A Crise da Obesidade

Há 300 milhões de adultos obesos e 700 milhões acima do peso e mais dispostos a cardiopatias, acidentes vasculares, câncer e diabetes.  Dietas pobres afetam negativamente o cérebro e o sistema nervoso. Comer de tudo, com equilíbrio e bom senso é a única receita válida para emagrecer.As pessoas estão cada vez mais gordas e é  necessária uma reeducação alimentar.  / 
 

        Metade da humanidade passa fome e a outra metade faz dieta para emagrecer. A frase é de um humorista, mas sua simplificação do problema é estatisticamente correta nos grandes números. Segundo o Comitê Permanente de Nutrição da Organização Mundial de Saúde informou em março de 2006, há cerca de 170 milhões de crianças desnutridas e abaixo do peso na Terra e 300 milhões de adultos obesos, mais 700 milhões de pessoas acima do peso.

            Quem está acima do peso ou é obeso está mais disposto a sofrer cardiopatias, acidentes cardiovasculares, câncer e diabetes, entre outras doenças, o que significa que a humanidade precisa reconhecer que tem um problema e que é necessária uma Revolução à Mesa.

A obesidade é um problema, principalmente a partir da última década do século passado, quando novas dietas surgiram no mercado e tornaram-se moda (por conta da crescente epidemia de obesidade). Os livros que as apresentam como novidade e justificam as teorias mais esdrúxulas vão para as listas dos mais vendidos, ganham muitas traduções, vendem milhões de exemplares e provocam o chamado “efeito sanfona”, fazendo com que milhões de leitores e praticantes emagreçam rapidamente, ajudem a aumentar o sucesso da dieta, e logo ganham peso novamente, quando voltam a comer como de hábito.

Para alcançar as Metas do Milênio, estabelecidas pelas Nações Unidas para controlar a epidemia crescente de obesidade e doenças crônicas, é necessário lutar contra os maus hábitos alimentares, com a má nutrição e com a obesidade.

O problema está exatamente, no comer “como de hábito”.

            Para funcionar adequadamente, o cérebro do ser humano precisa receber glicose, vitaminas, minerais e outras substâncias químicas essenciais.  É transformando essas substâncias que ele cria novas sinapses (conexões entre os neurônios) e produz, por exemplo, a mielina (um componente gorduroso que recobre os axônios, os prolongamentos do neurônio que conduzem o impulso do corpo celular para as extremidades, para protegê-los). Para isso, o cérebro precisa fabricar as proteínas e gorduras certas. Mas sem que o indivíduo se alimente de forma correta, equilibrada, consumindo adequadamente (na qualidade e na quantidade) proteínas e gorduras, o cérebro não funciona corretamente. A falta de substâncias vai significar deficiência e o exagero vai provocar excesso e ambas as situações afetam negativamente o sistema nervoso.

            Para entender os livros de dieta é quase sempre necessário ter um vocabulário:

            Aminoácido. Componente básico das proteínas. Muitos aminoácidos ligados é que formam uma proteína.

            Proteína. Uma molécula de grandes dimensões, feita de aminoácidos. Há diferentes proteínas indispensáveis ao ser humano como as enzimas e os hormônios.

            Vitamina. Substâncias que provêm de certos alimentos e que permitem o funcionamento adequado do corpo humano.  Muitas vitaminas auxiliam nos chamados processos enzimáticos.

            Substâncias essenciais. São as vitaminas e minerais que são necessários, mas não são produzidos pelo corpo humano. Assim, elas devem ser obtidas através da alimentação.

            Lipídios. Nem todas as gorduras são ruins para o ser humano.  Na verdade, algumas delas são mesmo essenciais para o funcionamento adequado do corpo. Por exemplo: dois lipídios importantes para o cérebro são os ácidos graxos do tipo n-3 e n-6. Baixos níveis de n-3 podem causar deficiências visuais e problemas na retina. Também podem causar problemas no aprendizado e na motivação, além de problemas motores, e afetar outros sistemas que fazem uso dos neurotransmissores dopamina e serotonina no córtex frontal. Já a falta de ácidos graxos do tipo n-6 afetam a liberação de neurotransmissores, assim como influenciam negativamente na habilidade dos neurônios de fazer uso de glicose.

