exaustiva da copulação do jovem casal durante o acasalamento se prolongasse indefinidamente poderia prejudicar sua eficiência em outras atividades.

            As ansiedades e tensões da vida em sociedade tendem a prejudicar a unidade familiar e a substituição da intensidade acasaladora pela extensão exploratória nas atividades sexuais posteriores é a solução ideal. Casais dizem que “é bom quebrar a rotina”, não só da prática sexual como do local escolhido para a prática sexual.

            O problema é que se a excitação de explorar novidades pode levar ao desejo de explorar também novos sócios sexuais, como novas características. Alguns casais resolvem isso fantasiando a participação de novos parceiros, mas há os que se voltam para a novidade real.

            Nossa civilização tem atribuído uma ênfase crescente aos benefícios do comportamento exploratório e estamos cada vez mais dependentes disso. Assim, o impulso exploratório, em todas as suas formas, trem sido reforçado. No campo sexual isso pode criar e tem criado dificuldades, porque interfere na exclusividade inerente ao mecanismo acasalador.

            As tentativas de casamento aberto e casamento comunitário não foram historicamente bem sucedidos porque as experiências sexuais estranhas ao vínculo apresentam dois perigos: provocam fortes ciúmes sexuais e encorajam a formação acidental de novos vínculos, em prejuízo dos filhos das unidades familiares envolvidas. As relações e combinações sexuais complexas podem até ocorrer, mas os sucessos irrestritos são raridades isoladas, limitadas às personalidades excepcionais, fora do comum e com extraordinário controle intelectual.

            Até mesmo o sistema de harém foi mal sucedido e apontado como um fator importante no declínio das civilizações que adotaram essa prática.

            A função exploratória é básica e observada também em outros animais, mas está limitada,ao que parece, aos primatas mais evoluídos. Os grandes símios praticam muitas experiências sexuais e, no cativeiro, são ainda mais imaginativos, copulando em posições que não foram observadas em populações selvagens.

             6. Sexo Autocompensador 

            O sexo autocompensador é o sexo pelo sexo, o comportamento sexual cuja prática traz sua própria recompensa, independentemente de qualquer outra consideração. Esta função está intimamente relacionada com o sexo exploratório, mas é distinta. O paralelo é óbvio. Entre os membros de um par acasalado ocorrem muitos incidentes copulatórios altamente satisfatórios que não se dedicam à procriação, que estão muito além das necessidades de conservação do casal e que nem implicam na introdução de experiências novas. Pode ser uma condição de momento, de resposta certa, de clima, de oportunidade, de excitação.. Esses incidentes representam o sexo autocompensador e são, para os copuladores, o que a gastronomia é para o epicurista, ou a estética para o artista. É o puro erotismo, na sua forma menos permanente e mais prazerosa.

            É verdade que os excessos continuados podem criar problemas: casos estremados de atletismo sexual podem ser tão exaustivos que deixam pouca energia para tudo mais, desequilibrando a maneira de viver. Como a extrema complacência com os prazeres da mesa pode levar à obesidade e à perda da saúde, os excessos na cama, a hipersexualidade, também pode prejudicar a saúde, física e mental. Principalmente quando ela é perseguida sem fadiga.

             7. Sexo Ocupacional 

            É o sexo funcionando como terapia ocupacional, como instrumento antitédio, ligado ao sexo autocompensador, mas diferente assim como há uma diferença entre dispor de lazer e sentir tédio. O sexo autocompensador pode ocorrer sem o menor indício de qualquer tédio no horizonte: a função é a busca positiva de compensações sensoriais. O sexo ocupacional, pelo contrário, funciona como um remédio preventivo das condições e momentos negativos produzidos por um meio-ambiente monótono e desinteressante. O tédio moderado leva à apatia, à falta de motivação, cria ansiedade e problemas para o casal, irritação e raiva.

            Ao contrário do que se imagina, o tédio intenso não é uma questão de ficar à-toa e de não ter o que fazer. E o resultado de fazer sem interesse, ma, e chega-se a um ponto que qualquer atividade é melhor que nenhuma, só para se ter uma atividade. Mas se é uma atividade qualquer ela não será satisfatória: ser subativo é prejudicial ao sistema nervoso e a mente faz o possível para se proteger.

