A Crise com o Narcotráfico

Oito por cento de todo o comércio mundial é de drogas: são 400 bilhões de dólares por ano.  O Brasil é o segundo    maior   consumidor  e  o maior país de trânsito de cocaína. A dependência de drogas é uma doença reconhecida pela Organização Mundial de Saúde e deveria ser tratada como uma questão de saúde pública. O problema não é a trouxinha de maconha mas a metralhadora dos traficantes.
           A indústria de drogas ilegais (e de drogas legais vendidas ilicitamente) movimenta 400 bilhões de dólares por ano. O valor corresponde a 8% de todo o comércio internacional e é mais do que a exportação total de uma indústria forte como a automobilística.            O Brasil, hoje, é o principal país de trânsito da cocaína da Colômbia que vai para os Estados Unidos e a Europa. E o segundo mercado consumidor de drogas do planeta.            Foi o narcotráfico que conseguiu organizar o crime que atua no varejo nas favelas e comunidades pobres e no atacado através de empresas internacionais (organizações multinacionais que comandam o crime organizado).            É um negócio que lida com drogas, um produto muito lucrativo que desagrega, corrompe e mata.            A droga de que tratamos é a substância entorpecente, alucinógena, excitante (como a maconha, o haxixe, o crack, a cocaína), ministrada por via oral ou na veia para que o usuário fique, transitoriamente, em um estado psíquico que lhe pareça prazeroso. Drogas são substâncias que modificam o organismo e as psicoativas atuam no sistema nervoso central, afetando a atividade mental. O que enriquece a indústria do narcotráfico é exatamente a droga psicoativa ilícita, cujo consumo é proibido por causa dos danos que causa ao ser humano.            A globalização resultou em oportunidades inéditas para o crime organizado, pela desregulamentação das economias nacionais e pela informatização que permite a circulação ultra-rápida do dinheiro, tornando quase impossível de ser acompanhado no processo de lavagem.            Os processos de privatização na extinta União Soviética e na América Latina (inclusive no Brasil) criaram condições muito especiais para lavar o dinheiro da droga e estabelecer bases fixas, legais, para que o processo seja contínuo.            A explosão mundial do desemprego (motivada em parte pelo desenvolvimento tecnológico, mas principalmente pela abertura dos mercados globalizados), recomendada pelas políticas de inibição do crescimento econômico implementadas pelo Fundo Monetário Internacional (sob influência determinante do governo americano), ajudou a criar mão-de-obra para o tráfico Na América Latina os pobres eram 180 milhões, em 1999, segundo o Banco Interamericano de Desenvolvimento.            O crime se consolidou exatamente na conjuntura de crises e pauperização, nos anos 80. E fincou pé no Brasil, transformando-o no principal entreposto de cocaína e segundo mercado consumidor do mundo (atrás apenas dos Estados Unidos da América).As condições no Brasil eram perfeitas;·        Grande mercado potencial.·        Excelente geografia para o escoamento da droga por fazer fronteira com os três maiores produtores de cocaína (Colômbia, Peru e Bolívia).·        Boa estrutura de comunicações.·        Boa estrutura bancária.·        Vazio legislativo.·        Polícia incompetente.O único senão ficava por conta dos transportes e das estradas, o que o tráfico resolveu substituindo a rota terrestre pelas rotas aéreas em pistas clandestinas.Em 1995, quando foi sancionada a Lei 9.034 sobre o crime organizado (tipificando as organizações criminosas), o presidente Fernando Henrique Cardoso vetou o dispositivo que permitia a infiltração de policiais em quadrilhas. Alegou-se, à época, “o perigo do envolvimento de policiais com o crime”.A Lei 9.613, sobre lavagem de dinheiro, é só de 1998 e a demora em ter uma lei a esse respeito revela as dificuldades do país em se equipar para enfrentar a criminalidade no estágio em que ela já estava no fim do século 20.A Secretaria Nacional Antidroga também é de 98, mas não foi subordinada ao Ministério da Justiça e sim à Casa Militar da Presidência da República. Nos seus dois primeiros anos de atividade teve desempenho abaixo de modesto e ficou mais conhecida pelos seus entreveros com o Ministério da Justiça sobre quem deveria controlar o combate ao narcotráfico, tarefa que, constitucionalmente, é da Polícia Federal, subordinada ao Ministério da Justiça;Num país com uma área de 8,55 milhões de quilômetros quadrados e 170 milhões de habitantes, os efetivos da Divisão de Repressão a Entorpecentes da Polícia Federal (em todo o território nacional) não chegam a mil pessoas. E só um punhado deles destacados para as fronteiras.Na Amazônia Legal (com 5,2 milhões de quilômetros quadrados, o que equivale a 17 Itálias), há menos de 200 agentes. E é por lá que entra