Dietas mal balanceadas cortam precursores, isto é, matérias-primas importantes para os neurotransmissores, impedindo o cérebro de produzí-los. Isso pode resultar em transtornos neurológicos e mentais, com a perturbação do equilíbrio dos neurotransmissores.

Os precursores dos neurotransmissores incluem:

Ácido aspártico. Usado pelo cérebro para fazer aspartato; é encontrado na batata, no amendoim, nos ovos e nos cereais.

Colina. Usado para produzir acetilcolina; é encontrado em ovos, no fígado, na soja.

Ácido glutâmico. Indispensável para a produção de glutamato; é encontrado em farinhas e nas batatas.

Feninalanina. Serve para produzir dopamina; está na beterraba, na soja, nos ovos, amêndoas, carnes e cereais.

Tiptofano. Necessário para produzir serotonina; está em ovos, na carne, no leite, nas bananas, no queijo e no iogurte.

Tirosina. Indispensável para a produção de noroadrenalina; é fornecida pelo leite, carne, peixe e legumes.

Os nutrientes precisam entrar no seu corpo com a comida. Se não entram, evidentemente não estão disponíveis para o cérebro. E mesmo quando entram devem fazer uma longa viagem, vencendo uma série de desafios e barreiras pelo caminho até chegar ao cérebro:

·        Uma vez no estômago, devem sobreviver a um ataque dos ácidos que quebram os alimentos em componentes menores.

·        Depois do trato digestivo, é preciso que seja absorvido pelas células que ficam no intestino, para serem transportados para a corrente sangüínea.

·        Viajando através do sangue, passam pelo fígado e é preciso evitar que sejam metabolizados e destruídos.

·        Continuando na corrente sangüínea os nutrientes devem atravessar pequenos vasos sangüíneos, para chegar ao tecido cerebral, vencendo a barreira hermato-encefálica (BHE). Para chegar aos neurônios as substâncias precisam passar por uma parede entre a corrente sangüínea e o cérebro, o que pode ser feito de três maneiras:

a)     passando pelos buracos na BHE;

b)     pegando carona em outras substâncias que podem ser transportadas através do BHE;

c)      quebrando o BHE, o que pode ser feito por algumas substâncias.

Para que tudo corra da melhor maneira possível, é preciso ter boa saúde e para isto é preciso estar bem alimentado, isto é, corretamente alimentado. A deficiência de vitaminas e minerais ocorre, principalmente por:

·        fome,

·        dieta pobre,

·        má absorção de vitaminas e minerais,

·        danos ao sistema digestivo,

·        infecção ou

·        alcoolismo.

  

O cérebro de um feto humano cresce muito rapidamente entre a 10ª e a 18ª semana de gravidez. Se a mãe tem fome, está desnutrida ou mesmo mal nutrida e não tem a oportunidade de comer alimentos nutritivos nesse período, o futuro da criança estará definitivamente comprometido, porque o desenvolvimento do seu cérebro não será normal.

Outra vez haverá um período de grande crescimento do cérebro, quando a criança tiver 2 anos, e a desnutrição nesse período de grande crescimento cerebral geralmente traz efeitos devastadores ao sistema nervoso, podendo afetar não apenas os neurônios, mas também o desenvolvimento das chamadas células de glia. Resultado quase certo: comprometer o desenvolvimento da camada (bainha) de mielina (que continua a se formar ao longo de vários anos), prejudicando a proteção dos axônios.

Essas crianças, filhas e filhos de dietas pobres, podem desenvolver alguma forma de retardo mental e apresentarem problemas de comportamento. O feto precisa ser alimentado corretamente; a criança também, pelo menos nos seus 6 primeiros anos de vida, para não desenvolver uma série de problemas. É por isso que as mulheres grávidas são desaconselhadas a fazerem determinadas dietas.

Alguns efeitos das dietas pobres podem ser contornados e compensados com uma dieta adequada, mas não todos, porque é certo que se alguns dos efeitos dessas dietas são permanentes.