            Nas condições normais de tédio, o objeto mais prontamente disponível para quebrar a monotonia é o próprio corpo: roer as unhas, prospectar o nariz com o dedo, coçar a cabeça, provocar uma reação sexual. Uma vez que o objetivo é produzir a quantidade máxima de estímulo, as atividades sexuais nesta situação às vezes tornam-se brutais, dolorosas, podendo levar a mutilações e danos físicos severos aos órgãos genitais. A dor que causam é uma parte bizarra da terapia que inclui a introdução de inacreditáveis objetos nos tratos genitais e no ânus, inclusive por seu tamanho exagerado.

            Se o sexo fisiológico satisfaz as exigências fisiológicas específicas, o sexo ocupacional é necessário para os introvertidos patológicos e para prisioneiros separados à força e por muito tempo de seus ambientes estimulantes normais, física ou mentalmente. Geralmente seus protagonistas são esfomeados no meio da fartura., anti-sociais, mentalmente isolados, incapazes de entrar em contato com o meio-ambiente que os circundam, subestimulados.

             8. Sexo Tranqüilizador 

            O sistema nervoso não tolera a inativuidade total e nem as tensões da superatividade excessiva. O sexo tranqüilizador é o oposto ao sexo ocupacional. Quando alguém se vê diante de uma superdose de estímulos e de um parceiro ou parceira superexigente, procura fugir ao sexo inventivo, acelerado, complicado, quer um sexo leve e capaz de acalmar os nervos esfacelados.

            Às vezes não é a parceria que está desajustada, são as pressões sociais, da vida, que deixam a pessoa intranqüila e ansiosa. Ela procura consolo no sexo tranqüilizador, que funciona do mesmo modo que um cigarro, uma bebida ou uma boa anedota, para relaxar. Se as frustrações, dificuldades e angústias se acumulam, é esse tipo de atividade sexual que pode aliviar a pressão.

            Para os jogadores de futebol, o sexo na véspera do jogo funciona assim: é um tranqüilizador e, em vez de prejudicar seu estado atlético, beneficia seu estado mental. O problema é que o sexo tranqüilizador é muito simples, pouco participativo do ponto de vista emocional. De certa forma, quanto mais automático melhor, porque mais simples, Mas se for repetido com alguma freqüência pode ser frustrante pela má qualidade do relacionamento.

             9. Sexo Comercial 

            Para a prostituta a função da cópula é, primaria e esmagadoramente, uma transação comercial direta. Mas há mulheres com emparceiramento fixo que praticam o sexo comercial. Como o vínculo amoroso é unilateral, ela  limita-se a proporcionar serviços sexuais em torno de casa, comida e proteção. O provedor, que desenvolveu o vínculo verdadeiro, aceita o falso como verdadeiro e a mulher nem se imagina como uma prostituta, embora a função do comportamento sexual seja fundamentalmente o mesmo.

            Crerta forma de prostituição já foi observada em primatas, em troca de alimentos ou de proteção. Em animais enjaulados até machos mais fracos tomam atitudes de fêmea, oferecendo-se sexualmente ao macho dominante.

             10. Sexo de Status 

            Esse sexo está relacionado à autoridade, ao poder e não à reprodução. Pode dar prazer, mas é o prazer da posse, do mando. Embora a expressão completa da sexualidade implique na participação de ambos os sexos, para a fêmea do mamífero o papel é essencialmente submisso e para o macho essencialmente agressivo e dominante.

            Não tem a ver com o fato do homem ser mais forte, mas no sexo por status o macho quer estar por cima e não admite inversão de papéis.

            Originalmente, entre os primatas, o sexo de status é um sexo de subordinação e autoridade, de submissão e mando, que evitava lutas e derramamento de sangue. Em vez de brigar ou fugir, a fêmea concorda com a demonstração de força. E até o macho mais fraco vai ter comportamento de pseudofêmea, oferecendo-se e sendo sexualmente tratado como fêmea submissa.

            Entre homossexuais também há sexo de status, tanto entre homens como entre mulheres. O parceiro inferior deixa-se dominar.

            Os atos praticados são sexuais, por certo, mas não são sexualmente motivados porque a autoridade apropriou-se deles.

