Introdução à Comunicação

Sem a comunicação a própria vida seria impossível. Comunicar e receber comunicação é que permite a convivência dos seres humanos, a socialização, e fazer cultura. A experiência dos sistemas nervosos alheios é tão importante que a sociedade humana é o resultado da integração desses sistemas, através da comunicação.

Um aluno de Marshall McLuhan perguntou a ele qual era a sua definição pessoal de comunicação, e o mestre canadense respondeu: “Tudo na vida é comunicação, inclusive a vida”.  Na verdade, sem a comunicação a vida seria impossível, porque em todos os chamados fenômenos vivos há algum processo de comunicação envolvido.

            A comunicação é tão ampla que há, inclusive, alguma confusão a  respeito de comunicações, comunicação e comunicação de massa.  Comunicações são o telefone, o rádio, a internet, instrumentos de comunicação.

            Comunicação é o meio pelo qual uma pessoa exerce influência sobre outra: ela é a verdadeira portadora do processo social.  É a comunicação que permite a interação e é através dela que os seres humanos se tornam seres sociais e assim se mantenham..  Sem comunicação as pessoas não poderiam ajuntar-se, empreender tarefas, fazer cultura, progredir no domínio do mundo físico.  Invenções e descobertas dependem, quase sempre, de um acúmulo de informações, de fazer cultura  desenvolvendo conceitos, de tal modo que apenas as invenções mais simples e os processos mentais mais elementares poderiam efetuar-se sem a comunicação.

            Se cotejarmos o que aprendemos por experiência direta com o que adquirimos através da comunicação de outros, verificamos imediatamente como é limitada a nossa experiência, por maior que ela seja.

            A “experiência dos sistemas nervosos alheios” é tão importante que podemos considerar a sociedade humana como o resultado da integração dos sistemas nervosos dos seres humanos através da comunicação.

            Imagine, se for capaz, como se sentiria se, de repente, visse cortada toda e qualquer comunicação com seus semelhantes, presentes ou passados.  A existência seria completamente solitária, nenhuma espécie de mensagem chegaria, estaria perdida a sensação de pertencer.  Incapaz de servir e de ser servido é provável que em pouco tempo se sentisse incapaz até de continuar a existir. O pior da experiência do náufrago Robinson Crusoe e não ter com quem falar, é a falta de diálogo.

            A comunicação é mesmo uma necessidade orgânica fundamental, indispensável como instrumento de adaptação ao meio e de satisfação das necessidades básicas.

 

            Para o ser humano que se desenvolve, a comunicação com os semelhantes realiza três funções:

1.      padroniza o meio ambiente em que vive;

2.      define sua condição em relação aos outros;

3.      favorece sua adaptação ao meio.

Essas funções são importantes porque têm influência decisiva sobre a formação da personalidade e do sentido do eu (self).

A comunicação é que transmite os padrões e valores do grupo, e a consciência ética que eles têm (ou, eventualmente, deixam de ter).

  

            Crianças isoladas por muito tempo do contato com seres humanos e criadas como animais, ao serem encontradas não parecem seres humanos e têm o desenvolvimento retardado.  Enquanto não aprendem a comunicar-se e a receber comunicação não se verifica alteração sugestiva na inteligência delas.

            Assim como é possível perceber que quanto mais exposta à comunicação e tendo oportunidade de comunicar, a criança mais se desenvolve, principalmente se se sente segura e tem boa base afetiva.

            Uma das mais dramáticas demonstrações do efeito da comunicação com afeto é relatado por W.N. Kellog e L.A. Kellog, no livro The Ape and the Child): a chimpanzé Gua foi criada com uma criança pelos pais de uma bebê, até os 16 meses.  Ambas recebiam a mesma atenção, cuidado e afeto, passando pelas mesmas experiências de comunicação.  Com ano e meio a chimpanzé Gua aprendera tanto quanto Luiza e respondia a mais de 50 frases verbais de modo correto.  E mais, aprendera a controlar a bexiga e os intestinos, e aprendera a ser obediente.  Brincava cooperadamente com a amiga e manejava o meio físico tão bem quanto ela.  Mais ainda: suas reações emocionais também eram semelhantes às da criança, abrangendo um largo espectro de sensações que incluíam a amizade, a lealdade, o ciúme, a docilidade, a ansiedade, a tristeza e o negativismo.