Os estudos sobre como a nutrição afeta o cérebro e o comportamento são relativamente novos. Só recentemente os cientistas começaram a entender como é que certos nutrientes ou a sua falta podem afetar o cérebro, a inteligência, o humor e a forma como as pessoas se comportam.

Hoje já se sabe que:

·        Existe uma relação entre desnutrição e fatores ambientais. Algumas mudanças de comportamento, antes atribuídas apenas à desnutrição, sabe-se agora que resultam de uma combinação com o meio ambiente, principalmente com fatores como educação, problemas sociais e familiares (como a violência e o abuso sexual), negligência e falta de atenção.

·        É muito difícil conseguir alterar apenas uma substância na dieta humana e assim é difícil determinar se a falta ou o excesso de uma vitamina específica ou um mineral tem algum efeito no comportamento.

·        Pessoas reagem a dietas diferentes de formas diferentes. Por isso mesmo não se deve fazer qualquer dieta ou programa de complementação alimentar sem antes consultar um profissional da área da saúde e garantir bom acompanhamento.

·        Mudanças da dieta regular podem ter um efeito placebo, porque a pessoa acredita que a nova dieta terá determinado efeito e isso acontece. Quer dizer que se uma pessoa acredita em uma dieta, ela pode funcionar, a princípio, mesmo que isso não ocorra devido à mudança dos nutrientes.  Experimentos com dieta devem sempre ter controle de placebo, sem que paciente ou pesquisador saibam que a dieta foi modificada. (isso raramente ocorre nas pesquisas em que os livros de dieta se baseiam.)

·        Não há, no momento, informação científica suficiente para determinar se determinadas dietas afetam a inteligência para melhor (como várias garantem).  Nesse campo a controvérsia é enorme.

Comer de tudo, com equilíbrio, é a única receita cientificamente válida de sucesso para emagrecer. E está mais do que em tempo de voltarmos ao bom senso e abandonarmos as dietas da moda, mesmo aquelas campeãs de venda, como a dieta que restringe praticamente todos os carboidratos, inventada pelo célebre Dr. Atkins (e que morreu sofrendo do coração, como era de esperar). Ou como a South Beach, do cardiologista Arthur Agatston, uma versão menos radical, mas igualmente não aconselhável.

Os mais vendidos de sucesso mais recente ainda são de dietas bastante restritivas::

·        A Dieta do Sabor, do médico David Katz (da Universidade de Yale, como ele faz questão de dizer) e

·        As Mulheres Francesas Não Engordam, de uma certa Mireille Giuliano, cidadã francesa que não tem formação na área da saúde.

A grande novidade no mercado editorial é A Dieta de Sonoma, da nutricionista americana Connie Guttersen, lançado em dezembro de 2005, que já vendeu meio milhão de exemplares, ficou um tempo na lista dos dez mais vendidos do jornal The New York Times, e  está em fase final de tradução para o português. O que ela defende é que a única forma de emagrecer com juízo e manter-se magro para sempre é a reeducação alimentar, a quebra dos maus hábitos, a combinação de ingredientes e bom senso, na quantidade e com a qualidade certas, fazendo da hora de comer um momento de alegria e não de privação. A boa notícia é que ela não restringe alimentos e até incentiva o consumo de alguns deles que aparecem como vilões em outras cartilhas.

O conceito de reeducação alimentar e do uso do bom senso à mesa não são exatamente uma novidade, e fazem parte dos bons conselhos que os médicos costumam dar aos pacientes que precisam perder peso sem perder a saúde. O mérito de Connie Guttersen foi ter a coragem de criticas as outras dietas, radicais, que fazem mal à saúde, dizer por que e conseguir um sucesso que permite a ela ser ouvida com atenção.

Sua Dieta de Sonoma (o nome vem de uma região do estado da Califórnia que tem fama de boa gastronomia) tem três fases, como muitas outras. A primeira é um tratamento de choque contra o peso e exige algum sacrifício (mas dura apenas 10 dias). Nessa fase deve-se evitar açúcar, doces, pão, arroz branco, massas, leite, frutas, maionese, manteiga e margarina, refrigerantes, bebidas alcoólicas. E a quantidade de comida nas refeições é medida em porções (um inconveniente prático) que não podem ultrapassar 1.200 calorias diárias para as mulheres e 1.400 para os homens.