            Quando a gata ou o gato doméstico se esfrega em nossas pernas, com a cauda erguida para cima e o dorso arqueado, está-se oferecendo sexualmente e aceitando nosso domínio. Se, em resposta, afagamos suas costas, eles resistem à pressão da nossa mão com o traseiro. É um sinal de submissão e amizade. Depois de uma ausência temporária a gata ou o gato sentem que é necessário restabelecer seu papel subordinado para agradar.

            A antiga característica da fêmea de apresentar o traseiro ao macho dominante sobrevive em outro gesto de subordinação, quando o adulto faz com que a criança se curve para ser punida com pancadas nas nádegas.

            Em quase todas as civilizações a ereção do pênis é usada como uma exibição ameaçadora da autoridade e do poder do macho: quanto maior a ereção, maior a ameaça. O comprimento médio do pênis erecto, na vida real, é de 16 centímetros em média. O que é menos de um décimo da altura de um homem adulto. Mas nas representações eróticas, desde os antigos, algumas vezes o pênis se ergue a metros de altura, sempre desproporcional ao corpo que o sustenta.

            Depois de Freud, quase todo objeto longo, rígido e erecto passou a ser tido como um símbolo fálico e a publicidade contemporânea se vale muito bem disso para vender mais e melhor, tanto para mulheres quanto para homens. Elas, para se sentirem bem servidas. Eles para se verem refletidos.

            Ao investigar as funções básicas do comportamento sexual Desmond Morris viu, com bastante clareza, como o sexo se transforma em supersexo para o animal humano urbano. O ser humano superou todos os outros animais e levou todas as funções sexuais muito mais longe do que qualquer outra espécie fez ou fará. Mesmo nas civilizações mais puritanas, o sexo tem um papel importante, nem que seja apenas estar permanentemente na mente das pessoas como algo que precisa ser suprimido. (Provavelmente é verdade dizer que ninguém é tão obcecado pelo sexo quanto o puritano fanático.)

 

            No livro Sexualmente Irreverentes, o argentino Luís Atucha e o brasileiro Márcio Schiavo cuidaram, logo no primeiro capítulo, da cultura do antiprazer e suas conseqüências. Segundo eles, o pensamento e as normas tradicionais emanadas dos conceitos morais da cultura judaico-cristã tiveram uma grande influência no século 20 e seguem tendo a mesma influência no comportamento das pessoas no século 21.

            Mesmo que a população tenha incorporado práticas sexuais condenadas pelo pensamento tradicional, é este que determina, de modo geral, como se deve atuar em matéria de sexualidade. E a regra é reprimir o prazer, reprimindo as diferentes formas que ele tem para se manifestar.

            Depositária da verdade, essa cultura desqualifica o resto das pessoas que não respeitam o comportamento que ela considera adequado. Principalmente para os católicos romanos, o prazer sexual tem sido o grande ausente das manifestações humanas da sexualidade. Na perspectiva tradicional e normativa da Igreja, prazer é sinônimo de pecado, de comportamento desviado…

            Por exemplo: os padres condenam e se recusam a aceitar as variantes erótico-sexuais não reprodutivas que dão prazer, o homossexualismo e a bissexualidade, assim como o coito juvenil protegido.

            A própria linguagem e os termos ligados ao sexo levam a erro, como no caso da expressão fazer amor, que faz pressupor que os encontros sexo-genitais só podem acontecer quando há amor.

            A expressão ter relações sexuais não define o contato íntimo genital, o coito. E em português a palavra coitado perdeu completamente seu sentido original, de quem sofreu o coito.

            Nossa cultura aceita que se possa comer e beber apenas por prazer, mas pressupõe que para fazer sexo é preciso ter amor. Talvez por isso a linguagem popular tenha criado e incorporado palavras novas que permitem expressar melhor seus sentimentos, quando alguém afirma que quer trepar ou transar, e quando os jovens dizem que estão ficando.

            Toda a arte da China, do Japão, da Índia, da antiga Pérsia, dos Árabes, da Grécia Antiga e de Roma, assim como a arte precolombiana nos mostra o quanto e desde quando o homem tem interesse e produz imagens eróticas, em texto e imagem. E a grande maioria com um atrevimento e beleza que justificam livros e mais livros de uma bela coleção sobre o erotismo. Mesmo assim, as tentativas de produzir arte erótica em nosso tempo sofrem censura e limitação, consideradas como manifestações pornográficas.