 

            A importância da comunicação não se restringe ao indivíduo: ela é a força que permite a união do grupo e até a identificação desse grupo.  Qualquer grupo, seja de que natureza for, só funciona eficientemente quando se comunica com desenvoltura e facilidade.

            Margaret Mead analisou a crise nas relações entre soldados norte-americanos e ingleses durante a Segunda Grande Guerra e descobriu que elas eram devidas a um problema de comunicação: falavam a mesma língua e imaginavam que se entendiam, mas não a usavam da mesma forma e com as mesmas intenções, o que gerava desentendimento, discórdia e desconfiança.

            Voluntários brasileiros em Angola passaram pela mesma experiência.  A língua comum escondia diferenças até da forma de raciocinar.  Isto, inclusive, é motivo de anedota dos brasileiros, que não têm o mesmo raciocínio linear dos portugueses.  Por exemplo: perguntado se “essa estrada vai para Évora”, o cidadão português respondeu, sem esconder o seu espanto: “Não temos notícia disto”, acrescentando: “Mas, se for, vai-nos fazer grande falta!”

            Mais um exemplo: perguntado se a loja fechava aos sábados, o dono, um português, respondeu ao turista brasileiro que não.  Mas no sábado a loja estava fechada.  Na segunda-feira, ao ser interpela, o dono argumentou: “Mas é verdade, ao sábado não fechamos, porque sequer abrimos!”

            As barreiras à comunicação, reconhecidamente, provocam hostilidades.  A principal tarefa de um mediador é manter abertos os canais de comunicação entre os antagonistas, enquanto procura uma área para o comum acordo.  Faz parte da técnica de conciliação provocar os lados antagônicos para que falem entre si…

           

            Há inúmeras definições de Comunicação, mas as mais simples parecem ser as melhores.

             Comunicação é um processo pelo qual um espírito pode influir em outro.             Comunicação é o processo pela qual o comunicador transmite estímulos (geralmente símbolos verbais) destinados a modificar a atitude ou o comportamento do destinatário da comunicação.             Comunicação é o processo de tornarem comuns ou de trocar temas subjetivos como idéias, opiniões, crenças e informações, habitualmente por meio da linguagem, mas também através de representaçõers visuais.             Comunicação é toda e qualquer interação social significativa. 

            Há muitas definições, algumas complicadíssimas e até pouco comunicativas, mas em todas elas podemos distinguir:

§         um comunicador (a pessoa que inicia o processo);

§         o destinatário (a pessoa que recebe a comunicação);

§         o comunicado (o conteúdo da comunicação, a mensagem);

§         o efeito (o que foi entendido pelo destinatário e o que resultou desse entendimento).

É preciso, desde logo, deixar claro que entender uma comunicação nem sempre é suficiente para provocar o efeito imaginado pelo comunicador. Então, dizemos que a mensagem foi eficiente, mas ineficaz, o que não é incomum.  Quer dizer que. toda mensagem deve ser eficiente (para ser entendida pelo destinatário) e eficaz (para provocar o efeito desejado).

Os livros acadêmicos de comunicação são muito restritivos, ao mencionar os meios de comunicação.  É um erro.  Se bem que a comunicação, na maior parte das vezes, se realize por meio de símbolos verbais, as formas reais de estímulos responsáveis pelo contato são inúmeras.  Um balançar da cabeça, um picar de olhos, um sorriso, a batida de um tambor, o toque de um sino, a explosão de um foguete, o acender de uma luz, um trecho de música, movimentos de balé, tudo é capaz de comunicar uma idéia, um sentimento, uma intenção.

McLuhan citava sempre os zuñi, um povo que era capaz de usar um mesmo som, uma mesma palavra, com cinco ou seis significados diferentes e até antagônicos, dependendo das contorções faciais.  A linguagem dos boximanos, da Austrália, também não faz sentido se for apenas ouvida.  Os gadio, na África, não entendem a utilização do telefone, porque a expressão facial é fundamental para entender o sentido exato das palavras.

Há muitas formas não-verbais de comunicação e em meados dos anos 60 descobriu-se que a linguagem corporal das crianças de todo o mundo é muito semelhante.  Por exemplo, se você estiver falando e a criança estiver ouvindo com um ombro mais levantado do que o outro, pode estar certo de que, em qualquer lugar do planeta, a criança não está acreditando nas suas palavras.