A segunda fase dura “o tempo que for preciso para alcançar o peso desejado”. O tamanho das porções aumenta e o cardápio ganha frutas e vinho.

A terceira fase é para sempre e não proíbe coisa alguma, exigindo apenas bom senso e que gorduras saturadas, doces, arroz branco, pão branco sejam ingeridos “com moderação”.

Garante a autora que, quando o paciente chega à terceira fase o organismo já está naturalmente adaptado, e que manter uma dieta saudável faz emagrecer, permite chegar ao peso ideal e evita o indesejado efeito sanfona.

Para a nutricionista, por mais que a comida seja saudável, se ela não tiver bom paladar e der prazer, acaba cansando e a dieta é abandonada. O que ela pretende é que as pessoas “desistam dos maus hábitos alimentares”, principalmente comer sem atenção no que se coloca no prato.

O vinho durante a refeição ajuda na prevenção de várias doenças e colabora para a longevidade, permitindo comer com mais vagar e tendo mais prazer. Ela diz que é importante não se aborrecer na hora da comida, comer mais devagar, saborear o que se come e tirar prazer da refeição, relaxar para evitar que a gordura comece a acumular ao redor da barriga, o que “é um aviso de que vão começar a aparecer os problemas de saúde”.

O excesso de peso contribui muito para o risco cardíaco e os maus hábitos alimentares influem na química do sangue, elevando os níveis de colesterol e triglicérides, o que pode ser traduzido depois em artérias bloqueadas e na inflamação dos vasos sangüíneos. E mais: podem levar ao desenvolvimento de uma síndrome silenciosa, a síndrome metabólica, cada vez mais freqüente, a chamada pré-diabetes, encontrada em quase a metade das pessoas que sofrem infartos.

Um dos efeitos colaterais do excesso de peso é a deterioração da capacidade do hormônio insulina de processar combustível (gorduras e açúcares) de forma adequada. É a resistência à insulina. Resultado: o organismo armazena mais gordura do que deveria, sobretudo na região do abdômen. O Homo sapiens é geneticamente condicionado a armazenas gordura, como estratégia de sobrevivência à falta de alimentos e à fome. O problema é que armazenamos gordura, mas raramente exigimos que nosso corpo a queime.

A alimentação do homem moderno está muito distante da alimentação que pode ser dita natural (isto é, de acordo com a natureza). O processamento industrial moderno dos alimentos elimina suas fibras, o que muda para pior sua verdadeira natureza e a forma como o metabolizamos. Grande parte de nosso excesso de peso vem dos carboidratos que comemos, principalmente os altamente processados e que estão nos pães, salgadinhos, doces, fast food, guloseimas.

Ao diminuirmos o consumo desses maus carboidratos a resistência da insulina começa a diminuir sozinha e a pessoa perde peso com razoável rapidez porque passa a metabolizar adequadamente os carboidratos. Dizem os especialistas que o próprio desejo de comer carboidratos desaparece depois que cortamos o seu consumo por algum tempo. Logo melhora também a química do sangue e baixam os níveis de colesterol e triglicérides.

A principal causa da obesidade é a ingestão de maus carboidratos (os altamente processados, sem fibras) e o baixo consumo de bons carboidratos (grãos integrais, hortaliças e frutas).

A dieta do Dr. Atkins elimina praticamente todos os carboidratos, deixando como opção apenas as proteínas e uma quantidade ilimitada de gorduras saturadas (encontradas, por exemplo, na carne vermelha e na manteiga.) As gorduras saturadas são as gorduras ruins, que podem causar doenças cardiovasculares, derrame e infarto. Emagrecer não pode ser o único objetivo da dieta.