            Não se fala sobre essas coisas, isso não se pergunta, crianças não precisam saber certas coisas, a informação ainda é escassa e a maioria dos adultos tem enorme dificuldade de abordar o assunto com filhas e filhos. A cultura do não ainda é prevalente. Não pergunte, não se masturbe, não faça sexo antes do casamento (sobretudo se for mulher), não, não, não.

            Mas, mesmo assim, as fronteiras da sexualidade estão sendo ampliadas, por vários motivos:

1.      A mulher conseguiu um novo espaço e sua realização não é mais, necessariamente, no casamento e com os filhos. Em busca da eqüidade, também se dá ao direito de ter prazer com o sexo (o que, por muito tempo, lhe foi negado como sendo impróprio).

2.      Nos anos 50 descobriu-se a pílula anticoncepcional e embora o seu uso massivo tenha demorado anos para se atingido, abriu o caminho a um sexo menos preocupante e mais prazeroso para a mulher., que se tornou, de fato, companheira no prazer sexual.

3.      O sexo reprodutivo foi definitivamente separado do sexo por prazer nos anos 60 e 70 com o desenvolvimento da tecnologia anticoncepcional por métodos cada vez mais seguros e confiáveis.

4.      Não sendo mais o homem o grande provedor da família, o casamento ficou menos hipócrita, terminando na ausência de amor e permitindo, a homens como a mulheres, refazer sua vida sentimental e sexual.

5.      O casamento oficial perdeu em importância e a sociedade passou a aceitar emparceiramentos permanentes sem exigir do casal os antigos compromissos formais e legais.

6.      Os meios de comunicação de massa trataram de massificar e de democratizar o prazer, legitimando-o socialmente.

7.      Houve aceitação da relação coital entre jovens antes do casamento.

8.      Há maior aceitação de comportamentos sexuais não-ortodoxos e os homossexuais passaram a ser mais bem entendidos, deixando de ser recusados até mesmo nos seus emparceiramentos.

9.      A informação sexual cresceu muito em disponibilidade e a Internet disponibilizou respostas para um bom número de pessoas.

10. O desenvolvimento da psicologia e da sexologia, assim como um intenso movimento editorial criou novos espaços e trouxe mais informação, alimentando o debate antes impossível.

O caminho é sem retorno e indica o fim do silêncio e do medo, rumo a uma sexualidade mais livre e prazerosa. Mas o preconceito ainda existe, com a desinformação. Há 50 anos, se alguém anunciasse o futuro como estamos no presente, seria acusada de pervertida e por atentar contra os bons costumes.

Muitos autores estão escrevendo sobre a crise do sexo e atribuindo à liberdade sexual o problema da AIDS e do aumento das doenças sexualmente transmissíveis. E confundindo moral sexual com comportamentos de risco. A sífilis percorreu o mundo e matou quando a moral judaico-cristã estava no auge da sua influência. E na Idade Média a expectativa de vida era baixa muito por conta das doenças sexuais mal tratadas.

A chamada crise existe porque, hoje em dia, dentro de uma mesma geração há diferentes gerações de informação. Mesmo em tempo de comunicação de massa a informação atinge de modo diferente a diferentes pessoas e permite leituras variadas conforme a bagagem cultural de cada um. Com isso, há diferenças muito acentuadas entre o que as pessoas sabem e o que as pessoas aceitam. E diferenças cada vez maiores de valores. A crise se dá entre os mais informados e os menos informados, entre os mais liberais e os mais conservadores, entre os revolucionários e os ortodoxos, entre os que perseguem o prazer e os que o vêm como algo de ruim, entre os que não sentem mais culpa no sexo e os condenados a sair do Éden para sempre.

É hora de tentarmos imaginar como será a vida sexual no futuro, em mais 20, 50 anos, até o fim do século, sem preconceito. Há muitos aspectos que poderíamos escolher para especular e prospectar, mas Luís Atucha e Márcio Schiavo  escolheram quatro temas que envolvem a aceitação:

·        de um sexo não-matrimonial nem reprodutivo;

·        da mal chamada infidelidade no casamento;

·        das variantes sexuais;

·        da gestação artificial.

