A Crise de Pais e Filhos

 Os pais são indispensáveis e insubstituíveis na    educação dos filhos. Só eles podem dar educação familiar e criar capital social para os filhos. Pais bem informados erram menos e são melhores para os filhos. O amor de mãe é um mito perigoso parta a criança. O novo papel social da mulher. Não há receitas para educar: há atitudes educativas e deseducativas. Nenhuma criança deve ser ameaçada com o desamor e precisa receber amor, atenção, respeito, incentivo, compreensão, liberdade e limites. 
 

        Durante a Segunda Grande Guerra, na Inglaterra, bebês e crianças pequenas, órfãs ou que não podiam ser criadas em casa pelos pais, foram retiradas de Londres, que estava sob o bombardeio da aviação alemã. Levadas para o interior do país, foram encaminhadas aos Berçários Hampstead. As duas diretoras eram psicólogas infantis conhecidas no mundo inteiro por seu trabalho: Anna Freud e Dorothy Burlingham.

            As equipes que cuidariam das crianças foram cuidadosamente selecionadas entre pessoas bem formadas e informadas sobre educação infantil, habituadas a trabalhar com crianças pequenas. Na supervisão havia especialistas em desenvolvimento infantil, como Norman Craig. Os programas e métodos seguiam o que havia de mais recomendável e sério, naquele momento, em matéria de desenvolvimento e de psicologia infantil.

            O esforço foi bem sucedido em eliminar os principais prejuízos que costumam marcar as crianças criadas em orfanatos. Mas não todos. Em certas áreas fundamentais do desenvolvimento as crianças de Hampstead não se saíram tão bem quanto a média das crianças criadas em casa, com pai e mãe, mesmo em situação de desvantagem quanto aos cuidados que recebiam e sob o estresse dos bombardeios nazistas. Elas falaram mais tarde, custaram mais a controlar a bexiga e os intestinos, demoraram a disciplinar os instintos (principalmente a agressividade) e as emoções. Eram menos seguras de si, tinham menos confiança e pior autoimagem, além de dificuldades afetivas e de relacionamento social.

            Na Alemanha ocorreu a mesma coisa. Crianças, cuidadas em berçários e creches muito bem estruturadas, gerenciadas por profissionais competentes, altamente treinados e formados em desenvolvimento e psicologia infantil, eram agitadas, irriquietas, comiam mal, desenvolveram um quadro de depressão anaclítica. Ficaram longe da elite ariana que se pretendia criar. Separados dos pais, sentiam falta do afeto materno e paterno. A incidência de doenças e de mortalidade nessa população foi mais alta do que a média alemã e a Dra. Flora Fleiuss chegou a afirmar que algumas crianças “pareciam desistir de viver”.

            Como há registro detalhado das duas experiências, foi possível registrar, cientificamente e pela primeira vez, que os pais são indispensáveis, insubstituíveis na educação de bebês e crianças pequenas, fundamentais para o seu desenvolvimento normal. E que há certas áreas do desenvolvimento que dependem dos laços emocionais fortes que as crianças têm com a mãe e o pai. Toda a ciência e cuidado físico e psicológico são pobres substitutos para o amor, a confiança, os laços íntimos, a família, nos primeiros anos de vida.

            Os pais não precisam ser modelos de perfeição, podem errar como toda gente, geralmente são mal informados sobre como educar apropriadamente uma criança, podem ser inexperientes ou terem uma experiência ruim que os leva a usar métodos errados ou técnicas condenadas de convivência e educação. Mesmo assim têm um papel importantíssimo na formação e desenvolvimento dos filhos, que precisam muito mais do que bons cuidados físicos e até psicológicos.

            Em resumo: os pais são indispensáveis e a família é o núcleo principal do desenvolvimento humano.

            Evidentemente, melhores pais e mães, bem formados e bem informados, resultam melhor para os seus filhos, erram menos, compreendem mais e melhor, vêem as crianças como pessoas, criam melhores oportunidades para elas e oferecem aquilo de que elas precisam para um bom desenvolvimento: amor, respeito, atenção, estímulo, compreensão, liberdade e limites.

 

            Há muitos mitos envolvendo a maternidade e quase todos são prejudiciais ao recém-nascido. O mais forte deles talvez seja o de amor de mãe. A quase totalidade das mulheres imagina que o simples ato de engravidar e de parir dá a elas, automaticamente (como se fosse uma força da natureza), o amor suficiente e o conhecimento necessário para cuidar do filho ou da filha.