a maior parte da cocaína no país. Mas há mais: O mirrado orçamento do Programa de Proteção de Testemunhas é vítima preferencial a cada vez que o Ministério da Justiça sofre um corte orçamentário.Qualquer especialista medianamente informado sabe que os países que conseguiram avanços contra o crime organizado valeram-se da inteligência, de informações e de testemunhos de ex-integrantes das quadrilhas. E essas testemunhas precisam ser protegidas, mudar de identidade, de vida, de emprego, o que não custa pouco.Aqui, no Brasil, nem as pesquisas estatísticas são financiadas pelo Governo e as entidades de pesquisa precisam recorrer a financiamentos estrangeiros para viabilizar os estudos de enorme utilidade no combate ao narcotráfico.Nós não temos, ao menos, estatísticas confiáveis ou estimativas bem feitas do número de usuários e viciados em drogas. Uma pesquisa da Cebrid nas 24 cidades com mais de 200 mil habitantes revelou, em 2000, que 11,4% dos entrevistados já haviam experimentado alguma droga psicotrópica, sem falar no álcool e no fumo.O tráfico está-se infiltrando em setores cada vez mais numerosos das instituições, corrompendo pessoas em todos os Poderes. E as investigações só alcançam os integrantes do baixo e médio escalão do crime. A Câmara dos Deputados investigou, fez uma CPI das Drogas, com pouca valia prática. Ela só cassara um deputado, Jabes Rabelo, de Roraima, em 1991, por ligação com o comércio de drogas. Depois cassou Hildebrando Pascoal, chefão da droga e do crime no Acre, mas foi só.Enquanto isso o narcotráfico cresce e penetra profundamente entre os jovens da periferia, na atividade marginal em torno do negócio, e nos jovens da classe média e alta no universo do consumo. O desemprego na faixa de 15 a 25 anos passa de 17%, o dobro da média nacional, e é por essa larga porta que o chamado movimento se infiltra, oferecendo por semana o que os pais (quando conseguem emprego com carteira assinada) vão ganhar por mês.O Estado não falha apenas na repressão. Campanhas educacionais que funcionam mundo afora não têm bom trânsito com o Governo e com os que ele chama para ditarem a Política Nacional de Combate às Drogas. Motivo principal: falta investimento.A dependência de drogas é uma doença, reconhecida pela Organização Mundial de Saúde. E assim deve ser tratada, como questão de saúde pública. Mas o falso moralismo (que nada tem a ver com a ética) e a discriminação dificultam a prevenção, inclusive pela estigmatização do viciado.No Brasil, durante os anos 60 e 70, a droga foi um símbolo de rebeldia e contestação ao regime para milhões de jovens. Em certos meios, na classe média dos grandes centros urbanos, ainda há um certo glamour  envolvendo o consumo de drogas. Hoje, ainda há duas concepções igualmente equivocadas:·        Por um lado o poder público manifesta (com ações ou falta delas) a impressão de que despreza os graves efeitos do narcotráfico.·        Por outro, análises alarmistas propagam que o país já é uma Colômbia. Não é. Nós não produzimos drogas, ainda.Hoje, o álcool e o fumo são, do ponto de vista da saúde pública, muito mais prejudiciais à população brasileira do que o consumo das drogas ilegais. Como bem observou o humorista, o problema não é a maconha ou a cocaína, mas o fuzil automático e a metralhadora nas mãos dos narcotraficantes. O que há de novo e que marcou muito os últimos anos no panorama das drogas é o comportamento de muitas pessoas da classe média, média alta e dos filhos da elite que passaram de consumidores a traficantes. Traficar, agora, é crime hediondo e as penas são pesadas, mas isso não parece intimidar quem se propõe a servir de mula transportando droga pesada, ou vendendo drogas sintéticas.Dois jovens brasileiros foram apanhados na Indonésia com cocaína na estrutura de uma asa delta e dentro de uma prancha de surfe. Foram ambos, segundo a lei, condenados à morte; e suas famílias foram apanhadas de surpresa, porque nenhum dos dois podia se dizer necessitado de dinheiro.Pior ocorre com os adolescentes e jovens que comercializam drogas sintéticas, principalmente ecstasy e skank, no seu próprio meio, usando a rede de relacionamentos Orkut, freqüentando festas, boates e shoppings.A polícia descobriu até leilões na Internet, serviços de disc-droga, entregas em domicílio por motoboys. Assim como descobriu que os culpados (e seus pais), surpreendentemente, não consideravam esse comércio como narcotráfico. (!)A mudança do perfil criminal está ocorrendo no Rio, em São Paulo, Belo Horizonte, Curitiba, Porto Alegre, Vitória e no Recife e a Polícia informa que 90% dos traficantes de drogas sintéticas são estudantes universitários ou recém-formados. A maioria absoluta é desinformada, não tem conhecimento real do crime que praticaram, não sabe o que significa crime hediondo e nem imagina o risco que corre.De encontro à realidade, descobrindo que podem pegar de 3 a 15 anos de prisão, ficam chocados. Como ficaram chocados os dois brasileiros condenados à morte. Chocados, surpresos e incrédulos.Como fazem parte dos “brancos cheirosos” (para usar a expressão cunhada por Paulo Sérgio Pinheiro) não falta quem acredite que eles mereciam cumprir apenas uma pena alternativa “que sirva à sociedade” e que previna a continuidade no crime, dando ao jovem uma nova oportunidade de se reabilitar.Essa alegada incocência não pode ser desculpa para o crime: eles sabem que estão traficando, imaginam que não vão ser apanhados e que, mesmo apanhados, ficarão impunes. E vêm nas drogas um meio de ganhar dinheiro rápido e fácil.