 1.      O sexo sem entorno familiar  

Durante séculos a sexualidade esteve vinculada à reprodução e, necessariamente, à família. O exercício da sexualidade sempre foi aceito e tolerado se estivesse rodeado e amparado pela família. Nos casamentos, a presença da família e de testemunhas era considerada indispensável. A lua-de-mel era a permissão social para o exercício da sexualidade com coito.

Em uma sociedade predominantemente machista, a mulher devia casar-se virgem para garantir ao macho a certeza da primigenia. Em quase todas as sociedades a linha de sucessão e herança foi masculina.

Com o correr do tempo a tendência tem-se manifestado contrariamente e não será surpresa se em futuro próximo a sociedade possa prescindir dos ritos de iniciação, da cerimônia de casamento e de todas as atitudes formais que ele exige, em favor de uma espontânea e plena convivência sexual.

As parcerias vão-se formar, tomarão a decisão de viver juntas e começarão a compartilhar suas intimidades, impulsos e desejos sexuais sem a necessidade de dar satisfações a sociedade. E nem mesmo sentindo-se obrigados a deixar descendência.

O que hoje é um assunto familiar, no futuro será um assunto estritamente particular. Os casais poderão conviver por anos, com ou sem filhos, e estarão livres para a separação e formação de novas parelhas, se for o caso.

A nova convivência sexual não reprodutiva e não-formal trará uma série de conseqüências de ordem patrimonial e econômica que exigirão reformas na legislação. E, havendo filhos, será necessário estabelecer claramente quem tem responsabilidade por eles e que tipo de responsabilidade.

No momento não dá para imaginar como será a sociedade com esse novo exercício da sexualidade não familiar. Mas já se esboça uma tendência curiosa que os de língua espanhola já chamam de “marido com cama afuera”. São os casais que se amam, que querem ter uma vida sexual partilhada, mas que não querem viver sob o mesmo teto. A intimidade sexual e afetiva compartilhada não os obriga a juntar as escovas de dente no banheiro nem chegar a uma convivência social no dia-a-dia.

É possível e até provável que o casamento tradicional se transforme em uma raridade, em mais 50 anos. Como o são hoje as famílias numerosas tão comuns há apenas 40 anos atrás.

Outra das formas de comportamento sexual não familiar é o mundo dos amantes, envolvendo pelo menos uma pessoa ainda ligada por casamento tradicional numa relação (com ou sem afeto) estável.  È de se notar que, nos últimos anos do século passado já vinha aumentando a aceitação de situações semelhantes, sem escândalo ou violência como acontecia normalmente nos anos anteriores. A tese do “lavou está novo” pode ser cínica e conveniente (como foi durante anos, quando a mulher dependente não queria assumir o risco de perder o marido), mas é cada vez mais freqüente. A tal ponto que a sociedade já registra até o convívio das duas mulheres (e até dos dois homens), sem maiores choques.

    2.      A mal chamada infidelidade no casamento 

Infiel, na definição etmológica da palavra, é aquele que não tem fé, o carente da fé em Deus. Por isso mesmo foi a palavra escolhida para nominar o varão ou a mulher que faz um emparelhamento sexual fora do casamento.

 Em outras palavras, estamos qualificando uma atitude terrena e humana através de um conceito de natureza mítica, de conotação religiosa, válido apenas para quem acredita.  Falar dos sagrados laços do matrimônio é dar ao casamento um caráter sagrado, quando ele pode ser uma decisão da razão sem qualquer aspecto religioso, é colocar na mesma situação quem se casa na Igreja e faz votos de fidelidade eterna e quem simplesmente faz um emparelhamento sexual. Todos são infiéis, não importa a condição de convivência, sua crença religiosa ou sua fé.

Atucha e Schiavo, estudando o assunto, chegam a sugerir uma palavra nova para denominar a relação paralela ao casamento, uma palavra que não tenha conotações negativas nem mesmo na sua origem, uma palavra que, até ser criada, não exista e, portanto, não tenha significado. E sugeriram por chamar o homem ou a mulher de alamutra.