            A existência do instinto materno já foi cientificamente comprovada, assim como se comprovou, tanto entre animais como entre seres humanos, as diversas possibilidades de crise pós-parto que provocam a negação do instinto materno, podem levar à rejeição, ao abandono e até à morte do recém-nascido.

            Desmond Morris, o zoólogo que se dedicou a observar o bicho-homem como o faria com outros animais, mostrou que o macaco pelado distanciou-se demais da natureza e acabou perdendo uma grande parte do instinto animal e do comportamento automático que, na maior parte dos casos, permite que os animais cuidem bem de suas crias.

            A propósito, o ser humano nasce muito desprotegido e é o que mais demora a desenvolver-se suficientemente para ganhar autonomia. Pássaros, com dias de saídos da casca do ovo, já estão voando e capacitados pela memória genética a procurar alimentos e cuidar da sobrevivência, mas o filho do homem é dependente dos pais e leva pelo menos seis anos para se desenvolver razoavelmente.

.Uma pesquisa entre mães revelou a extrema dificuldade que elas têm de definir o amor materno, exatamente porque, para a maioria, ele é um valor subjetivo e não objetivo. Não sendo objetivo, elas também não admitem com facilidade a necessidade e a possibilidade de aprender a respeito, de aumentar a capacidade e a eficácia do seu amor através de qualquer tipo de informação ou treinamento.

O amor materno não deve ser subjetivo e sim objetivo, traduzido em ações que respeitem a criança como pessoa, como indivíduo único, atendam às suas necessidades básicas (que são, ao mesmo tempo, físicas, mentais, intelectuais, morais e afetivas) e que seja capaz de mudar para acompanhar as mudanças e o desenvolvimento dos filhos. Se o amor materno e paterno não é traduzido para a criança em ações, ela não percebe que é amada, sente-se insegura, não desenvolve o seu potencial nem satisfaz suas necessidades básicas. Amor, para a criança pequena, é carinho e atenção, apoio. O amor subjetivo, por maior que seja, não serve à criança e ao seu desenvolvimento, não ajuda a formar sua personalidade.

Curiosamente, nós somos treinados ou estudamos para desempenhar qualquer função ou exercer qualquer profissão, mas não há cursos de formação para que desempenhemos o principal papel de um ser humano: criar filhos.

Só para dar um exemplo claro e comum dos problemas que a desinformação traz às crianças, conto a história da menininha de três anos que corre, dando voltas à mesa da sala de jantar, sob o olhar divertido dos pais. Até que ela fica tonta, bate com a cabeça na ponta da mesa e cai ao chão, aos gritos. A mãe a acode e, como todas as mães, cuida de dar consolo. Diz que não foi nada, que vai dar um beijo para passar a dor e, para completar, bate na mesa, castigando-a por ser malvada com a filha.

Em uma única comunicação, bem intencionada e desinformada, passa três mensagens erradas e prejudiciais do ponto de vista da educação infantil:

1        “Não foi nada.” A menina está sentindo uma dor imensa e a mãe, que sabe tudo, lhe diz que não foi nada? Isto quer dizer, na cabeça da criança, que ela está sentindo errado, que não sabe sentir, o que é péssimo para a sua confiança e autoimagem.

2   “Mamãe dá um beijo que passa.” Mas o beijo não faz passar a dor, o que pode levar a criança a imaginar que a mãe não é tão poderosa quanto ela imagina para dar toda a proteção e apoio de que precisa. Isso faz com que fique desconfiada e crianças desconfiadas não podem confiar, um sério prejuízo para a sua atitude e para a sua capacidade de investigar, descobrir, tentar, ousar, desenvolver-se.

3,  “Mesa má, bateu na minha filha”. Qual é a mensagem? A mesa é a culpada, mais ninguém. Não é preciso evitar correria. O problema é a mesa, má, que pula no caminho da criança e ataca sua cabeça. Além de perder um bom momento para educar, a mãe está passando informação errada e fugindo ao problema e à possível solução.

 

O século 20 assistiu a chamada Revolução Sexual, que mudou muito não só o comportamento das pessoas em relação ao sexo, mas também a moral e os costumes. Mudou também a família e liberdade conquistada pela mulher mudou também a maneira de criar os filhos.