A dieta do Dr. Agatston corta carboidratos, mas não todos, e estimula a ingerir bons carboidratos. Corta a farinha de trigo, o pão branco e o açúcar, mas permite pães e cereais de grãos integrais, assim como as massas de farinha trigo integral. Embora muito mais liberal que as dietas de Pritikin e de Ornish, desenvolvidas principalmente para cardíacos obesos (complicadas e rígidas demais), a South Beach tem seus problemas, entre eles a estrutura que exige consumir café da manhã, lanchinho, almoço, lanche e jantar, mas não leva em consideração quem dorme tarde e quatro horas depois do jantar está com fome. A grande vantagem é que não faz restrições de quantidade (desde que haja bom senso), não conta calorias, percentuais de gordura, carboidratos e proteínas. É uma dieta em que não se passa fome.

As dietas, de modo geral, não levam em conta as franquezas humanas, nem dizem como ajustar-se depois de um deslize: quem pisa fora da linha está condenado. O resultado é que as pessoas cometem um deslize hoje, um abuso amanhã e logo estão violando todas as regras, desestimuladas, deprimidas, com a auto-imagem e a auto-estima em baixa, até desistirem.

O Dr. Agatston foi o primeiro a perceber que devia deixar as portas abertas, encontrar saída para as fraquezas da carne, criando formas de compensar as escorregadelas. Dietas que não levam em conta o dia-a-dia das pessoas e suas dificuldades já não têm mais espaço, porque as pessoas, em geral, são seres práticos e não podem estar elaborando cardápios complexos, combinações específicas de alimentos e fazendo cálculos sobre o número de calorias que vão comer. Além disso, com freqüência precisam comer na rua, onde nem sempre é possível cumprir uma dieta com alguma dignidade.

Outra novidade: praticamente todas as dietas exigem que as pessoas abandonem uma atitude de 20, 30, 40 anos e passem a fazer exercícios físicos regularmente. Várias pesquisas contêm a informação: essa obrigação é a principal causa da desistência dos pacientes e do abandono das dietas. Não há dúvida de que o exercício físico aumenta o metabolismo e facilita a perda de peso, mas isto apenas torna a dieta mais eficiente. A boa dieta deve bastar-se e dispensar os exercícios físicos, a não ser que esteja sendo recomendada para pacientes cardíacos.

Das dietas atuais exige-se que sejam descomplicadas, orientadas pela verdadeira ciência, saborosas, que tenham retornos aceitáveis para os deslizes, que não sejam demasiadamente restritivas (a não ser por um curto período) e que não diminuam o prazer de viver.

As pessoas tendem a ficar confusas com tantas dietas de emagrecimento e que vão de um extremo a outro: pouca gordura e muito carboidrato; muita gordura e pouco carboidrato; alto consumo de proteínas (sob a alegação de que proteínas não engordam) a baixo consumo de proteínas; e as que exigem a combinação de nutrientes específicos em cada refeição.

É mais fácil seguir uma dieta quando compreendemos os seus fundamentos e acreditamos neles. Mas, então, corremos o risco de cairmos nas promessas fáceis de gênios do marketing ou dos vendedores bem sucedidos de livros. Basta dizer que há cinco vezes mais pessoas fazendo dieta por conta própria, por ouvir dizer e seguindo livros, do que depois de consulta médica e com apoio e acompanhamento de um deles.

A dieta para emagrecer é um fenômeno típico de fim de século, embora a preocupação com o emagrecimento como caminho para um organismo saudável tenha começado logo depois da Segunda Guerra Mundial. Refeitos do nazi-fascismo e livres do racionamento dos maus tempos, imaginamos que a paz (mesmo com a Guerra Fria) fosse uma licença para comer muito, de tudo. O alerta veio com a grande incidência de infartos e problemas cardíacos em várias partes do mundo. E a descoberta de que onde o consumo de gordura era menor também era baixo o índice de pessoas com problemas de saúde cardiovascular.

Um dos pioneiros dessa pesquisa foi o Dr. Ansel Reys, um dos primeiros a entender como os alimentos podiam afetar e afetavam a saúde. Só que, um dia, esbarrou na exceção: na ilha de Creta a ingestão de gordura era alta e os índices de infarto eram baixos. Seu erro foi considerar Creta como a exceção que confirma a regra, deixando-a de lado. (Se ele pesquisasse, talvez houvesse percebido a diferença entre gordura boa e gordura ruim.)