O ou a alamutra, livres do carimbo de infiéis, podem ter mais autoestima e até acreditarem (como querem muitos autores) que contribuem qualitativa e quantitativamente para a vida sexual e até para o casamento. É que as separações são mais motivadas pelo fracasso sexual do casamento do que pelo êxito das relações extraconjugais. As relações extraconjugais, sabidamente, não ocupam o mesmo espaço social e emocional da relação familiar, embora uma vez realizadas se somem, multiplicando a potencialidade amorosa e criando uma sinergia do amor.

Os estudiosos da área já identificaram, há tempos, que na maioria dos casamentos seus membros já não acreditam que ele seja para sempre e que são cada vez menos exigentes a respeito da fidelidade. Isto significa que as pessoas estão cada vez mais perto do alamutrismo.

A prova disto é que a maioria dos homens já não exige uma virgem para casar, o que significa que ela teve um parceiro sexual anterior. E que as pessoas que refazem sua vida amorosa com novo emparelhamento sabem que o parceiro não foi fiel ao primeiro casamento.

O que devemos observar é que o alamutrismo é uma conquista mais importante para a mulher, porque o homem, em sua maioria, sempre foi um alamutra e a novidade será a aceitação social da mulher disposta a buscar seu prazer sexual fora do casamento.

A equidade sexual só pode ser atingida quando homens e mulheres tiverem direitos sexuais iguais e quando não houver mais preconceito em relação à diferença de gêneros.

Quando pesquisas americanas (ainda dos anos 90) informam que 80% das mulheres americanas já haviam tido pelo menos uma relação coital fora do casamento no último ano, fica claro que já estávamos muito mais perto do que se imaginava do ideal alamutra.

Além disto, é cada vez mais comum que haja uma intimidade cada vez maior entre pessoas de sexo diferente nas relações de trabalho:intimidade social, intimidade intelectual, intimidade afetiva e até intimidade corporal, caminho certo para que haja também intimidade sexual que é o compartlhar do erotismo e dos atributos genitais.

O que se supõe que prevalecerá (depois de algumas idas e vindas) é a aceitação dos comportamentos sexuais prazerosos no casamento e paralelamente a ele, um comportamento mais aberto, autêntico, sincero, verdadeiro, livre de preconceitos e tabus.

 3.      Respeitando os gostos diferentes 

Talvez ainda esteja muito longe o dia em que a sociedade deixe de identificar as pessoas pelos seus gostos e preferências sexuais. Por enquanto o que há é ainda muita discriminação.

Os chamados heterossexuais de carteirinha sempre pretenderam ser o padrão de comportamento aceitável. Por quê? Simplesmente pelo fato de serem majoritários, por constituírem a norma. Então, quem está dentro da norma é tido como normal e quem está fora dela é tido como anormal.

Palavras como pervertido, desviado, doente, degenerado, amoral, invertido, foram usadas para rotular os homossexuais. (A homossexualidade sempre foi uma das variantes mais discriminadas). Quem preferia o sexo entre iguais era obrigado a esconder sua preferência sexual perante o mundo, a “entrar no armário”, ou a expor-se com muito sofrimento.

A mídia deu sua enorme colaboração. Nunca li qualquer manchete informado que um heterossexual havia sido assaltado, mas li diversas vezes o assalto a um homossexual. Nunca li notícia de corrupção e droga em um bar de heterossexuais que praticam o coito anal, mas já li de orgias e drogas em bar de homossexuais.

Qualificar e desqualificar com base em prática ou gosto sexual é, evidentemente, discriminação odiosa.

Mas, aos poucos, a situação está mudando, principalmente dos anos 90 para cá. Os homossexuais já saem do armário e se assumem e é de se notar que nem sempre têm atitudes femininas e afeminadas. Houve, em São Paulo, até quem assinasse um manifesto que circulou na Parada do Orgulho Gay: “Não sou viado, sou homossexual”.

Assim como as sex shops já têm aceitação sexual e freqüência feminina sem qualquer problema; assim como a pornografia está vendo aumentar seu espaço público nas melhores livrarias; assim como a televisão paga oferece cada vez mais material para excitar quem precisa de alívio com a masturbação e as empresas de telefonia abrem espaço para a excitação paga e à distância; assim com já existem bares especializados para homossexuais masculinos e femininos; assim como já se reconhece e aceita as múltiplas possibilidades de prazer sexual desde que praticado entre adultos que as aceitam; assim como já existem locais para a prática de troca de casais, de sexo grupal; assim como há informação e local disponível anunciado na Internet para a prática segura de sadismo e masoquismo; assim como um dos maiores jornais do país publica diariamente anúncios de moças e rapazes de programa; começa a ser evidente a aceitação das pessoas iguais mas com gostos diferentes.