Antigamente a mulher era criada para casar, ter filhos e educá-los e sua realização como pessoa estava limitada a ser bem sucedida como mulher e como mãe. A Segunda Grande Guerra levou muitas mulheres ao mercado de trabalho, em substituição a filhos e maridos feitos soldados. Terminada a guerra, os soldados voltaram para casa e para o mercado, mas as mulheres haviam conquistado um novo espaço: a realização profissional.

Com todo o direito a essa realização, viram-se diante de uma dupla e até de uma tripla jornada: deviam cuidar da casa, do marido, dos filhos, e ainda trabalhar fora, contribuindo para a economia doméstica e facilitando a vida dos maridos que, machistas em sua maioria, não se apresentaram para assumir pelo menos uma parte das atividades domésticas ou na educação dos filhos.

A família mudou e continua mudando, rapidamente e em pouco tempo, como mudaram os costumes, a moral e o casamento. Antigamente o casamento era mais estável, embora suas bases fossem hipócritas: como o homem era o único provedor, a mulher era dependente e não tinha liberdade de ação, submetendo-se até a condições humilhantes de sobrevivência dentro da família.

Capaz de sustentar-se (e até de sustentar filhos), ela descobriu que o casamento já não era indispensável à sobrevivência.

Entre as coisas que a mulher contemporânea não deixaria de fazer, segundo as pesquisas, está o cuidar dos filhos. Mas educá-los não figura mais entre as suas prioridades e atividades prediletas: é apenas uma obrigação.

O casamento sem amor tornou-se quase uma impossibilidade, mas também diminuiu muito a capacidade de contornar, contemporizar, o diálogo, a compreensão e a aceitação da convivência que não seja majoritariamente interessante. As separações aumentaram muito e é preciso entender o sofrimento das crianças, cujo raciocínio é lógico: Papai e mamãe se casaram porque um gostava do outro; mas agora eles não se gostam mais e estão se separando. Quem garante que eles vão continuar gostando de mim?

Além da insegurança que a separação dos pais provoca, é certo que as crianças sempre se culpam, de alguma forma, pela separação dos pais.

A verticalizão das cidades fez perder os quintais para as crianças. E, a vida em apartamento, por incrível que pareça, afastou a vizinhança, a solidariedade. Além disso, a família ficou menor, atomizou-se, as fontes afetivas ficaram cada vez mais distantes e menos capazes de interferir. Tia já não é a irmã da mãe ou do pai, mas a professora.

A desintegração da família tradicional desarticulou também a educação dos filhos. Sem a segurança da presença, da experiência e do conselho dos mais velhos, e a certeza dos costumes, sem informação suficiente para substituir os antigos valores, os pais estão levando as crianças cada vez mais cedo para o sistema de ensino, principalmente tentando livrar-se de um problema. Não se livram e acabam com problemas maiores, porque a verdadeira educação (que só a família pode dar) está sendo negada às crianças. A escola, por melhor que seja, não tem capacidade para substituir os pais nessa verdadeira missão.

Se o século 20 foi o século da Revolução Sexual, o 21 deve ser o século da Revolução do Amor, da retomada da educação familiar, da paternidade e da maternidade responsáveis, bem informadas e dispostas a algum sacrifício em favor de um futuro melhor e mais justo para os filhos.

 

Mães e pais vão ter que decidir que futuro querem para os seus filhos e informarem-se mais e melhor sobre o que é desejável que façam para que eles cresçam felizes, Se for possível, isso exigirá muito menos egoísmo e mais dedicação.

Os jovens estão se casando cedo. Deixam a casa dos pais, a condição de filhos e de solteiros, e antes mesmo de terem experimentado por algum tempo a nova condição de vida, procuram um emparceiramento e casam, passando a viver juntos.

Nós sabemos que qualquer mudança é estressante, cria um novo ambiente, traz novas obrigações e relações de responsabilidade. Mas, mal habituados ainda à nova condição e sem qualquer tipo de preparo adequado, o casal trata de demonstrar à sociedade sua capacidade reprodutiva. Reproduzir parece ser e é a preocupação principal, mais do que estabelecer as bases de um relacionamento duradouro, bom, amorável, que sirva de base para os filhos futuros.

Nem chega a haver uma grande consideração a respeito das possibilidades econômicas do casal, com a responsabilidade de mais um para sustentar.