É verdade que alguns fazem isso para chamar a atenção dentro do grupo, para ter um destaque, para desfrutar de algum poder. E porque acreditam que as drogas sintéticas são limpas, não têm nada a ver com as drogas vendidas nos morros e nas periferias pobres.No final do século 20 menos de 20% das drogas eram apreendidas fora das favelas e das comunidades periféricas. Hoje a percentagem chega a 50%, o que quer dizer que esse tipo de comércio está crescendo nas raves, nas boates, pela mão de traficantes bem-vestidos e bem-nascidos.No Rio, a Polícia Civil acredita que 40% dos grandes condomínios da Barra da Tijuca tenham pontos de venda de droga, muitos dirigidos por moradores.O perfil criminoso está mudando inclusive nos colégios, nas grandes metrópoles, onde adolescentes e até crianças estão sendo usados para comercializar pequenas quantidades de maconha para os colegas.A inspetora Marina Maggessi, chefe do Setor de Investigações da Delegacia de Repressão a Entorpecentes, diz que fazem porque ganham muito dinheiro, rapidamente, e não encontram barreiras sociais no seu meio. Diz ela que já se criou até uma linguagem de comunicação entre traficantes e usuários: os traficantes são chamados delivery, porque o usuário não precisa mais correr atrás e ir às bocas para comprar. Basta ligar o telefone, pedir a droga e esperar a encomenda com o dinheiro na mão.Para a Inspetora, o caso é sério e está se agravando porque já houve prisão com apreensão de até 33 mil compridos de ecstasy, de um jovem desembarcando no Aeroporto Tom Jobim, vindo da Holanda.Como escreveu a jornalista Elenice Bottari, “eles não usam armas, não estão organizados em comandos nem se escondem em vielas ou travam batalhas com a polícia. Diferentemente dos falcões retratados pelo documentário de MV Bill e Celso Athayde, os traficantes de ecstasy e outras substâncias sintéticas, consideradas as drogas do novo milênio, vivem uma realidade mais próxima da dos faisões, aves caras, cercadas de grandes cuidados”.O ecstasy já é a segunda droga mais consumida no Brasil, atrás apenas da maconha, à frente das anfetaminas e da cocaína e os responsáveis por esse sucesso de marcado são jovens ricos ou de classe média que nada têm a ver com os traficantes de cocaína e maconha que saem das favelas e comunidades pobres e que respondem pela maior parte das ocorrências policiais da cidade.Eles são pagos para viajarem à Europa, onde trazem ecstasy e skank principalmente de Amsterdã, para vender aqui. Como fez um jovem de 23 anos em cuja mala foram encontrados 33 mil comprimidos de ecstasy. Representante comercial, aprovado no vestibular da faculdade de administração de empresas, filho de família tradicional de classe média alta no interior de São Paulo, sofreu horrores nos dias que passou na cadeia no presídio Ary Franco, em Água Santa, enquanto aguardava a movimentação dos seus bem pagos advogados. Ele está livre, aguardando julgamento, mas não consegue  superar o estigma de ex-presidiário: “Ninguém quer contratar um ex-traficante de drogas.”Surfista, com amigos que tinham mais dinheiro com ele, ficou encantado com a proposta de passar oito dias na Holanda, com tudo pago e ganhando ainda 3 mil euros para pegar uma mala em Amsterdã e trazer para o Brasil, onde receberia mais 3 mil euros. Nem precisaria desembaraçar a bagagem, porque haveria alguém aqui para retirá-la. Coisa segura, porque esse seu amigo viajava todo mês e nunca fora apanhado.Ele sabia que a mala continha ecstasy, mas diz que não sabia quanto. Foi apanhado. “A viagem toda eu estava tranqüilo, porque para mim não haveria qualquer tipo de risco. Fui preso, algemado, fiquei três meses em Água Santa. Até hoje me dá pânico. Eu não dormia, cercado de criminosos de todos os tipos e sentindo que ali ninguém gosta de você. As pessoas pedindo dinheiro o tempo todo e se você não dá é ameaçado de morte. Tive medo até de sair, pensei que fosse uma armadilha. Só quando eu cheguei em casa e pude ir a um banheiro limpo é que eu realizei que estava livre Depois comi comida de verdade, uma lasanha que minha mãe fez pra mim. Dormi mal, até hoje acordo sobressaltado. Eu me arrependo todos os dias da  minha vida, nunca