O que antes era tido como impossível, agora parece ser necessário e no futuro será possível. Até que o possível se torne aceitável, e se popularize, podendo vir a ser até desejável e tornar-se comportamento da moda.

Quase todos os estudiosos do sexo anunciam que, no futuro, a liberdade vai-se impor sobre a repressão.

 4.      Bebês do futuro 

Quando a mídia anunciou que os cientistas haviam conseguido, finalmente, criar o bebê de proveta, a notícia pegou o mundo de surpresa. Era um exagero de linguagem, naturalmente, e os pesquisadores não haviam criado um bebê e sim promovido o encontro entre um óvulo feminino e espermatozóides masculinos, promovendo uma fecundação que não estava ocorrendo em condições naturais. O ovo voltou para a barriga da mãe e, depois de uma gravidez normal, nasceu uma menina, sadia, de aparência normal.

Foi matéria para jornais e revistas, rádio e televisão, e a notícia circulou na Internet, servindo como tema de palestras, conferências e debates. As Igrejas, todas, sentiram-se no dever de manifestar opinião a respeito (geralmente contrária).

Hoje essa menina é uma mulher, normal , bem aceita em sociedade e o necessário tornou-se possível, popularizou-se, tornou-se comum e já não provoca debate.

O bebê de proveta justificou-se pelo desejo da maternidade não satisfeita e tornou-se válido pela possibilidade de corrigir uma falta da natureza, sem contrariá-la. Espermatozóides preguiçosos, lentos demais, ou um óvulo tímido, sabe-se lá, e a interferência do cientista é celebrada como um avanço da ciência e da inteligência humana.

As manifestações contrárias de religiosos podiam levar a crer que Deus estava indignado, porque havia determinado que aquele casal não se reproduzisse e o homem, interferindo, conseguia a gravidez que não estaria nos planos divinos. Não se imaginou, no momento, que Deus havia permitido a um cientista fazer a gravidez in vitro  para resolver uma deficiência humana.

O êxito da fecundação extra corpórea ocorre paralelamente ao aborto extra uterino. Vejamos: dos óvulos fecundados se elege o melhor, aquele que tem mais possibilidade de prosseguir na sua evolução e que, provavelmente, se implantará melhor no útero. Os demais são sacrificados. Em média, para ter um filho fecundado in vitro são destruídos de oito a doze. Mas a sociedade, e mesmo os que se manifestam radicalmente contra o aborto em qualquer circunstância parecem não estar atentos ao detalhe.

Nos anos 90 a prática continuou e já não era apenas com o óvulo da mãe e o espermatozóide do pai: ambos podiam (e ainda podem) ser encontrados em bancos, onde foram depositados por doadores. Quer dizer que o casal que não pode ter um filho por meios naturais promove o encontro de um óvulo e de um esperma que não necessariamente sejam deles. O resultado é um filho que  não tem qualquer herança biológica de um ou dos dois.

O problema é que esses avanços da ciência levam a situações que acabam por contrariar uma regra básica da natureza: a que determina o equilíbrio entre o nascimento de homens e mulheres. A fecundação in vitro  permite que se determine, antecipadamente, se vai nascer um menino ou uma menina. E a tecnologia permite mais: determinar a cor da pele, dos olhos, o cabelo, segundo a fenotipologia do doador  e a moda dominante.

Em resumo: a mudança muda a ética que muda a mudança. Hoje, há 18 possibilidades de fecundação humana, sendo que apenas a primeira é o coito heterossexual.

Atualmente a fecundação artificial não é mais notícia e até a novidade de mulheres que alugavam suas barrigas para a gravidez do filho de outra mulher já deixou de chamar a atenção da mídia.