O resultado mais evidente é a imaturidade com que homens e mulheres chegam à paternidade e à maternidade, como se ser pai ou mãe se resumisse a acalentar o bebê, dar de mamar, mudar fraldas e ter paciência com o seu choro e crises de cólicas.

Os jovens devem dar tempo para que o casal conquiste seu espaço, o amadurecimento desejável para a maternidade e a paternidade, e possam desenvolver a cumplicidade indispensável para criar filhos. Mais do que isto, devem pensar seriamente nas conseqüências econômicas que vão significar um bebê para a família, inclusive em termos de espaço.

Pergunte a qualquer mãe ou a qualquer pai o que é que querem que o filho ou filha seja quando crescer. Nove em dez vezes a resposta estará sempre ligada a ter, à realização pessoal, ao sucesso aos olhos do mundo, à conquista da capacidade de consumir e ser feliz. Até porque, todo o esforço mercadológico é feito para convencer as pessoas de que ser feliz é poder ter; ou, melhor ainda, ter um novo. Pais e mães imaginam seus filhos como médico, engenheiro, militar, psicóloga, professora. Só entre as pessoas mais humildes encontraremos respostas menos materialistas e preocupadas com o que os filhos vão ser: honestos, decentes, felizes.

Uma das heranças malditas do século 20 é, exatamente, a herança consumista e a idéia de que não basta ser, é preciso ter para ser feliz e, de preferência ter um novo.

E, no entanto, o principal objetivo da educação que os pais dão aos filhos deveria ser o de criar crianças felizes, mesmo que não tenham ou venham a ter.

 

Toda criança é capaz de crescer e de se desenvolver naturalmente, se não for atrapalhada e tiver as condições para demonstrar suas habilidades. Mas os pais estão cada vez mais assustados porque, agora, têm alguma informação e a consciência (cada vez maior) da influência extraordinária que têm sobre os filhos. É exatamente por temerem essa responsabilidade e por medo de errar que muitos deles cuidam de transferí-la cada vez mais cedo, pata berçários, maternais, creches, jardins-da-infância e pré-escolas. Fazem pior: abrem mão de dar educação familiar aos filhos, tentando transferir o intransferível.

Mãe e pai é que têm condições, por seus laços afetivos, de transmitirem à criança seus valores culturais e familiares, eles é que podem direcionar o comportamento de suas crianças, são os primeiros objetos do seu amor e da sua confiança, e também da ansiedade e da raiva dos filhos (o que é parte do processo educativo).

Imaginar que a escola, qualquer escola, seja capaz de substituir os pais é um engano grave que, mais cedo ou mais tarde vai ficar evidente, quando a criança não aceitar limites.

Muitos pais e mães temem a responsabilidade de dar educação familiar (o nome já seria suficiente para mostrar a incapacidade das escolas nesse campo) porque não sabem o que é educar, como educar, por que e para quê. E precisam estar conscientes de que o grande problema não é o que fazem de errado na educação dos filhos, mas o que deixam de fazer de certo.

Gente grande parece esquecer que errar é humano e faz parte do processo de aprendizado. Crianças e adolescentes têm uma reação natural e espontânea diante do erro e vendo que ele é inevitável. Consideram mesmo o erro como aceitável, principalmente se percebem que não foi feito de má fé ou com o sentido de prejudicar. O adulto, não admitindo errar, custa a reconhecer o erro. E procuram evitar situações novas em que não sabem como proceder e que podem induzí-lo ao erro.

Não há receitas para educar, mas há atitudes educativas e atitudes deseducativas

Em primeiro lugar devemos entender que a criança, desde o nascimento, é uma pessoa, um indivíduo com todos os direitos dos demais cidadãos e mais alguns, por ser um indivíduo em formação e desenvolvimento. A criança deve ser respeitada como alguém que é único, irreproduzível, uma pessoa e não um filhote ou uma cria, com o direito de desenvolver suas potencialidades e ser feliz.

Para ser feliz ela precisa, em primeiro lugar, ser amada, ser sujeito de ações carinhosas. E precisa de respeito, atenção, apoio, estímulo, confiança, o direito de expressar seus sentimentos e emoções, direito a oportunidades justas.