havia feito coisa errada, sofri muito, meus pais ficaram muito mal., estraguei meu futuro para sempre. Tinha um bom emprego, era um bom representante comercial, agora não consigo emprego nem trabalho.”Mas os que não foram apanhados só querem saber que na Holanda um comprimido de ecstasy custa o equivalente a um real e aqui pode ser vendido por trinta reais. Eles nem chamam a droga de ecstasy: é balinha, o que aumenta a falsa inocência e a hipocrisia dos traficantes. Basicamente usado em festas de música eletrônica, sem aparência agressiva, droga de ocasião, vendida e comprada por pessoas da mesma tribo e da mesma classe, aparentemente normais, o tráfico está crescendo graças à última geração de traficantes, os baleiros.Patrick Berriel, advogado criminalista, não se deixa enganar, depois de perceber o grande aumento de clientes no seu escritório. Diz ele que já é possível perceber certa estrutura do crime, pelo menos no Rio: “Já existe uma certa logística para internar drogas em território nacional, porém o envolvimento de jovens nessa organização pode se dar de várias formas.” Os aliciadores são da mesma classe social das pessoas que freqüentam as festas rave e as boates da moda. Lá eles aliciam os jovens interessados em dinheiro fácil, ou em poder dentro da turma, ou com desejo de fazer turismo de graça ou ainda para sustentar o próprio vício. A grande maioria para conseguir o consumo compartilhado (porque, dizem os consumidores, ecstasy só tem graça em festa). Ele concorda que quase todos só percebem a gravidade do crime que cometeram quando são presos e os pais não conseguem livrá-los da cadeia.O certo é que a produção mundial de drogas sintéticas já chega a 90 toneladas de comprimidos e as rotas para o Brasil começam a ser diversificadas, segundo o Departamento Nacional de Polícia Federal.O tráfico já conta com empresas de exportação (de fachada) e rotas marítimas que vão ao Suriname. De lá é que ela está atravessando através dos 593 quilômetros de fronteira, entra pelo Pará e se espalha para todo o território nacional, principalmente o Sudeste e o Sul, através de vôos de pequenos aviões que podem até jogar a carga sobre fazendas contratadas.O ecstasy (à base de metilanodioximetanfetamina) é a chamada droga do amor, por despertar desejo sexual e provocar atração. Provoca euforia e sensação de bem-estar. Leva à perda de líquidos e ao aumento da temperatura (que pode chegar a 41 graus) podendo provocar micro-hemorragias e quebra de proteínas, degenerando tecidos, principalmente os musculares. Há registro de casos de morte instantânea por aumento da pressão arterial, parada cardíaca e lesão renal.Mas outras drogas sintéticas estão chegando.·        GHB. A chamada droga do estupro. Também chamada de ecstasy líquido. Em doses pequenas o sedativo gama-hidroxibutirato provoca euforia, desinibição, deixa o usuário relaxado e sociável. Inibidor da atividade cerebral, leva à sedação e pode provocar náuseas, vômito, amnésia. O uso excessivo leva ao coma.·        Special K. É a ketamina ou hidrocloridrato de ketamina, uma substância injetável usada como anestésico, principalmente em animais. Também é encontrada em pó e funciona como alucinógeno. Provoca aumento de pressão, taquicardia e crises convulsivas.·        Cristal Ice. É uma metanfetamina, vendida em forma de pedra e consumida em cachimbos (como o crack) ou por ingestão. Um dos seus componentes é um estimulante fortíssimo do sistema nervoso central.·        Cápsula do Vento. Contra a luz dá a impressão de que está vazia, Mas contém micropontos com substância alucinógena cujo efeito chega a durar 40 horas, podendo provocar pânico. O DOB é um derivado de anfetamina que recebe um átomo de bromo para aumentar o efeito da droga, já que ele é dificilmente metabolizado pelo organismo.No início as autoridades policiais imaginaram que o consumo de drogas sintéticas fosse um modismo. Já sabem que não é mais. É um vício, embora o mercado seja restrito às pessoas que podem pagar, mas que querem ficar relaxadas, mais confiantes, menos tímidas. O ecstasy, com seus supostos efeitos socializantes e ativadores parece ser o antídoto esperado para a excessiva competição, o individualismo, o cansaço, prevalentes nesse início de século de paranóia e de depressão. Daí o perigo. Mas há vozes que se levantam num alerta para o risco da sociedade sair criminalizando seus filhos, toda vez que uma nova substancia química é lançada, para proibi-la. O psiquiatra Sander Fridman diz que “a Lei de Tóxicos não define quais são as substâncias proibidas. Uma comissão de técnicos, distante do povo e dos movimentos culturais, decide sozinha quais símbolos e modas químicas estão autorizadas, bem como quais serão atingidas pela maiores condenações do Código Penal, sem que o Parlamento seja chamado ao debate e à aprovação. Mesmo tratando-se claramente de