Os japoneses têm uma palavra para sim: hai.  Mas, falando, nem sempre o sim quer dizer que sim.  Dependendo da entonação, pode querer dizer que sim, estou ouvindo; ou sim, estou entendendo sua pergunta; ou sim, posso responder ao que está sendo perguntado; e finalmente, sim, é isso mesmo.

Os orokaives da Nova Guiné, têm cada um a sua assinatura vegetal, uma planta que, conforme seu uso, significa concordância, discordância, indiferença, questionamento ou disposição de espírito.  Ofendido ou injuriado, o orokaive tem uma forma incomum de comunicar seu desagrado: impõe-se um sacrifício que fique público, para que todos saibam.  O ofensor, que não é acusado de público, geralmente assume sua culpa e pede ao ofendido que suspenda a autopunição.

 

            Qualquer mãe ou pai ou bem bem-sucedido sabe que a empatia é um instrumento fundamental na boa comunicação entre pais e filhos.  Muito antes de entender palavras um bebê é capaz de entender a expressão emocional.  Empatia é um dos antônimos de antipatia (o outro é simpatia).  A diferença é que a simpatia não é participativa e a empatia é a capacidade de entender a dor do outro e de participar do seu sofrimento, por exemplo.

            É biológico que a criança, quando mama, faça certos movimentos muito expressivos, como resposta à satisfação que está sentindo: satisfação por estar sendo alimentada, satisfação por estar no aconchego da mãe, satisfação por receber atenção e afeto.  A mãe, geralmente, é capaz de entender essa manifestação da criança, estabelecendo empatia “por contágio social“.  Por sua vez, a criança percebe a satisfação da mãe e estabelece-se a comunhão espiritual.

            Uma análise objetiva da comunicação empática foi feita por Desmond Morris, o zoólogo que cuidou de observar o “comportamento animal do homem”.  Para ele, a empatia é comunicada através de expressões faciais, posturas e tensões musculares, atitudes sutis, um conjunto de símbolos semelhante, em vários sentidos, à linguagem de sinais dos surdos.

            Existem diferenças significativas entre os modos possíveis de comunicação e os chamados canais têm alcances variáveis. Os que necessitam de linguagem escrita não podem se valer da inflexão da voz, da expressão facial, dos gestos, o que é uma redução da capacidade de comunicar.

            Mesmo certas formas de comunicação oral que implicam grande distância entre o comunicador e o destinatário excluem o emprego de gestos corporais e expressões faciais, como no caso do telefone e do rádio.

            Cinema e televisão, que permitem o impacto plenamente integrado da palavra, dos gestos corporais, das inflexões vocais, têm seus problemas: o modo como o destinatário recebe e entende ou interpreta a mensagem.  Além disso, há uma diferença entre a recepção da luz projetada do cinema e da luz introjetada da televisão, porque as imagens de tevê formam-se dentro do cérebro da pessoa.

            No entanto, seja qual for o processo usado para comunicar, o comunicador tem sempre um problema: a retroalimentação, de fundamental importância na comprovação do êxito de qualquer tentativa de comuniocação.  Só a retroalimentação permite observar o efeito da comunicação, a sua eficácia.

Diante do destinatário da comunicação cara a cara, podemos observar sua reação.  E até perguntar: Você entendeu?  Mas se ele responder que entendeu, o seu entendimento pode não ter sido aquele que pretendíamos.

Quando a comunicação passa informação, uma idéia, uma orientação para mudar atitude ou comportamento, pode ser difícil observar o sucesso da transmissão.  Primeiro porque o destinatário precisa responder se entendeu; e depois porque precisamos saber se o seu entendimento é igual àquele que pretendíamos passar.

Curiosamente, as pessoas não reagem todas do mesmo modo diante de uma mensagem e a leitura que fazem de um comunicado pode ser muito diferente daquele que se pretendia.  Conscientizar, mudar atitude e comportamento exige, em primeiro lugar, o entendimento da mensagem, a aceitação do seu conteúdo e a vontade de mudar.

Para isto é imprescindível interar, provocar com um estímulo uma resposta no sentido desejado, que movimente a vontade e, por sua vez, provoque novo estímulo.  Se a comunicação for bem sucedida, mesmo que o público não esteja presente para responder, dará resposta.  E sua resposta influirá nas futuras comunicações, até que o objetivo seja atingido.