Se o amor é o melhor meio de dar segurança e confiança, mães e pais superprotetores e que fazem de tudo para não contrariarem a criança estão transmitindo à criança uma realidade falsificada, prejudicando-a, comprometendo o seu desenvolvimento e, na verdade, camuflando uma forma de rejeição, frustração ou raiva não explicitada em relação ao filho ou filha.

O psiquiatra Christian Gauderer tem uma imagem muito feliz: “Amor é como água para as violetas; é indispensável para que elas não murchem e possam crescer, mas em excesso apodrece a planta.”

É o que ocorre também com mães e pais que, não satisfeitos com o papel que lhes cabem, querem ser amigas e amigos de seus filhos. Amigos têm outro papel, outra função, e relevam coisas que os pais não devem deixar passar. Amigos, por exemplo, concorrem freqüentemente com a criança e pais e mães não devem concorrer com seus filhos.

 

O lento movimento que a criança faz para deixar de viver sob o princípio do prazer para viver pelo princípio da realidade deve ter a participação da mãe e do pai porque é um movimento difícil, no qual a criança tem que abrir mão de muitas vantagens e assumir responsabilidades. Não é fácil

Esses anos da primeira infância são chamados de anos mágicos porque nos seis primeiros anos de vida a criança é um ser mágico, no sentido psicológico. A concepção que ela tem do mundo é mágica e ela acredita que tudo gira em torno dela, por sua causa, para ela, e que seus pensamentos e atos é que provocam os acontecimentos. Ela não é egoísta, é egocentrada.

Depois é que ela vai ampliar o seu conhecimento da vida, descobre qualidades humanas nos fenômenos naturais e fundamentos humanos em tudo o que acontece. Para tomar consciência do mundo e desembaraçar-se do pensamento primitivo, toda criança precisa de apoio e compreensão dos pais no processo.

Como escreveu Selma Fraiberg, psicoterapeuta infantil e autora do livro The Magic Years, “a idéia de que a infância é um paraíso, um tempo de inocência e de alegria serena, existe apenas na cabeça dos adultos”. Nós temos essa ilusão porque, ironicamente, temos má memória desse tempo tão difícil, por proteção mental. O máximo que guardamos são algumas recordações indefinidas, cenas pequenas e distorcidas, confusas, que nem ao menos indicam por que razão estão sendo ou deveriam ser lembradas. Todo o primeiro período da infância, pelo menos os cinco primeiros anos de vida, ficam encobertos como uma cidade enterrada, misteriosa e inalcançável. Às vezes, adultos, temos que escavar para encontrar a razão de um grande trauma, uma cicatriz que marcou para sempre e que pode até determinar um comportamento.

Os seis primeiros anos de vida de qualquer criança são mágicos, às vezes fantasmagórico, e na sua marcha difícil para a razão e para um mundo objetivo, a criança tem que lutar contra as personagens perigosas da sua imaginação, monstros que vivem debaixo da cama ou dentro do armário, e com os perigos reais ou imaginários do seu mundo exterior. De tempos em tempos ela ainda passa por temores inexplicáveis e comportamentos desconcertantes. Muitos dos problemas são perturbações criadas por um sistema mental primitivo que os processos racionais de raciocínio ainda não dominam, dando-lhes baixo valor.

O humorista James Thurber soube traduzi muito bem esse mundo mágico e perigoso da primeira infância, com uma fábula que certamente escreveu para os adultos e não para as crianças.

É a história do menino que pedia ao pai, desesperado e chorando, que matasse o jacaré que estava debaixo da sua cama. O Pai, racional, explicou calmamente que eles viviam em uma área onde não havia jacarés e que nenhum jacaré poderia ter entrado na casa e subido os degraus para o segundo andar, onde ficava o quarto da criança. Mas o racional nem sempre é capaz de vencer o medo primitivo e a criança insistia, chorava, foi ficando cada vez mais nervosa. Até que o pai, embora imaginasse que aquilo era absurdo, resolveu atender aos apelos aterrorizados do filho. Abaixou-se, olhou debaixo da cama e foi devorado pelo jacaré.

Nós também temos nossos medos irracionais de vez em quando e é o grau da nossa compreensão (geralmente intuitiva, de mãe ou pai que tem bom relacionamento e ama o filho) que nos proporciona agir de modo certo nos momentos críticos. Muitas vezes não temos acesso à vida interior de uma criança, não sabemos o que ela está pensando e sentindo. E como não podemos nos recordar dessa fase da nossa própria vida, não nos é fácil penetrar no mundo da criança e fracassamos em lhe dar apoio, suporte, compreensão.