matéria de usos e costumes, e não, como se pretende, única e exclusivamente técnica. Esta é a maior causa de criminalide e violência no país, levando à amputação de segmentos demográficos de homens jovens, vista somente em sociedades conflagradas’. Ele considera absurda a idéia de que, se as substâncias mais inócuas fossem liberadas, aumentaria então o consumo das mais perigosas, porque as pessoas querem consumir só o que é proibido. Se fosse assim, diz ele, o álcool e o fumo seriam desprezados, o que não acontece, e eles são os maiores responsáveis pelo prejuízo à saúde com o consumo de drogas por parte das pessoas.Para Fridman a lei de entorpecentes, na prática, vale apenas para atemorizar e controlar grupos com cortes ideológicos e culturais especiais e o álcool e o fumo é que merecem uma ação mais contundente da sociedade, devido ao alto grau de dependência que criam, aos prejuízos econômicos que acarretam, às doenças que provocam e às mortes que determinam.O psiquiatra Sander Fridman, no entanto, deve estar bem informado até mesmo por experiência clínica, dos efeitos devastadores das drogas na sociedade contemporânea. E não só para a saúde. Drogas são substâncias que modificam o organismo e, muitas vezes, o comportamento das pessoas. As drogas psicoativas são as que atuam no sistema nervoso central, afetando a atividade mental. O que enriquece a indústria do narcotráfico são as drogas psicoativas ilícitas, cujo consumo é proibido por conta dos danos que causam ao ser humano. Até alguns anos atrás a preocupação e a discussão sobre drogas no Brasil podiam ficar restritas à opção individual de querer ou não usá-las. Desde a década de 80, no entanto, elas se converteram numa questão que não afeta só indivíduos, mas sim famílias, grupos, toda a sociedade.Qualquer pessoa interessada em entender melhor a situação social, mudar e melhorar o país e o mundo, não pode mais desconhecer a dimensão social do narcotráfico e suas mercadorias.Por exemplo: dois terços das 800 favelas e comunidades pobres do Rio de Janeiro mantêm bocas-de-fumo, pontos de venda de tóxicos. E ninguém usa, por proibição formal, a palavra tráfico. Os traficantes são reconhecidos como o pessoal do movimento.No cenário típico, nenhum morador ou entidade funcionando no local pode se negar a esconder drogas, armas ou um traficante fugindo da polícia. Não há escolha, porque a negativa significa, no mínimo, a expulsão e, na pior das hipóteses, a morte sumária.O movimento inviabiliza a melhoria das ruas, principalmente sua pavimentação, para evitar o acesso dos carros da polícia. Com isso, não deixa abrir caminho também para as ambulâncias. Diga-se, no entanto, que o movimento é eficaz e eficiente para promover a remoção urgente da pessoa necessitada de socorro.Morar na comunidade, abrir um bar, instalar um serviço, organizar uma festa, só com o conhecimento e a licença do movimento. O consumo generalizado de drogas desagregou comunidades, dominadas e intimidadas pelo poder do narcotráfico e de seus soldados armados com fuzis AR-15 ou M 16 (de fabricação norte-americana), AK 47 (russos, chineses ou norte-coreanos) ou Sig Sauer (suíços), submetralhadoras Uzi (israelenses) e o nosso FAL (Fuzil Automático Leve, dito de uso exclusivo das Forças Armadas).De princípio a cocaína era um luxo exclusivo da classe média para cima. Com a democratização do pó (a mistura da substância pura com talco e outras impurezas para aumentar o volume), dos anos 80 em diante as periferias passaram também a aspirar e injetar o que antes apenas vendiam.Hoje, fazer parte do movimento é, para milhares de jovens excluídos, um objetivo ambicionado, única saída evidente (fora o futebol), projeto de vida (e de morte).Quem é aceito no movimento ganha o que a grande maioria nunca terá como trabalhador da economia formal, no mínimo R$ 100 por semana, mais do que os pais que, raramente, superam o salário mínimo. Os soldados do movimento usam tênis de grife, roupas de marca, jóias de ouro, se impõem com suas armas, namoram as minas mais desejadas.No século 21, mais uma novidade: o movimento cria pequenas empresas e registra a sua gente com carteira assinada, direito a 13º salário, férias remuneradas e até plano de saúde.Nos morros e nas comunidades pobres não ficam os donos do movimento, os grandes financistas e controladores do negócio, os que ficam com o lucro. Eles têm sempre um testa-de-ferro, que é quem aparece na mídia e se expõe. Abaixo dele, geralmente, há três gerentes: o gerente de endolação (que coordena a separação, preparo (malhação), pesagem e embalagem da droga), o gerente de venda (com dois subgerentes, o do preto, maconha e o do branco, cocaína, além dos vapores, aviões e mulas), e o gerente de segurança (encarregado do armamento, da estratégia, dos olheiros, soldados e do suborno a policiais).Os olheiros alertam para a aproximação