Decidiu-se recomendar um baixo consumo de gorduras, sem pesquisar os resultados de uma dieta pobre em gorduras, por questão de investimento: era caro e demorava saber o resultado da alimentação sobre o sistema cardiovascular.

Quando os médicos da American Heart Association recomendaram ao público americano que consumissem menos gordura, não sabiam quase nada sobre os efeitos das gorduras boas e a maior parte das gorduras consumidas pela população era ruim, saturada, não-saudável. A recomendação serviu principalmente para reduzir o colesterol total, mas não para emagrecer a população.  E o colesterol bom (o tipo que realmente melhora o funcionamento cardiovascular) também diminuiu. Pior ainda: uma terceira gordura do sangue, os triglicérides (ou triglicerídios, que contribuem para a obstrução das artérias) também estavam altos como efeito negativo da obesidade.

Levou tempo para os cientistas e médicos entenderem a natureza e a ação das gorduras e carboidratos no aumento de peso. Grama por grama, as gorduras têm mais calorias do que os carboidratos e sempre se soube disso, só não entendíamos o significado e acreditávamos que os carboidratos engordassem menos. Na realidade, parece que o oposto é que é verdade.

Quando comemos gorduras ficamos saciados e paramos de comer. Os carboidratos refinados causam rápidas mudanças nos níveis de açúcar no sangue e estimulam o apetite, dando mais fome, fazendo-nos comer em excesso e provocando a obesidade.

Sem saber disso, muitas dietas adotaram a fórmula pouca gordura e muito carboidrato.

O conceito de índice glicêmico só aparece nos anos 70, quando o Dr. David Jenkins, da Universidade de Toronto mediu o grau de elevação do açúcar no sangue, por conta dos alimentos (e, portanto, sua contribuição para o aumento de peso). Uma das suas surpreendentes descobertas: determinados amidos, como o pão branco, a batata e as massas elevam os níveis de açúcar no sangue, muito mais rapidamente do que a ingestão de açúcar refinado.

Todas as dietas estavam erradas, porque a pirâmide de alimentos era baseada… em açúcares. Resultado: a obesidade generalizada; o que devia deixar as pessoas magras e saudáveis deixou-as gordas e doentes.

A primeira dieta popular foi a dieta de Pritikin, que exigia a restrição total de gordura, mas depois liberou as gorduras não-saturadas (a partir de novas informações científicas nos últimos anos).

Os médicos da Pritikin estavam empenhados em prevenir as doenças cardíacas, incentivando a prática de exercícios físicos. O problema é que é uma dieta difícil de seguir, que requer um enorme esforço do paciente e o alto teor de carboidratos da dieta piorava o colesterol e os triglicérides em determinados pacientes.

O outro grande fenômeno de sucesso de uma dieta foi o programa do Dr. Dean Ornish. A abordagem é semelhante a de Pritikin, com restrição total de gordura e consumo de carboidratos liberado, a recomendação de exercícios físicos e de técnicas de relaxamento. Sua preocupação também era o coração e em vários pequenos estudos ele demonstrou a melhora da saúde vascular como resultado da dieta.

O maior problema, ele mesmo reconhece, é que a dieta é muito difícil de ser seguida. Outra questão é a restrição às gorduras, quando sabemos que a maior parte das gorduras poliinsaturadas e monoinsaturadas é benéfica para nós e para nossos vasos sangüíneos. A pergunta é: então, por que não usa-las, tornando as refeições mais saborosas? Outro problema é que, em determinados pacientes, a alta ingestão de carboidrato pode levar à síndrome da pré-diabetes, um problema significativo porque pelo menos 25% das pessoas têm predisposição a essa síndrome e em 50% dos que sofrem infarto ela está presente.

Hoje, o Dr. Ornish está recomendando mais carboidratos com alto teor de fibras (que não levam ao pré-diabetes).