O que lembra outra situação dramática, verídica, acontecida quando o Boni estava na praia com a mulher e o filho pequeno. Tendo que sair da praia ela disse ao marido: “Não tira o olho do menino.” Assim que ela se afastou a criança começou a chorar e a entrar em desespero, aparentemente sem motivo, até que, entre soluços conseguiu pedir: “Papai, não tira o meu olho, não tira o meu olho!” 

Os especialistas costumam dividir a primeira infância em três períodos: o primeiro cobre os 18 primeiros meses de vida; o segundo vai até os três anos da criança e o terceiro cobre dos três aos seis anos. Cada um desses períodos é bastante diferente, traz consigo problemas característicos do processo de desenvolvimento infantil e até exigem mudanças do pai e da mãe para lidar com eles e com a criança.

Se compreendemos o processo de desenvolvimento infantil e estamos bem informados sobre cada fase e suas características, torna-se mais fácil conviver (isto é, viver com), porque os métodos que vamos usar para ajudar a criança e o seu desenvolvimento vão levar em conta o desenvolvimento da própria criança, suas aptidões físicas e mentais.

As ansiedades de uma criança de dois anos de idade não são as mesmas de uma criança aos cinco anos. Os problemas de disciplina de uma criança com três anos e que tem dificuldade de cumprir regras são muito diferentes dos problemas de disciplina de uma criança de seis anos com dificuldade de aceitar limites e valores. O que quer dizer que devemos agir de maneira diferente para ensinar e estimular o autocontrole para uma criança de três anos e de modo diverso para ensinar e estimular o autocontrole de uma criança de seis. Até porque a capacidade de uma e de outra para entender e cumprir são muito diferentes, assim como a situação de seus controles internos.

Em primeiro lugar, crianças são crianças (nem estão crescidinhas nem são já uns rapazinhos ou mocinhas) e assim devem ser tratadas até mesmo na maneira de vestir. Apressar uma criança a crescer é um crime contra a sua natureza. Criança têm o direito de serem crianças, de se  comportarem como crianças, de viverem como crianças, o direito, por exemplo, de brincar. A brincadeira é o trabalho da criança e é brincando que ela vai experimentar papéis, vai imitar, vai se preparar. Tanto que as crianças são capazes de brincar em condições de extrema adversidade, como as crianças judias nos campos de concentração nazistas. E algumas delas se salvaram, exatamente porque brincaram.

Toda criança tem o direito de ser feliz, o direito de nascer, o direito de não ser rejeitada, o direito de ser registrada e de ter um nome.

Criança tem o direito de mamar no peito pelo menos durante seis meses, o direito de ficar com a mãe, direito ao colo e ao aconchego.

Criança tem o direito de chorar e os adultos a obrigação de tentar descobrir porque ela está chorando. (Confrontadas com a gravação do próprio choro, a criança só para de chorar quando está chorando por manha.) O choro continuado, mesmo de bebês, é a principal causa da agressão de adultos, inclusive de pai e mãe.

De crianças pequenas e que ainda não desenvolveram o controle dos esfíncteres, não se pode exigir que não façam xixi ou cocô nas calças e menos ainda na cama enquanto dormem.

Crianças têm o direito ao sono, protegida de barulhos, luz, insetos e qualquer desconforto.

Têm o direito às vacinas e à não-violência, o direito à proteção, o direito de ser estimulada.

Crianças têm direito à liberdade para explorar e conquistar seus espaços, tem direito a confiar e a que confiem nela.

Têm o direito de serem reconhecidas e respeitadas como pessoas únicas, a responsabilidade  e autonomia.

O direito de ser criança, de brincar e de não ser apressada a crescer. O direito de riscar e rabiscar para livrar-se de seus monstros e medos, o direito de colorir e pintar fora das margens do desenho. Direito à fantasia, direito a ter um amigo imaginário, direito de ter a companhia de outras crianças.

Direito a receber regras e limites, com os valores da família.

Direito de lidar com a morte e de não ser enganada.

Toda criança tem o direito de não ser rotulada ou comparada depreciativamente com outra criança, tem o direito de ter uma boa imagem de si mesmo.