dos alemães, o inimigo, sejam eles a polícia ou um bando adversário querendo assumir o controle do ponto. Também têm a função de escutar conversas e retransmiti-las à gerência. Eles usam pipas ou rojões de três tiros como sinalização.Os soldados fazem segurança armada e participam de eventuais bondes e ataques, quando necessário.Os vapores atendem os clientes e fazem a venda direta, recebendo um sacolé de cocaína a cada 12 vendidos, ou uma trouxinha de maconha por dúzia. (Gerentes ganham duas.)Aviões pegam a droga na boca e transportam, a risco, ´para locais distantes, pontos avançados de venda. Quando a demanda é grande, montam-se esticas, pontos de venda para atender a um baile funk, a um pagode, a uma celebração, a um bloco de carnaval, cumprindo a lei de oferta e procura.Mulas são os que transportam grande quantidade de droga, ganhando por empreitada. Quando vai para o interior é chamado de matuto.Armeiro é quem cuida do armamento e da munição, geralmente um ex-militar ou policial. Quando o armeiro tem boa instrução militar passa a ser o encarregado do planejamento logístico do bando.Na malhação, cada quilo original de cocaína pura é transformado em 2,5 quilos e esse pó malhado é que é vendido ao consumidor final em papelotes que, dependendo da boca, contem uma grama ou 1,5 grama. A maconha sai em trouxinhas, pequenos pacotes.A venda de R$ 100 mil em cocaína e R$ 10 mil em maconha, descontadas as comissões, o pagamento dos funcionários, do investimento em armamentos, dá um lucro médio semanal de R$ 50 mil, isto é, o dobro dos R$ 25 mil empregados para comprar o tóxico. Que negócio, dentro da lei, pode oferecer um lucro assim fulminante? Segundo o jornalista Mário Magalhães, que investigou o narcotráfico para a Folha de S.Paulo, é muito limitada a articulação entre os diversos movimentos, tanto no Rio quanto em São Paulo. Não há registro de que eles trabalhem em conjunto, mesmo (por exemplo) no Complexo do Alemão. Nem que os chefes locais se reúnam para discutir problemas, procurar soluções ou resolver problemas, como fazem os banqueiros de bicho (que planejam negócios em conjunto e acertam diferenças para evitar guerras).Organizações como O CV (Comando Vermelho), CVJ (Comando Vermelho Jovem), Terceiro Comando e ADA (Amigos dos Amigos) não têm qualquer vínculo que permita ações simples e coordenadas. No dia-a-dia é cada um por si, competindo com o vizinho e cobiçando o controle da boca alheia.Ultimamente surgiu uma prestadora de serviço para quem puder pagar: ela serve a quem precisa matar alguém ou quer dispor de mais armamento por algum tempo, e serve contra pagamento à vista. Ela foi formada por ex-policiais.Segundo Mário Magalhães, “a Polícia Federal avalia que, se um dia os traficantes cariocas se associarem numa organização, com hierarquia e disciplina nos moldes em que os cartéis da Colômbia se alicerçaram nos anos 80, o combate ao narcotráfico sofrerá um monumental revés”.Todos os chefes locais do movimento têm vida relativamente curta e acabam caindo, mortos ou presos, como ocorreu com Escadinha e Beira-Mar. E sua importância é tão relativa que, quando o líder dança, no mesmo dia é sagrado o seu sucessor, como uma empresa substitui um executivo sem deixar a produção cair. Os mais poderosos e eficientes, podem até continuar dirigindo suas turmas de dentro da prisão, o que acontece com alguma freqüência pelas facilidades de comunicação de que dispõem quando presos, até mesmo em presídios ditos “de segurança máxima”.Não é na venda final ao consumidor, apesar dos ganhos notáveis, que se concentram os fabulosos capitais do narcotráfico. Isto é feito na aplicação dos lucros na economia legal (lavagem de dinheiro) e no transporte da cocaína fabricada na Colômbia, no Peru e na Bolívia para exportação (com destino aos Estados Unidos e à Europa) ou para o consumo no mercado interno. Os chamados “chefes do tráfico” não têm capital suficiente nem know-how bastante para assumir essas operações que ficam com os chamados barões, aparentemente inalcançáveis (pelo menos até agora).“Dar em droga” é uma velha expressão idiomática que quer dizer mal resultado, fracasso. As políticas contra as drogas dão em droga, mas o pior é ver o narcotráfico crescer, ganhar importância, poder de enfrentamento. A junção do tráfico de drogas com o de armas criou outro mercado, clandestino e lucrativo, muito operante, principalmente para empresas norte-americanas, especialmente a Colt. Seus fuzis AR-15 e M-16 (usados pelas tropas americanas) são comprados ilegalmente, com facilidade, pelos narcotraficantes brasileiros.A chamada guerra ao narcotráfico anda na contramão há muitos anos: o governo americano faz quase nada para reduzir o mercado consumidor, interno, mas se preocupa com o mercado fornecedor, externo. Enquanto o Departamento de Estado faz constantes ameaças à Colômbia, à Venezuela, ao