Nem sempre a resposta é pronta, imediata, positiva e o mais difícil na comunicação é saber como medir, quando medir a reação do público. E até as respostas negativas são uma boa mensagem que deve ser aproveitada.  Só para dar um exemplo, no mundo inteira a grande maioria do público reagiu negativamente às campanhas de terror envolvendo o vírus da AIDS.  Rejeitando a mensagem, bloqueando-a, ela tornou-se inoperante, inútil e, pior do que ser ineficaz, perdeu tempo, espaço e dinheiro.

Outro exemplo: a campanha de trânsito “não faça do seu carro uma arma; a vítima pode ser você”, não foi capaz de reduzir a violência no trânsito e, ao contrário, só foi eficaz para fazer com que um número grande de pessoas adquirisse consciência de que podia usar o carro como uma arma…

Na comunicação de massa, principalmente, há uma constante inversão de papeis e o destinatário transforma-se em comunicador, mandando uma mensagem ao comunicador que precisa recebê-la e entender seu conteúdo antes de planejar e executar nova comunicação.

Ainda há uma outra dificuldade para o comunicador: o veículo de sua mensagem deve ter credibilidade, aceitação, empatia.  E é indispensável que o destinatário acredite que a mensagem é para ele e que ele está capacitado para agir como lhe pedem.  Por exemplo, durante a campanha da amamentação ao peito, observou-se que a maioria das mães (convencidas por campanhas anteriores de leite em pó), não eram capazes de acreditar na qualidade do próprio leite, que julgavam fraco (com a participação de alguns pediatras, desinformados ou cúmplices).  Restabelecer a auto-estima e a confiança dessas mães foi uma tarefa importante, o que foi feito de modo inteligente.  Uma mensagem de 30 segundos, divulgada pela televisão, mostrava uma vaca pastando, com latas de leite em pó no lugar das tetas.  Duas outras vacas, ruminando, foram “dubladas” e apareciam dizendo: “Coitada dela; depois que parou de amamentar e resolveu dar leite em pó para os seus bezerros, eles ficaram tão mal alimentados que não sobreviveram”.  Outra, afirmava  que o melhor leite para o bezerro era o da vaca, o melhor leite para os gatinhos o da gata, o melhor leite para os bebês o da sua mãe e o melhor leite para o industrial o leite em pó…  Uma terceira mensagem apresetava uma mulher, médica, que afirmava: “Nenhum leite em pó, por melhor que seja, chega perto do seu leite.  Se você estava forte bastante para engravidar e ter seu filho, está forte para amamentá-lo.”

O problema mais comum é o destinatário fazer distinção de público e imaginar que “isso funciona para os outros, mas pra mim não vai servir”.  Ou, o que também é comum, imaginar que “isso é bom pro povo da televisão, não pro povo da rua”.  E por que isso acontece?  Porque o transmissor da mensagem não foi reconhecido como um igual.  Na campanha do soro caseiro o grande impulso foi uma mensagem de 30 segundos feita com gente do povo, em suas casas, explicando como fazer e dar o soro.  Funcionou mais do que outras mensagens gravadas com médicos ou artistas de televisão.

Quando é que uma comunicação é bem sucedida?  Quando atinge o público-alvo eficientemente e com eficácia, provocando o efeito pretendido pelo comunicador.

Há muitos obstáculos à comunicação bem sucedida e eles pode estar no comunicador, no comunicado, no destinatário, e, às vezes, até no efeito pretendido.  Mas o mais difícil de vencer talvez seja a “mensagem subjetiva” , a “mensagem oculta”ou “mensagem não desejada”.  Isto é: um modo de entender a mensagem que não fazia parte dos planos do comunicador, mas que foi o modo como a maioria entendeu.  É o caso do carro usado como arma, por exemplo.  Ou o caso da mensagem inútil, como “diga não à droga”, que levou o drogadicto a comentar: “Eu digo não a ela, mas ela não me responde.” 

            O desenvolvimento da Comunicação de Massa se deu através de quatro ondas.

            A comunicação moderna data de 1450, quando um homem extraordinário juntou a prensa de uva (para fazer vinho, inventada na Grécia Antiga), os tipos de metal (inventados na Coréia 30 anos antes e reinventados na Mogúncia), o papel e a tinta (desenvolvidos na China séculos antes e levados para a Europa através do Oriente Médio) e resolveu imprimir usando aqueles tipos que podiam ser reutilizados em nova impressão.