Toda criança tem o direito de mostrar o que sente, de expressar seus desejos, suas frustrações, suas sensações e suas emoções. E tem o direito de ser verdadeiramente consolada, sem receber falso apoio.

Toda criança tem o direito de ser egocêntrica, até aprender a conviver com outras pessoas e as regras da convivência.

Toda criança tem o direito a não ficar em desvantagem, à inclusão, a uma oportunidade justa.

 

A principal tarefa da criança, nos primeiros anos de vida, é ganhar confiança para ter uma boa imagem de si mesma e coragem para explorar, descobrir, conquistar.

Para ter uma oportunidade justa de desenvolver-se normalmente e de ser feliz, é preciso que a maior parte das experiências infantis seja positiva. Principalmente as que tem com mãe e pai. Experiência positiva não quer dizer que os pais cedam a todas as vontades da criança, porque ela precisa aprender a seguir regras ou a respeitar limites. Quer dizer que a criança perceba, sem dúvida, que é querida e que tem sempre a atenção, o apoio, a compreensão, o respeito e o estímulo dos pais.

É a história da infância que determina amplamente o futuro.

Toda criança bem criada tem uma vida interior rica e gratificante. Ela nem precisa, no futuro, ser um sucesso do ponto de vista material se estiver satisfeita com a sua criação, satisfeita consigo mesma, se é capaz de enfrentar razoavelmente as dificuldades da vida, os perigos e as amarguras, porque se sente segura e feliz.

O mais importante, para qualquer criança, é crescer em uma família onde as relações são íntimas e agradáveis entre os pais e entre eles e seus filhos ou filhas. É isso que permite intimidade, diálogo, relações satisfatórias e duradouras, que dão sentido à vida. Pais espontâneos, autênticos, sinceros, são a melhor educação para os filhos, mesmo vivendo em dificuldade econômica.

É bom entender que o bebê é um ser humano e que nenhum ser humano é completamente manipulável. Boa parte do que a pessoa vai ser está determinada desde a sua concepção, pela mistura dos genes da mãe e do pai. Essa mistura é diferente, de pessoa para pessoa (a não ser entre gêmeos idênticos) e através dos genes cada um herda os resultados de um longuíssimo processo de evolução humana. Tanto a herança genética quanto o processo evolutivo limitam as alterações que podem ser produzidas num indivíduo pela educação e pelas experiências da vida. Mas as primeiras experiências de uma criança é que determinam como é que a sua herança vai-se expressar em sua personalidade.

Enquanto a herança genética e a história evolutiva criam as potencialidades e os limites de um indivíduo, sua experiência pessoal infantil, mais do que qualquer outra coisa, é a responsável pelas formas como aquele potencial vai funcionar na realidade. Assim, o respeito à personalidade da criança, que é única, é muito importante na sua educação, para que possamos trabalhar ao máximo as qualidades que ela herdou.

Mães e pais atentos e interessados não vão contrariar a natureza e sim auxiliá-la,com sensibilidade para criar as melhores condições de desenvolvimento físico, mental, intelectual, afetivo e moral da criança, facilitando seu crescimento natural e deixando espaço para que ela possa experimentar, experimentar-se, conhecer-se melhor.

É o grau da nossa participação e compreensão que nos permite apoiar e entender, ajudando a criança a enfrentar seus monstros, fantasmas, dificuldades e problemas. Quanto mais ela se sentir apoiada, confiante, percebendo nossa atenção e apoio, mais fácil será para ela.

Os anos mais importantes para o desenvolvimento do ser humano são os seis primeiros. Nesses seis anos mágicos forma-se a estrutura da sua personalidade e a base da sua afetividade, em torno da imagem que ela faz de si mesma por influência dos pais.

Aos 6 anos a criança já passou por experiências marcantes, conhecendo o amor ou a rejeição, o carinho ou a violência, atenção ou indiferença, apoio ou negligência, confiança ou desconfiança, segurança ou abandono, verdade ou mentira, alegria ou tristeza. Essas experiências, como diz Vital Didonet, são fundamentais para determinar sua própria imagem, para o bem ou para o mal, para sempre. Se elas forem majoritariamente boas, positivas, principalmente com os pais, a criança terá uma oportunidade justa de desenvolver-se normalmente e de ser feliz.