Peru e à Bolívia, a Colt ganha fortunas armando os bandidos e os guerrilheiros.Assim como o Projeto Sivam (Sistema de Vigilância da Amazônia), que tinha como um dos seus objetivos rastrear com radares os vôos de aviões à serviço dos narcotraficantes no nosso espaço aéreo, foi entregue a uma empresa norte-americana (a Raytheon) por US$ 1,4 bilhão, num processo mal explicado. No dia 25 de julho de 1993, jogando pelas eliminatórias da Copa do Mundo, a seleção brasileira de futebol deu vexame na Bolívia: foi derrotada por 2 a 0 pela seleção boliviana (gols de Etcheverry e Pena). O goleiro reserva do Brasil, Zetti, foi sorteado para o exame antidoping e não passou: encontraram resíduos de cocaína na urina. Mas o atleta brasileiro não estava dopado, apenas havia tomado trimate, um chá muito popular e muito consumido no país para evitar problemas com a altitude e o ar rarefeito. Uma das três ervas que compõem o trimate está a folha de coca.Quem já visitou La Paz sabe que a sensação de falta de ar, a dor de cabeça, o mal-estar de quem está habituado a viver ao nível do mar se combate com o trimate, que é legal e vendido não só nas farmácias, mas em quase todos os bares da cidade.Na Bolívia, por tradição indígena, o consumo de folhas de coca faz parte da cultura nacional e arqueólogos descobriram que já havia cultivo há milhares de anos, pelo menos 4 mil anos. Coca, no idioma nativo, significa árvore.A cocaína não nasceu na Bolívia, no Equador, na Colômbia, no Peru ou na Venezuela. Nem mesmo no continente americano. É criação de médicos europeus, em 1860, com finalidades terapêuticas, principalmente como anestésico local. Um dos maiores arautos do emprego médico da cocaína foi Sigmund Freud, o pioneiro da psicanálise, que escreveu, em 1884: “Eu tomo doses pequenas, regularmente, contra depressão e contra indigestão, com o mais brilhante sucesso”. (Assim como o ópio, extraído da papoula, já era consumido por crianças na Ásia há milhares de anos, para evitar os efeitos desagradáveis da primeira dentição e poder dormir. E assim também na Índia, há séculos, um xarope extraído da Cannabis sativa era consumido em festas religiosas e por pessoas nervosas.)O Relatório Mundial Sobre Drogas, das Nações Unidas, faz uma distinção entre as drogas “com origem natural”  das “sintéticas” (produzidas artificialmente, por síntese química), informando que na Antiguidade, muitas drogas psicoativas eram utilizadas “na medicina, na religião e para integração social”.Em 1910 um anúncio publicado na Gazeta Médica de São Paulo alardeava as virtudes das pastilhas de cocaína Midy, no combate a “laringites, anginas, tosses violentas e nervosas”.Mas muito antes desse reclame ser publicado já se discutia no Brasil o uso e o abuso de drogas medicinais. Em 1737 a Câmara de São Paulo restringiu a “médicos, boticários e cirurgiões” a venda de ópio. Houve uma enorme grita, do público e dos comerciantes e, no ano seguinte, o rei D. João V revogou a ordem.Em 1914 o jornal O Estado de S.Paulo fez uma série de reportagens sobre o uso de drogas, informando que filhos de famílias abastadas, usuários de cocaína, se deixavam “arrastar até os declives mais perigosos deste vício”.José Barbosa da Silva, o popular Sinhô, dito o “rei do samba”, compôs uma música intitulada A Cocaína:            Só um vício me trazCabisbaixa me faz            Reduz-me a pequenina            Quando não tenho a mão            A forte cocaína. O Congresso Nacional aprovou, em 1921, uma lei proibindo a venda e o consumo de cocaína e criando “estabelecimentos especiais para tratamento de dependentes”. No Rio, de 1921 a 1924 o Sanatório Botafogo tratou apenas de 16 casos de cocainomania, como o vício era chamado à época. Também é antigo o debate da descriminação, que opõe partidários e opositores da tese de que é possível não considerar crime o uso moderado de “drogas leves”.As drogas, ilícitas ou não, quando não são consumidas com moderação fazem mal ao ser humano e a maioria causa dependência, isto é, vicia.O Programa de Orientação e Atendimento a Dependentes (Proad) do Departamento de Psiquiatria da Universidade Federal de São Paulo constatou entre seus 427 dependentes que 23% haviam tentado o suicídio, quando no conjunto da população a taxa é de 1%. É que as drogas causam depressão, ao afetar neurotransmissores relacionados ao bem-estar mental.Assim como constatou em estudo que a droga responsável pelo maior número de internações em hospitais psiquiátricos no Brasil é o álcool, cuja venda e consumo são legais.As pessoas que defendem a proibição de todas as drogas lembram a aventura suíça de 1987, muito mais radical do que a prática da tolerância  as autoridades policiais e de saúde da Holanda (implementada em 1995 e que permitia a compra e o consumo de até 30 gramas de maconha).  