No início dos anos 70 surge o Dr. Robert Atkins com sua A Dieta Revolucionária, que chocou a todos por defender exatamente o oposto da doutrina da pouca gordura. Ele exigia uma dieta rica em gordura saturada (presente em alimentos animais) e pobre em carboidratos.

Ele foi imediatamente denunciado pelos médicos e nutricionistas americanos e de outras partes do mundo. Mas logo a crítica furiosa foi desmentida pelos fatos: a dieta parecia funcionar melhor e mais rápido que as outras.

Outra crítica, inclusive de organizações importantes na área da saúde, é que o Dr. Atkins limitava os carboidratos de forma tão rígida que a gordura corporal precisava ser decomposta para servir de combustível, causando uma condição chamada cerose. Em indivíduos com excesso de peso ou obesos, mas saudáveis em outros aspectos, a cerose não é perigosa (pelo menos aparentemente), mas está associada à diminuição do volume de líquidos e à desidratação. E isso provoca problemas em pacientes com distúrbios renais ou nos que tomam remédios para a hipertensão.

O principal problema da dieta de Atkins, no entanto, é a liberação de gorduras saturadas, porque temos fortes indícios de que logo após uma refeição com gorduras saturadas há disfunção nas artérias, inclusive nas que fornecem sangue ao músculo cardíaco. Em conseqüência, o revestimento das artérias (endotélio) fica predisposto à contrição e à coagulação. Quer dizer que em certas circunstâncias, uma refeição rica em gordura saturada pode desencadear um infarto. Além disso, depois de uma refeição assim, certos elementos do sangue (as chamadas partículas remanescentes) persistem por mais tempo do que seria saudável. (E elas contribuem para o desenvolvimento de placas nas paredes dos vasos sangüíneos.)

Depois veio a South Beach do Dr. Agatston, mais um cardiologista não especializado em endocrinologia ou em nutrição, mais preocupado com o coração dos seus pacientes. A dieta não é pobre em carboidratos nem tem baixo teor de gordura, o que é uma grande vantagem. Ele insiste em que consumindo os carboidratos e gorduras certas vamos ficar saudáveis e emagrecer, perder de três a cinco quilos nas duas primeiras semanas, sem sentir fome.

O maior problema é a rigidez da estrutura da dieta que exige, obrigatoriamente, todas as refeições: café da manhã, lanchinho, almoço, lanche, jantar e ir para a cama cedo. É bem verdade que não exige exercícios físicos, embora concorde que eles ajudam muito.

Agatston não faz grandes restrições à quantidade de comida e os sacrifícios que pede não são muito intensos para quem realmente quer emagrecer. Mas sua dieta foi imaginada para proteger o coração e o emagrecimento é apenas uma conseqüência agradável, embora ele acene com a mudança (para muito melhor) da química do sangue.

Na verdade, sua grande vitória foi recuperar pacientes que já viviam  sendo obrigados a tomar remédio todos os dias para controlarem o colesterol, os triglicérides e a diabetes.

A fase três da dieta dura o resto da vida e o que ele espera é que ela seja um estilo de vida novo, capaz de garantir boa alimentação e peso saudável.

Embora seja também uma dieta da moda (mais de 3 milhões de livros vendidos em seis meses, só nos Estados Unidos), a proposta tem bom senso, é simples e prática, permitindo comer de tudo, com  moderação e juízo. E com uma promessa irresistível: você não perde o prazer de comer e emagrece, mas primeiro perde aquela barriga que sempre resistiu a todos os esforços para fazê-la desaparecer.

Mas a moda agora é a Dieta de Sonoma.

Só que as modas passam e as grandes verdades científicas de hoje podem ser absolutamente contrariadas com as descobertas científicas do amanhã. E o século 21 já começa com uma descoberta que provavelmente trará uma completa reviravolta ao assunto: alguns cientistas britânicos e franceses anunciam que no futuro não haverá mais dieta porque eles identificaram dois genes que, com defeito, participam ativamente do processo de engorda. E acreditam que antes de 2025 saberão como controlá-los ou até substituí-los através da engenharia genética.

A conferir.

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