            O resultado multiplicou por cem a velocidade da comunicação e da cultura, uma vez que, de certa forma, democratizou o conhecimento.  Antes de Gutenberg, um livro era copiado à mão, exemplar por exemplar.

            Em 500 anos de desenvolvimento a comunicação do ser humano adquiriu velocidade cada vez maior, tornando-se a história da mutável relação entre ele e as máquinas no processo de comunicar. Foram quatro passos fundamentais:

1.      a construção de uma máquina capaz de duplicar rapidamente a comunicação entre as pessoas;

2.      a invenção de uma máquina que visse e ouvisse pelo ser humano;

3.      a criação das habilidades e técnicas que tornaram possível a comunicação entre o ser humano e a máquina;

4.      a descoberta da possibilidade de comunicação entre máquinas, dando início à automação.

 

Não se tem notícia da primeira obra impressa por Johann Gutenberg, mas o documento impresso com data mais antiga ainda existente é um indulgência papal datada de 1454 e impressa  por Fust e Schoeffer.  E o livro mais antigo à nossa disposição é a Bíblia da Mogúncia, com páginas de 42 linhas, que se acredita ter sido impressa pelo próprio Gutenberg.

Desde que nasceu, a verdade é que a imprensa foi colocada a serviço da Igreja, o principal centro de poder dos tempos.  E a Igreja, ciente do  excepcional  poder da prensa cuidou de declarar que ler e escrever era um pecado contra a lei de Deus, deixando essas habilidades restritas aos membros da própria Igreja.  E, com isso, ficando dona de todo o conhecimento e do poder por um longo tempo.

A prensa, mesmo assim, espalhou-se pela Renânia, foi para a Inglaterra, para a Itália, para a França e menos de 30 anos depois de Colombo chegar à América certo Juan Pablos montava uma tipografia na cidade do México.

Pela própria característica do meio (lembram de McLuhan, “o meio é a mensagem”?), o prelo meteu-se a imprimir sobre todos os assuntos públicos do homem, os que exaltavam, estimulavam ou perturbavam o homem.  Tipógrafos foram presos, condenados, suas prensas queimadas.  Servia ao poder, mas servia aos revolucionários, do espírito ou políticos.  Serviu á Igreja, mas publicou os debates da Reforma.  Fez circular as idéias de Aristóteles e toda a produção intelectual da Renascença corria anônimo.  Huxley observou, com razão, que sem a imprensa poderia ter havido o Iluminismo, mas não a Revolução Francesa,

A imprensa serviu a muitos amos, a todos que a quiseram, mas serviu mais à democracia, conscientizando o povo e conduzindo-o a assumir o poder em fins do século 18.

É precisamente nessa ocasião, pouco depois de 1800, que o ser humano faz a primeira modificação importante na prensa de vinho, dando a ela uma nova fonte de força, como resultado da revolução industrial.  O vapor substituiu os músculos e o mesmo velho prelo passou a trabalhar mais depressa e, portanto, a imprimir mais, atingindo a massa de eleitores.

A educação pública desenvolveu-se, pela vontade de ler das pessoas. Surgiram os jornais periódicos, que davam lucro por conta das tiragens e da publicidade.  Foi o começo da comunicação de massa: preços que o homem comum podia pagar e circulação suficientemente grande para atrair publicidade.

A eletricidade acelerou ainda mais as prensas.  O telégrafo e o cabo submarino aceleraram a comunicação e reduziram o tamanho do mundo.  A fotografia fez aumentar a venda dos jornais. O telefone deu maior rapidez à notícia.

Mas o primeiro progresso realmente novo na comunicação de massa ocorreu no último quarto do século 19, quando o ser humano construiu a máquina que intercalou no processo de comunicação para que visse e ouvisse por ele. Foi o segundo grande passo na história da comunicação moderna.

Um pouco mais tarde o ser humano criou as habilidades e técnicas que tornaram possível a eficiente comunicação entre ele e as máquinas, dando o terceiro passo. O quarto, já em nosso tempo, conseguiu a comunicação entre as máquinas.