Num parque em Zurique as drogas foram completamente liberadas. O Governo associou-se a 20 organizações não-governamentais para dar assistência médica e psicológica permanente, para atendimentos de emergência, para fornecer seringas e agulhas de graça, para manter banheiros limpos e camas arrumadas. O parque lotava. Em torno dele cresceram problemas médicos e sociais, inclusive a violência e as taxas de crimes.. De 1989 para 1990 os casos de overdose pularam de 3,5 para 6,2 ao dia. E os usuários passaram a consumir mais drogas e não menos, como se esperava. Em 1991 o programa foi encerrado. Como também está encerrado o programa holandês.Mas há argumentos pró e contra a que se faça uma nova legislação que deixe de considerar crime o uso de certas drogas.A favor:·        A política de guerra às drogas fracassou, mesmo com os monumentais investimentos: nunca se produziu, vendeu e consumiu tanta droga, facilmente encontrada e comercializada em tantos pontos.·        A cocaína malhada, isto é, adulterada, misturada com outras substâncias, causa mais prejuízos físicos aos consumidores do que a droga em si. Mas num mercado altamente consumidor, não há controle farmacêutico sobre os produtos ilegais. Regularizada, a produção pode ficar sob controle rígido.·        O consumo tente a aumentar, inicialmente, mas também tende a ficar em patamar moderado depois.·        O Estado não tem o direito de se intrometer na vida e no comportamento de quem não prejudica os outros. Consumir drogas ou não é uma decisão que diz respeito à liberdade individual.·        Os únicos beneficiários da proibição de uso de drogas são os traficantes. Com a legalização os lucros do tráfico caem e a bandidagem tente a diminuir, por falta de dinheiro., diminuindo os índices de corrupção e violência. ·        O Estado passa a ganhar com os impostos (como já ganha hoje com o imposto sobre o álcool e sobre o fumo) e pode aplicar uma parte nas campanhas de prevenção e contra o uso abusivo, assim como no tratamento de dependentes.·        As verbas hoje destinadas ao combate do narcotráfico seriam destinadas a outras atividades relevantes da área social.Contra:·        Para o órgão das Nações Unidas dedicado ao controla das drogas, “os direitos individuais devem ser compatíveis com a segurança e o bem-estar de toda a comunidade. Nenhum indivíduo tem o direito de se comportar de uma forma que venha a se revelar destrutiva para os demais e para si mesmo”. (Um exemplo de como não-usuários são prejudicados: acidentes de trânsito com motoristas sob efeito das drogas provocam, só na Europa, a morte de quase 5 mil pessoas por ano e ferimentos em 150 mil.)·        Quando o uso de drogas deixa de ser crime o consumo sobe muitíssimo, como se viu em Zurique. As mortes relacionadas às drogas ilícitas ainda são baixas se comparadas com aquelas provocadas por drogas legais como o álcool (cinco vezes mais).·        A conta dos impostos não fecha. As taxas geradas por bebidas alcoólicas, por exemplo, não pagam metade dos custos diretos de saúde, sem contar os outros. E as taxas geradas pelo fumo cobrem cerca de um sexto do que é consumido com as doenças do fumo.·        A legalização não acabaria com a bandidagem, que iria procurar outros negócios para lucrar, podendo até aumentar o índice de violência e a corrupção. Por exemplo: tráfico de órgãos humanos.·        O consumo de drogas (inclusive as drogas lícitas) destrói setores produtivos da população mundial.·        Um dos principais riscos da legalização é a dificuldade para revertê-la. Só depois de 30 anos de pesquisas médicas é que o hábito de fumar começou a diminuir entre adultos.Existem muitas explicações para o que leva cada um a utilizar drogas, moderadamente ou não. Em certa medida isto é mesmo uma questão de liberdade individual. Nos anos 60, no Brasil, usar droga era um comportamento que contestava os valores hegemônicos da sociedade industrial urbana e o flower power levantava-se contra o poder armado. A diferença para o passado é que hoje, querendo ou não, o usuário faz parte de uma cadeia gigantesca, necessariamente ligada ao crime, financiando suas ações que são desastrosas para a sociedade. Sem consumo não há narcotráfico.Mas a pior postura contra as drogas talvez seja a hipocrisia social, o fundamentalismo, o julgamento moral acrítico, sem perspectiva histórica, fora do contexto.O antropólogo Gilberto Velho, professor do Museu Nacional, que defende a tese de que consumir droga deve deixar de ser crime já escreveu que “alguns meninos fumam maconha no fim-de-semana. Isso não causa dano social maior. O problema é quando isso se articula com uma rede de tráfico. Se você tem outras condições de vida social, outras estruturas funcionando, outras perspectivas, o problema das drogas pode ser menor. O problema não é a trouxinha de maconha, mas a metralhadora dos traficantes”.

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