Os pais não devem ceder ao desejo de criar o filho ou a filha que gostariam de ter ou que sejam capazes de ser o que eles não foram. Ao contrário, devem ajudá-lo a desenvolver-se plenamente,em seu próprio ritmo, naquilo que é sua vontade e desejo, de acordo com os seus dotes naturais e inclinações, como conseqüência das suas experiências.

Isso talvez seja o mais difícil para pai e mãe.

Os pais sempre esperam dos filhos amor, respeito e obediência, mas não se dão conta de que há um contrato não escrito entre eles, como adverte Maria Tereza Maldonado (em seu livro Comunicação Entre Pais e Filhos). Por esse contrato, os pais também devem aos filhos amor, respeito e atenção. Se observarmos bem, vamos ver que, na maioria das vezes, são os adultos que quebram o contrato com os filhos.

 

Não é de admirar que a mãe ou o pai consciente fique assustado com a possibilidade de falhar, de prejudicar a educação do filho ou filha por conta dos seus erros. É compreensível: a psicanálise e a psiquiatria estão cheios de exemplos do mal que os pais podem fazer aos filhos. Mas a ansiedade deve ser evitada porque a criança percebe a falta de confiança dos pais.

Para ser um pai suficientemente bom ou mãe boa o bastante, precisamos estar seguros em relação à criança. E isso se consegue quando ambos são bem informados e dão carinho físico, afeto, atenção intensa, apoio, compreensão e dedicamos a ela todo o tempo possível, com intensidade.

Criar filhos não é uma ciência exata, é uma experiência criativa, até uma arte. Nenhum livro pode conter todos os problemas que pai e mãe vão encontrar no dia-a-dia, no relacionamento com a criança. Esses problemas devem ser resolvidos à medida que ocorrem, com autoridade, mas sem autoritarismo.

O verdadeiro problema não é ter um bom desempenho como pai ou mãe: é ser uma bom pai e uma boa mãe. Toda criança vai acabar aprendendo e ficando segura assim que estiver certa de que o amor dos pais também não depende do seu próprio desempenho (embora um bom desempenho facilite as relações).

Se admitirmos que nossas emoções freqüentemente ditam nossos atos em relação a nossos filhos e que, às vezes, o mau humor interfere e dita algumas atitudes, fica mais fácil entender e aceitar algumas reações emocionais dos filhos aos nossos desejos. Embora, no calor do momento, talvez não seja possível ter paciência e demonstrar compreensão, é mais fácil superar a crise quando admitimos que nós mesmos, que temos os controles mais desenvolvidos, às vezes nos deixamos levar pelos sentimentos.

O século 21 está exigindo dos pais uma Revolução do Amor que, para ser bem sucedida, comece por fazer com que os pais reassumam a tarefa de dar educação familiar aos filhos, transmitindo-lhes valores e limites claros, justos, simples, possíveis de cumprir, necessários e indispensáveis, que valham para pai e mãe (isto é, que sejam coerentes), que valham sempre (sejam consistentes), que estejam de acordo com o desenvolvimento da criança, que sejam a favor dela, e que funcionem como um verdadeiro código da moral familiar.

Educar é dar exemplo.

Dizer que uma criança se parece com a mãe ou o pai é um motivo de satisfação, exatamente porque vemos muito de nós mesmos refletido neles. Nós nos identificamos com os filhos, em geral, muito mais por aquilo que eles têm parecido conosco, fisionomicamente, em gestos, atitudes ou comportamentos. Ficamos felizes quando podemos reconhecer neles o que aprovamos em nós mesmos.

Mas, na verdade, nossa proximidade com os filhos não vem só das identificações positivas, mas também das negativas. No entanto, elas nos irritam porque funcionam como uma crítica viva. A tal ponto que uma das piores acusações que se pode fazer dentro da família é dizer, de um filho ou filha, que “puxou o pai” ou que “saiu à mãe”, quando o comportamento é negativo.

Não é fácil ser boa mãe ou bom pai em episódios de identificação negativa. A vida da criança já é cheia de ameaças reais e imaginárias e é uma covardia o adulto assustá-la com outras ameaças. Mas a pior de todas, a mais covarde, deve ser evitada a qualquer custo: é a da perda de afeto. Dizer a uma criança que não vai gostar mais dela, seja qual for o motivo, é absolutamente insuportável. Porque tudo o que ela quer é precisa é ser amada pelos pais, e tudo o que ela faz é para merecer esse amor.

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