O que se imagina para o futuro já foi previsto por Aldous Huxley (Admirável Mundo Novo): úteros artificiais. A gravidez será uma raridade exibida por mulheres que serão, muito provavelmente, chamadas de atrasadas, retrógradas, ultrapassadas, nostálgicas e tradicionalistas. Mas será mais cômodo, prático, higiênico e seguro encomendar a gestação que oferece amplas garantias de segurança, evitando o sofrimento fetal e permitindo à mãe seguir sua vida normal como antes da gravidez. A maldição de parir sofrendo estará ultrapassada.

Os pais do futuro não serão, necessariamente procriadores.

No futuro, a manipulação genética estará muito avançada e a ciência provavelmente terá enfrentado os problemas técnicos, éticos e de consciência que cercam a clonagem humana. Por enquanto ela é arriscada e o custo/benefício não indica esse caminho. Até porque, as criaturas clonadas nascem com a mesma idade biológica do ser clonado…

Haverá amanhã, por certo, uma nova ética e uma nova realidade científica. E com a reprodução extra corpórea o sexo reprodutivo tenderá a desaparecer. Pode ser que em um futuro não muito distante, o sexo seja apenas um elemento de comunicação, de socialização, de recreação e prazer.

Com isto, necessariamente, mudarão os conceitos de mãe e pai. Psicanalistas e psiquiatras terão que repensar tudo o que sabem sobre o Complexo de Édipo já que, muito possivelmente, as relações desses filhos de incubadoras com suas mães serão muito diferentes das de hoje.

Teremos seres humanos mais perfeitos, anatomicamente, e mais sadios, fisiologicamente. Não haverá mais gravidez indesejada, em princípio. A maternidade e a paternidade serão planejadas.

Jeffrey A. Fisher prevê que a engenharia genética, num futuro próximo (até 2020) será capaz de tratar a maioria das doenças conhecidas ainda na fase embrionária, através da engenharia genética. As crianças já nascerão imunizadas e isso será tão natural como hoje são as vacinas.

Feministas não concordam, naturalmente, principalmente com o útero artificial e acusam os homem de pretenderem roubar a elas (talvez inconscientemente) a função de criar um novo ser humano. Dizem elas que este é um poder “quase divino” que as mulheres bem informadas não vão querer compartilhar com os varões no futuro. O útero artificial pode ser um progresso, mas não poderá substituir  a prazerosa inter-relação da mãe com seu filho, a comunicação entre ambos e o progressivo conhecimento que a gravidez natural permite. As mulheres não estariam dispostas a renunciar à maternidade completa nem a abrir mão do único poder exclusivo que têm sobre os homens e por conta do que, entre outras coisas, são geneticamente mais fortes do que eles.

“A maternidade é uma certeza”, já diziam os romanos, e é possível que muitas mulheres não abram mesmo mão dela. Asley Montagu (autor de A Superioridade Natural da Mulher) escreveu, em 1968, sobre a “inveja do macho” por perceber a procriação como um poder (contrariando Freud e sua teoria de que as mulheres têm inveja do pênis).  E, entre outros argumentos, cita a linguagem, quando os homens dizem que estão concebendo uma idéia e prometem dar à luz um projeto. Diz ele, com provas, que os homens, historicamente, tentaram minimizar ao máximo o poder feminino, querendo fazer da mulher um ser passivo, mais fraco, dependente, a tal ponto que em algumas culturas, embora seja ilegal, as meninas têm cortado o clitóris, para que não tenham prazer sexual.O tempo dirá se as feministas de hoje têm razão ou se as mulheres do futuro vão preferir as soluções mais práticas, mesmo perdendo o poder.Alguns futurólogos afirma que a tecnologia deve nos oferecer também formas extra corpóreas de prazer sexual. A sexóloga argentina Laura Cadiz tem uma observação interessante e que faz pensar: Se no futuro, um dia, tivermos mesmo o sexo fora do contexto familiar e paralelo ao casamento, se as variantes das condutas sexuais foram socialmente aceitas e a procriação for desvinculada do coito, é possível e até provável que a libido possa diminuir e até desaparecer. Porque o erotismo e o exercício da sexualidade coital terá perdido a atração do proibido. Deixaria de ser uma aventura e um risco para converter-se em algo fácil, simples, rotineiro, pouco atrativo.A não ser que o ser humano descubra novas maneiras de tornar atrativo o exercício da sexualidade, como tem feito através dos tempos. Tomara que assim seja, menos por nós do que pelas gerações futuras.

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