A cada passo corresponde uma onda na comunicação. O prelo limitava-se a imprimir, fazia um produto que podia ser lido, cabendo ao leitor tomar a iniciativa de comprar, ler, entender e interpretar.

A segunda onda da comunicação moderna provocou uma grande mudança, transferindo a iniciativa, pelo menos em parte, do receptor para o emissor.  Depois que o receptor fizesse sua escolha, o emissor encarregava-se do resto.  A máquina do rádio ou a força por trás dela, controlava o ritmo, as repetições, a ênfase. O tempo.

As novas máquinas, sendo mais rápidas, traziam notícias mais depressa, respondiam mais rapidamente a um argumento, encerravam um sentido maior de realidade que a imprensa nunca teve antes.  Possuíam, inclusive, uma qualidade emocional que atraía público.  Mas a segunda onda não se envolveu na mudança social como a primeira.  Maquinazinhas sociáveis, traziam personalidades à nossa sala de estar e nos transportavam a um sem-número de outras salas e salões.  A nova comunicação em que se intercalava a máquina, ampliou o meio do homem e dominou o seu entretenimento.  Porém, mais do que a imprensa, ofereceu oportunidades aos manipuladores.

A imprensa representou uma parte importante nas grandes revoluções do espírito e do Estado, enquanto o cinema, o rádio e a televisão desempenharam um grande papel na mudança de nossa maneira de viver.  A imprensa é mais informativa e os audiovisuais mais capazes de entreter e emocionar.  A imprensa ficou como o menor meio de comunicação de massa e a televisão como o maior.

A terceira onda de comunicação moderna, a da comunicação entre os homens e as máquinas desenvolveu-se lentamente, durante 100 anos, e atingiu o máximo nos anos 40 do século passado.

A quarta onda tem as mais diretas e importantes implicações para o ser humano, embora a comunicação seja entre máquinas.  Assim como as máquinas a vapor e movidas por eletricidade diminuíram o trabalho dos músculos, as novas máquinas diminuíram o trabalho cerebral.  Os grandes computadores, com suas qualidades (que diríamos cerebrais), comandaram a revolução da informática, uma das três revoluções mais importantes do século 20, junto com a revolução da física quântica e a revolução biomolecular.  Foram fabricadas máquinas que assumiram muitas qualidades anteriormente exclusivas do homem e logo teremos máquinas capazes de duplicarem a si mesmas.  E é nessa área, sem dúvida, que ocorrerão os mais empolgantes desenvolvimentos da comunicação.

A revolução na informática levou à globalização.  As multinaciopnais transformaram-se em transnacionais sem pátria e que não respeitam fronteiras.  O capital tornou-se volátil e é capaz de dar a volta ao mundo em segundos, de invadir países e de abandonar países em questão de segundos.  O chamado mercado livre aumentou a miséria, criou a exclusão e a violência social. Meu avô levou 15 dias para receber notícia do início da guerra de 1914, meu pai acompanhou pelo rádio o desembarque na Normandia, eu vi o homem pisar na Lua em tempo real.

Há 100 anos a informação ocupava, no máximo, alguns minutos da conversa do ser humano.  Há 50, já ocupava cerca de uma hora.  Hoje dedicamos de 3 a 5 horas diárias aos veículos de comunicação de massa.

Tudo este progresso na comunicação provocou profundas mudanças na maneira pela qual recebemos informações e na espécie e quantidade de comunicados que nos atinge em forma de informação, contra-informação e desinformação. E ainda devemos levar em conta a quantidade de informação a nosso dispor na rede internacional de computadores

Antigamente, a cultura era de poço: o ser humano delimitava o seu espaço de interesse e cavava, pesquisava, aprofundava-se, e quanto mais fundo ía, mais sábio era considerado, mesmo que fosse um ignorante a dois palmos da sua área de interesse.  Hoje, isto é praticamente impossível: a informação de massa e a massa de informação que o atinge faz com que ele tenha um espectro muito maior, obrigatoriamente.  E há tanta informação que ele é incapaz de digeri-la à tempo e á hora.  A cultura hoje é de aluvião, em camadas, muitíssimo mais extensa, sem dispensar o aprofundamento em determinados pontos.  Mas é outra, completamente diferente: antes, era focal, em preto-e-branco, hoje é um grande vitral multicolorido, um caleidoscópio com um grande número de espelhos que nos atraem mas que também nos confundem.

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